Interviewer eabf89888450f505

Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

Compartilhar
Newspapper report f683eb00fd656d82

Curados da Covid, pacientes relatam os desafios da doença

Isolamento é um dos fatores cruciais para quem é infectado e um dos requisitos para diminuir o contágio. No mundo, mais de 2,4 milhões de pessoas já se curaram. No Brasil, mais de 160 mil pacientes superaram a doença

Nem empregos nem economia, ou Produto Interno Bruto - PIB. O que importa mesmo nessa pandemia de coronavírus é a preservação de vidas. E, apesar de todo o quadro de avanço da doença Covid-19 e do número assustador de mortes, ela ainda é de baixa letalidade e de alto índice de cura - embora o alarme midiático jogue para baixo essa parte, diga-se assim, positiva.

O último boletim da Covid-19 no Estado de Sergipe deste último sábado, 30 de maio, apontava 6.805 casos confirmados, 149 óbitos e 2.953 curados. Esse é o caso de Sandra, 46 anos, funcionária de hospital que prefere não se identificar por completo. “As pessoas têm muito preconceito”, lamenta Sandra. Ela teve coriza e fraqueza como sintomas iniciais e foi alertada pela chefe para fazer a testagem. Fez e deu positivo para a doença.

A partir dali, o quadro de Sandra foi se agravando. “Senti muita dor no corpo, de cabeça e também tive falta de ar em alguns dias”, relata. Além das dores e do preconceito, para Sandra uma das maiores dificuldades que a contaminação pelo vírus impõe é a do isolamento social.

4bce9ef95468bde3
Sem vacina, a Covid ainda não tem um tratamento específico
Newspapper report internal image 2b56c52fd205bd45
Número de curados no mundo já chega a 2,4 milhões

O DIAGNÓSTICO
Ana Cláudia Silveira Pinto, então, foi orientada por familiares da área de saúde a procurar um médico e a fazer o teste. “Fui a um hospital particular, por causa do plano de saúde, fui atendida na urgência e o médico disse que não tinha sintoma de Covid. Receitou um antialérgico e me mandou para casa. Mas alertou para a importância de fazer o teste e eu fiz”, lembra Ana Cláudia.

Ela recebeu o resultado dias depois. “Fiquei muito preocupada quando soube que tinha testado positivo. Fiquei bastante tensa. Desse dia em diante, fique isolada no quarto, longe de minhas duas filhas e do meu marido”, afirma.

Como mora em Aracaju, Ana Cláudia foi acompanhada pela equipe do MonitorAju, que monitora pacientes confirmados e suspeitos na capital. “Os profissionais ligavam diariamente, perguntavam como estava e eu relatava. Então, a ficha começou a cair”, ressalta.

SUPERAÇÃO
A partir desse momento, a paciente também passou a contar com o apoio psicológico ofertado pelo município. “Fiquei mal dos nervos, tive muita ansiedade e não conseguia dormir direito. Até hoje ainda tenho picos de ansiedade, mas minhas filhas e esses profissionais têm me ajudado a superar”, destaca.

Ana Cláudia já recebeu alta da equipe da Secretaria da Saúde e, agora, tenta voltar à rotina. E ainda com mais fé. “Sou muito agradecida a Deus por ter passado por isso e estar bem. Oro todos os dias e sei que esse sentimento de gratidão vai me acompanhar para sempre”, garante.

Enfermeira e atuando na linha de frente de combate ao novo coronavírus, Annyeri dos Santos já havia realizado o exame duas vezes por ter apresentado sintomas gripais leves (tosse, coriza, sem febre) e ambas deram negativo. 

Bf5bc07675211a94
Ana Cláudia: “sou muito agradecida a Deus por ter passado por isso e estar bem”

DO OUTRO LADO
Mas, no terceiro episódio de sintomas gripais, além da coriza, iniciou uma queimação na garganta no final da tarde do mesmo dia. “No dia seguinte realizei a coleta e fiquei em isolamento em casa aguardando o resultado. Cinco dias depois recebi a notícia de que meu exame tinha positivado e segui meu isolamento quase sem sintomas”, lembra Annyeri. 

Por ser da área de saúde, Annyeri dos Santos achava que estava preparada para receber a notícia. Mas não foi bem assim. “Quando a confirmação vem é bem diferente. Na hora me bateu um leve desespero. Não por mim, mas por minha família que reside comigo e pelas pessoas próximas a mim. Por medo de tê-las contaminado, mesmo mantendo isolamento e utilizando os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual)”, ressalta. 

Annyeri passou de enfermeira a paciente, da atuação na linha de frente para o isolamento, e diz que se saiu bem no período, mas que é preciso ter o psicológico muito bom para entender a condição de ficar presa dentro de um quarto por 14 dias, sem contato com outras pessoas. 

EMPATIA?
“Tem momentos em que você fica se perguntando se realmente está com a doença, pela ausência de sintomas. Mas o resultado positivo no teste do swab (o que realizei) é praticamente incontestável. Então a gente tem que entender e aceitar a condição”, reitera. Essa condição também a fez mudar nela a percepção de empatia - ou falta dela - das pessoas.

“Você se priva, se isola para garantir a segurança dos outros e se entristece ao ver as postagens das pessoas se aglomerando. Mas entrego isso a Deus. Minha fé sempre esteve presente comigo e o que eu mais pedi a Ele foi se que acontecesse de eu ser acometida que viesse com sintomas leves, e assim Ele o fez”, destaca. 

Hoje a rotina de Annyeri continua a mesma de antes da confirmação da doença, de casa para o trabalho e vice-versa. “Em casa, busco manter o isolamento dos meus familiares, lavo minhas roupas separadamente e os utensílios pessoais também seguem separados”, diz. Mas ela sabe que o “normal” ainda vai demorar um pouco para acontecer. “E com certeza não vai ser mais como era antes”, avisa. 

6c427bc1de0fa4cb
Zezinho: “você se sente no meio de um negócio que tem essa letalidade - porque a gente sabe que o coronavírus não é uma coisa simples”

“MAIS TRÁGICO”
O deputado Zezinho Sobral, Podemos, 54 anos, também foi infectado pelo coronavírus, mas não desenvolveu gravemente a doença Covid-19. “Foram dores de cabeça e dores de amolecer o corpo de não poder levantar, de não sentir disposição. A perda de apetite. Ah, devo dizer que tem diarreia também. É um sintoma da Covid”, disse ele em depoimento para a Coluna Aparte, deste Portal.

Para Zezinho, o mais trágico é a segregação que a doença gera. “Eu me senti distante daqueles que a gente tem mais proximidade - e aí é trágico”, disse o parlamentar, que começou a observar sintomas como a perda do paladar.

“A gripe não aparecia, então não era. Aí eu disse: “estou com esses sintomas, então vou fazer o exame”. Fiz o PCR, que é aquele que coleta resíduos da garganta e é o que chamam de o mais preciso de todos. Na sexta, 1º de maio, recebi o resultado: estava positivo”, lembra.

O deputado Zezinho Sobral, que já foi secretário de Estado da Saúde, admite que ficou nervoso, angustiado e preocupado com a família. “A primeira reação que tive foi em direção às pessoas com quem estive, de avisar a todo mundo. Eu disse: “olha, pessoal, eu testei positivo”. É uma situação difícil. Você se sente no meio de uma pandemia, de um negócio que tem essa letalidade - porque a gente sabe que o coronavírus não é uma coisa simples”, reconhece.

Zezinho, obviamente, ficou, como todos os demais infectados, isolado e classifica a Covid como “a doença da solidão”. “Depois que fui para o meu apartamento, fiquei trancado no meu quarto. Me isolei assim total dos meninos e da minha mulher. Nesse momento, percebi que o quanto o vírus, ou a doença, lhe deixa só. A Covid-19 é uma doença da solidão”, define.

Mas em Sergipe Zezinho Sobral não foi o único personagem do mundo político e da esfera pública alcançado pelos tentáculos da Covid-19. Esse vírus atingiu também a vice-governadora do Estado, Eliane Aquino, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Luciano Bispo de Lima, o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, o secretário de Estado da Casa Civil, José Carlos Felizola e a secretária municipal de Saúde de Aracaju, Waneska Barbosa. Todos passaram por suas respectivas quarentenas é estão bem.

NÚMERO DE CURADOS
Desde que surgiu, no fim de dezembro de 2019 em Wuhan, na China, o novo coronavírus já infectou mais de 5,8 milhões de pessoas em todo o mundo e a Covid-19, doença causada por ele, já fez mais de 360 mil vítimas fatais em todo o mundo. 

Com o balanço mais recente da área da Saúde, o país se torna o quinto colocado no ranking de países com a maior taxa de mortes provocada pela doença e, na sexta-feira, 22, passou a ocupar o 2º lugar em número de casos confirmados, ultrapassando a Espanha, Reino Unido e Rússia, ficando atrás somente dos Estados Unidos.

Os dados são da Universidade Johns Hopkins e apontam que, assim como todos esses personagens, um número muito maior de pessoas se recuperou do quadro: mais de 2,4 milhões de pessoas já se curaram. No Brasil, mais de 160 mil pacientes superaram a doença.

Dc70292cebd6b9bb
Pacientes curados deixam Hospital Militar, em Sergipe

QUADROS CLÍNICOS
O médico infectologista Matheus Todt, mestre e doutorando em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe - UFS - e professor do Curso de Medicina pela Universidade Tiradentes - Unit -, explica que a Covid ainda é uma doença nova, com sintomas diversos e variáveis e que, por isso, ainda não há um tratamento específico.

“Há muitas pesquisas em andamento, mas nenhum medicamento é comprovadamente efetivo no tratamento da doença. Nos resta oferecer aos pacientes medidas de suporte: repouso, hidratação a sintomáticos nos casos leves e hospitalização nos casos graves”, afirma Matheus Todt. 

Apesar de não haver um tratamento específico para a doença, essas medidas, segundo ele, são comprovadamente efetivas e simples: repouso, hidratação e medicamentos para dor e febre nos casos leves/moderados e fornecimento de oxigênio ou mesmo ventilação mecânica nos casos graves/críticos. 

GRAVIDADE
Segundo Todt, o que determina a gravidade de um caso nesse cenário é o grau de comprometimento pulmonar do paciente. “Se um paciente com Covid-19 apresentar um comprometimento pulmonar extenso, cursando falta de ar (dispneia) e queda da oxigenação do sangue (hipoxemia), ele será considerado um caso grave e, portanto, necessitará de hospitalização”, explica. 

O médico ressalta que o novo coronavírus é um vírus de elevada infectividade, mas de baixa patogenicidade. Isso quer dizer que, apesar de ser capaz de infectar muitas pessoas, a grande maioria dos casos, cerca de 85%, apresentará formas leves que não ameaçarão a vida do paciente.

“Ou seja, a maioria dos casos de Covid-19 será curada sem maiores problemas”, ressalta. É o que diz a Organização Mundial da Saúde – OMS -, que aponta que mais de 80% dos casos da doença são leves, enquanto que entre os 20% graves, nota-se um acometimento de vários órgãos do corpo com sequelas que devem durar por meses após a alta hospitalar.

96762d4580b1642f
Matheus Todt: “a maioria dos casos de Covid-19 será curada sem maiores problemas”

FATOR PSICOLÓGICO
Para além do adoecimento físico, o novo coronavírus pode afetar as pessoas psicologicamente, já que segundo a psicóloga Flor Teixeira, mestra em Psicologia Social e professora da Universidade Tiradentes – Unit -, desde muito cedo o processo de evolução humana está ligado ao contato. Por isso, ter que lidar com o fato de não poder estar próximo fisicamente das pessoas, sejam familiares ou amigos, é um desafio a mais para quem enfrenta a doença.

“Não poder estar perto não é algo fácil, simples de lidar. Mas é preciso encontrar estratégias de resolução e entender que o distanciamento físico não significa distanciamento afetivo”, ressalta Flor. Na verdade, para a profissional, é exatamente o contrário: é momento de acolher. “É hora de estar mais presente, de escutar mais, de estar muito mais atento com a outra pessoa”, afirma.

Para a profissional, mesmo não estando de forma presencial, é possível se fazer presente com algumas atitudes. “Posso ligar, mandar um vídeo, passar mais tempo ao telefone, mandar uma cesta de café da manhã, uma carta. A gente pode se fazer presente afetivamente, independentemente desse distanciamento social. É preciso manter a aproximação, mesmo que não seja com contato físico”, reforça.

D4d27db995133bd6
Flor Teixeira: “é hora de estar mais presente, de escutar mais, de estar muito mais atento com a outra pessoa”

SAÚDE MENTAL
De acordo com Flor, nesse momento são necessárias atitudes preventivas, tanto em relação à contaminação biológica pelo vírus quanto a contaminação mental. “Precisamos estar atentos à nossa saúde como um todo, com atitudes preventivas. Significa não apenas evitar sair, mas também se preocupar em como você está dentro de casa, em quais atividades você consegue manter”, explica.

Flor Teixeira cita como exemplo uma paciente de apenas 10 anos que, mesmo com os familiares contaminados pela Covid, não adquiriu a doença. “Quando a questionei sobre o motivo de apenas ela não ter sido infectada, me disse: “é porque eu não tenho medo”. É claro que é uma fala de uma criança, mas nos leva a pensar em como o significado que a gente dá a alguns acontecimentos interfere no nosso modo de vida e, consequentemente, nos deixa mais vulneráveis a determinadas doenças”, comenta.

Isso porque, segundo Flor Teixeira, a saúde mental é fundamental nesse processo. “A gente precisa estar em equilíbrio físico, psico e social. Quando falamos em cuidar da saúde mental, estamos falando de cuidar da gente e do outro, porque quando a gente está bem não será motivo de conflito para o outro”, justifica. 

54022ceab27b9669
Repouso e hidratação nos casos leves e hospitalização nos casos graves é o que o infectologista orienta

PÓS-COVID
Depois da alta, seja laboratorial, quando o exame detecta a presença de anticorpos, mas a ausência do vírus, ou clínica, quando os sintomas já estão ausentes há algum tempo, a pessoa pode romper o isolamento e voltar à sua rotina “normal” de atividades?

Segundo Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações – SBIm -, o nível de severidade da doença em cada indivíduo é que vai dizer dessa possibilidade. “Há pessoas que se internarão e vão precisar, depois, de tratamentos de recuperação”, diz Renato Kfouri.

“Mas se a pessoa ficou em casa, apresentou sintomas leves da doença e se recuperou bem, ela pode voltar às suas atividades regulares”, reforça. Renato Kfouri acrescenta que, diante das “não evidências robustas” de reinfecção a curto prazo de uma pessoa pelo vírus, pacientes recuperados podem ser muito úteis à sociedade durante a pandemia.

“Uma pessoa imunizada é desejada neste momento, pois pode ajudar outras pessoas que não se infectaram. O recuperado pode se oferecer para fazer as compras da família e dos vizinhos, cuidar dos idosos, tão solitários atualmente, e ser o que vai levar um doente para o hospital. Ele é “o motorista da vez””, argumenta.

7755b96051bfa0f2
Annyeri Santos: “na hora me bateu um leve desespero, não por mim, mas por minha família”