Interviewer eabf89888450f505

Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

Compartilhar
Newspapper report 87d840d10ae03e39

Coronavírus muda rotina e coloca em isolamento idosos e profissionais de saúde

Médicos e enfermeiros, que atuam na linha de frente do combate à Covid-19, têm se isolado da própria família para conter o vírus

Que o isolamento social é uma das medidas mais eficazes contra o coronavirus todo mundo já sabe. Mas já imaginou ter que ficar sem ver seus avós, seus filhos, seus pais ou irmãos, por exemplo? É o que tem acontecido, principalmente, com idosos e profissionais da saúde. Os primeiros por fazerem parte do principal grupo de risco e os segundos por serem potenciais vetores de transmissão do vírus.  

“O isolamento social adotado pelo Ministério da Saúde inclui todas as pessoas, é o chamado isolamento horizontal. Já o grupo considerado de risco, formado por pessoas com mais de 60 anos e portadores de doenças crônicas graves, é o grupo prioritário por ser mais suscetível às formas graves da doença”, explica Matheus Todt Aragão, médico Infectologista, professor da Universidade Tiradentes- Unit. 

Matheus Todt Aragão ressalta que os idosos devem ser mantidos em casa, não devem receber visitas - sobretudo de crianças, possíveis portadores assintomáticos do coronavírus - devendo manter a maior distância possível de pessoas com sintomas respiratórios e atenção redobrada com higiene criteriosa das mãos e do ambiente. 

0e5f4bd654886c70
Profissionais têm apelado para que população fique em casa, coisa que eles não podem fazer
Newspapper report internal image aadda7d4ba8a5182
Matheus Todt: “manter os idosos isolados nesse momento é fundamental para tentarmos evitar uma explosão de casos graves e de possíveis óbitos”

FASES
Matheus Todt destaca que, após alcançado o pico de incidência, haverá uma fase de manutenção do número de casos, é a chamada fase de platô; e, logo após, a queda gradativa do número de casos, a regressão da epidemia. “O isolamento social poderá ser reduzido gradativamente durante essa fase de regressão”, diz. 

Até lá, os cuidados devem ser mantidos e até ampliados. No caso dos profissionais da saúde, é recomendado que, ao chegarem em casa, deixem os calçados do lado de fora e higienizem com álcool ou solução com hipoclorito.

“Deve também retirar as roupas e colocá-las para lavar, bem como tomar um banho. Deve-se lembrar de sempre higienizar as mãos (com água e sabão, ou álcool gel) e utensílios que tenham sido utilizados no hospital, como canetas e carimbos”, ressalta Matheus Todt.

NOVA ROTINA
Uma das profissionais que está vivenciando essa nova rotina é a enfermeira Andreia Aragão Rabelo, que trabalha no ambulatório do Hospital Universitário de Sergipe e na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes. Casada com um servidor da área de segurança pública, ela teve que adequar a rotina da família a uma nova realidade.

“A nossa rotina profissional não mudou, estamos trabalhando até mais, por estarmos na linha de frente. A mudança foi a nível social. Nós saíamos muito, principalmente indo à casa de familiares, como nossas mães, tios e outros parentes. No momento, estamos apenas indo ao trabalho e onde é estritamente necessário, como supermercado”, relata Andréia Aragão.

“Nós tivemos que nos distanciar dos parentes, principalmente de nossas mães, pela idade”, ressalta. Para ela, esse tem sido um dos principais desafios da pandemia para o casal. “Não é fácil nos distanciar de nossos entes queridos, principalmente a gente, que tinha uma proximidade, que estava sempre por perto, sempre juntos. Quando não estávamos trabalhando, estávamos na casa deles”, reconhece.

86d9b77466e10ce0
Andréia Aragão: “mesmo sendo difícil, não dá para esquecer a importância do distanciamento”

MAL PARA O BEM
Segundo Andréia Aragão, esse distanciamento tem causado sérios impactos. “Causou uma grande diferença na nossa vida. Inicialmente, a gente sentiu muita dor, muita dificuldade de estabelecer esse distanciamento. Foram muitas noites em que a gente chorou, se desesperou. Hoje, a gente tem a certeza de que a gente está fazendo o melhor”, destaca.

Isso porque, de acordo com a profissional, o isolamento é muito importante para se conseguir manter o número de doentes num nível controlado. “E para dar tempo de o sistema de saúde se preparar para receber essas pessoas que vão chegar doentes. Hoje nosso sistema não está totalmente preparado, estamos preparando ele. Por isso, a gente entende e reforça a necessidade do distanciamento social. As pessoas precisam entender que é importante proteger os mais velhos e quem tem alguma comorbidade”, reitera.

É esse entendimento que tem possibilitado a Andréia e a família suportarem a distância dos familiares. “Se eu não temo por mim, eu devo temer pelas pessoas que me são caras, que eu amo, então mesmo sendo difícil, não dá para esquecer a importância do distanciamento. E o momento de fazer isso é agora”, reforça.

FORA DO HOSPITAL
A médica Daniella Pereira Marques também está passando por isso. “A rotina mudou bastante. A gente sempre usou máscara e fez a lavagem das mãos, isso é rotina de qualquer hospital. Mas ficou tudo mais rigoroso, principalmente quando tem troca de atendimento, ou seja, sai um paciente e entra outro”, revela Daniella Marques.

Outra coisa que tem sido feito agora é a utilização de álcool nas superfícies do consultório, como mesa, cadeiras, maçanetas. “Isso a gente não tinha costume de fazer”, admite. Mas a médica reconhece: o mais difícil está fora do hospital: é ir para casa, tirar toda a roupa, higienizar tudo e manter distância das pessoas.

“Isso tem sido o mais difícil para mim. Porque somos os principais vetores. Tenho que ficar longe de todo mundo, não me reunir com a família e os amigos, não abraçar ninguém. É o mais complicado, porque a gente atende os pacientes, vê todo aquele quadro, sabe da evolução da doença e não ter aquele apoio de quem a gente ama ao chegar em casa, é difícil”, afirma.

Bc4f4b041ba16af5
Daniella Marques: “não ter aquele apoio de quem a gente ama ao chegar em casa, é difícil”

BEM COMUM
O que tem mantido Daniella Marques é o entendimento de que tudo isso é para o bem comum. “Isso faz a gente ir levando, embora haja dias em que ficamos pra baixo, o que tem sido bastante comum para os profissionais da saúde”, reforça. Ela ressalta que muitos colegas estão em situação ainda pior: tendo que se afastar de filhos, que ela ainda não tem. “Muitos estão morando sozinhos para preservar a família”, lembra. 

Iasmim Franco também é enfermeira e, no dia a dia fora do hospital, mantém todos os cuidados de higiene e isolamento social. “Meu contato com as pessoas diminuiu bastante, só saio de casa exclusivamente para trabalhar. O medo é constante, tanto o de contrair, quanto o de transmitir para alguém que amo. Tento me manter firme, rezando sempre para que  isso tudo acabe logo e que  a nossa vida volte ao normal”, desabafa Iasmim. 

Para o psicólogo Edson João da Silva, esse afastamento, o risco iminente de contaminação, a quebra de rotinas e à superexposição a notícias negativas têm interferido na sociedade. “Nesse contexto, o isolamento social imposto como uma das principais medidas de prevenção à expansão da Pandemia, se apresenta como uma das mais complexas situações para qual devemos voltar o nosso empenho em reduzir os seus prováveis efeitos negativos”, afirma Edson João da Silva.

Mas, como? “Apesar de podermos utilizar de formas eficientes recursos dos meios de comunicação atuais na redução dos impactos causados pelo distanciamento, observamos pela prática que estes podem não ser suficientes para reduzirem os impactos nos sintomas de ansiedade e de outros transtornos psicológicos comuns em situações de estresse. Cada sujeito responde diferente por afetações”, ressalta.

7fbe7e6b810c5f64
Edson João: “isolamento social se apresenta como uma das mais complexas situações”

QUESTÕES EMOCIONAIS
De modo geral, segundo o psicólogo, as emoções são fortemente influenciadas pela forma como cada pessoa processa ou pensa sobre a experiência vivida. Sendo assim, partindo do pressuposto que pensamento é diferente de realidade fática, parece interessante exercitar a ampliação da visão de mundo se disponibilizando a enxergar cada situação através de diversos ângulos.

“Como exemplo, diversificando percepções de frases muito presentes no senso comum atualmente: podemos, então, dizer a si mesmo: meus amigos e eu, estamos nos protegendo uns aos outros, ao invés de meus amigos e eu não podemos nos ver; estou seguro em casa, ao invés de estou preso em casa; abdiquei de minha liberdade por uma causa nobre, ao invés de eu perdi toda a minha liberdade; ou ainda, eu estou aumentando minha gratidão pelas pessoas que amo, ao invés de eu sinto falta das coisas que amo””, orienta.

“Poderemos, ainda, lançar mão de recursos que podem nos blindar em tais momentos, como a arte presente na música, na poesia, nos textos de tantos nomes que nos transladam a contextos semelhantes metaforicamente e, de certa forma, nos pré-aquecem das tais respostas emocionais”, completa Edson João.

1f65bd90f0809877
Jeanne Maia: “momento nos impulsiona a pensar no passado, com as possibilidades do ir e vir, no presente que nos assusta e no futuro, incerto”

PACIÊNCIA
Também psicóloga, Jeanne Maia diz que, nesse momento, é preciso aprender com a paciência. “Essa capacidade de tolerar os erros, os fatos indesejados e a incerteza em prol do equilíbrio, da integridade e da capacidade de agir e sentir adequadamente de acordo com o que cada situação nos apresenta. Este momento nos impulsiona a pensar no “tempo”, no passado com todas as possibilidades do ir e vir, no presente que nos assusta com o fantasma da finitude e no futuro, incerto como sempre será”, teoriza.

Para Jeanne, esse isolamento social é singular e plural em seus efeitos e convida a cuidar. “De mim, de ti e do outro. A tornar estas práticas presentes não somente nos momentos de crise, mas na nossa vida cotidiana, e que as possibilidades interrompidas por esta assombração coletiva se transformem num grande abraço que entrelace todo o nosso planeta num canto de paz, harmonia e amor”, destaca.

E para aqueles que têm como ofício o cuidar do outro, a psicóloga deixa uma frase de Carl Gustav Jung: “”Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar a alma humana seja apenas outra alma humana””. Andréia Aragão, a enfermeira que está isolada sem ver a mãe, a sogra e outros parentes, tem focado nisso.

3b844537bfe08234
Rotina de profissionais mudou e exige ainda mais cuidado

LADO POSITIVO
Ela acredita que tudo que acontece tem um lado positivo. “Esse distanciamento social primeiro faz a gente refletir sobre muita coisa, sobre como nossa vida está e como poderá ficar. Eu acredito que a gente vai tirar uma grande lição disso tudo, que vamos dar importância ao que realmente tem”, avalia.

Para a área da saúde, ela acredita que o momento também será importante. “Nunca demos muita importância a essa proteção contra determinados vírus e bactérias, e a partir de hoje estamos tendo mais seriedade para lidar com eles, com os cuidados que temos que ter ao voltar para casa, por exemplo. Outros países, como a China, que estão acostumados a vírus, bactérias, poluição, já tinham o uso da máscara como hábito, e nós não, nunca olhamos muito para isso”, reconhece.

Hoje, de acordo com Andréia, os profissionais estão valorizando muito mais o uso de Equipamentos de Proteção Individual – EPIs. “Fazíamos até procedimentos sem luvas, sem máscaras, e hoje estamos mais preocupados, e devemos manter isso. Assim como manter a fé, que a gente precisa cultivar no dia a dia e não apenas em momentos de dor, de medo”, ressalta a profissional. Neste momento, de fato, toda crença é bem-vinda.

6d87874c647282a7
Iasmim Franco: “meu contato com as pessoas diminuiu bastante, só saio de casa exclusivamente para trabalhar”