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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Digital influencer: uma profissão em alta

Essa nova área de atuação mercadológica movimentou, mundialmente, US$ 4 bilhões só em 2017. E deve girar US$ 10 bilhões em 2020


Anna Paula Aquino, 22,1 mil seguidores; Lívia Andrade, 103 mil; Emanuele Tourinho, Servidos, 177 mil; Sheilla Raquel, 260 mil. Com nomes, idades e personalidades diferentes, o que todos eles têm em comum é a profissão: são influenciadores digitais, junto a outros 7.500 em todo Brasil, segundo pesquisa “Raio-X dos influenciadores digitais do Brasil”, realizada pela Apex.

Com eles, surgiu uma nova área de atuação mercadológica que movimentou, mundialmente, US$ 4 bilhões só em 2017. E deve girar US$ 10 bilhões em 2020, conforme levantamento da Mediakix. Várias razões tornam o país um dos maiores do mundo no segmento, com uma capacidade imensa de expansão.

Isso porque, historicamente, os brasileiros sempre foram dos mais aficionados em redes sociais, desde o Orkut. Hoje, ocupam o segundo lugar entre os usuários que mais passam tempo nesses canais, atrás apenas dos filipinos. Isso leva as marcas a buscarem cada vez mais celebridades e influenciadores, em busca de citações em seus perfis.

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Lívia Sampaio e seu Aliviando: espontaneidade e orientações de relacionamento
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“Eu sou Anna Paula Aquino e vou te ajudar”

DEMOCRÁTICO
Isso aconteceu com o feedback “surreal” em ambas as situações: do “Vem, Tem Dica”, que continua ativo, e do perfil pessoal. Isso comprova o crescimento do mercado. “Acredito que temos públicos diferentes e pessoas que conversam especialmente para cada um”, ressalta Anna Paula.

O espaço é, claro, democrático. “Avalio que todo mundo precisa entender bem o que faz e para quem, para se dedicar e preparar um conteúdo ainda melhor”, reitera. Hoje, o que era hobby virou atuação profissional. “É uma das minhas fontes de renda e me ajuda a pagar os boletos mensais, sim”, garante.

Anna Paula acredita que toda essa liberdade precisará de regras mais claras em algum momento. “Está tudo muito solto na cabeça de quem quer contratar ainda. Por isso, não nos levam tão a sério. É necessário formalizar e ter todo seu trabalho detalhado antes de qualquer parceira ou contrato, para ter segurança”, opina.

LEGISLAÇÃO
Lívia Andrade Sampaio é advogada e influencer e conhece bem essa realidade. “Mas não é um problema para mim, porque eu sei exatamente os direitos civis e até onde podemos ir”, afirma Lívia, que usava as redes sociais como hobby, entre uma audiência e outra.  

“Sempre fui comunicativa. Dava minha opinião sobre vários temas e as seguidoras foram pedindo para ampliar. Aí o formato do Aliviando foi aparecendo”, revela. O Aliviando é um outro perfil criado por Lívia, no qual ela atua mais especificamente como mentora de relacionamentos.

Como coach, sempre usei as redes sociais para motivar as pessoas. Agora, estou ampliando isso, com os eventos e mentorias. Esse objetivo foi sendo ampliado e se tornou o meu propósito na internet: ajudar as pessoas”, analisa Lívia Sampaio.

NATURALMENTE
Lívia diz que hoje se considera uma influenciadora, e das boas, porque o estilo de vida dela acaba influenciando naturalmente, organicamente a quem a segue. “De forma autêntica, consigo passar as coisas, as marcas que uso, e aspessoas acabam sendo influenciadas”, reforça.

Esse é, para Lívia, o “pulo do gato” de quem quer atuar na internet. “Todo mundo percebe minha espontaneidade, pois quando você tem uma vida verdadeira e não precisa sustentar uma mentira, as coisas acontecem, tudo começa a dar certo. Então, vale muito a pena, desde que a pessoa goste e não faça apenas por dinheiro ou status”, pondera a advogada.

Essa exposição da vida real, claro, traz alguns problemas. “Os aspectos positivos: o reconhecimento das pessoas, a admiração, a gratidão, o grande carinho que você recebe. O negativo é que algumas pessoas se acham no direito de se meter na sua vida, de dar palpite onde não devem”, ressalta.

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Emanuele e o Servidos apresentam receitas práticas e feitas com amor

PRÓS E CONTRAS
Anna Paula Aquino também diz que a profissão, como qualquer outra, apresenta aspectos negativos e positivos. “De negativo, a falta de respeito de algumas pessoas que ainda não acreditam que isso é trabalho. Levam na brincadeira ou acham que vivemos de presentes”, comenta.

Já entre os pontos positivos, estão o carinho que recebe de diversas seguidoras na rua ou por mensagens. “Saber que ajudei de alguma forma é gratificante”, diz.

Apesar de ter se popularizado como profissão, Anna Paula admite que já sofreu algum tipo de crítica ou mesmo discriminação por estar atuando nessa área. “Antes, ficava péssima e até pensava em largar o meio, mas já acostumei. A maioria das críticas sempre é com relação ao meu peso ou em comparação a outras pessoas”, lamenta.

Nesse sentido, a internet também foi o meio encontrado para disseminar autoaceitação e autocuidado, através do perfil pessoal de consultora de imagem. “Custei a começar ou acreditar que iria fluir como fluiu. Me surpreendi muito com a repercussão do meu perfil nos últimos três anos e também vivo de parcerias feitas através dele. Busco estudar muito para falar com propriedade para as minhas seguidoras que confiam no meu nome”, reitera.

SERVIDOS?
Emanuele Tourinho é o nome por trás da marca do “Servidos”, uma página do Instagram que reúne receitas práticas e – aparentemente – deliciosas. A rede social dela também surgiu como hobby, depois do nascimento do terceiro filho e de ela ter parado de dar aulas de História na Universidade Tiradentes – Unit.

“Me vi em casa, cuidando dos afazeres domésticos e das crianças. O ‘Servidos’ nasceu como um hobby, uma forma de ter um caderno de receitas virtual para compartilhar com as pessoas”, explica Emanuele. Hoje, ele ainda é um passatempo, mas também um negócio.

“Sigo cozinhando por prazer, mas devido à visibilidade, tornar-se um negócio foi inevitável”, admite. Segundo Emanuele, a página vem sendo monetizada aos poucos. “Mas como eu tenho um nicho bem específico, busco sempre inserir parceiros com um público que dialogue com o meu, não fugindo assim do perfil do Servidos”, justifica.

VERDADE
O “Servidos” é, para Emanuele, como um filho. “A cozinha está no sangue, corre nas minhas veias. Não sou chef, sou cozinheira. Gosto da comida simples, afetiva, que abraça e aquece nosso coração. Gosto de comida nordestina e sertaneja como eu”, ressalta Emanuele, dando a receita do sucesso dela.

“Não dá para separar o pessoal do profissional, nesse caso. O que cozinho para a minha família, no dia a dia, é o que também alimenta o Servidos”, diz. Para ela, não é prudente julgar um influencer por seu número de seguidores apenas.

“Ser influenciador é transmitir verdade, opinião, buscar identificação com o público e isso os números não medem”, garante, acrescentando que a inspiração dela é absolutamente toda proveniente da família, já que todos amam cozinhar e

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Sheilla Raquel é a “miga sua louca” mais conhecida de Sergipe

MAIS QUE NÚMEROS
Sheilla Raquel também é formada em Direito, mas trabalha exclusivamente com a rede social. Ela começou em 2011, quando aproveitava os intervalos dos estudos para concurso para falar sobre moda.

Hoje, é a digital influencer com mais seguidores em Sergipe: são 260 mil pessoas acompanhando e observando tudo o que ela publica na internet. Onde chega, é conhecida e ouve logo um “miga, sua louca”, seu bordão.

Apesar da quantidade de seguidores, assim como Emanuele, Sheilla concorda que não dá para medir um influenciador apenas por seus números. “Não funciona mais. O que faz alguém que atua na internet de fato ser influenciador é a relevância dele para o público”, atesta.

MERCADO
Segundo ela, hoje as agências já contratam pequenos influenciadores para trabalhos específicos, atingindo, assim, um público maior e mais engajado. De fato, por terem um engajamento maior e serem mais baratos para as empresas, os microinfluenciadores são uma forte tendência de mercado.

Hoje, 74% dos consumidores se orientam por meio de suas redes sociais para realizar uma compra, de acordo com estudo realizado pela Sprout Social, e, segundo a Nielsen, 84% dos consumidores tomam decisão com base nas opiniões de fontes confiáveis como os influenciadores digitais.

Além disso, de 2016 para 2017, o tempo gasto pelos brasileiros na internet dobrou: foi de oito horas semanais para 16 horas semanais. De olho nesses dados, as empresas apostam forte nos influenciadores.

INFLUENCER, SIM
“As pessoas dizem que eu as influencio e isso hoje é minha profissão. Não a trocaria por um concurso, embora não tenha a estabilidade. Mas tem a felicidade de trabalhar com o que amo”, comemora.

Sheilla também concorda que o fato de ser quem é, de não tentar mascarar, agrada o público. “É benquisto quem se mostra de verdade. Sou espontânea e carismática, sei passear por todas as tribos. Isso acaba conquistando as pessoas”, resume.

Sheilla Raquel chegou a usar sua popularidade nas redes para tentar um mandato de deputada estadual em 2018, pelo PSB. Obteve oito mil votos. Mas, hoje, não pensa em seguir por esse caminho. “Não quero mais”, diz.  

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Leila Costa: “público está mais exigente. É preciso se profissionalizar”

MERCADO
Leila Costa é formada em Consultoria de imagem e estilo e em produção de moda. Na época, ela assessorava o trabalho de Sheilla Raquel. Ela diz que, por ser um nome novo, sem tradição política, Sheilla se saiu muito bem e que a política é um segmento que também demanda influenciadores.

“A política usada da maneira correta muda a sociedade, mas infelizmente não é o que ocorre. Por isso, dá para misturar as duas atuações, porque ambos acabam prestando serviço à sociedade”, avalia Leila Costa. Ela vê a profissão de digital influencer como uma das que movimentam a economia no momento, gerando emprego e outros benefícios.

“Não é lazer ou brincadeira, como a maioria pensa”, ressalta. E ela tem propriedade para falar, já que atua com o segmento desde 2007, quando já havia um movimento digital. “Como eu trabalhava à frente de equipes de vendas, uma das formas de prospectar era através do MSN e do Orkut (as redes sociais da época)”, lembra.

NOVO MOMENTO
Nesse período, Leila já percebia que essa era uma ótima forma de fazer comunicação não presencial e de converter essa comunicação em venda. A diferença é que, naquela época, não era necessário uma “persona” dando voz ao produto, como hoje. “Houve uma ascensão desse trabalho de influenciar digital e muita gente ainda fica perdido, mesmo tendo o dom de se comunicar”, afirma.

Aí que entra a consultoria de Leila. “Faço uma produção executiva da carreira e também presto assessoria em moda, porque a pessoa precisa se profissionalizar, ter boa oratória, postura, saber apresentar o produto, além de gerir os negócios, se receberá cachê ou permuta, etc”, explica.

Ela confirma: Sheilla Raquel é um grande case de sucesso em Sergipe. “Não é só pelo número de seguidores. Ela hoje é um nome forte, que está na rua 24h e faz muita influência off line também, que é tão importante quanto, porque há muitas pessoas com boa audiência em outros Estados e que aqui ninguém conhece”, analisa Leila.

Por isso, segundo Leila, é preciso trabalhar o nome do influencer para que ele, primeiro, seja uma referência em sua cidade, seu Estado. “Quando começar a bombar fora, será um reflexo natural”, diz ela. Leila cuida, atualmente, de cinco influencers e tem a receita para o sucesso.

“Acreditar, se profissionalizar e estudar. Se gosta de falar de tecnologia, se especializa nessa área; se gosta de moda, a mesma coisa. O público hoje está mais exigente, então, tem que ter conteúdo. Fala rasa não dura. Quanto mais autêntico e genuíno, mais o público percebe e gosta”, garante.

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Com um celular, é possível acompanhar quase em tempo real tudo que um influencer faz