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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Como afastar o perigo do ano eleitoral sob o signo do descrédito

A pouco menos de um ano para as eleições de 2018, os partidos, os pré-candidatos e os órgãos ligados ao processo eleitoral já vivem a rotina que antecede o pleito. Diante do cenário político atual, o sentimento em relação ao próximo ano é, ao mesmo tempo, de renovação e descrédito. E sim, essa dubiedade é possível

O professor de Sociologia Marcelo Ennes, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe, doutor e pós-doutor na área, diz que o processo eleitoral de 2018 pode ter duas realidades: uma que não contaria com a interferência da população e sua reação, que se daria única e exclusivamente a partir da vontade da classe política e, em particular, da dos que ocupam cargos políticos hoje.

E um outro cenário, onde o eleitorado teria a capacidade de reação, de fazer frente a essa tendência de manutenção das coisas. “Ao que me parece, isso que nossos representantes desejam, que as coisas não mudem muito, porque, evidentemente, se mudarem será melhor para o país e pior para eles”, explica Marcelo Ennes.

“O descrédito é justificável, mas a gente tem que entender que a única saída para a situação que temos é o cidadão se posicionar, tomar uma iniciativa perante as coisas”.
 MARCELO ENNES
Sociólogo

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Marcelo Ennes: É preciso, sim, ter interesse pelo processo eleitoral

SEM CONSERVADORISMO

Para além dessa vontade e desse interesse de que o professor Marcelo Ennes fala, ele também aposta numa característica que Sergipe apresenta no aspecto político: a do não conservadorismo.

“Em Sergipe, já houve mais trocas de gestor, tanto no Governo do Estado quanto no da Capital. Sergipe elegeu um dos únicos prefeitos de Capital ligado a partidos de esquerda. Então, acho que há pessoas com perfis novos”, acredita Ennes.

E isso, segundo ele, vale até para os velhos nomes que pleiteiam cargos novos, diferentes. “Se a população conseguir se posicionar, teremos surpresas positivas no Estado”, completa.

Essa população votante, em Sergipe, compreende pouco mais dos 1.540.376 eleitores, segundo os dados do Tribunal Regional Eleitoral – TRE – referentes ao último pleito, o de 2016.

Marcos Vinícius Linhares, secretário Judiciário do TRE, afirma que esta instituição já conta com um cronograma de atividades para 2018. “As eleições só ocorrem a cada dois anos, mas a preparação começa bem antes”, justifica Marcos Linhares.

De acordo com Linhares, as demandas da instituição são definidas sempre um ano antes. “Tem todo um planejamento estratégico a ser implementado no ano em que não há eleição”, acrescenta.

“A partir de janeiro, já começa a convocação de juízes auxiliares. Em março, iniciamos dos treinamentos dos servidores que vão trabalhar no registro de candidatos e com propaganda. Em maio, temos o fechamento do cadastro de eleitores”
MARCOS LINHARES
Secretário do TRE

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Marcos Linhares: preparação do TRE Já começou

CRONOGRAMA

E esse planejamento passa pela definição do orçamento, da equipe que irá atuar mais diretamente, dos treinamentos que serão realizados. “A partir de janeiro, já começa a convocação de juízes auxiliares. Em março, iniciamos dos treinamentos dos servidores que vão trabalhar no registro de candidatos e com propaganda. Em maio, temos o fechamento do cadastro de eleitores”, revela Linhares.

As atividades seguem com a concentração de esforços no registro de candidatos em julho e agosto, quando todos os processos de registro devem ser julgados. “Também há os preparativos das urnas eletrônicas, com a carga de informações referentes aos registros”, diz ele.

“Depois, temos a apuração, diplomação, julgamento da prestação de contas, etc. É um ano inteiro de atividades”, ressalta. Vale lembrar que, administrativamente, as complexidades de uma eleição em nível estadual e federal, como a que ocorrerá em 2018, são as mesmas de uma eleição municipal.

O que difere, segundo secretário Judiciário do TRE, é a parte processual. “No âmbito municipal, todo o processamento é no juízo eleitoral de cada zona, o TRE só analisa a parte processual em grau de recurso, como órgão de segunda instância, diferentemente de agora”, explica.

“Com eleições estaduais e federais, o TRE passa a ser órgão de primeira instância. Ou seja, para o TRE, esse tipo de eleição é mais complexa. Mas na área judiciária, em termos administrativos, são muito parecidas, até porque a quantidade de eleitores é quase a mesma, assim como a de mesários, servidores, etc”, esclarece Linhares.  

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Gama: PMDB já deu os passos que podiam ser dados

O OUTRO LADO

Por parte dos agentes políticos, o trabalho também já começou – todos preocupados com performances que garantam-lhes vitórias. O presidente estadual do PMDB, João Augusto Gama, afirma que o partido está se organizando e que já deu os passos que podiam ser dados.

“Apresentamos o nome de Belivaldo Chagas (como pré-candidato ao Governo do Estado) e estamos aguardando a posição do governador Jackson Barreto. Mas continuamos fazendo contatos com outros partidos”, diz Gama. Aguardar a posição de Jackson Barreto é saber se ele disputará ou não o Senado. Isso altera o jogo. 

Segundo Gama, esse trabalho de conquista de alianças deve ser intensificado mais para a frente. “Mas é um trabalho que tem que ser feito, embora o cenário seja favorável para nós. Está tudo em compasso de espera agora. Vamos aguardar o ano acabar para continuar com as ações”, ressalta.

E se o PMDB acha que “as coisas” lhe estão favoráveis, a oposição também parece perceber do mesmo jeito. Pelo menos é o que garante Valadares Filho, presidente estadual do PSB em Sergipe.

“A oposição está cada vez mais forte, trabalhando dentro de um conteúdo programático, porque nosso grande desafio é a reconstrução do Estado. Para isso, apresentamos à sociedade um novo modelo de gestão”, assegura.

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Eduardo Amorim: PSDB está preparado e tem perspectivas excelentes

BLOCO DE OPOSIÇÃO

E que modelo de gestão seria esse? “Um modelo sem vícios. Um governo com planejamento, com uma boa equipe, focado em segurança pública, educação e que despolitize a saúde pública, que ainda serve de trampolim eleitoral”, critica. Para o PSB, portanto, o mais importante seria um governo que demonstrasse compromisso administrativo.

“O partido tem buscado se fortalecer com novos quadros, com uma boa chapa, para continuar com a cadeira de deputado federal (que o próprio Valadares Filho ocupa) e a representatividade que o partido tem nos quatro cantos do Estado. Também estamos fortalecidos e preparados para participar da chapa majoritária”, avisa o presidente do partido.

O senador Eduardo Amorim, que preside o PSDB no Estado, revela que o partido vem se preparando, inclusive, nacionalmente. “Porém, antes de anunciar os nomes à Presidência da República, passaremos por uma questão interna, que é a eleição do novo Diretório Nacional”, diz ele.

“Temos vários nomes, com destaque para o do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o do prefeito da cidade de São Paulo, João Doria. Mas pode ser que surjam outros nomes dentro do partido”, destaca Eduardo Amorim.

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Valadares Filho: Cenário de 2018 é favorável à oposição

MOVIMENTAÇÃO PRA 2018

Em relação a Sergipe, o partido também vem se organizando, arrumando os diretórios. “Realizamos as convenções municipais, em seguida a Estadual, e nos preparamos para a Convenção Nacional. Por tudo isso, as perspectivas são excelentes”, ressalta.

Para Amorim, “com certeza o PSDB poderá contribuir, como já contribuiu, na reformulação e na nova condução do país”. “Mesmo convivendo com suas turbulências internas, o PSDB vai atravessar tudo isso e ajudar ao nosso país e, especialmente, ao nosso Sergipe”, garante.

Rogério Carvalho, presidente estadual do PT, diz que o partido está em fase de discussão com a Executiva Nacional, realizando vários debates internos. E isso desde a última eleição. “Analisando o cenário”, explica Rogério. “E agora a gente espera o calendário nacional, que vai ser definido por lá. “Aguardamos a definição da conjuntura local para discutir de que maneira a nacional vai nos auxiliar”, ressalta.

Mas uma coisa já está definida – ao menos até agora. O PT vai de aliança com o governo. “Apoiamos a pré-candidatura de Belivaldo e avaliamos o desempenho dos nossos candidatos nas intenções de votos, que têm importância relativa pela lembrança do eleitor e nas quais a gente pontua razoavelmente bem. Vamos aguardar a posição do governador com relação à sua candidatura”, diz Rogério

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Heleno Silva: PRB tem buscado e tem conseguido se fortalecer

RUMO DEFINIDO

Já Heleno Silva, um dos fundadores do PRB em Sergipe, sabe bem o que quer, sem nem mesmo precisar aguardar quaisquer definições que não dependam de seu partido e aliados. “Fizemos uma chapa própria para deputado estadual, através da qual pretendemos eleger três deputados estaduais. Também trabalhamos para manter o mandato do deputado federal Jony Marcos e para a minha eleição para o Senado”, afirma.

Para isso, segundo Heleno, querem se fortalecer cada vez mais, fazer filiações e continuar se preparando para o próximo ano. “Estamos em pré-campanha. Nos últimos dez meses, crescemos muito. Antes se falava em senador e as pessoas da classe política viam (a candidatura dele) como um sonho muito ousado, mas hoje veem que é uma realidade. Cresci nas pesquisas, os números mostram isso”, atesta.

A presidente do DEM, Ana Alves, também tem recebido dirigentes de diversas siglas para conversas visando 2018. Segundo ela, é a partir de agora que todos os partidos vão dialogar entre si visando as composições político-partidárias para as próximas eleições.

O DEM, alerta a dirigente partidária, não poderia ficar de fora e nem fará restrição a ninguém. “Eu estive, por exemplo, com o governador Jackson Barreto esta semana e recebi toda a equipe do PPS como receberei a de qualquer outro partido”, diz ela.

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Ana Alves: DEM vai continuar dialogando

QUESTÕES TÉCNICAS X HUMANAS

Fora essa preparação político-partidária, a engenharia técnica que norteará as eleições de 2018 em Sergipe também está definida: o Estado conta com 100% do cadastro biométrico dos eleitores e com o novo zoneamento concluído. “É um dos poucos da Federação com 100% de biometria”, diz Marcos Linhares, do TRE.

Questionado sobre quais possíveis falhas devem ser corrigidas para 2018, ele assegura que nas últimas eleições não houve grandes problemas e que os que ocorreram foram imediatamente sanados. Ou seja, da parte burocrática da coisa, está tudo bem. Agora, é com o eleitor.

“As eleições estão em nossas mãos. Elas são efetivamente o melhor sistema que inventamos. É claro que deve ser aperfeiçoado, mas cabe a nós buscar separar o que é verdade do que não é e participar das eleições de maneira consciente. Isso tem que ser demonstrado desde já. Precisamos demonstrar que estamos interessados nas eleições, em novas propostas, novas ideias, novos candidatos e, principalmente, em soluções para o nosso país”, argumenta o professor Marcelo Ennes.

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Rogério Carvalho: "O PT vai de aliança com o governo"

NOVAS REGRAS ELEITORAIS PARA 2018

Alguns pontos da reforma política, que tramita no Congresso, já foram aprovados e valerão para as eleições de 2018, como a criação do fundo eleitoral e da cláusula de barreira.

Na opinião do sociólogo Marcelo Ennes, o fundo foi criado para compensar a proibição de doações de empresas privadas para as campanhas.

“Mas os candidatos contarão com recursos desse fundo, que tem o valor astronômico de R$ 1,7 bilhão. É muito dinheiro”, opina Ennes.

A cláusula de barreira, por sua vez, impede ou restringe o funcionamento parlamentar do partido que não alcançar determinado percentual de votos.

“Por um lado é bom, porque impede o surgimento dos chamados “partidos oportunistas”, que só visam receber recursos financeiros. Mas, por outro lado, vai enfraquecer partidos pequenos e com propostas e perfil politicamente adequados”, constata.