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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Educação pode virar agente transformador em Sergipe

Isso se o governador Belivaldo Chagas cumprir com sua promessa de priorizar o ensino, tornando as escolas atrativas e melhorando os índices educacionais

TATI MELO 
ESPECIALMENTE PARA O JLPOLÍTICA​
Publicado em 11 de novembro de  2018, 20:00h

Entra eleição e sai eleição, promessas e promessas são feitas e lá está o tema “educação”, sempre nos discursos dos candidatos. Discursos esses que, infelizmente, são, muitas vezes, da boca para fora. Uma vez eleito, a conversa sempre é outra. Contudo, alguém promete que agora será diferente e, para isso, afirma que o ensino básico - fundamental e médio - será prioridade em seu Governo. Será política de Estado.

Trata-se do governador reeleito de Sergipe, Belivaldo Chagas, PSD. Até se ecoou com certa surpresa o fato dele prometer agora priorizar a educação em seu Governo, uma vez que não foi uma promessa de campanha explícita no seu marketing eleitoral. Mas ele a fez assim que foi reeleito. “Nosso objetivo é tornar a escola atrativa e melhorar os nossos índices educacionais que não são bons, valorizando os trabalhadores da Educação como um todo”, assegura Belivaldo Chagas.

Uma promessa dessa vinda de um gestor que já foi secretário de Estado da Educação por três anos e nove meses é de se gerar certa credibilidade e esperança. “Para nós, a educação é uma bandeira principal. Sem querer dizer, com isso, que iremos abandonar saúde, segurança e infraestrutura. Dentro do possível, vamos procurar reequilíbrio nas nossas finanças, a capacidade de investimento, com o olhar para o futuro. E o futuro passa pela educação”, reforça.

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Belivaldo em inauguração de escola, no ano de 2013, quando era secretário de Estado de Educação
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Para a professora draª Eva Siqueira, a formação dos docentes é o ponto chave para melhorar os índices educacionais

INFRAESTRUTURA DAS ESCOLAS

Das 353 escolas estaduais, apenas 91 possuem quadras poliesportivas; 103, infelizmente, ainda não têm sequer biblioteca ou sala de leitura; 109 ainda esperam laboratório de informática. Ciente disso, um dia após ser reeleito, Belivaldo correu para Brasília para, junto à bancada federal, buscar recursos, por meio de emenda impositiva. Conseguiu R$ 69 milhões para serem, inteiramente, dedicados à infraestrutura das unidades escolares.

“Temos uma situação extremamente delicada no que diz respeito ao aspecto físico das nossas escolas: quadras que não estão funcionando, laboratórios de química, física e informática que não estão funcionando; necessidade de redimensionar a rede elétrica. É preciso fazer o básico e, a partir daí, avançarmos no projeto pedagógico”, relata Belivaldo.

Evidentemente que o governador tem consciência da que é necessário valorizar também os docentes. “Não apenas do Magistério, mas dos trabalhadores da educação como um todo. Porém, não podemos ter uma escola que tenha excelentes professores e uma estrutura física que não seja atrativa, condizente com a necessidade de cada aluno. E o inverso também se aplica. Esse conjunto precisa acontecer”, reforça o governador.

FORMAÇÃO CONTINUADA

Na visão de especialistas, antes de qualquer coisa, para melhorar a educação básica em Sergipe, é preciso primeiro investir nos professores. Investir primeiro no sentido de capacitação continuada, depois salarial. É o que pensa a professora e doutora Eva Siqueira, especialista em educação, aposentada da Universidade Federal de Sergipe – UFS –, e ex-docente da rede estadual, onde lecionou matemática por 20 anos.

“Penso que a formação dos professores é o ponto chave. Claro, tem que ter infraestrutura nas escolas, melhoria do trabalho, do salário dos docentes. Mas não adianta ter tudo isso se o educador não tiver formação continuada. Que eles tenham reuniões de estudos, que possam se reunir mensalmente, quinzenalmente, levando textos, atividades para ampliar horizontes”, aconselha a professora Eva.

Ela sempre defendeu a educação continuada. “Não adianta ter a licenciatura e não continuar estudando. Há oito anos estou à frente da Feira Estadual de Ciências, Tecnologia e Artes, a Cienart, onde visitamos todos os municípios de Sergipe e temos visto muitos bons docentes na rede estadual com mestrado e doutorado, que fazem um excelente trabalho na rede”, relata. 

A professora e especialista em educação também defende que os estudantes sejam inseridos em projetos de iniciação cientifica, que extrapolem as barreiras das escolas. “Há editais da Fapitec (Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica de Sergipe) onde alunos podem adquirir bolsa de iniciação cientifica júnior. Ainda na educação básica, ele inicia o trabalho investigativo de pesquisa com orientação de um professor que tenha título de mestrado ou doutorado. Isso faz a diferença”, destaca Eva.

AUTONOMIA E CRIATIVIDADE

Outro ponto chave para a evolução da educação básica, na visão da professora, é a autonomia dos professores. “O docente precisa saber o que necessita para sua sala. Precisa ser criativo. Por exemplo, trabalhei com jogos no ensino da matemática. Essa atividade que desenvolvi junto aos alunos foi parar na minha dissertação de mestrado e depois virou um livro que já tem mais de cinco mil exemplares espalhados pelo Brasil. Uma experiência minha na rede estadual. Ou seja, quem quer fazer, faz. Não adianta ter títulos e títulos e não fazer a diferença”, afirma.  

E quando o tema é fazer a diferença, buscar autonomia, o professor de português e licenciatura Fabiano Oliveira sabe bem como fazer. Docente há 13 anos e há quatro na rede estadual, ele une arte, literatura, teatro, música em suas aulas e faz com que seus alunos aprendam. “O diferencial da minha aula é a língua portuguesa e a literatura aliadas a outras linguagens. Sempre fui inquieto. Fiz essa autonomia acontecer a partir de minhas provocações pedagógicas. E provei que funciona”, ressalta Fabiano.

A inquietação dele faz sucesso e fez ele alçar voos maiores. Há três meses licenciado da rede estadual de Sergipe, reside e leciona neste momento na Região Norte do Brasil. “Essa minha autonomia me deu oportunidade de representar Sergipe no Amazonas. Fui selecionado pelo Ministério da Educação para, a partir do meu jeito de dar aula, com tecnologias e tal, participar de um projeto aqui”, explica.

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Fabiano Oliveira, professor da rede estadual: “fiz autonomia acontecer a partir de minhas provocações pedagógicas”

DINHEIRO NÃO É TUDO

Fabiano fica feliz em saber que o governador promete priorizar a educação em Sergipe. “Todo bom gestor deve compreender que qualquer transformação passa pela educação. Todas as falhas de uma sociedade, de um Estado que às vezes tem um desenvolvimento atrasado, percebemos que é porque a educação não é valorizada”, afirma.

“Então, quando um gestor inicia uma nova fase e coloca a educação como prioridade, é porque tende a dar certo. Com a educação diminuímos os índices de violência, melhoramos, inclusive, a saúde. É como se fosse uma pirâmide, o pilar básico”, destaca Fabiano. O docente elenca quais pontos o governador deve priorizar.

“É necessário uma escola de qualidade, um professor com plano de carreira, com qualidade de trabalho. Inclusive, a questão financeira é importante sim, mas não é só isso. O ambiente de trabalho é fundamental também, a segurança na escola. Evidentemente a autonomia do professor em sala de aula é outra chave básica”, acrescenta.  

MAIORES COBRANÇAS

Professor universitário, doutor, ex-vice-reitor e ex-reitor da UFS, onde adotou o lema "expandir para incluir", o atual secretário de Estado da Educação, Josué Modesto dos Passos, também recebe com felicidade a notícia de que Belivaldo terá a educação como bandeira de Governo. “Para nós é reconfortante saber que o governador declarou que dará prioridade”, enfatiza Josué.

“Os educadores sempre tentam chamar a atenção para a relevância, a importância e as dificuldades da educação, contudo, suas carências não se expressam como forma de urgência como, por exemplo, os problemas da saúde e segurança. É até paradoxal. O ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, gostava de dizer que: ‘ignorância não dói, então, ninguém reclama ou pouco reclama’”, diz Josué.

“Mas, como felizmente o governador Belivaldo Chagas foi secretário da pasta, vivenciou a educação, sabe profundamente o papel estratégico desta área. É extremamente reconfortante isso. E, por outro lado, desafiador para ele. O que é prioridade significa maiores cobranças”, aponta o secretário da Educação.

DISTORÇÃO IDADE-SÉRIE

Josué destaca, no ponto de vista dele, quais são os principais gargalos da educação que precisam urgentemente ser resolvidos: o grave problema de crianças e jovens fora da escola e a distorção idade-série. “Precisamos fazer buscas ativas para que todos estejam nas escolas. Mas existem muitos que já estão e possuem imensas dificuldades de aprendizagem”, informa.

“Temos muitos alunos com dificuldades e simplesmente são reprovados. De fato, não ofertarmos uma intensificação de aprendizagem, um reforço escolar, aí vai surgindo o problema de defasagem da série. Cinquenta por centro dos nossos alunos que estão matriculados na educação básica tem mais de dois anos de defasagem com relação à série que deveria estar correspondente à idade. Isso é muito grave”, revela o secretário da Educação.  

Como consequência desta distorção idade-série, estudantes abdicam da sala de aula. “Quando o aluno termina o ensino fundamental, devendo estar com 14 anos, na realidade, está com 17. Diante deste cenário, especialmente os meninos não continuam no ensino regular. Abandonam a escola porque são oprimidos pelo mercado de trabalho ou perdem interesse porque estão também convivendo com crianças. Eles não querem isso. Querem outra coisa”, explica Josué.

A mudança da infância para a adolescência é drástica. “Perdemos esses jovens e, às vezes, eles saem da escola próximo à vida adulta e com baixíssimo índice de aprendizagem, tanto do domínio da linguagem quanto da matemática, dos suprimentos básicos de inserção na vida social. Então, temos que ter estratégias para melhorar o aproveitamento do potencial desses jovens que estão em nossa escola”, relata o secretário da Educação.

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Josué Modesto, secretário de Estado da Educação: “temos muitos alunos com dificuldades e simplesmente são reprovados”

Sintese teme pelo futuro da educação

Ferrenhos críticos do Governo, principalmente no que tange ao salário dos professores e ao plano de carreira dos docentes, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe - Sintese - vê com bons olhos o interesse de Belivaldo Chagas em pautar a educação como prioridade do seu Governo. Contudo, a entidade tem suas dúvidas, principalmente quando envolve o Governo Federal, que, a partir da 2019, será gerido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.  

“Belivaldo demonstra uma atitude aparentemente positiva. Compreendemos como importante priorizar a educação. Entretanto, o questionamento que fazemos é se, a partir do Governo de Bolsonaro, ele vai praticar uma política de desmonte do ensino público, de criminalização do professor e de negação do docente como intelectual que produz conhecimento; ou se vai praticar uma política que enfrentará os problemas e os caminhos sociais?”, questiona o vice-presidente do Sintese, professor Roberto Silva.

Ao ser questionado se tem medo da política para educação de Bolsonaro, Belivaldo não responde nem sim nem não, se restringe a dizer que tem preocupação. “Estamos na expectativa que ele apresente algo à sociedade. Foi uma eleição que se deu dentro de um clima de desesperança em relação a alguns candidatos e que de repente a população entendeu que quem tinha que ser presidente é Bolsonaro”, afirma o governador.

CARREIRA DO PROFESSOR

“O que é que nos resta agora?”, questiona Belivaldo. “Entender que ele é presidente do Brasil e todos nós temos que procurar nos dar as mãos, governadores, prefeitos e presidente para que a coisa possa acontecer. Vamos cobrar, pedir e buscar. Vamos conversar com o futuro ministro da Educação. É preciso abraçar a causa da Educação como política de Estado”, diz o governador.

O Sintese aguarda a política de Estado prometida por Belivaldo. E, enquanto isso, o vice-presidente elenca os principais tópicos a serem discutidos e melhorados na rede estadual: infraestrutura; tempo integral no ensino médio; violência nas escolas; gestão democrática; e, claro, a carreira do professor, que para o sindicato foi destruída na gestão do ex-governador Jackson Barreto.

“Então, o próximo Governo tem o desafio de retomar a carreira dos professores para voltar aos patamares que existia em 2011”, reforça Roberto, que também é ferrenho crítico da política de ensino integral implantada na rede estadual. O Sintese acusa o Governo de deixar diversos alunos sem opção de tempo regular no ensino médio, em várias comunidades.

“O ensino médio de tempo integral foi implementado pelo Governo de forma irresponsável, sem planejamento e estudo, faltou ver as demandas das comunidades onde as escolas estão inseridas, não respeitou a realidade socioeconômica dos estudantes e das famílias. Simplesmente o Estado acabou com o ensino médio de tempo convencional, parcial, deixando centenas de alunos fora da escola”, denuncia Roberto.

TEMPO INTEGRAL

O vice-presidente do Sintese ainda acusa o Governo de não ter verba suficiente para custear os colégios de tempo integral. “As escolas não têm condições de se autofinanciar, inclusive, de financiar os professores na parte dos projetos que desenvolvem. Além do mais, as infraestruturas são precárias para atender o aluno o dia inteiro, falta alimentação escolar. Essa questão é muito grave”, relata.

O próprio Belivaldo acata as críticas do Sintese. “A modalidade integral hoje é uma realidade que está se aplicando no país e dando certo. Contudo, concordo em parte com Sintese, até mesmo porque defendi essa tese enquanto vice-governador, secretário da Casa Civil, porque achei que foi um passo muito largo nesse primeiro momento abraçar 42 escolas. Poderia ser um número menor para fazer a coisa acontecer de maneira concreta e positiva”, opina.

“Mas, como o projeto foi abraçado e não podemos abandonar, vamos cuidar dessas 42 escolas sem esquecer as demais. Fomos buscar apoio da bancada federal, recursos na ordem de R$ 69 milhões para utilizarmos principalmente nas escolas que foram selecionadas para o tempo integral”, afirma Belivaldo.

Contudo, o governador garante que não abandonará jamais as unidades escolares de tempo regular. “Temos cerca de 340 escolas e 42 são selecionadas para funcionar em tempo integral. Você não pode ter um olhar apenas para essas de tempo integral e esquecer as demais, por isso, estamos buscando recursos para que possamos olhar o todo”, alega.

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Roberto Silva, vice-presidente do Sintese: “próximo Governo tem o desafio de retomar a carreira dos professores”

Carentes de verbas, Municípios esperam auxílio do Estado na Educação

Conforme prevê a constituição brasileira, o ensino médio é prioridade do Governo Estadual, enquanto a educação infantil e o ensino fundamental ficam a cargo do Município, cabendo à União a função de coordenar os repasses financeiros educacionais para estes entes públicos e conduzir o funcionamento das universidades federais.

Ciente disso, Belivaldo promete que integrará mais a Secretaria de Estado da Educação às Secretarias Municipais. “Não adianta um Estado fazer sua parte e o município não fazer a sua. A responsabilidade do ensino médio é de quem? Do Estado, mas lá na base o aluno acaba sendo preparado pelo Município. Se não prepara seu aluno, como é que o Estado o receberá no ensino médio? É uma cadeira. O Estado ainda detém do ensino fundamental, mas no futuro ficará apenas com o médio”, afirma.

Contudo, a integração ideal entre Estado e Município ainda está um pouco longe. “Sequer conseguimos unificar um calendário. Se tivéssemos uma unificação da rede estadual e municipal, todas funcionando no mesmo período, facilitaria a vida dos alunos com relação ao transporte escolar, pois, quando a escola municipal encerra o calendário e a estadual continua, cria-se um problema para o estudante que vive na zona rural e estuda na sede do município”, exemplifica Belivaldo.

A Prefeitura de Aracaju está de portas abertas para se unir ao Estado. “É de grande significado um Governo que coloca a educação como uma prioridade. Da parte de Aracaju, onde a educação também é uma das nossas prioridades, já externamos ao próprio governador o que consideramos ideal neste processo de integração”, diz o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira.

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Edvaldo Nogueira, prefeito de Aracaju: “é de grande significado um Governo que coloca a educação como uma prioridade”

PARCERIA COM MUNICÍPIOS

Edvaldo informa que ainda na campanha eleitoral entregou a Belivaldo um documento de compromissos do então candidato com Aracaju que cita a educação. “Lá consta como proposta o reordenamento da educação pública na Capital, através de uma parceria entre as Secretarias Estadual e Municipal, para garantia da universalização do acesso ao ensino básico em todas as regiões da cidade. Este é um primeiro passo que considero de grande relevância”, diz.

O Município de São Cristóvão é outro que também está de portas abertas para unificar projetos junto com o Estado, ou melhor, esperando ajuda do Estado.  “Os municípios vivem hoje em petição de miséria, porquê de 1988 para cá foram criados vários encargos, piso salarial do magistério, alimentação escolar, e nenhuma fonte de recurso para as Prefeituras”, desabafa o prefeito de São Cristóvão, Marcos Santana.

O prefeito de Socorro exemplifica a situação complicada. “Para se ter uma ideia, o Município hoje recebe R$ 0,35 por estudante/dia para alimentação escolar. Pergunto: ‘como alguém pode fazer alimentação com R$ 0,35?’”, diz. “A distribuição de receita no Brasil é um contrassenso, injusta, porque 50% fica com a União, 24% com Estado e 16% com Município, sendo que a vida acontece no Município”, destaca.

Na visão de Marcos Santana, o Estado poderia auxiliar os municípios repassando recursos com objetivo de ampliar as receitas voltadas à educação. “O Governo podia criar um programa para as cidades que estão ampliando de maneira supletiva a alimentação escolar, por exemplo, com o objetivo de suplementar as verbas que recebemos do Governo Federal. Seria ótimo”, opina.

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Marcos Santana, prefeito de São Cristóvão, espera ajuda do Estado no que diz respeito a repasse de verbas