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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Educação durante e pós-pandemia impõe desafios coletivos

Com um ano letivo praticamente não efetivado presencialmente, instituições de ensino públicas e particulares buscam alternativas para não dá-lo como perdido

Assim que o ano letivo de 2020 foi iniciado, a pandemia obrigou as aulas a serem suspensas, tanto na rede particular quanto na pública. Foram poucos dias de aulas e muitos de incerteza com relação à retomada das atividades presenciais, que ainda não têm data para acontecer. Neste meio tempo, escolas e universidades buscam alternativas para dar prosseguimento às atividades. Mas, afinal, será que o ano letivo de 2020 será dado como perdido?

Especialistas da área dizem que não, mas admitem os prejuízos para o segmento, que precisou se reinventar completamente a fim de buscar alternativas para continuar cumprindo seu papel. Na rede pública estadual, por exemplo, as aulas foram retomadas no último dia 15 de junho e, segundo o secretário de Estado da Educação, professor Josué Modesto Subrinho, 94% das escolas estão executando projetos de acordo com a realidade de sua comunidade.

“Até o dia 20 de julho, teremos um diagnóstico completo. Mas é um desafio diário”, reconhece Josué Modesto Subrinho. Segundo ele, quando as aulas foram suspensas, as escolas começaram a se mobilizar e a realizar atividades com alunos em casa: criaram salas virtuais, lançaram portal e começaram a garantir material impresso para alunos que não tinham acesso à internet. Para dar suporte pedagógico, a Seduc lançou o portal Estude em Casa ,com mais de 10 mil conteúdos para alunos, pais e professores.

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Sem previsão de retorno, Educação talvez seja uma das áreas mais afetadas pela pandemia
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Novas iniciativas, porém, tentam manter aprendizado em dia

EDUCAÇÃO DIGITAL
A Secretaria também está organizando webnários com temáticas sugeridas pela Undime e secretários municipais. “A Seduc está trabalhando para oferecer mais apoio à comunidade escolar neste momento de pandemia, a exemplo de formação e cursos para professores e técnicos e a parceria com o Consed e o Instituto Península, a partir da divulgação e acesso livre à Plataforma Digital Vivescer - Apoio Socioemocional aos Educadores em Tempos de Covid-19, um espaço de reflexões e troca de ideias sobre a profissão para ajuda no socioemocional da nossa rede de ensino”, completa.

O secretário garante que há um diálogo entre os setores da Seduc Sergipe, tanto no quesito pedagógico quando no estrutural, com o intuito de assegurar a melhor forma do retorno das aulas presenciais. Mas admite que o momento ainda exige cautela, compromisso com o social e com a saúde da comunidade escolar e ouvida de ideias e propostas. “Sergipe está dialogando com outros estados e deve seguir o protocolo do Consed para retorno de aulas presenciais”, diz Josué.

O protocolo pode ser acessado nesse link: http://www.consed.org.br/portal/noticia/consed-lanca-diretrizes-para-protocolos-de-retorno-as-aulas. Para o secretário, as diferenças nas condições socioeconômicas das famílias têm imenso efeito sobre o acesso à escola e sobre o êxito na aprendizagem. “Este é um fato mensurado, e a perseguição da equidade, não apenas no acesso, mas também no sucesso, já foi estipulada no Plano Nacional de Educação. A todos que militam pela educação, que acreditam em seu papel na construção da cidadania, só resta lembrar que a vigilância pela universalização e qualificação da educação é permanente e não um efeito colateral da pandemia”, alerta.

PARTICULARES
O professor de Química Renir Damasceno preside a Federação das Escolas Particulares de Sergipe – Fenen/SE – e diz que é notório que 2020 está sendo um atípico em todas as esferas, e que com a educação não é diferente. “Desde março, as aulas presenciais estão suspensas, devido ao isolamento social, imposto por decretos governamentais por causa da covid-19, mas em hipótese alguma o ano letivo de 2020 está perdido”, assegura Renir Damasceno.

Segundo ele, a Educação também tem se reinventado nesse período. “Dias após a suspensão, a maioria das escolas já iniciou com as atividades não presenciais. Investimentos foram feitos com plataformas digitais que permitiram que o aprendizado não fosse interrompido, e sim modificado. Existe uma Resolução do Conselho Estadual de Educação (CEE), publicada esta semana no Diário Oficial, que permitirá que o ensino na modalidade não presencial, que poderá alcançar 50% da carga horária anual, o que garantirá o aproveitamento de todo o esforço das escolas nesse período de aulas não presenciais”, relata.

Hoje, esse percentual é de 25%. “Frise-se que essa aplicação só não se emprega para a Educação Infantil, que deve ser presencial”, pondera. É bom lembrar que, segundo Renir, não se pode confundir Ensino a Distância – EAD – com aulas não presenciais ou virtuais. “O EAD são aulas em vídeos gravados e disponibilizadas em uma plataforma específica, quando as aulas virtuais ou não presenciais, utilizadas hoje, são em tempo integral com as presenças virtuais do professor e dos alunos, inclusive com interação em tempo real”, compara

MODELO HÍBRIDO
Com esse novo normal, Renir acredita que, após o retorno das aulas presenciais, se fará presente o modelo híbrido, que é a junção da educação online combinado com todos os benefícios da sala de aula tradicional. Até lá, o momento é de grandes desafios para os estabelecimentos particulares de ensino de Sergipe. Isso porque, em um curto espaço de tempo, o que se utilizava para enriquecer as atividades em sala de aula, passou a ser o único meio de ensino, as atividades online. “Destaque para os professores que se reinventaram e têm se desdobrado em prol da continuidade de uma educação de qualidade”, ressalta.

 

Apesar desses desafios, ele assegura que as escolas não têm medido esforços para que esse novo modelo de educação não prejudique os alunos e os professores. “Acredito que uma ou outra escola, que não tenha estrutura, está enfrentando uma maior dificuldade, mas também existe Resolução do CEE que ampara essas escolas e permite trabalhar com recursos convencionais, ou seja, com a utilização de livros, cadernos, apostilhas e portfólios que as famílias retiram na escola. Acreditamos que a grande maioria das escolas está empreendendo um esforço muito grande para levar as atividades de forma digital”, destaca.

Renir Damasceno diz que, diante da falta de propostas por parte dos governos para o retorno das aulas presenciais e também de um protocolo para essa iniciativa, a Federação contratou a empresa Instituto Motivação, de São Paulo, para a confecção de um Protocolo de cuidados no ambiente escolar, com os procedimentos e orientações para a nova realidade da prestação de serviços educacionais, que está em fase conclusiva para que o retorno seja feito cercado de todos os cuidados necessários. “Com este documento, a Federação irá apresentá-lo as autoridades para mostrar que as escolas particulares estarão seguras no momento do retorno e com isso buscar uma data para a tão esperada volta as aulas presenciais”, diz

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Josué Modesto: “estamos firmes com as parcerias e disponibilizando formações e cursos para os professores e técnicos”

ENSINO SUPERIOR
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Ciência, Cultura e Educação - Unesco -, o encerramento temporário de instituições educacionais na tentativa de conter a disseminação da pandemia do Covid-19 está impactando mais de 60% da população estudantil do mundo, e o ensino superior entra nessa estatística. 

Saumíneo da Silva Nascimento, economista e vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Tiradentes, afirma que, apesar disso, para o Grupo, que compreende a Universidade Tiradentes e a Faculdade São Luis de França, o ano de 2020 não será perdido. “Nossos alunos contarão com todo o nosso empenho em mitigar o impacto da situação vigente”, garante Saumíneo Nascimento. 

Para isso, de acordo como vice-presidente, foram tomadas medidas na área acadêmica e administrativa que evitaram a interrupção das aulas do semestre para os alunos. “Continuamos fazendo gestão junto aos órgãos governamentais no sentido de possibilitar que atividades práticas e de estágios em diversos setores sejam viabilizadas”, destaca. 

APRENDIZADO
Ou seja, para Saumíneo, no Grupo Tiradentes está sendo possível manter o aprendizado. Mas isso não significa que não esteja sendo um período difícil. “Tem sido um momento de superação de diversos desafios”, admite. Ele afirma que o próprio Ministério da Educação adotou diversas iniciativas para que fosse possível superar os desafios enfrentados no momento tanto na educação básica como na educação superior, destacando-se a busca de acesso à educação para todos. 

“Registro também a importância dos instrumentos ProUni e Fies, entendo que eles devem continuar sendo fortalecidos”, diz Saumíneo. O ProUni é um programa que oferta bolsas integrais e parciais para estudantes nas instituições de ensino superior privadas e o Fies financia cursos em instituições privadas. 

“Entendo que as ações das instituições de ensino superior públicas e privadas são fundamentais para a transformação da nossa sociedade. Para nós, do Grupo Tiradentes, esse tem sido um momento em que continuamos investindo em tecnologias educacionais e isso foi importante par o apoio que o ensino remoto neste período de pandemia necessitava”, avalia. 

EDUCAÇÃO REMOTA
Tanto na Unit quanto na São Luís de França, foi implementado um sistema de aprendizado remoto com uma atuação docente na nova era digital. Para isso, a o Grupo viabilizou suporte necessário aos professores, visando potencializar as competências já possuídas por eles nos quesitos de didática, tecnologia e adaptações para a nova realidade.

“Contou muito o fato de sempre estarmos buscando investir em inovações tecnológicas educacionais, a exemplo do Sistema Google For Education, ressaltando-se que a Universidade Tiradentes foi a primeira Universidade no mundo a ser referência no Google For Education”, ressalta.

O vice-presidente revela que a instituição pretende disseminar isso para ajudar o ensino básico de Sergipe. “Já fizemos convênio com escolas particulares do Estado e estamos em tratativas com a secretária de Estado da Educação para disseminarmos e oferecer nossas tecnologias para que seja possível a continuidade de estudos de todos os alunos sergipanos”, revela. 

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Renir Damasceno: “investimentos foram feitos com plataformas digitais que permitiram que o aprendizado não fosse interrompido, e sim modificado”

NOVAS REALIDADES
Saumíneo entende que, como as novas realidades da educação foram afetadas pela Covid-19, é possível que desigualdades sejam amplificadas e que haja perspectivas recessivas do ponto de vista econômico. “Porém, do ponto de vista da educação, nós vamos construir uma retomada presencial resiliente e inclusiva e iremos conviver com modelos híbridos de remoto e presencial e adaptado com as circunstâncias pessoais dos alunos”, analisa.

A principal premissa do Grupo Tiradentes, segundo ele, é que professores, administrativo e alunos tenham um retorno seguro, com todos os esforços para que a aprendizagem nunca perca a continuidade.

Nesse sentido, ele acredita que o ensino à distância do pós-pandemia será melhor compreendido, desmistificado e fortalecido, mas em harmonia com as demais modalidades, presencial e híbrida, aposto que o mundo da educação será um modelo híbrido (parte presencial e parte remota).

EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA
“Destaco que o modelo que estamos adotando no momento de aulas remotas na Universidade Tiradentes e Faculdade São Luís de França, são distintos do nosso modelo EAD (Educação à Distância) que também continua em funcionamento, são realidades distintas, em função das necessidades dos alunos. Mas são todos modelos em excelência de qualidade no ensino e aprendizagem”, diz. 

No âmbito do ensino superior público, as dificuldades e objetivos são praticamente os mesmos, segundo o professor Dilton Maynard, pró-reitor de Graduação da Universidade Federal de Sergipe - UFS. “Não consideramos que 2020 está perdido. Ao menos para o ensino superior, o que tem acontecido é um redirecionamento de ações, redefinição de prioridades e necessidade de adaptações emergenciais”, afirma.

Isso porque, para Dilton, no mundo todo, as universidades têm aprendido a lidar com uma adversidade muito grande: aulas em formato remoto, planos de cursos, estruturas curriculares, colações de graus, estágios...Tudo isso está sendo repensado. 

MEDIDAS PREVENTIVAS
Mas ele não tem dúvida: “certamente sairemos da pandemia mais conhecedores e questionadores de certas certezas sobre o que é melhor em termos educacionais”. No caso da UFS, em primeiro lugar, foram terminados os  cursos que se iniciaram em modelo presencial de forma remota, usando a ideia de “atividade domiciliar”. 

“Foi importante, pois evitamos o contágio dos nossos alunos naquele momento, diminuindo consideravelmente o fluxo de pessoas não só na UFS, mas mesmo nos muitos casos de discentes que se deslocam de suas cidades para os nossos campi”, reitera.

Além disso, a UFS se colocou como referência no combate à Covid: produzindo álcool gel, máscaras, colocando os hospitais à disposição, criando um hospital de campanha. “A partir do crescimento da pandemia, mantivemos ações de extensão – como “lives”, cursos, oficinas e seminários – sendo realizados todos remotamente”, completa.

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Saumíneo Nascimento: “nossos alunos contarão com todo o nosso empenho em mitigar o impacto da situação vigente”

ANO LETIVO
Depois, a Universidade abriu um período letivo especial, apenas com disciplinas teóricas e todo ele remoto. “Foram pouco mais de 3 mil vagas oferecidas e tivemos mais de 10 mil manifestações de interesse em participar. Isso sinaliza para o quanto a comunidade quer uma retomada”, opina.

No entanto, o retorno das atividades, ainda que em formato remoto, depende de um planejamento cuidadoso e de condições pedagógicas e de infraestrutura. “Estamos trabalhando para viabilizar isso o quanto antes”, assegura Dilton.

Essas iniciativas têm sido suficientes para cumprir com o papel da Universidade nesse momento, mas o professor reforça: “sempre buscamos mais”. Mas há um problema central que precisa ser abordado: o acesso dos discentes a internet é algo fundamental. 

ALTERNATIVAS
“Isso tem sido discutido pela gestão da UFS, temos buscado alternativas. Felizmente, o próprio MEC começa a demonstrar iniciativa em fornecer apoio às universidades federais. Isso é muito importante”, ressalta.

Os docentes também precisam de apoio e ele assegura que a UFS tem procurado oferecer suporte através de cursos de formação continuada. “O que parece certo hoje é que a pandemia não cederá em curto prazo e precisamos alinhar as ações da UFS para realizar o melhor enfrentamento possível de tal situação”, constata. 

Historiadora, especialista em Educação e em Direitos da Criança e do Adolescente e secretária de Educação de Nossa Senhora do Socorro, Josevanda Mendonça Franco afirma que, na perspectiva da carga horária e do número de dias letivos não há de se falar em perdas, mas em termos de prejuízos pedagógicos e da aprendizagem, a perda é imensurável para o coletivo. 

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Dilton Maynard: “certamente sairemos da pandemia mais conhecedores e questionadores de certas certezas sobre o que é melhor em termos educacionais”

DEMANDAS DIFERENTES
Isso porque, para Josevanda, cada aluno vai reagir e apresentar demandas diferenciadas e, exatamente por isso, será determinante para as redes de ensino, a adoção de protocolos e procedimentos, a exemplo da avaliação diagnóstica, que norteará o trabalho docente no regresso das atividades presenciais. “É indiscutível que não retornaremos de onde paramos e a escola não será a mesma. Mas vamos encontrar as estratégias adequadas para devolvermos a educação de qualidade preceituada nos nossos diplomas legais”, acredita.

Como educadora, ela define esse momento como período onde tudo é muito novo. “Costumo dizer que estamos escrevendo a história na contemporaneidade. Não há referências, manuais, leis, nem mesmo ministro da Educação. Estados e municípios têm atuado solidariamente para a tomada de decisão de muitos processos: ensino não presencial, distribuição da merenda escolar, elaboração de protocolos para o retorno, programas de acolhimento, reformulação do calendário escolar, entre outras medidas”, argumenta Josevanda.

Por outro lado, como não era uma prática da Educação Básica, a oferta dos serviços educacionais não presenciais, as dificuldades são consideráveis. “Não há indicadores que permitam a certeza do sucesso da metodologia do ensino remoto. Não estávamos preparados: professores, alunos, famílias, foram surpreendidos”, reconhece a profissional, que acrescenta: “é certo que, o ensino não presencial será, doravante, uma realidade, mas precisaremos nos preparar para a oferta mais qualificada”.

DESAFIO COLETIVO
E o desafio é para todos que fazem a educação. “Para além da situação da pandemia, que por si só é dotada do ineditismo, vivemos um momento atípico, em decorrência do desprezo à educação demostrado pelo Governo Federal. Mas, no tocante ao município de Nossa Senhora do Socorro, o apoio incondicional do nosso prefeito, Padre Inaldo, e a excelência das equipes técnica e docente da Semed, facilitam o enfrentamento dos desafios. O trabalho é desenvolvido em harmonia o que fortalece a excelência dos processos pedagógicos e administrativos”, garante.

O município, inclusive, está concluindo o Manual de Boas Práticas: orientações para o retorno das atividades educacionais na Rede Municipal, um documento protocolar que guiará os processos quando retornarem às atividades presenciais. “É importante que os nosso alunos se sintam acolhidos. Igualmente, precisamos oferecer aos gestores, servidores e colaboradores a segurança sanitária orientada pelas autoridades de saúde”, reconhece Josevanda.

Por fim, segundo ela, as famílias carecem da garantia que seus filhos estarão protegidos no ambiente escolar e adequadamente, inseridos no que já está sendo chamado de “novo normal pedagógico”. Mas, esse, pelo visto, será um longo e incomum caminho, no qual será preciso trabalhar de forma articulada com outros segmentos institucionais e com a sociedade civil, afinal, como lembra a educadora, “parafraseando o Papa Francisco: ninguém se salvará sozinho”.

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Josevanda Franco: “é indiscutível que não retornaremos de onde paramos e a escola não será a mesma”