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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Ciência é arma contra a Covid

 

Estudos e projetos na área têm ajudado gestores na tomada de decisão contra a doença

Definida como “corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos e formulados metódica e racionalmente”, a Ciência tem sido a resposta para muitas perguntas relacionadas ao novo coronavírus e a todas as dúvidas que ele trouxe.

Como se contamina? Qual a cura? Quais os sintomas? São muitos os questionamentos e, embora até agora pouco se tenha descoberto para responde-las, a maior certeza é de que é por meio da Ciência que caminhos para o controle e o enfrentamento do vírus têm se dado.

Em Sergipe, são muitas as frentes de pesquisa, capitaneadas, principalmente, pelo corpo docente da Universidade Federal de Sergipe, que tem sido parceira fundamental dos gestores e os ajudado a definir estratégias de ação contra a covid-19 e seus desdobramentos.

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Estudos e projetos têm direcionado enfrentamento à doença
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UFS tem capitaneado as pesquisas e auxiliado gestores na tomada de decisão

ESTUDOS
“Nossa previsão foi ouvida pelos gestores, que obviamente já tinham esse planejamento, mas que precisou ser antecipado diante da confirmação da necessidade de número de leitos. Isso foi importante e mostrou como o laboratório tem uma comunicação efetiva com a gestão pública”, analisa o epidemiologista.

A segunda nota teve como tema o isolamento social. “Na metade de maio, publicamos um estudo mostrando como a queda progressiva dos índices de isolamento, a partir de abril, contribuiu para o aumento também progressivo de casos”, ressalta Paulo Martins.

Professor titular de Medicina, o médico e pesquisador Roque Pacheco de Almeida também tem coordenado projetos na área. Ao lado do também médico, professor e pesquisador Enaldo Melo, ele está realizando um estudo de prevalência do coronavírus nos bairros de Aracaju.

PREVALÊNCIA
“Fizemos todo o desenho do estudo, cujo objetivo é o de calcular quantas pessoas seriam necessárias para a testagem a fim de se ter uma ideia da população como um todo que teve contato com o vírus. O estudo de prevalência estuda a quantidade de pessoas de um determinando cenário, como uma pesquisa eleitoral”, explica Roque Pacheco.

A partir desse cálculo, segundo o professor, é possível ter uma ideia e um perfil da população exposta. “Não apenas em nichos, como os trabalhadores da área da saúde, mas de toda cidade, em todos os bairros dela”, reforça.

Roque Pacheco destaca que o método científico usa diversos parâmetros para a análise, como o avanço da doença na cidade, a qualidade dos testes, etc. “A gente calculou que seriam necessárias quatro mil pessoas para ter uma segurança de 95% nos resultados”, revela.

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Paulo Martins: “estudos que temos desenvolvido têm colaborado para um melhor entendimento da Covid-19 e para o planejamento das ações”

TESTES
A testagem nessas quatro mil pessoas, em todos os bairros da capital, está em curso. “Esses testes estão em curso agora, porque havia poucos casos, o que poderia apresentar uma ideia falsa. Então, esperamos a doença se estabelecer para calcular”, ressalta o pesquisador.

Isso vai permitir, segundo Roque Pacheco, entender a distribuição da circulação do vírus na cidade e nos bairros e, assim, poder combate-lo, já que será possível saber onde ele vai agir mais, onde terá mais impacto. “Tudo isso vai ser refletido nesse estudo. E é importante porque você tem uma ideia quase que real do que está acontecendo”, argumenta.

“Quase real”, porque, segundo o professor, a ciência não é a dona de tudo, mas ainda é o melhor caminho. “Porque é claro que a gente pode errar, mas até o erro é embasado num dado cientifico. Pode haver um erro, mas muitos acertos também, porque o que é produzido tem um lastro científico por trás”, pontua.

CONHECIMENTO
Mesmo com erro, que é previsível, segundo Roque, o resultado mostrará uma verdade. “Que não é absoluta, mas que não é uma opinião, um pensamento. São números, dados, métodos científicos”, reitera.

Por isso, para ele, é importante estar usando o conhecimento científico para o bem coletivo. “Participar disso é trazer o método cientifico para ajudar a opinião das pessoas e as ações do poder público, com o plano de ação, porque os gestores preocupados com a demandas, que são urgentes, e tudo o que a gente faz é ajudar com embasamento em soluções cientificas”, resume.

Paulo Ricardo Martins tem o mesmo pensamento. Segundo ele, o trabalho sobre taxas de isolamento, por exemplo, foi bastante discutido pela gestão de Aracaju com a finalidade de definir medidas a serem implementadas.

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Roque Pacheco: “pode haver um erro, mas muitos acertos também, porque o que é produzido tem um lastro científico por trás”

PARCERIA
“Obviamente, a decisão é deles, é da gestão, mas a discussão foi em caráter científico para que as melhores decisões fossem tomadas”, reforça. Agora, outros estudos sobre esses temas estão em curso. “Estamos refazendo o estudo de isolamento por bairro, para vislumbrar medidas setorializadas, de acordo com a necessidade de cada local”, justifica.

Para isso, a equipe está em contato direto com a Prefeitura. “Principalmente com a parte administrativa e a que lida com o banco de dados. Estamos trabalhando em harmonia e essa harmonia tem dado bons frutos. Embora a pandemia seja difícil de ser controlada, todos os esforços acadêmicos e de gestão pública estão sendo feitos em conjunto e da melhor forma”, assegura Paulo.

De fato, a pandemia do novo coronavírus potencializou a parceria e o diálogo entre o poder público, notadamente os gestores do Poder Executivo, com a Universidade, cujos estudos e pesquisas acabam contribuindo para uma tomada de decisão, por parte da administração municipal, pautada em dados científicos.

DIÁLOGO
“A UFS tem tido papel fundamental nesse processo, abrindo um canal de comunicação importante entre a Universidade e os órgãos competentes, como o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju, na tentativa de ajudar a fazer um planejamento estratégico em relação à epidemia, assim como à produção de insumos, equipamentos de proteção individual e o tratamento de pacientes, além da tecnologia da informação com relação aos dados”, explica Paulo Ricardo.

Para o prefeito Edvaldo Nogueira, isso tem feito toda a diferença nas ações empreendidas pelo município. “Desde o primeiro momento, temos tomado medidas a partir do embasamento científico. Neste sentido, a parceria com a Universidade Federal de Sergipe tem sido muito útil para nos dar as condições necessárias para chegarmos a decisões seguras”, reconhece.

O prefeito ressalta que, diante de uma pandemia como esta, a Ciência se torna primordial no planejamento e nas ações de enfrentamento ao vírus. “Desse modo, é motivo de grande satisfação poder contar com os estudos e pesquisas desenvolvidas pelos professores, mestres e doutores da UFS”, ressalta Edvaldo Nogueira.

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Edvaldo Nogueira: “a parceria com a Universidade Federal de Sergipe tem sido muito útil para nos dar as condições necessárias para chegarmos a decisões seguras”

SUPORTE
Secretária municipal da Saúde, a médica Waneska Barboza acredita que o estreitamento desse diálogo com a Universidade e, consequentemente, com especialistas como epidemiologistas e em Saúde Pública, tem resultado em decisões mais fundamentadas e assertivas por parte da gestão.

“A gente tem tido um suporte importante de professores da Universidade, que fazem algumas previsões e estudos que nos ajudam a definir as estratégias, como o estudo do professor Paulo Martins a respeito da relação entre a queda das taxas de isolamento social com aumento dos índices de contágio”, argumenta Waneska.

Atualmente, Paulo Martins já está trabalhando em um novo projeto, com algumas ampliações de ação. “O EpiSergipe é uma parceria com o Governo do Estado que envolve 15 municípios, incluindo Aracaju, e visa, de maneira geral, acompanhar o grau de contaminação e os impactos do vírus no Estado”, define Paulo Ricardo.

Para isso, o projeto foi subdividido em ouros três subprojetos: um de monitorização dos infectados; um dos impactos socioeconômicos e outro voltado à avaliação de populações vulneráveis. O projeto reúne diversos professores e será mais um indicador importante nesse momento, segundo Waneska. “Com esses projetos, a Universidade nos ajudar a discutir ações específicas de forma embasada, fundamentada, baseados em evidências concretas e em estudos de especialistas. Não é nada aleatório”, reitera a secretária.

INDICADORES
Mércia Feitosa, secretária de Estado da saúde, concorda. Também questionada pelo JLPolítica sobre a importância de ouvir o conhecimento científico em meio a essa pandemia, ela admite que a área tem guiado diferentes frentes no combate ao novo coronavírus.

“Em Sergipe, a parceria com a UFS, com a Associação Sergipana de Física, vem rendendo frutos, especialmente no campo da epidemiologia, com projeções do crescimento da doença e taxa de ocupação de leitos,  testagem para avaliar a prevalência em grupos específicos, a exemplo dos profissionais de saúde,  pessoas que frequentam feiras livre, e até o comportamento social”, reconhece Mércia. 

Ela acredita que “todos os documentos produzidos pelos cientistas e pesquisadores colaboram para a tomada de decisão na gestão. “E estamos avançando em outras frentes com a UFS também”, revela a secretária.

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Waneska Barboza: “a gente tem tido um suporte importante de professores da Universidade, que fazem algumas previsões e estudos que nos ajudam”

DEBATES
No caso do Governo do Estado, a parceria com a UFS acontece desde a testagem de pacientes até a participação efetiva no Comitê de Operações Emergenciais, que define as ações de enfrentamento à doença. O professor Paulo Martins é um dos representantes da Universidade no Comitê.

“A gente tem participado das reuniões e debatido questões relevantes em relação à epidemia aqui em Sergipe. Abriu-se um canal importante de diálogo entre a Universidade Federal de Sergipe, o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju e isso tem sido fundamental para a tomada de decisão dos órgãos competentes”, reitera o professor. 

“Estudos que nós temos desenvolvido tem colaborado para um melhor entendimento da Covid-19 e também para o planejamento estratégico das ações de enfrentamento à epidemia. Nós precisamos refletir sobre o papel da ciência na nossa sociedade”, completa. 

VALORIZAÇÃO
Essa reflexão passa pela valorização do que a Ciência produz e propicia. Nesse sentido, vale lembrar que foi aqui no Brasil que o genoma do vírus foi sequenciado em tempo recorde: 48 horas. Enquanto outros países levaram 15 dias para chegar ao mesmo resultado, por exemplo.

Além disso, outras atividades em Universidades estão em andamento, desenvolvendo tecnologias fundamentais, como um ventilador pulmonar para emergências, barato e rápido de produzir e até uma vacina.

A turma de Mestrado em Atenção Integral à Saúde da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí –, colocou no ar um site para tratar do assunto: a página Ciência Explica Covid-19, criada para estimular a divulgação científica para a comunidade.

A intenção é levar a informação científica que está sendo gerada sobre o coronavírus para a comunidade em geral, por meio de uma linguagem simples que seja capaz de "traduzir" os complexos estudos nas diferentes áreas do conhecimento em informação compreensível.

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Mércia Feitoza: “a parceria com a UFS, com a Associação Sergipana de Física, vem rendendo frutos, especialmente no campo da epidemiologia”

E O FUTURO?
Para Paulo Martins, a situação seria inegavelmente pior se o conhecimento científico produzido dentro da universidade estivesse sendo negligenciado. “Estamos trabalhando diuturnamente e em conjunto para superar essa crise humanitária e de saúde pública”, garante. 

Por isso, ele acredita que “nunca foi tão importante, na história mais recente do país, ter a ciência como base para a tomada de decisão”. “Costumo falar para os alunos que agora é o momento de muita ciência e muita prudência, no sentido de tomar decisões baseados em estudos da academia. Não adianta só politizar e não entender que a ciência tem papel fundamental”, reitera.

Diante disso, Paulo espera que esse entendimento, que essa harmonia, sejam mantidos daqui para a frente. “Espero que seja um divisor de águas para que esse entendimento mútuo continue, porque com a ampliação do diálogo entre a academia e as gestões de forma permanente, todo mundo tem a ganhar”, opina.

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Pesquisadores brasileiros sequenciaram genoma do vírus em tempo recorde