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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Da sociedade para a sociedade: um novo jeito de fazer política

Pessoas comuns se reúnem em torno Grupos com pautas bem delimitadas a fim de transformar o cenário político


Das eleições de 2018 para cá, o Brasil vivencia um fenômeno ainda recente na política: o envolvimento de pessoas comuns, organizadas em grupos e com pautas bem-definidas para renovar o cenário político do país. Alguns exemplos desse movimento são o RenovaBR, o Mova-SE, o MBL, etc.

Todos eles têm representação em Sergipe. Mais do que isso: têm se destacado na política sergipana. Prova disso foi o sucesso - inesperado, diga-se de passagem - da candidatura do delegado de polícia Alessandro Vieira, do Cidadania, eleito senador com 474.449 votos na primeira eleição de que participou.

“No momento em que decidi ingressar na política, fui buscar as alternativas para qualificação nesta nova seara. Encontrei na internet o Renova, fiz o processo seletivo e o resto é a história que Sergipe acompanhou”, resume Alessandro Vieira.

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Sociedade organizada quer mudar os rumos da política
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Alessandro Vieira é um case de sucesso oriundo dessa preparação para enfrentar temas ligados ao bem comum

CAPACITAÇÃO
Nesse sentido, Alessandro Vieira garante que teve uma formação muito boa. “Tive contato com grandes especialistas sobre as áreas mais importantes da atividade pública e a convivência com pessoas extraordinárias de todo o Brasil”, salienta.

Além disso, esses grupos têm alguns compromissos específicos, como a conclusão do mandato dos eleitos, o que o senador promete respeitar. “É um princípio básico respeitar a vontade do eleitor. Isso será seguido, com certeza. No momento, não tenho objetivo eleitoral, mas tenho uma gratidão e um senso de responsabilidade muito grande com os sergipanos”, assegura.

Ele reitera que o Renova não trabalha com pautas políticas, mas sim com a qualificação de pessoas que desejam atuar politicamente em qualquer esfera. A qualidade do pessoal envolvido foi o maior diferencial.

“SER SOCIAL”
Eduardo Macêdo, doutor em Direito Político e Econômico, mestre em Direito Constitucional e professor de Direito Constitucional e Direito Eleitoral, afirma que o homem e a mulher são seres que não foram criados para se isolar. “A história comprova que só houve sobrevivência e desenvolvimento com o agrupamento. Assim, a formação de grupos sociais é da própria essência da humanidade e propulsora da consolidação humana. E, no campo das ideias políticas, não foi e não tem sido diferente”, explica Eduardo Macêdo.

De acordo com Eduardo Macêdo, no caso do Brasil, a política está vinculada e dependente dos partidos políticos e, para furar esse cerco imposto, a sociedade vem descobrindo aos poucos a sua força incontida e ilimitada quando resolve sair da zona de conforto e marchar em busca de solução para determinado tema.

“Ao contrário do que se observava a partir dos anos 70, com os movimentos estudantis, movimentos sindicais, entre outros, a novidade surgida das ruas, a partir de 2017, principalmente, é a eclosão de grupos sociais “sem cara e sem cor”. Isto é, sem origem e sem categoria definida. Os três grupos acima nominados retratam bem esse novo perfil de ação social, com temas e pautas bem definidas”, analisa.

PESSOAS COMUNS
Na opinião de Eduardo Macêdo, a inserção de pessoas comuns na política é importante. Mais do que isso, é necessária. “Gosto sempre de extrair da Constituição Federal uma informação precisa: no parágrafo único do artigo primeiro, está dito que “todo poder emana do povo e em seu nome é exercido”. Na prática, não existe partido político sem pessoas”, teoriza.

Além disso, para o professor, também há que se considerar que para criar um partido político são necessários pelo menor cinco milhões de assinaturas de eleitores. “Assim, a política não deixa de ser formada por pessoas comuns”, reitera. O que está faltando, para Macêdo, é a retomada dos grandes debates em torno dos temas locais e dos temas nacionais.

“Com essa vida corrida, as pessoas dificilmente se reúnem ou têm paciência para conversar sobre política ou algum tema de interesse coletivo. Restam apenas, por exemplo, as reuniões de cultos religiosos, alguma inserção de discurso de viés ideológico durante uma apresentação artística (teatro e shows), já que as pessoas não mais se reúnem para tratar de outras coisas, a não ser a diversão e a cultura”, destaca.

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Eduardo Macêdo não vê a organização em grupos como algo novo, mas ainda assim importante

RENOVAÇÃO?
Apesar desse envolvimento mais direto com a política, Eduardo Macêdo não acredita que esses novos grupos possam representar a renovação política que o país precisa. “Sinceramente, não vejo como factível essa possibilidade. Dificilmente sairão novas lideranças de dentro desses grupos”, ratifica.

Isso porque, para ele, a maioria desses grupos “são rompantes pontuais e sem base sólida”. “Não há formação prévia sobre os problemas nacionais, a política, os direitos políticos e sociais. Apenas coisa efêmera que vai-se embora após as chuvas de março”, sentencia.

AGRUPAMENTOS
Eduardo Macêdo diz que, exatamente por ser um ser social, o humano já se organizou em grupos por muitas vezes, como na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, na fase de implantação do regime militar no Brasil e, mais recentemente, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento estudantil, lutando por direitos e oportunidades iguais entre homens e mulheres.

“Desses movimentos, foi gerada uma onda que repercutiu de forma incisiva na política, trazendo inovações legislativas e possibilidades de aperfeiçoamento e criação de novos direitos”, avalia. Na opinião dele, algumas pautas são fundamentais para esses grupos que querem a transformação política do país. “Preconiza-se, por exemplo, o acesso à educação, ainda tímido, com políticas públicas nunca implementadas ou parcialmente implementadas”, ressalta.

Além desse, outro ponto, segundo ele, é a bandeira da saúde pública, considerado por Macêdo o grande problema nacional. “Porque fala de perto às camadas mais carentes de brasileiros, ainda, infelizmente, sem o mínimo do mínimo, no dia a dia da sua vida. Os temas macros, que são graves e atingem a todos de forma indistinta, como a reforma tributária, que nunca chega, e a cada dia sangra ainda mais os parcos rendimentos e salários dos trabalhadores, também são importantes”, considera.

MOVA-SE
Economista e ativista social, Uilliam Pinheiro é um dos fundadores do Movimento Atitude Sergipe - Mova-SE –, criado em 2017 e que hoje conta com 150 integrantes. Uilliam Pinheiro define o Mova-SE como a “união de pessoas comuns a fim de estimular outras pessoas a buscarem resolver os problemas sociais ao seu redor através de atitudes”.

“Ou seja, transformando sua indignação em ação e exercendo sua cidadania ativamente”, resume. O Mova-SE é genuinamente sergipano e sua filosofia é agir localmente para transformar globalmente.

“Os principais objetivos do Mova-SE são estimular a participação, o controle social e a intervenção direta dos cidadãos na resolução de problemas locais, bem como disseminar a educação para a ética e a cidadania ativa”, acrescenta o fundador.

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Uilliam Pinheiro diz que pessoas estão transformando sua indignação em ação e exercendo a cidadania ativamente

FOCOS
Para isso, segundo Uilliam, o Grupo atua em três focos: fiscalização e ação contra irregularidades identificadas na administração pública em geral, educação para a cidadania, buscando promover rodas de conversas e palestras para propagar o conhecimento sobre os mecanismos de exercício da cidadania ativa e de fortalecimento da democracia participativa; e na intervenção urbana com reformas, limpezas e melhorias de praças, escolas e espaços públicos.

Nesse cenário, o Mova-SE, diferentemente dos movimentos de renovação política, não age com foco na preparação e no lançamento de candidaturas e sim na preparação de cidadãos cada vez mais ativos e participativos na sociedade – o que pode dar na política. “Sendo assim, se algum integrante do movimento desejar ser candidato terá total liberdade, entretanto, não existirão candidaturas lançadas pelo Movimento”, reitera.

Para Uilliam, a insatisfação é um dos pontos fortes para a criação dessas organizações. “Somos um grupo de pessoas que cansaram de apenas ser observadores do processo e perceberam que só atitudes geram as mudanças de que precisamos em nosso Estado”, alega.

APARTIDÁRIO
Segundo Uilliam, pelo regimento interno do Mova-SE, políticos com mandato podem apenas ser colaboradores e não integrantes efetivos. “Porque a proposta do Movimento é fazer com que pessoas comuns percebam o poder que possuem enquanto cidadãos e o exerçam plenamente”, justifica.

Mas se engana quem pensa que o Movimento não terá protagonismo nas próximas eleições. “O Mova-SE, certamente, participará estimulando a população a exercer o direito do voto de forma consciente e limpa. Além de buscar divulgar os mecanismos para combater a corrupção eleitoral, principalmente a compra de votos”, ressalta.

Isso porque, para ele, infelizmente, muitas pessoas ainda não se deram conta de quão graves e prejudiciais são algumas práticas ainda comuns nos processos eleitorais do país. “O Mova-SE pretende colaborar bastante para a elevação do nível do nosso processo eleitoral, tendo ajudado a formar bons eleitores”, destaca Pinheiro.

DIFERENCIAL
Ele acredita que isso pode, sim, fazer a diferença. “Bons políticos dependem muito mais disso. Não adianta existir uma maioria de bons candidatos, se uma minoria que não segue as regras e corrompe o processo eleitoral no final sempre ganha a eleição”, opina.

Leonardo Rodrigues Lisboa é professor e integra o RenovaBR, cujo processo de seleção foi aberto no início deste ano. Segundo Leonardo, o processo foi dividido em algumas fases e o resultado final, divulgado no mês de julho, apontou mais de 31 mil inscritos para o curso de formação do RenovaBR Cidades. Desses, pouco mais de 1.300 alunos, de todos os Estados do Brasil, foram aprovados.

Leonardo foi um deles. “Me inscrevi no processo seletivo por acreditar ser uma oportunidade ímpar para adquirir um conhecimento inédito e de alta qualidade da área política”, resume. Para o professor, ações como essa são fundamentais para oxigenar a política no país e trazer novos nomes para um ambiente tão restrito a grandes caciques e candidatos apadrinhados por políticos de carreira.

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Leonardo Lisboa: “objetivo é ressignificar consideravelmente a forma de se fazer política em nosso país”

CONTEÚDO
“Os partidos recebem verbas para ofertar cursos de formação política, mas são poucos que o fazem. O RenovaBR vem para preencher essa lacuna deixada pelos partidos políticos, acredito que iniciativas populares como essa irão se multiplicar cada vez mais e ressignificar consideravelmente a forma de se fazer política em nosso país", afirma.

De acordo com Leonardo, que está participando do treinamento, o curso é ofertado em uma plataforma online, em uma modalidade que lembra a metodologia de educação a distância. “Toda a semana, novos vídeos, conteúdos e atividades são publicadas na plataforma que monitora o progresso e as atividades propostas. O conteúdo aborda os mais variados temas, priorizando os problemas que impactam os municípios", revela.

As aulas, segundo o professor, incluem saúde e educação pública, planejamento urbano, ocupação do solo, ética e liderança, além de outros temas. Apesar do treinamento, Leonardo explica que não implica, necessariamente, na obrigatoriedade de que os alunos participem das eleições. “Todavia, penso que tenho como dever retornar todo o conhecimento adquirido para a minha cidade de alguma forma. Seja como um possível candidato ou atuando em alguma instituição privada", ressalta.

ATIVISMO
Leonardo iniciou o ativismo político quando ainda era aluno da Universidade Federal de Sergipe, atuando em movimentos liberais de grande expressão e, atualmente, preside o Instituto Liberal de Sergipe, instituição que ajudou a criar para promover as ideias de cunho liberal no Estado de Sergipe. “Fui coordenador estadual do Estudantes pela Liberdade, a maior organização libertária do mundo. Foram alguns anos criando e promovendo as ideias de liberdade no ambiente acadêmico, através de eventos, palestras e ações”, diz. 

Gerlis de Souza Brito, professor do Departamento de Ciências Contábeis da UFS, é do Sergipe Conservadores, outro movimento que atua nesse nicho de ativismo político do Estado. O grupo foi criado pelo próprio Gerlis e, como o nome sugere, gira em torno de pessoas que têm o conservadorismo como base do pensamento ideológico.

“O objetivo era o de reunir pessoas que pensassem e expressassem a doutrina conservadora, que é uma doutrina política que surgiu durante a revolução francesa, separando os progressistas dos conservadores. Um conservador é alguém que preserva as instituições morais, o direito à propriedade privada e à livre iniciativa nos negócios”, resume Gerlis de Souza.

COMPROMISSO
Gerlis de Souza vê o surgimento desses grupos como um compromisso com o país, possibilitando que haja uma união em torno de pautas comuns, como o combate à corrupção, a favor da ética e da moral no campo político. “Defendendo a família e os princípios e costumes morais do povo brasileiro, assim como o compromisso de fazer o Brasil avançar, se desenvolver”, reitera Gerlis.

O professor diz ainda que a pauta desses movimentos converge, ainda, para a fiscalização do poder público e da atividade dos políticos, para que cumpram uma agenda desenvolvimentista para o país, que traga desenvolvimento econômico, social e, sobretudo, uma perspectiva de futuro melhor para todos.

Para além disso, Gerlis define o processo de integrar o grupo como o compromisso de sempre atuar no sentido de propor pautas que sejam para a melhoria das condições de vida da população, sendo contrário ao que os políticos pregam e colocam como prática, “se essa prática for inconveniente, corrupta e fizer o país permanecer no atraso”.

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Gerlis de Souza e seu Sergipe Conservadores buscaram reunir pessoas que pensassem e expressassem a doutrina

REPRESENTATIVIDADE
Gerlis reafirma que a representatividade desses grupos não está atrelada a espaços partidários. “Não necessariamente tem que ser ligado a partido político. Pelo contrário, considero o grupo apartidário. Não sou filiado a partido político e não milito por nenhum, embora isso não signifique que não possa vir a ser”, diz ele.

“Mas não tenho pretensão nenhuma de me candidatar a cargo eletivo nesse momento. A nossa perspectiva é apenas a do ativismo político, cobrando da classe política que cumpra as promessas que faz”, completa.

Nesse sentido, é o que, no fundo, toda a sociedade, organizada em grupos ou não, deseja. Por isso, acontecendo ou não, já é válido o fato de os representantes desses grupos estarem mudando a forma de fazer política no Brasil e em Sergipe.

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Grupos têm pautas definidas e capacitação como norte