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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Com alta transmissibilidade, covid-19 tem colocado outras doenças em segundo plano

Em 44 dias, a doença respiratória causada pelo coronavírus fez mais vítimas fatais do que a dengue, H1N1, sarampo, chicungunha e zika somadas

Até março de 2020, a dengue provocou 148 mortes no Brasil. No mesmo período, o vírus H1N1, que provoca um dos tipos de gripe, vitimou 13 pessoas no país. Enquanto o sarampo causou a morte de 4 pessoas, a chicungunha, 3; e a zika, nenhuma.

Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS –, a tuberculose matou cerca de 1,5 milhão de pessoas no mundo, ou 4,1 mil por dia, em 2018 – últimos dados disponíveis. E ainda é a doença infecciosa mais letal do mundo: todos os anos, aproximadamente 10 milhões de pessoas são infectadas pela doença, que afeta principalmente os pulmões.

Já o novo coronavírus é dez vezes mais letal do que o vírus responsável pela gripe A, o H1N1. Enquanto a nova pandemia de coronavírus deixou mais de 115 mil mortes em todo o mundo desde que surgiu, na China, em dezembro, segundo um balanço estabelecido pela AFP com fontes oficiais, a gripe H1N1 deixou 18.500 mortos, ainda segundo a OMS.

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Número de mortes é crescente, mas ainda é menor do que óbitos causados por tuberculose, por exemplo
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Ações de prevenção à dengue, por exemplo, continuam em Aracaju

VÍRUS PODEROSO
VAcrescente a essas doenças, os problemas cardiovasculares, como o infarto e o derrame, que são os que mais matam no mundo. “Infelizmente, tem, sim, havido negligência com essas doenças”, constata o médico infectologista e professor da Universidade Tiradentes - Unit -, Matheus Todt. 

Ele lembra que, só no ano passado, no Brasil, foram 1,5 milhões de casos de dengue e acredita que se o país tivesse um número de infectados por coronavírus igual ao de tuberculose, por exemplo, seriam seis vezes mais óbitos.

“Estamos diante de um vírus de baixa letalidade, mas de elevada infectividade. Estatisticamente, o novo coronavírus é pouco mais letal que o H1N1 e muito menos letal que outros coronavírus (o SARS-CoV e o MERS-CoV). Quanto à transmissibilidade, o novo vírus é o mais transmissível entre os coronavírus, mas muito menos que o sarampo, por exemplo. Então, essas comparações têm uma validade limitada”, analisa Matheus Todt.

CENÁRIO ATUAL
Segundo o infectologista, hoje, o Brasil está no período de aceleração da epidemia. “Nos últimos 4 dias, os casos aumentaram mais de 40% e os óbitos, quase 30%. Hoje, temos 119 casos confirmados e 7 óbitos pela doença”, revela. Mas, de acordo com Todt, a probabilidade de uma pessoa se infectar e sair bem é muito superior que a possibilidade do óbito.

“O que ocorre é que temos um grande número de infectados em um curto período de tempo. Consequentemente, o número absoluto de óbitos tende a ser maior”, justifica. Mas ele reforça: “a covid-19 não é, nem de longe, a pior infecção viral que vimos ou que veremos. Porém não é só uma “gripezinha”. Estamos diante de algo novo, que infectará boa parte da população e que pode gerar muitos óbitos”, ressalta.

Por isso, nesse momento, a doença causada pelo coronavírus  demanda grande atenção, por ainda ser algo novo e não ter, por exemplo, medicamentos eficazes – e específicos – nem vacinas. “O pior cenário que podemos enfrentar ocorrerá se nos descuidarmos e muitas pessoas adoecerem simultaneamente. Teremos hospitais lotados de pacientes com covid-19 e pessoas morrendo tanto de coronavírus quanto de dengue e infarto sem terem a devida assistência”, argumenta.

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Matheus Todt: “infelizmente, tem, sim, havido negligência com essas doenças”

DOENÇAS CORONARIANAS
E por falar em infarto, a médica cardiologista Izabela Cavalcanti Santos Silveira Resende, especialista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e diretora clínica do Hospital do Coração, afirma que já é sabido pelas entidades da área que pacientes têm morrido em casa por receio de ir ao hospital.

“Temos visto, principalmente em Aracaju, as urgências dos hospitais vaziais. As pessoas até chegam com sintomas de gripes, mas as urgências estão vazias e isso não era comum, eram cheias. Além disso, têm havido trabalhos nesse sentido no Brasil e fora. Em Nova York, um deles mostrou que está se atendendo mais pessoas em casa com morte súbita”, confirma Izabela Resende.

Diante desse cenário, a própria Sociedade Brasileira de Cardiologia, a partir dos Departamentos de Estudos de Coronariopatia Emergencial, Terapia Intensiva e Cardiologia Clínica, expediu uma recomendação aos profissionais com várias orientações, entre elas, a de que os pacientes que tiverem sintoma de doença coronariana não devem retardar a ida ao pronto socorro por medo da covid-19.

ATENDIMENTO RÁPIDO
“Os sintomas são dor no peito, suor frio, diarreia, náusea, vômito. Quem apresenta-los, deve seguir as mesmas evidências de sempre e ter o atendimento precoce privilegiado, porque essa demora tem sido responsável por um grande número de complicações e até de mortes de pessoas em casa durante a quarentena”, ressalta Isabela.

Isso porque, segundo ela, o tratamento do infarto é fortemente ligado ao tempo: quanto mais ele é retardado, mais aumentam as chances de complicações e de morte. “Na dúvida, que esses pacientes entrem imediatamente em contato com seus médicos, seja por telefone mensagem ou videoconferência”, aconselha. A recomendação foi repassada aos médicos, que, por sua vez, estão repassando aos pacientes, mostrando a observação de que o cenário existe.

“Acredito que esse receio de buscar atendimento médico está piorando o quadro clínico desses pacientes, principalmente os idosos, por serem grupo de risco da covid e pelos cardiopatas também serem, já que eles representam os pacientes que têm sistema imunológico mais enfraquecido. “Por terem mais medo, receiam buscar o atendimento pelo problema cardiovascular e pioram o quadro, vindo a ter complicações em casa ou mesmo a morte”, reforça.

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Segundo o infectologista, estatisticamente, o novo coronavírus é pouco mais letal que o H1N1 e muito menos letal que outros coronavírus

COVID MATA MAIS?
Por isso, para Izabela Resende, a covid pode até estar matando mais do que algumas doenças, mas não mais do que a doença cardiovascular. “O problema maior da covid não é matar demais, é levar muita gente de uma vez só aos hospitais, porque a transmissibilidade dela é muito alta, levando todo mundo de uma vez só para as unidades”, reitera.

Dessa forma, com as outras doenças, que continuam existindo e também levando pessoas para os hospitais, tem-se um colapso da rede hospitalar, “aumentando a taxa de mortalidade de covid e outras doenças”. “Aqui, a gente está bem tranquilo ainda, a mortalidade é pequena. A gente tem uma rede com taxa de hospitalização menor que 50%”, revela.

Sendo assim, para a médica cardiologista, a covid é uma ameaça à população por essa alta transmissibilidade, principalmente a quem tenha comorbidade, doenças que levam à alteração do sistema imunológico, como pneumopatias, doenças renais, idosos, e outras situações, como fumantes. As pessoas mais jovens transmitem muito fácil a essas pessoas, então, essa ameaça é pior do que as outras doenças, não em termos de mortabilidade, mas de transmissibilidade”, destaca.

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Izabela Resende: “acredito que esse receio de buscar atendimento médico está piorando o quadro clínico desses pacientes”

ALERTA
A cardiologista chama a atenção para o fato de que as demais doenças não deixam de existir e que precisam continuar a ser tratadas, mesmo em épocas de pandemia do novo coronavírus. “Por medo da doença, por pânico ou até mesmo por dificuldade de conseguir fazer uma consulta ou um exame, as pessoas podem estar eixando de lado a atenção com suas enfermidades, relegando-as a um segundo plano e isso pode ser muito ruim”, afirma.

“Se tiver diabetes e a diabetes descompensar, se tiver covid associado, aí ela vai ter morbidade e talvez mortalidade mais alta. Assim como uma doença cardiovascular. A situação pode ficar muito mais complicada na medida em que tem uma doença de base, que já é grave e se complica com uma infecção por covid”, acrescenta a médica.

Significa que, nesse momento, é preciso, sim, manter as atenções voltadas para a covid, porque é um momento de pandemia, mas também é necessário manter a atenção com as demais enfermidades. “Temos que manter os pacientes longe da contaminação e ao mesmo tempo sem uma descompensação”, reitera a cardiologista.

Para Izabela Resende, o importante é que médico e paciente estejam em contato frequentemente. “Seja por teleconsutas, mensagens, telefone… e, caso haja sintomas, eles devem ser atendidos. Se for uma situação mais difícil, deve ser encaminhado à  urgência o quanto antes, porque o tempo é fundamental nesses casos”, acrescenta.

Enquanto o tempo é crucial para os pacientes cardíacos, o distanciamento social e a higienização constante ainda são os melhores trunfos contra a covid-19, cujo tratamento deve continuar sendo prioridade para o poder público e para a sociedade, mas com ambos tomando os devidos cuidados, também, com as demais doenças. Afinal, toda vida importa.

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Médica alerta que retardo em atendimento pode resultar em morte de paciente cardíaco