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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Direita e esquerda se digladiam “pelo bem do Brasil”

►Tati Melo
ESPECIALMENTE PARA O JLPOLÍTICA
Publicado em 15 de abril de  2018, 20:00h

Com a expansão do uso das redes sociais e o impeachment de Dilma Rousseff, diversos movimentos políticos, principalmente da direita, surgiram no país

Os ideais políticos, a polarização entre a direita e a esquerda, mais do que nunca estão fortes e presentes no Brasil, principalmente após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e a recente prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do PT. Ao longo de 13 anos, os dois comandaram a Presidência do país que, pela primeira vez na história, foi ocupada por um partido originário das lutas dos trabalhadores, de uma histórica militância de esquerda e por uma mulher.

Historicamente, os movimentos da direita acreditam que a sociedade alcança um melhor resultado quando os direitos individuais e as liberdades civis têm prioridade e o poder do Estado é minimizado, sendo, por exemplo, contra o assistencialismo social e defensores da autonomia das empresas, com menos impostos e menos regulamentação.

Já os movimentos de esquerda, historicamente, são liderados por trabalhadores, assalariados, e acreditam que a sociedade desenvolve melhor quando o Governo tem um maior papel, garantindo direitos, como saúde, segurança, educação, e promovendo a igualdade entre todos. É, por exemplo, a favor do assistencialismo social.

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Para Rodorval Ramalho, cientista político, a polarização entre direita e esquerda no Brasil atualmente é extremamente saudável
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Para Josadac dos Santos, cientista político, quando o confronto de ideias entre direita e esquerda atinge relacionamentos não é saudável

“DIREITA COMO SOLUÇÃO”

Na visão de Rodorval, a crise político-econômica encadeada no Brasil tem como um dos principais fatores os 13 anos do PT na Presidência. “A alvissareira emergência de uma direita democrática é fundamental para sairmos desse subdesenvolvimento, que é, sobretudo, mental. Até pouco tempo, ser da direita por aqui era uma anomalia”, afirma.

O sociólogo destaca o surgimento de grupos da direita no Brasil como um avanço. Uma “solução”. “Eles estão trazendo três grandes contribuições ao debate: na economia, os valores liberais, o apoio ao mercado; no campo dos comportamentos, os valores conservadores, a família, patriotismo, ordem; e, na política, valores democráticos, democracia representativa, federalismo, independência dos poderes”, elenca.

Já o também sociólogo, cientista político e professor da UFS Josadac dos Santos tem uma visão diferente com relação à briga entre direita e esquerda no Brasil. “Com certeza, essa polarização só prejudica, porque isso tenciona conflito e quando um conflito chega ao ponto de gerar algum tipo de interferência na vida das pessoas, principalmente nas redes sociais, nas amizades, nos relacionamentos, enfim, isso não é saudável”, afirma.

LIBERDADE DAS REDES SOCIAIS

Quem é assíduo nas redes sociais, principalmente no Facebook, Twitter, sabe que estes espaços se transformaram num verdadeiro campo de batalhas - “coxinhas”, direita, vs “mortadelas”, esquerda, onde todos são “entendidos” do assunto, saíram do armário sem se preocupar com o outro, sem se precaver se sua opinião chega a ser ofensiva ou não.

“Nas redes sociais, as pessoas têm bastante liberdade para expor suas ideias sobre partido, política, aliadas à rapidez da disseminação da informação. As pessoas expõem todos seus pensamentos, ideais políticos de forma muito rápida e isso acaba acarretando um debate, um diálogo”, explica Italo Emanuel Bispo, proprietário de uma agência de marketing digital.

Contudo, para o sociólogo Josadac deve haver limites. Não é com extremismos, hostilidades que se deve pensar a política. “Os agentes políticos têm, às vezes, suas posições, atitudes completamente polarizadas. Bolsonaro de um lado, Lula de outro. A gente sabe que a política tem esses radicalismos. Mas isso não deve ser motivo para chegar ao ponto de prejudicar os próprios relacionamentos entre as pessoas. A meu ver, esse é o maior prejuízo dessa atual briga de ideologias”, afirma.

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Flávio Oliveira, coordenador da Direita Sergipana: “defendemos um Estado mínimo que atue apenas onde é necessário”

“DIREITA NOVIDADE NO BRASIL”

Como destacou o sociólogo Rodorval Ramalho, o Brasil, e Sergipe não fica de fora, nos últimos anos viu surgir - com ajuda das redes sociais - uma série de movimentos da direita, a exemplo do Movimento Brasil Livre - MBL -, Movimento Direita Sergipana, Movimento Brasil 200, entre outros. Todos originados no pós-2014, quando a ex-presidente Dilma foi reeleita, e conflagrados durante o processo de impeachment.

Nesse período, instalou-se de vez no país a polarização, capitaneada, sobretudo, pelo eleitorado anti-PT. “Após a saída do PT do poder, vimos a oportunidade e a necessidade de criar um movimento que fosse de fato da direita e se mobilizasse não apenas em torno de uma causa pontual, como o impeachment, mas em torno das ideias que acreditávamos e, a partir delas, construir soluções e um projeto diferente para Sergipe”, explica Flávio Oliveira, coordenador do Movimento Direita Sergipana, que foi criado em 2016.

O Direita Sergipana crê que a polarização direita e esquerda é normal quando se há um campo aberto para o debate de ideias. “Nos Estados Unidos sempre existiu direita e esquerda, conservadores e progressistas, e eles se alternam no poder”, afirma Flávio. Segundo ele, se há espanto e preocupação por parte de muitos com relação às rixas é porque o pensamento da direita é novidade no Brasil.

DITADURA MILITAR

Entre as justificativas usadas pelo Direita Sergipana para explicar à jovialidade do “pensamento da direita” estão as opiniões equivocados a respeito da ditadura militar. “Muitos acreditam que o regime militar foi de direita, mas foi estatista. Criou empresas estatais, aumentou a dívida pública. A única característica de direita foi a preservação de valores conservadores”, explica o coordenador.

Segundo Flávio, se declarar da direita no Brasil se tornou motivo de xingamento, sinônimo de representação de tudo aquilo que é mal. “O fato de ter sido rotulado como uma ditadura de direita acabou criando nas pessoas um medo de tudo que é associado ao pensamento da direita. Isso foi consequência do processo de hegemonia cultural, da ocupação de espaços nas escolas e universidades por parte da esquerda”, informa.

Para o coordenador da Direita Sergipe, só a partir das grandes manifestações de 2013 que tal realidade começou a mudar no Brasil e muitos movimentos que iam de encontro ao pensamento esquerdista começaram a surgir. “As redes sociais e a internet foram sem dúvida um impulso fundamental para que isso acontecesse. E hoje chegamos ao ponto onde de fato a uma quebra da hegemonia de ideias e opiniões”, ressalta.

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Lúcio Rocha, coordenador do Brasil 200: “entendemos que viemos da esquerda e não queremos mais”

CONTRA MOVIMENTOS SOCIAIS

O Direita Sergipana defende ideais baseados no pensamento liberal/conservador.  “Defendemos um Estado mínimo que atue apenas onde é necessário, sistema de justiça, segurança pública, saúde e educação. Nestes dois últimos, entendemos que ação pode ser de forma indireta. Somos a favor do mérito e contra as cotas, da liberdade de expressão ao invés do politicamente correto”, diz.

O Direita Sergipana é também declaradamente contra qualquer movimento coletivista, a exemplo do Movimento Negro, LGBT, Feminista, Ambientalista, até mesmo, dos sindicatos. “Somos contra qualquer um que busque tolher a liberdade de outros indivíduos ou que queira aprovar leis que beneficiem apenas seu próprio coletivo em vez de toda a sociedade, por exemplo a Lei do Feminicidio”, afirma Flávio.

Instituído este ano, outro grupo da direita quem vem ganhando força no país é o Movimento Brasil 200 formado, sobretudo, por empresários. Em menos de 30 dias ultrapassou a marca de 100 mil seguidores nas redes sociais. O agrupamento foi idealizado pelo presidente das lojas Riachuelo, Flávio Rocha, diante de uma grande indignação, conforme explica seu xará, o empresário Lúcio Flávio Rocha, coordenador do movimento em Sergipe.

REVOLTA DE EMPRESÁRIOS

O Brasil 200 - o número é uma alusão aos 200 anos de independência do Brasil em 2022 - brotou da mente do presidente da Riachuelo após sua empresa ser alvo de uma ação e uma multa milionária do Ministério Público do Trabalho, por supostamente diminuir os direitos trabalhistas de trabalhadores de facções de costura terceirizadas de cidadezinhas do semiárido do Rio Grande do Norte, através do programa social da rede de lojas, o Pró-Sertão.

“A Riachuelo gerou emprego, renda, imposto em minúsculas cidades sem vocação econômica nenhuma, com habitantes que viviam de assistencialismo, bolsa família ou cabide de emprego público, que eram massas de manobra eleitoral. Através do Pro-sertão, ao invés de comprar produtos têxteis importados, a rede passou a adquirir de cooperativas e associações, após criar oficinas de corte e costura”, explica o coordenador do Brasil 200 em Sergipe.   

“As pessoas já não dependiam mais do bolsa família, favor de político. Começaram a comprar motos, abrir mercearias, salões, a prosperidade chegou nessas cidades. Então, o poder público, ao invés de aplaudir, de apoiar se voltou contra o projeto, aplicando uma multa milionária, afirmando que se caracteriza como trabalho escravo e que a Riachuelo deveria pagar direitos e obrigações trabalhistas”, informa Lúcio Rocha.

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Para Antônio Júnior, coordenador do MBL Sergipe, discutir política faz parte da democracia

“SALVAÇÃO” DO BRASIL

A partir desse fato, deflagrou-se no presidente da Riachuelo a iniciativa de questionar o real papel do Governo no país. “O Estado nada produz, só nos suga com uma carga tributária absurda, não produz absolutamente riqueza nenhuma e quando a gente produz ou se propõe a produzir para terceiros, ele vem e sufoca, multa, constrange, oprime. Está muito errado. A gente precisa mudar isso”, relata coordenador do Brasil 200 em Sergipe.

“Como o Flávio Rocha sempre fala: ‘a classe de políticos do Brasil se resume a 2% e esses 2% estão oprimindo, aterrorizando 98% da população silenciosa. O Brasil 200 é um movimento que tem como projeto demonstrar a nossa insatisfação através da sociedade civil, saindo da passividade, do conforto dos nossos lares para assumir o protagonismo das rédeas do nosso país”, destaca Lúcio Rocha.

Para o Brasil 200, os ideais da direita é “salvação” do Brasil. “Entendemos que para reconfiguração o Brasil tem que ser da direita na política, liberal no mercado e conversador nos costumes e valores sociais. Esse é o nosso tripé de essência. Estamos vindo exatamente o contrário disso nos últimos anos de Governo e enfrentamos umas das piores crises da história. Entendemos que viemos da esquerda e não queremos mais”, diz o coordenador.

PELO BEM DA DEMOCRACIA

Segundo Lúcio, o Brasil se politizou nos últimos anos. Para ele, a polarização nem é prejudicial e nem saudável. “É uma verdade que precisa ser confrontada. Há uma necessidade de se discutir política. Até então, éramos um gigante adormecido, passivo, em que muitas vezes o brasileiro se furtava de discutir política. A gente tinha a máxima que ‘política, religião e futebol não se discute’”, afirma.

Da onda recente de movimentos de direita, o MBL é um dos mais antigos no Brasil e também tem voz entre os sergipanos. “O Movimento Brasil Livre em Sergipe surgiu em 2015 e nosso objetivo é promover as ideias do livre mercado, onde se tem liberdade para trabalhar e empreender sem a interferência do Estado. Defendemos também ideias conservadoras nos costumes”, afirma Antonio Souza Monteiro Júnior, coordenador do MBL em Sergipe.

O MBL também vê como bons olhos toda divisão de lados entre direita e esquerda. “Faz parte da democracia. Isso faltava em nosso país. Antes de 2013 só falávamos em futebol com os amigos, hoje falamos em futebol e política. Essa polarização traz o interesse individual em escolher um lado, é saudável enquanto permanecer no campo das ideias. Ela se torna prejudicial quando se ataca fisicamente ou moralmente uma pessoa por pensar diferente”, ressalta o coordenador.

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Professor Dudu, presidente da CUT Sergipe: “quem é da direita e quem é conservador tem que se assumir”

Para a esquerda, atual momento é de “caça às bruxas”

Para a Central Única dos Trabalhadores - CUT - principal entidade de representação sindical do Brasil e ferrenha defensora dos ideais da esquerda - é impossível não ter polarização entre direita e esquerda, visto que se tratam de interesses antagônicos. O presidente da entidade em Sergipe, Rubens Marques, o professor Dudu, vê como saudável quando o brasileiro assume seus pensamentos políticos.

“O que tinha antes no Brasil na verdade, nos outros anos, era uma camuflagem de uma luta de classes. Acho positivo quando as pessoas se assumem. Quem é da direita e quem é conservador tem que se assumir. Assim como somos de esquerda e acendemos estratégias do socialismo”, ressalta o presidente da CUT em Sergipe.

Quando se fala em esquerda no país, considerando o atual momento, é natural que o PT e Lula saiam em todas os discursos de seus defensores. “O impeachment de Dilma e a prisão de Lula mostram exatamente uma luta de classes às claras, onde a classe dominante, que espoliou o Brasil a vida inteira, não aceita que o representante da classe trabalhadora seja o dirigente máximo do Brasil, por isso, o trancafiaram. Não é nada de corrupção”, diz professor Dudu.

PT NO COMBATE À CORRUPÇÃO

Uma das grandes iras à esquerda, ao PT no Brasil, entre aqueles contrários, é o fato da corrupção ter se disseminado e vindo à tona justamente durante o Governo do Partido dos Trabalhadores. Mas, para o presidente da CUT em Sergipe, o país só começou a ter combate à corrupção, justamente, por conta do Governo Lula.

“Os corruptos sempre estiveram aí. Mas qual é o problema? Fernando Henrique e todos os outros presidentes colocavam um orçamento para a Polícia Federal irrisório. Então, primeiro, Lula deu autonomia, não indicou ninguém para superintendente do órgão, e deu orçamento para que pudesse se movimentar pelo país inteiro e atuar como deve atuar”, salienta professor Dudu.

“Agora, como a direita não tem como derrotar Lula, colocam a questão da corrupção e da honestidade na sua pauta. Aqui não tem honestidade nem no judiciário, você imagine na política. Essa questão de combate à corrupção não deveria ser nem pauta. Isso é obrigação”, afirma Dudu. Para ele, assim como para a maioria dos simpatizantes da esquerda, prisão de Lula nada mais é que um ato político para extirpar a esquerda do poder do país.

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Ana Lúcia, deputada estadual, PT: “queremos o respeito e tolerância com as diferenças”

INCONFORMISMO DA DIREITA

“O que eles não querem é a retomada do projeto que estava em curso. Pelo contrário, a classe dominante, a direita perversa quer recolonizar o Brasil. Por isso, o que eles querem é inviabilizar Lula para a próxima eleição. A vitória de Lula é a retomada daquela inversão que aconteceu no segundo mandato de Dilma, é a inclusão social”, desabafa o presidente da CUT.

Para Dudu, a direita nunca se conformou com a presença de um líder sindical, sem ensino superior, vindo das camadas mais pobres, no poder do Brasil e ficou mais hostil ainda após a derrota de Aécio Neves para Dilma em 2014. “Uma camada da sociedade que foi derrotada, por não aceitarem, tentaram inviabilizar o Governo. Isso ficou cristalizado na fala de Aécio Neves. Assim que perdeu ele disse que não ia reconhecer a derrota e que havia fraude no processo”, diz.

Deputada estadual pelo PT por várias legislaturas, Ana Lúcia comunga do mesmo pensamento do presidente da CUT. “Essa disputa direita e esquerda sempre existiu. O que acontece é que hoje as forças da esquerda avançam e vão para a disputa pública. Antes não iam. Quem ocupava as ruas eram as forças progressistas, trabalhadores organizados através dos sindicatos, moradores em busca de casa com dignidade, emprego”, explica.

“Hoje em dia, a luta de classe é acirrada e existem dois pontos de conflitos. Os conservadores querendo manter o caos que está estabelecido no país, e as forças progressistas querendo manter a democracia, exigindo a retomada dos direitos que foram retirados das classes trabalhadoras e das camadas sociais e a retomada dos princípios e respeitos da nossa constituição”, afirma Ana Lúcia.

“JUSTIÇA DA DIREITA”

Na opinião da petista, os grandes conglomerados de comunicação contribuíram para disseminação de aversão contra esquerda e, sobretudo, para a prisão de Lula. “A Globo foi a maior incentivadora de colocar essa visão conservadora fascista, que está atingindo todas as forças progressistas, porque esse ódio, essa intolerância está afetando a nossa democracia, está influenciado nas decisões de parte da justiça brasileira”, afirma a deputada.

Ana Lúcia lembra que, até anos atrás, boa parte da população não tinha acesso às universidades nem públicas e nem privadas e, por isso, a justiça e o Ministério Público são compostos por uma elite brasileira que compartilham, sua maioria, com os ideais da direita. “Então, parte do Judiciário e do Ministério Público tem uma visão bastante elitista, preconceituosa, autoritária, outra parte não”, diz.

Para a deputada, a política de implantação e ampliação de instituições de ensino superior promovidas pelo Governo Lula instaurou essa hostilidade. Ela afirma que é necessário combater o ódio que a classe dominante tem com relação à esquerda, aos menos favorecidos. “Queremos o respeito e tolerância com as diferenças”, frisa.