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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Direita X Esquerda: para onde nossas escolhas nos levam?

Nesse cenário de polarização política acirrada, entender como se desenvolve a ideologia político-partidária que defendemos é fundamental


Direita e esquerda. O Brasil está dividido entre essas duas vertentes políticas basicamente, mesmo com alguns estando mais ou menos próximos delas. A polarização é uma realidade e tem dominado o debate político em seu sentido mais amplo – não apenas no partidário. Mas o que leva um cidadão a se definir por um ou outro lado político? O que conta e pesa na hora de definir-se de esquerda ou de direita?

Rodorval Ramalho, doutor em Ciências Sociais, professor do Departamento de Ciências Sociais e do Núcleo de Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Sergipe – UFS –, afirma não conhecer pesquisas que indiquem as variáveis determinantes nessa escolha específica. Mas conhecer os conceitos de cada vertente pode ajudar nessa definição.

“Ao contrário do que pensam algumas pessoas, essas categorias ainda são muito importantes nos dias que correm. Não que elas expliquem tudo, de forma alguma. Mas, servem de parâmetro para analisar o espectro ideológico (vamos chamar assim) brasileiro”, esclarece Rodorval Ramalho.

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Escolha de ideologia político-partidária envolve diversas variáveis
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Rodorval Ramalho defende que os critérios para o

HISTÓRIA
Quando relacionados à política, os termos esquerda e direita tiveram origem no século XVIII, durante a Revolução Francesa, e fazem alusão aos arranjos de assentos na Assembleia Nacional Francesa: os que se sentaram à esquerda do presidente parlamentar apoiaram a revolução, se opondo à monarquia, sendo, portanto, favoráveis à uma mudança radical, que iria levar ao fim da monarquia e dar mais poder ao povo. Por isso, essa ideologia é relacionada à a luta dos trabalhadores ainda hoje.

Já aqueles que se sentaram à direita, apoiaram o antigo regime monarquista. Quanto mais forte a sua oposição à mudança e seu desejo de preservar a sociedade tradicional, mais à direita eles estariam. A tradição, a religião institucional e a privatização da economia foram considerados os valores fundamentais da direita.

Com o passar dos anos, essa divisão entre direita e esquerda foi ficando mais complexa, pois novas demandas e interesses foram surgindo. Assim, os conceitos de direita e esquerda já não eram suficientes para definir os ideais políticos dos partidos, fazendo surgir outros partidos e posições – embora elas tenham relação com a direita e a esquerda.

CONCEITOS
Marcelo Ennes, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Sergipe – UFS – acredita que a concepção dessa ideologia político-partidária leva em conta diversos fatores – família, amigos, escola. Mais que isso: “é resultado do cruzamento disso tudo”, diz ele. O professor esclarece que cada um reage de maneira diferente a essa vivência, o que resulta em um modo igualmente diverso de encontrar um denominador em toda essa vivência.

“O resultado será sempre dependente de como cada um sintetiza as influências”, define. Apesar disso, aquele conceito oriundo na Revolução Francesa ainda faz sentido: a direita continua ligada ao conservadorismo, “querem manter as coisas como estão”, diz Ennes; e a esquerda é progressista, “ligada a mudanças”, acrescenta Ennes.

O sociólogo destaca uma definição dada recentemente por Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e eleito senador do país nas eleições desse mês. “Ele diz que a direita se caracteriza pelo individualismo, com uma preocupação centrada no mérito pessoal, liberdade pessoal, onde o Estado a cercearia; a esquerda, por sua vez, é associada a pessoas mais preocupadas com a coletividade, e que, nesse raciocínio, o Estado tem o lugar de produzir regras e redistribuir riquezas”, revela.

POLARIZAÇÃO
Esse sentimento de pertencimento gerou uma polarização tão intensa quanto preocupante e, segundo Rodorval, se deve à emergência do pensamento liberal e conservador no espaço público. “Desde o final do regime militar, os segmentos de esquerda e centro-esquerda dominaram o debate. A Constituição de 1988 e os cinco governos do PSDB-PT expressam essa hegemonia”, analisa.

De acordo com ele, esses dois segmentos falavam “sozinhos” ou tinham como antagonistas apenas aqueles políticos fisiológicos, que eram colocados na “conta” da direita, embora fossem meros arrivistas e patrimonialistas. Esse cenário mudou. “Agora, sim, começamos um debate que envolve cosmovisões bem diferentes do que havia no mercado de ideias até pouco tempo”, opina.

Nesse sentido, para Rodorval, um dos inúmeros problemas da democracia brasileira era a inexistência de partidos de direita democráticos. “Não havia um só caso como esse no mundo ocidental”, reitera. Ou seja, não havia um sistema político em que não há partidos que vocalizem os interesses liberais e conservadores no debate público.

DEBATE
Do ponto de vista estrutural, foram as redes sociais o fator decisivo para a emergência dessa “maioria silenciosa”, que não identificava ninguém que a representasse. “Do ponto de vista dos atores, identifico o aparecimento de vários intelectuais, liberais e conservadores, como “fonte de abastecimento” de ideias para aqueles que queriam participar do debate e enfrentavam limitações intelectuais”, explica

De acordo com ele, a explosão editorial de autores alinhados com essas perspectivas mostra a sede de conhecimento desses atores emergentes. “É claro que entre o preto e o branco existem vários tons de cinza. Porém, a existência de cosmovisões muito distintas nos polos desse espectro é bem visível aos olhos do bom observador”, reconhece Rodorval.

Para Ennes, de fato, no Brasil recente, ser de direita era uma ideia difícil de ser assumida. “As pessoas mais poderosas não utilizavam essa nomenclatura de modo aberto, ficava implícito nas ações, nas atitudes, no que defendiam como lei, no caso dos políticos. Mas, dentro desse cenário, se você combate um lado, você afirma o outro: se eu digo que os esquerdistas estão errados, eu preciso do lado afirmativo. E como a esquerda foi associada ao mal, a direita capitaliza em torno disso”, analisa.

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Marcelo Ennes acredita que ela é resultado do cruzamento de diversos fatores

PROJETO
De acordo com Marcelo Ennes, no caso especifico do Brasil, a polarização foi produzida artificialmente, já que, após a redemocratização houve uma sequência de governos diferentes no discurso e parecidos na prática. “Com a grande diferença de que, nas universidades federais, onde trabalho, Fernando Henrique Cardoso teve uma política de diminuição de investimentos, o que produziu certo sucateamento. Já o governo de Lula fez o Reuni, que ampliou significativamente a rede de universidades no país”, compara.

Aqui, segundo ele, essa polarização foi produzida para mudar a disputa entre PT e PSDB, que já vinha de mais de 16 anos, e acontece em cima de um sentimento de ameaça, disseminado entre a classe média, que repercutiu na população e foi decisivo para a mudança no cenário político.

“Questões relacionadas às pautas das identidades, como sexualidade, gênero e etnia, avançaram e produziram um sentimento de insegurança na população que temia perda de status e de privilégios. Foi arquitetado um grande projeto político de maneira a deslocar o debate para essas questões morais, identitárias, de maneira que desse espaço para uma candidatura de extrema direita. A prova é a vitória de Bolsonaro”, argumenta.

FATORES
Por isso, para o professor, hoje, existe um elemento que parece determinante na construção do perfil político-partidário: o ressentimento. “Pessoas ressentidas, que acham que determinada linha política tirou direitos ou privilégios delas e isso se tornou um ingrediente muito forte, assim como o medo, que, combinados, geram o ódio”, enfatiza. 

Mas não é só. Para Ennes, a concepção dessa ideologia também leva em conta diversos fatores – família, amigos, escola. Mais que isso: “é resultado do cruzamento disso tudo”, diz ele. O professor esclarece que cada um reage de maneira diferente a essa vivência, o que resulta em um modo igualmente diverso de encontrar um denominador em toda essa vivência. “O resultado será sempre dependente de como cada um sintetiza as influências”, define.

No âmbito do Direito Eleitoral, esse resultado, que consequentemente desemboca nessa polarização, também é visto com preocupação. O advogado Jefferson Feitoza de Carvalho Filho, pós-graduado em Direito e Processo Civil, Direito Eleitoral e Gestão Municipal e presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB, entende que esse processo, até então não percebido de maneira tão forte, ao menos no atual período democrático que passa o país, passa pela falta de amadurecimento para o debate por parte da população.

‘TOMANDO PARTIDO’
“Acresce-se à falta de amadurecimento a chegada de muitos meios de informação, que muitas vezes desinformam, por serem apresentados sem qualquer base, sem preocupação com os dados, sem checagem, com  informações, inclusive, inverídicas, formando as chamadas “Fake News”, que estão tão em evidência, preocupando todos os envolvidos na sistemática eleitoral do país”, avalia Jefferson Feitoza.

E assim como existe muita facilidade à informação, os dias atuais proporcionam, também, muita facilidade à expansão dessas informações por meios de redes sociais, sem que haja qualquer filtro por parte de quem recebe e, por vezes, repassa a informação incompleta ou mesmo falsa.

Para Jefferson, o que tem acontecido é que as pessoas vêm tomando lado, ou partido, como diz o ditado, porém, o que importa para elas é somente o que é do seu próprio interesse, fechando as portas para o debate, o que vai colocando cada um em sua própria bolha.

DIREITO ELEITORAL
“É verdade que temos, ainda, uma recente democracia e o interesse da população pela política, por verificar e cobrar os atos dos políticos, por acompanhar o desenvolvimento do país, da sua comunidade, trará o amadurecimento necessário ao bom debate, à boa análise”, acredita.

De acordo com ele, é necessário, para o bem da democracia e do país, que os cidadãos, principalmente os que estão nos polos políticos, deixem os seus conceitos já constituídos e observem erros e acertos de uma forma geral. “Que permitam-se ouvir, para poderem ser, também, ouvidos, analisando o todo e não somente o que melhor lhes convém”, ressalta Jefferson Feitoza.

Isso porque, para o advogado, este cenário é contraproducente no que se refere à democracia, pois faz com que as pessoas não busquem ouvir o lado contrário, não busquem checar as informações que chegam, tomando com verdades absolutas as suas impressões, o que afasta a possibilidade do debate, até mesmo do diálogo, em alguns casos.

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Jefferson Feitoza vê a polarização com preocupação e a falta de amadurecimento para o debate como a causa dela

DEMOCRACIA
De acordo com o especialista, há fatores claros que levaram ao atual cenário polarizado, como, por exemplo, a descrença na política e nos políticos, o direcionamento de notícias e a falta de debate e análise sobre o tema. “Tudo isso formou torcedores e não cidadãos, levando muitos a não analisarem pessoas, a não analisarem ideias, a não analisarem propostas, interessando somente desbancar o “grupo inimigo””, ressalta.

Para Feitoza, a polarização política ataca de forma veemente a democracia, pela repulsa que se afigura ao debate, à análise dos fatos, valorizando-se o embate ao invés do debate. Mas não deveria ser assim. O advogado acredita que há uma soma de fatores que contribuem para a identificação política de cada pessoa, sendo que o maior destaque é o meio em que ela vive, aliado às suas percepções de formação e às informações consumidas.

“Sem dúvida, o meio contribui para a identificação pessoal acerca de determinada vertente política, até mesmo por vivermos em grupos, por haver a necessidade de aceitação pelo grupo, pela formação domiciliar e, também, pela educação formal”, destaca.

PSICOLOGIA EXPLICA?
A psicóloga Isabela Maria do Nascimento Macêdo explica que a personalidade humana  é formada por questões biológicas, mas também pelo meio em que vive, através de observações, de acordo com que lhe ensinado assim como da cultura a qual está inserido, e ainda por suas próprias experiências de erros e/ou acertos. "Existe um conjunto de fatores que influencia para formar um tipo de caráter em todos os aspectos, até mesmo quanto a identidade ideológica-política", esclarece Isabela Macêdo.

Mas, para a psicóloga, é complexo afirmar qual aspecto seja mais incisivo na formação de uma definição partidária, visto que o ser humano é um ser social, que se relaciona a todo o tempo, mas também seres individuais, únicos e, por isso, cada um pode resultar em diferentes comportamentos de acordo com as crenças, que acabam, por identificação ou não, sendo assimilados.

"O ser humano é fruto de fatores diversos, somos seres biopsicossociais, tanto fisicamente quanto ao sócio emocional de cada um. É fato que geralmente existe uma influência familiar forte, consistente, mas vamos lembrar que uma família possui divergências, conflitos e não algo que seja totalmente consensual. Desse modo, há, mesmo no seio familiar, diferentes gostos, torcidas, entre outros. Prova disso é o fato de futebol, religião e política serem temas polêmicos", justifica.

ADAPTÁVEL
Isabela Macêdo também destaca que as escolhas do ser humano são, portanto, imprevisíveis, além de estarem sujeitas a modificações a qualquer tempo. "O ser humano é adaptativo em todos os aspectos e nada o impede de realizar mudanças", reitera. Essas mudanças, segundo a psicóloga, podem ocorrer em qualquer idade, embora na infância as pessoas estejam mais sujeitas a seguir a ideologia dos pais.

"Depois, é comum ver outros posicionamentos. Isso ocorre durante o amadurecimento, onde poderá manter ou migrar", explica. Isabela Macêdo diz que, nos últimos anos, o mundo tem vivenciado um cenário diferente - e porque não dizer assustador -, pois iniciou uma onda de polarização no posicionamento político e ideológico, que, para ela, tem feito brotar atitudes radicais.

"Essas atitudes expõem, em muitos momentos, o pior que nós humanos temos: a ação, reação, irracional, ignorando quase que plenamente o fator diferencial dos demais seres, a capacidade de pensar, analisar e assim conseguir fazer escolhas, sem ter que agir instintivamente", analisa Isabela.

ESQUERDA
Durval Siqueira Sobral, estudante de Direito pelo PróUni, é dirigente do Levante da Juventude, um movimento declaradamente de esquerda. No caso dele, a posição política foi herdada dos pais, militantes na década de 80/90, durante a redemocratização. Segundo Durval Siqueira, ambos vivenciaram a experiência da fundação da CUT, do MST, do PT, a campanha das “Diretas Já” e a ascensão das lutas operárias.

"De maneira direta, sofri a influência deles, mas não foi isso que determinou meu envolvimento", assegura. "Quando era estudante secundarista no Instituto Federal de Sergipe, passei a me envolver nas questões daquele local, como a falta de auxílio-alimentação, de professores, e outros. Consequentemente, participei de duas eleições de grêmio estudantil. No entanto, não me organizava em nenhum movimento ou coletivo, era “independente”", relata.

Isso mudou quando ocorreram as “jornadas de junho-julho de 2013”, em que a questão central eram os aumentos das tarifas de transporte público. "Essa luta era muito cara para mim. Naquele tempo, morava na zona de expansão de Aracaju e vivia indignado com a situação do transporte público. Senti a necessidade de pertencer a algum coletivo, pois percebi que sozinho não se vai muito longe e que as movimentações de massa podiam incidir na nossa vida e incidir na história de um país”, lembra.

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Isabela Macêdo garante que é complexo afirmar o que de fato incide sobre escolhas políticas

ESQUERDISTA
Foi aí que participou do “1° Acampamento Estadual do Levante Popular da Juventude de Sergipe” em 2014, onde milita desde então. “A definição que hegemoniza a esquerda é a “reformista”. No sentido do abandono da via revolucionaria. Ou seja, a maioria das organizações de esquerda no Brasil crê que reformas graduais ou melhoramentos são as contribuições que temos que dar. Obviamente essa hegemonia ideológica se manifesta de maneira complexa e diversa, mas ela é predominante”, resume Durval.

Ele ressalta que a esquerda brasileira possui uma história muito rica, temperada pelas lutas por soberania nacional, por reformas estruturais, lutas contra o nazifascismo, a ditadura militar e contra o entreguismo. “Lutas por uma revolução brasileira”, orgulha-se. “Acumulamos vitorias, derrotas e lições”< acrescenta.

No entanto, Durval acredita que a esquerda abandonou uma premissa básica: a de no Brasil existe luta de classes e que é possível romper essa opressão preparando as classes trabalhadoras para tomar e transformar o poder. “Há um ditado que diz “pior do que não saber o que fazer é não fazer o que se aprendeu””, comenta.

NOVA ESQUERDA?
Ou seja, para ele, a esquerda brasileira hoje, para não dizer a mundial, está em franca crise teórica e ideológica. “Abriu-se um período de reorganização das forças de esquerda no mundo, em que terão que repensar a sua atuação na conjuntura atual e nas futuras. As classes trabalhadoras se erguem e recuam, e nesses dois momentos carecem de direção política acertada”, avaliza.

Para Durval, o avanço qualitativo - no Brasil - pressupõe um grande balanço da trajetória da esquerda, perpassando a história do PCB no século passado, a luta pela redemocratização e o ciclo do PT. “Os setores que avançarem para um balanço honesto e sobre balizas corretas logo, terão papel destacado na determinação da direção da esquerda brasileira”, atesta.

Por tudo isso, ele não se exime em responder se é difícil ser de esquerda no Brasil. “É difícil, sim”, diz. E completa: “e dentro da esquerda é difícil ser revolucionário. Após 1917, a esquerda mundial, e consequentemente no Brasil, se desenvolveu sempre ligada a um dilema principal: qual a via para a se realizar uma revolução em cada pais e, após a dissolução da principal experiência de transição socialista (a URSS), todo esse dilema refluiu”, destaca.

NÃO SÓ SOCIAL
Atualmente, segundo o dirigente do Levante, para ser de esquerda basta ter algum compromisso com a inclusão social e com a promoção de igualdade das minorias. O que é muito pouco na visão dele. “No entanto, mesmo com esse “rebaixamento de horizonte” é difícil ser de esquerda, pois, qualquer luta progressista, por mais leve que seja, sempre surtem os efeitos da reação. O reacionarismo e o conservadorismo sempre se reagrupam”, pondera.

Embora tenha essa visão mais crítica com a questão social, ele admite que as pautas da esquerda têm esse viés. “Mas a mais central é essa aqui: a socialização da riqueza socialmente produzida. O caráter central da luta pelo socialismo está no seguinte: todos os problemas de opressões a minorias, a países, todos os problemas da exploração do trabalho e da divisão internacional de trabalho são determinados, em última instância, pelo domínio da produção, distribuição e, consequentemente, apropriação da riqueza”, argumenta.

Ou seja, a luta das mulheres, da comunidade LGBT, dos negros vítimas de racismo, dos imigrantes, dos países dependentes e dos trabalhadores em geral está centralmente determinada por essa questão. “A questão do modo de produção capitalista”, resume.

CONTRA A MARÉ
Durval utiliza a metáfora “nadar contra a maré” para definir a atuação da esquerda. E acrescenta que, às vezes, a história os surpreende com uma tempestade ao favor dessa vertente política. “É o que pode se afirmar nos próximos anos, com as desilusões do modelo neoliberal, por exemplo”, diz. Mesmo com os ventos contrários, ele diz que seria difícil mudar a direção.

“A possibilidade sempre existe, mas penso que não. Existem diversos espectros dentro do que se chama de esquerda. Entre eles está um que rejeita as injustiças e reflete isso na política, meio que como uma rejeição moral. Perceber que a miséria é injusta é relativamente fácil. Porém, à medida em que se entendem os fundamentos que permitem que mesmo diante de tanta riqueza seja possível existir a miséria, as opressões e tantas outras formas de degradação social, à medida que se entende a essência desses fatos, a consciência adquire mais firmeza”, justifica.

Consequentemente, completa Durval, o militante de esquerda adquire maior clareza do seu papel. “Essa clareza é como uma lente, que permite ver o papel da militância, das organizações, das lutas sociais, para além do momento atual. Ou seja, para além do momento em que aquele individuo está vivendo. A apreensão desse conhecimento permite que a consciência e a ação política avancem nas mais diversas conjunturas. Sejam boas ou ruins”, declara.

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Durval Siqueira ressalta que a esquerda brasileira possui uma história muito rica, temperada pelas lutas por soberania nacional

O GOLPE
Durval diz que a esquerda sofreu um golpe de estado em 2016, através do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, abrindo um cenário difícil para a esquerda. “Primeiro, porque diversos retrocessos sociais foram operados, como a reforma trabalhista e a da previdência; além de investimentos sociais, como a concessão da base de Alcântara, no Maranhão, o estrangulamento da Petrobras e outros”, ressalta.

“E, segundo, porque essa nova onda neogolpista se relaciona a estratégias do tipo “guerra hibrida” e “revoluções coloridas”, em que Estados consolidados veem suas bases serem ruídas, em que regimes são fechados. A chamada primavera árabe implementou isso, o renascimento do nazismo na Ucrânia, os golpes em Honduras, Paraguai e no Brasil, e as tentativas na Venezuela confirmam essa tendência”, teoriza.

Dessa forma, a polarização interna está sendo influenciada pela polarização externa. “Pela disputa geopolítica mundial, pela disputa de recursos naturais, de capitais, de força de trabalho. O Brasil é central nessa disputa.
Assim, a esquerda brasileira se encontra de um duplo dilema: o de que a premissa da luta de classes não só se afirma nesse país como no mundo. O que nos empurrará para mudanças nas nossas formas de organização, novo programa, novas táticas, novas ideologias para esse tempo histórico”, afirma.

MEA CULPA
O ruim, segundo Durval, é que, no Brasil, a esquerda errou muito, tanto na conjuntura recente quanto na mais antiga. “E sofremos derrotas duras, profundas que nos afastam do nosso objetivo. Hoje temos um presidente neofascista”, critica. O dirigente acredita que, apesar das possibilidades de reorganizar as forças de esquerda, que, para ele, são sempre interessantes, o movimento se encontramos em um momento de cerco.

“No qual precisamos nos defender. Porém, a luta dos povos nos ensina que é possível atravessar esses períodos e que nenhuma derrota é definitiva. Assim, sobre linhas mais justas, é possível que no longo prazo rompamos essa ofensiva reacionária”, acredita. De fato, os ventos estão soprando a favor da direita agora, com uma ascensão significativa de adeptos dessa vertente.

“Pelo que observo, um dos motivos desse orgulho em “sair do armário”, desses novos atores políticos de direita, veio da conscientização do que significa a esquerda no poder”, destaca Rodorval Ramalho. O sociólogo acredita que isso deve ao fato de a esquerda brasileira ter repetido no Brasil o que fez em todos os países do mundo ao longo da história do século XX.

HEGEMONIA
“Corrupção, ineficiência, autoritarismo, patrulhamento ideológico, desonestidade intelectual, etc. Porém, uma coisa é ouvir falar e outra é sentir na pele uma hegemonia de esquerda. Entretanto, apesar de certa polarização, os segmentos liberais e conservadores ainda estão construindo a sua organicidade”, pondera.

Do ponto de vista partidário, por exemplo, segundo ele, ainda não existem partidos bem estruturados, as lideranças ainda estão sendo depuradas, a produção de políticas públicas ainda é insuficiente, não há um volume de produção artística que expresse essa visão de mundo e na imprensa essa presença também é limitada. “Estamos observando apenas o começo da construção dessa organicidade das direitas brasileiras”, considera. 

Lúcio Flávio Rocha é um desses agentes construtores dessa organicidade. Publicitário, ele é fundador e integrante do Movimento Brasil200, movimento declaradamente de direita. Segundo Lúcio Flávio Rocha, o envolvimento com a política, com mais profundidade, começou a partir de 2010, nas eleições presidenciais. “Na época, eu havia aberto a minha empresa há cinco anos e comecei a enxergar o quanto um Governo mais alinhado à esquerda atrapalhava a classe produtiva e a geração de emprego e renda”, conta.

A DIREITA
Detalhe: Lúcio Flávio foi eleitor do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva estava absolutamente frustrado com a dificuldade que era manter uma empresa aberta no Brasil. “Foi quando comecei a me aprofundar mais em assuntos econômicos e políticos e passei a observar com mais atenção o cardápio político do país. Com o tempo, comecei a adentrar em atos e manifestações, e comecei a participar das organizações de movimentos”, revela.

“Muitos atos do impeachment da Dilma, por exemplo, tiveram a sala de reuniões de uma das minhas empresas como QG estratégico. Lá, definíamos os próximos passos das ações em Sergipe. Foi então que a defesa do livre mercado, do empreendedorismo, da liberdade para empregadores e funcionários começou a fazer parte das minhas bandeiras, junto com a causa de costumes e valores. Ao final de 2017, tive a oportunidade de conhecer a história do empresário Flávio Rocha, e resolvi trazer para Sergipe o projeto dele chamado Brasil200”, ressalta.

O movimento defende a livre iniciativa, a geração de empregos, o combate à corrupção e o conservadorismo, pautas primordiais para a direita, que Lúcio define como uma vertente relativamente recente, nova, que ainda está aprendendo a lidar com os espaços de ocupação do poder público. “Nunca tivemos uma experiência tão intensa desta natureza, e o aprendizado requer tempo, repertório, estrada. Bater cabeça no começo é natural e é exatamente o que está acontecendo”, adianta.

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Já Lúcio defende que pessoas que se identificam à direita não se afinam com discursos separatistas, de luta

ESTIGMAS
Para ele, o país estava acostumado a ser dividido entre nordestinos e sulistas, empresários e funcionários, negros e brancos, e quebrar este estigma não é nada fácil. “Descontruir o mito da luta de classes é um desafio. Pessoas que se identificam à direita não se afinam com discursos separatistas, de luta, e muito menos com intervenção do Governo na vida individual. "Direitistas" não odeiam patrões, ricos, brancos, nem querem favores e doações assistencialistas do Governo”< define.

“Eles apenas querem ser autores das suas próprias vidas, sem dependência e sem interferência. Queremos as empresas com mais liberdade para gerar empregos e renda. Queremos as pessoas menos tuteladas pelo Governo. Queremos nossos valores morais e nossa história respeitada”, acrescenta Lúcio.

Diante disso, ele afirma que hoje já não acha uma tarefa difícil ser de direita. “A partir do Impeachment da Dilma, e do crescimento dos movimentos de direita, não considero que seja difícil ter alinhamento com esta ala. Até as universidades já começam a ter espaços que pensam esta ideologia. Aqui mesmo em Sergipe temos excelentes exemplos de iniciativas acadêmicas que discutem o tema, em especial o liberalismo. A onda Bolsonaro, com um viés muito mais conservador, também contribuiu para isto”, reconhece.

POSICIONAMENTO
Lúcio não se vê mudando de lado, embora garanta não ser extremista. “Não tenho político de estimação, especialmente bandido. Não me vejo em nenhuma hipótese deixando de defender os heróis da classe produtiva de nosso país, os verdadeiros geradores de emprego. Os empresários merecem ser mais valorizados no Brasil. E mais: eu sou conservador em essência e não tenho condições de defender valores progressistas”, admite.

Ele destaca que tem um grande alinhamento com o trabalho da ministra Damares Alves, da Mulher, Família e Cidadania, e inclusive faz parte de um grupo de trabalho social e voluntário que atua em apoio a mulheres em gestação inesperada. “Tudo para que não lhe ocorra o desespero da possibilidade de intencionar o aborto. O objetivo é acolher as 2 vidas, a da mamãe e a do bebê. Um progressista jamais lutaria contra o aborto desta forma. Sou cristão, não raso, mas com profundidade, e não vejo nenhuma compatibilidade dos meus valores com a esquerda”, reforça.

Porém, para Lúcio Flávio, a divergência sempre foi saudável para a construção do saber. Dessa forma, ele considera que o problema real da polarização é torcer contra, é a personificação de inimigos, é a exacerbação do ódio, é a luta por querer ter razão a qualquer custo. “Vemos um país apresentando índices econômicos consistentes de crescimento, lentos, mas sólidos, mas mesmo assim vemos setores fazendo a política do quanto pior melhor. Isto sim, é lamentável. Saber lidar com os que pensam diferente será a grande base da pavimentação de um país melhor”, assegura.

MAIS RESPEITO
A psicóloga Isabela Macêdo concorda. Ela ressalta que, no dia em que a humanidade conseguir compreender que respeitar o outro é algo plenamente necessário, a polarização que existe hoje não gerará tantos incidentes. "Não importará qual partido, religião, time, etc. escolhemos e / ou defendemos. Nesse dia, conseguiremos conviver em verdadeira harmonia, pois respeitar, não é gostar ou concordar”, atesta.

Marcelo Ennes vai mais além. “As noções de direita e esquerda se tornaram apenas rótulos, numa espécie de acusação mútua. Ainda que esses nomes ainda tenham utilidade, acredito que é preciso deixá-los de lado e pensar no significado de ação política, no efeito prático e não na ideia desses conceitos. O futuro do país depende desses outros espaços e de mais gente que fique menos presa a rótulos e mais preocupada com a realidade e a felicidade das pessoas”.

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Todos concordam, porém, que, independentemente da escola partidária, o respeito deve prevalecer