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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Em teus 164 anos, quem és tu Aracaju?

Dos sonhos de Inácio Barbosa de dotar Sergipe de uma nova capital, de  Basílio  Pirro em desenhar o primeiro traçado, ao sonho dos seus quase 650 mil habitantes, Aracaju se guarda em alegrias e sofrimentos de alguns setores, como os da mobilidade e da segurança. Enfim, ainda é uma cidade em contínuo vir a ser  

De um planejamento que se configurou pelo desenho urbanístico do traçado geométrico dos quarteirões, denominado de quadrilátero de Pirro, nasceu Aracaju. Formado por um conjunto de quarteirões que contemplava edifícios governamentais, residências e demais equipamentos, o modelo não conseguiu acompanhar o crescimento da cidade, que se enveredou rumo ao atual Bairro Industrial, ao Siqueira Campos, ao que hoje é o Bairro São José e a uma infinidade de outros até ser o que é hoje.

“Num processo natural de expansão no entorno do quadrilátero original”, define o arquiteto e urbanista Ricardo Mascarello, que também é professor universitário. Após 164 anos de crescimento e expansão urbana, o traçado de Pirro original findou situado apenas na zona central da cidade e, hoje, Aracaju é uma cidade de 648 mil pessoas dividindo uma área territorial de 181,857 quilômetros quadrados com pouquíssimos vestígios daquele planejamento inicial.

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Capital sergipana passou por grandes transformações em 164 anos

Aracaju tem um dos menores custos de vida do país

Primeiro, num resumo bem matemático, Aracaju é uma das menores capitais do país, com uma densidade demográfica de 3.140,65 habitantes por quilômetro quadrado. Mas tem uma das maiores rendas do Nordeste, com um PIB – Produto Interno Bruto – per capita, em 2016, de R$ 25.717,68, por exemplo.

O percentual das receitas oriundas de fontes externas foi de 58,2% e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 0,770. Em 2016, segundo o IBGE, o salário médio mensal era de 2.9 salários mínimos e a proporção de pessoas ocupadas em relação à população total era de 36.2%.

Na comparação com os outros municípios do Estado, ocupava as posições 6 de 75 e 1 de 75, respectivamente. Já na comparação com cidades do país todo, ficava na posição 219 de 5570 e 245 de 5570, respectivamente. Considerando domicílios com rendimentos mensais de até meio salário mínimo por pessoa, tinha 35.8% da população nessas condições, o que o colocava na posição 75 de 75 dentre as cidades do Estado e na posição 3400 de 5570 dentre as cidades do Brasil.

O total de pessoal ocupado é de 232.136 pessoas, o que representa 36,2 % da população. Segundo Josenito Oliveira, professor e economista, Aracaju é uma das cinco capitais com o menor custo de vida do Brasil. “Isso se reflete em moradia, supermercado, transporte público, educação, esporte, lazer, estadia, bares e restaurantes”, afirma Josenito.

Além disso, Aracaju também tem a quinta cesta básica mais barata entre as capitais, com um custo de R$ 95, segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos – Dieese. “A inflação acumulada nos últimos 12 meses foi de 3,5%, a sétima menor entre as capitais, segundo o IBGE”, completa o economista.

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Josenito Oliveira: “Aracaju é uma das cinco capitais com o menor custo de vida do Brasil”

Com ocupação desordenada, Aracaju tem carência de infraestrutura

Em 164 anos, Aracaju passou por uma expansão orgânica e natural que configurou o espraiamento da ocupação urbana e a necessidade de infraestrutura. Hoje, o que se vê é concentração de residências ao norte – entorno do Bugio e Lamarão; e ao sul – Santa Maria e 17 de Março – com carência de infraestrutura e afastados da região central.

A análise é do arquiteto e urbanista Ricardo Mascarello, que também aponta outras deficiências decorrentes do processo de urbanização pelo qual Aracaju passou. Um deles é o projeto do aterro da Coroa do Meio, que data do início dos anos 80 e levantou graves problemas ambientais; a consolidação do Bairro Jardins e seu entorno, não levando em consideração o ambiente natural, o espaço público coletivo e a oferta de vias arborizadas e com calçadas largas.

Também houve, segundo Mascarello, o surgimento de grandes condomínios fechados sem continuidade da malha urbana, principalmente na zona de expansão e no bairro Jabotiana; ocupações desordenadas decorrentes da falta de planejamento e direcionamento territorial; ocupações em áreas de preservação ambiental e a necessidade de espalhamento da malha viária de conexão, com vários eixos de transporte público coletivo e consequente investimento.

Essa ocupação urbana passou, claro, pelo mercado imobiliário, que, depois de ter vivido um grande boom seguido de uma grave crise, hoje vive uma fase de expectativa. É o que diz o engenheiro Henrique Côrtes, presidente da Associação dos Dirigentes das Empresas do Mercado Imobiliário de Sergipe - Ademi/SE.

“Atualmente, estamos em expectativa de consolidação das medidas que foram adotadas para o efetivo reaquecimento do setor. E continuamos otimistas e acreditando no crescimento no decorrer deste ano. Acreditamos que, efetivamente, haverá um forte crescimento em 2019”, diz Henrique Côrtes.

Segundo ele, enquanto mantém essa expectativa, os agentes do mercado vêm adotando estratégias para enfrentar essa crise na Capital, que é um dos cenários de venda mais importantes do Estado. “Várias ações foram tomadas, como oferecer descontos ou taxas gratuitas, a exemplo de taxas cartorárias e do Imposto sobre Bens Imóveis (ITBI), etc. Além disso, como havia muitas unidades em estoque, valorizar o imóvel pronto para morar também surtiu efeito positivo nas vendas”, ressalta.

De acordo com Henrique, em resumo, as empresas se mostraram – e mostram – abertas a negociar com os clientes, disponibilizando vantagens para eles. “Isso foi salutar para o mercado”, assegura Côrtes, que afirmou que a Ademi/SE não dispõe de dados estatísticos para classificar em que posição a cidade está hoje no ranking mercadológico. Mas de uma coisa Henrique sabe bem: Aracaju ainda tem no mercado imobiliário um dos grandes impulsionadores de sua economia.

“Sem dúvida, a indústria imobiliária é uma forte impulsionadora da economia, gerando emprego e renda, já que ela é indutora de toda uma cadeia produtiva”, reforça. Hoje, segundo o presidente da Ademi/SE, o perfil predominante do comprador aracajuano é o público que busca empreendimentos que se encaixam no Programa “Minha Casa, Minha Vida”, em suas diversas faixas – 1,5, 2 e 3. “Acreditamos que com paz na política e reformas estruturantes, a recuperação da economia será consequência direta, e o setor voltará a crescer, bem como todo o nosso país”, destaca.

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Bairro Jardins é reflexo da deficiência na ocupação urbana de Aracaju

Aracaju tem desafio com a Educação Infantil

A rede pública municipal de ensino mantém 74 escolas divididas em oito regiões e 30 mil estudantes - entre crianças, jovens, adultos e idosos - nas modalidades de educação infantil e ensino fundamental, além da Educação de Jovens e Adultos – EJA – e carrega o grande desafio de fazer mais e melhor por essa área tão prioritária.

“O nosso maior desafio é corrigir a distorção do fluxo escolar, isto é, a defasagem entre a idade e a série (que os alunos deveriam estar cursando). Neste sentido, estamos promovendo ações, debates e campanhas para diminuir os elementos que dificultam o fluxo, tendo em vista que devemos garantir o acesso, a permanência e o aprendizado dos estudantes que estão matriculados em nossa rede”, afirma Maria Cecília Tavares Leite, secretária da pasta.

Além disso, há a questão estrutural. “Em janeiro de 2017, quando o prefeito Edvaldo Nogueira assumiu a gestão da cidade e nós assumimos a Secretaria Municipal da Educação de Aracaju, iniciamos uma série de visitas às escolas e constatamos que vários prédios, que abrigavam as unidades, estavam deteriorados. As devidas manutenções estruturais estão sendo feitas nas escolas de forma gradativa e planejada, seguindo um cronograma de realização”, diz Maria Cecília.

É claro que o desafio vai bem além da questão estrutural, por isso, de acordo com Kátia Regina Perete, diretora de Administração e Finanças da Semed, desde o início desta gestão, também vem sendo feito um trabalho de reaproximação da comunidade e dos alunos da rede para com as escolas. “Fato comprovado pelo aumento no número de matrículas”, observa Kátia.

Ela reforça, porém, que as escolas da rede, no início, estavam com alguns serviços essenciais paralisados, como transporte e merenda escolar. “Não foi dada a devida manutenção nas estruturas físicas da rede municipal de ensino, ocasionando uma sensação de abandono nas unidades, dificultando a permanência dos alunos na rede e afastando a comunidade das escolas”, critica.

Hoje, as intervenções física são de várias ordens: revisão de cobertura, realização de pintura, adequação para melhoria da acessibilidade (banheiros e calçadas); 49 escolas já foram contempladas com os serviços de revisão elétrica; 34 escolas já foram contempladas com os serviços de revisão de cobertura; 34 escolas já foram contempladas com os serviços de revisão hidrossanitária e 23 escolas já foram contempladas com os serviços de revisão de esquadrias – que consiste em substituição de portas de madeira danificadas.

“É importante relembrar que foi no início desta gestão que inauguramos duas importantes escolas no bairro 17 de Março: a Emei Dr. José Calumby e a Emef José Souza de Jesus”, lembra Kátia. A secretária Cecília reforça: “em obras e reformas, a Prefeitura de Aracaju investiu, de 2017 para cá, quase R$ 32 milhões na Educação. Cerca de R$ 5,75 milhões foram pagos em serviços que haviam sido contratados e estavam sendo executados. Também estamos investindo, após a celebração de um contrato de manutenção das escolas, um total de R$ 8,9 milhões, num período de três anos”.

Há muitos outros investimentos – como o contrato de material de esquadrias metálicas, que é inédito e significa um investimento de R$ 5,6 milhões – e todos esses investimos, segundo Cecília Tavares, já se reverteram em números positivos na educação aracajuana.

“Nós aumentamos a oferta de vagas em creches da rede municipal, efetivamos o funcionamento de duas escolas – de Educação Infantil e Ensino Fundamental – no Bairro 17 de Março, o que significou o atendimento de aproximadamente 700 crianças, em idade escolar, que vivem em uma localidade de alta vulnerabilidade social. Também estamos construindo e recuperando novas unidades e reorganizando os espaços escolares, o que vem permitindo uma oferta mais racional das vagas em creches e pré-escola”, garante.

Adelmo Meneses Santos, servidor da rede há 31 anos e presidente do Sindicato dos Profissionais do Ensino Municipal de Aracaju – Sindipema – há cinco, acredita que de fato, essa é a maior demanda da educação em Aracaju atualmente. “Houve um grande salto de profissionais da educação infantil, mas ainda precisa melhorar, porque a demanda é grande”, pondera Adelmo.

Segundo ele, a gestão precisa ter o compromisso de aumentar a oferta de vagas em creches. “A gente recebe muitas reclamações das famílias pela falta de lugar. Então, esse é um dos pontos cruciais que precisam ser melhorados, abraçados como bandeira para melhorar a educação. Além, é claro, da valorização dos profissionais”, ressalta Adelmo.

“Desde que assumiu, a gestão atual não deu nenhum reajuste para os agentes da Educação. Sem falar que há um piso salarial estipulado por lei federal que não é cumprido. Estamos nessa luta de valorização dos profissionais da educação, não só do professor, porque ter a educação como prioridade passa por isso, pela valorização salarial e boas condições de trabalho”, atesta. Atualmente, segundo Adelmo, 1726 professores da rede e mais cerca de mil outros servidores.

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Maria Cecília: “nosso maior desafio é corrigir a distorção do fluxo escolar, isto é, a defasagem entre a idade e a série”

Saúde de Aracaju vive momento delicado

Aracaju conta com 55 unidades de saúde sob sua gerência: são 44 unidades básicas; dois Centros de Especialidade Médicas; duas unidades de urgência e emergência (uma UPA e um HPP); seis Centros de Atenção Psicossocial e um Centro de Educação Permanente para capacitação dos servidores.

Esses espaços recebem, aproximadamente, 99,2 mil usuários mensalmente. Destes, cerca de 55 mil são na rede de atenção primária; 27 mil na rede de urgência e emergência; 10 mil na rede especializada e 7200 na atenção psicossocial. Os dados são da Secretaria Municipal, que tem à frente a médica Waneska Barboza, que ressalta: “as pessoas precisam entender que a Saúde é complexa”.

“A Secretaria Municipal da Saúde é dividida em Redes, e em cada uma houve planejamento e investimentos ao longo dos dois últimos anos. O Município possui uma rede de serviços que compreende os níveis de atenção à saúde, desde a atenção básica até a alta complexidade, totalizando 67 serviços próprios e 62 serviços contratados”, explica Waneska barboza.

Em 2018, durante a campanha contra a gripe, a Secretaria criou o Posto Itinerante para poder imunizar mais usuários, com foco na população idosa. Também colocou em funcionamento o Castramóvel para auxiliar no controle populacional de cães e gatos e promover o controle das zoonoses, castrando cerca de 500 até o momento.

“Também foram feitos 15.970 testes rápidos e, em 2017, 10.934”, revela. Hoje, os principais desafios da gestão, segundo a secretária, são a reorganização no modelo de atenção à saúde devido a transição epidemiológica que se expressa por meio de uma tripla carga (doenças infecciosas, causas externas e condições crônicas) pelo crescimento e pelo envelhecimento populacional; o subfinanciamento do Ministério da Saúde, considerando o desmonte de algumas políticas prioritárias.

“Para suprir essa carência, o município investiu na Saúde no ano de 2018 um percentual de 22% dos recursos próprios, sendo que por lei a obrigação é de apenas 15%”, revela. A Secretaria está passando por uma fase de transição do novo sistema que está sendo integrado com o Prontuário Eletrônico e, à medida em que o tempo vai passando, está corrigindo alguns erros identificados.

“A tendência é de que essa situação melhore a cada dia. Nós temos um compromisso com o prefeito de bater algumas metas estabelecidas com a empresa gestora desse sistema, e até o final deste mês vamos nos reunir para cobrar mais efetivamente os ajustes solicitados”, assegura Waneska.

A Rede de Atenção Primária – REAP – é responsável pelas 44 unidades básicas de saúde e recebeu diversos investimentos, como a implantação do Sistema de Gestão – Prontuário Eletrônico em 23 UBS; construção da UBS 17 de Março, etc. Na Rede de Atenção Especializada – REAE, houve revitalização do CEMAR Siqueira Campos; instituição do Centro de Atenção à Saúde da Mulher –CAASM, com custo de R$ 108.105,15.

Na Rede de Atenção Psicossocial – REAPS –, foram realizados atividade lúdica, planejamento da REAPS com profissionais da rede; construção da linha de cuidado em Saúde Mental na Atenção Primária, etc. E a Rede de Urgência e Emergência – REUE –, que possui dois equipamentos: Unidade de Pronto Atendimento Dr.Nestor Piva (Zona Norte) e Hospital de Pequeno Porte Desembargador Fernando Franco (Zona Sul), recebeu adequação física das duas unidades hospitalares.

Augusto Couto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde – Sintasa –, diz que, entre todas essas atividades, a gestão deixa faltar uma. “Falta uma política de concursos públicos para todas as áreas da saúde, inclusive, nos setores administrativos que são do quadro da administração geral e/ou terceirizados”, critica Augusto. Segundo ele, outras dificuldades são a falta de reajuste salarial e condições de trabalho de um modo geral.

Mesmo assim, Augusto avalia a gestão da saúde em Aracaju como satisfatória. “Mas o prefeito precisa melhorar o diálogo com os representantes das categorias em alguns assuntos importantes como política salarial e condições de trabalho nas unidades de saúde, Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Hospital de Pequeno Porte (HPP) Des. Fernando Franco e na UPA Nestor Piva”, aponta.

Segundo ele, existe uma mesa de negociação do SUS instalada, mas que não avança muito nos debates. “Porque os secretários municipais da Fazenda (Semfaz) e do Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplog) não fazem parte desta mesa. Então, quando temos problemas que envolvam orçamento temos que partir para a mesa geral de negociação. Nessa hora, achamos que o prefeito poderia se envolver mais porque ele que foi o eleito, é a pessoa responsável para tomar as decisões mais importantes”, ressalta.

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Waneska: há alguns desafios, pois a saúde é complexa

Aracaju é uma das poucas cidades com política de saneamento

Segundo o IBGE, Aracaju apresenta 87.2% de domicílios com esgotamento sanitário adequado, 56.6% de domicílios urbanos em vias públicas com arborização e 55.4% de domicílios urbanos em vias públicas com urbanização adequada – presença de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio. 

O secretário Municipal da Infraestrutura, Sérgio Ferrari, ressalta que a Capital faz parte de um restrito número de cidades brasileiras cujas políticas de saneamento básico estão regulamentadas em lei, através de um Plano Municipal de Saneamento. “Essa conquista faz parte de um projeto administrativo que tem um Planejamento Estratégico, cujas metas estão sendo alcançadas conforme passa o tempo”, avalia Sérgio Ferrari.

Por exemplo, depois de ter feito os estudos necessários, o Executivo encaminhou, em setembro de 2017, a minuta do Plano de Saneamento para a Câmara de Vereadores e, já em dezembro, sancionou este dispositivo legal imprescindível para a captação de recursos para obras estruturantes e, mais ainda, com objetivos de consolidar o saneamento da cidade.

“O Plano é fundamental para permitir que o município possa pleitear recursos federais, uma vez que a União tem condicionado a liberação de recursos do orçamento à existência do Plano. Isso não quer dizer que garanta recursos, mas que, caso algum seja liberado, o município de Aracaju não tenha impedimento em receber”, destaca o secretário.

Segundo ele, a meta principal é universalização dos serviços, ou seja, que todas as localidades de Aracaju usufruam de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, manejo dos resíduos sólidos, drenagem, limpeza e fiscalização preventiva das redes, além do emprego de tecnologias apropriadas, controle social e transparência.

“O Plano é muito mais estratégico, do ponto de vista de regular o direcionamento da relação da Prefeitura com o prestador de serviço de saneamento. A partir do Plano, podemos começar a exigir e a programar o atendimento de metas, por exemplo, da universalização do abastecimento de água ou universalização do tratamento de esgoto. A existência do Plano dá à Prefeitura condição de celebrar um contrato ou um programa, onde se estabeleça diretrizes e metas a serem atendidas pela prestadora de serviço e a Prefeitura”, afirma Ferrari.

No que compete à Prefeitura de Aracaju, de forma específica a Emurb, muitos investimentos estão sendo realizados pela gestão para elevar esses índices. “Atualmente, estão sendo investidos cerca de R$ 135 milhões em obras estruturantes em diversas localidades: Loteamento Moema Mary, Japãozinho, Atalaia, Coroa do Meio, 17 de Março, Santa Maria, Aeroporto, Aruana, Farolândia, Soledade, Dom Luciano e Inácio Barbosa”, revela.

A disponibilização do saneamento básico universal em Aracaju significa, sobretudo, uma política de prevenção de doenças e eliminação de riscos para a população, além de aumentar o bem-estar para os beneficiados com essa política pública.

Dentro desse tema, uma questão bastante importante para a população aracajuana é a balneabilidade das praias da Capital, destino certo para turistas e moradores. O químico industrial Fabiano de Souza Resende, subgerente de Análises Laboratoriais da Adema, assegura que todos podem ficar tranquilos quanto a isso.

“As condições das praias de Aracaju são boas, considerando os níveis estabelecidos na Resolução Conama 274/2000. Segundo essa resolução, os locais que apresentarem mais de mil unidades formadoras de colônias de coliformes termotolerantes — também chamado de coliformes fecais – por 100ml de água (ufc/ml) em três semanas consecutivas, deverão ser consideradas impróprias para o banho”, esclarece Fabiano.

Os testes para determinar esses índices são realizados através de um método analítico especifico, nos quais são avaliados critérios como indicadores microbiológicos – bactérias – e também critérios visuais, como a presença de resíduos sólidos ou líquidos, óleos e graxas, entre outros.

Fabiano destaca que essa – felizmente – é uma época propícia para o banho de mar, já que a balneabilidade varia a depender da estação do ano. “No verão, por via de regra, as praias encontram-se em condições boas para banho. No inverno, nas praias urbanas, a condição de balneabilidade é reduzida, devido ao escoamento de água de chuvas que carregam às praias efluentes domésticos/sanitários sem o devido tratamento”, explica.

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Praias em condições de balneabilidade têm relação direta com a cobertura de saneamento básico

Aracaju tem números alarmantes de violência e criminalidade

Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública – área que compete aos Estados e, por isso, os municípios geralmente não dispõem de Secretarias para a área – apontam que Aracaju registrou 1653 homicídios dolosos entre 2014 e os primeiros meses dois meses de 2019, sendo 2016 o ano em que esse tipo de crime se acentuou, com 414 registros.

Já os crimes de latrocínio foram 60; os de lesão corporal seguida de morte, 2; roubos a ônibus, 3.647 – só em 2016 foram 1.385; e 6.303 casos de violência doméstica, com 1.372 ocorrências dessa natureza apenas em 2017. O coronel José Moura Neto, comandante do policiamento da Capital, não tem dúvidas sobre a principal causa da maioria desses crimes. “Sem sombra de dúvidas, é a relação com o tráfico de drogas”, diz.

Num segundo plano, na opinião do coronel, estão o desemprego e a falta de estrutura das famílias. A junção desses dois fatores, segundo o coronel Neto, é literalmente perigosa. “O desemprego acaba jogando muitos jovens sem esperança nas mãos da criminalidade. Com as famílias desestruturadas e sem educação e emprego, os índices criminais acabam crescendo”, argumenta.

Segundo ele, hoje os jovens entram cada vez mais cedo para o crime. “A gente faz apreensão de jovens de 13, 14 anos. Isso é muito complicado e não acontecia antes”, revela.  Por isso, o coronel acredita que a educação é a resposta que deve ser dada à criminalidade. “Educação forte, de qualidade e inclusiva, é isso que afasta os jovens do crime”, garante.

Segundo o coronel, as escolas devem apostar em educação em tempo integral, com os alunos praticando esporte e tendo acesso à cultura. “Essa miscelânea faz com que o jovem se afaste das drogas e do crime”, assegura coronel Neto. No entanto, para ele, o modelo ainda não é o que se tem na prática. “A escola de hoje é praticamente a mesma que eu estudei, há 30 anos”, critica.

Mesmo assim, ele comemora os índices de redução e diz que Aracaju já não é considerada a Capital mais violenta. “Houve redução de 14% no número de homicídios entre 2017 e 2018 e de 45% agora em 2019”, revela. Para além dos números, o que prova isso, segundo o coronel, é a retomada de um costume antigo da população aracajuana.

“Aracaju tem aquela característica de as pessoas sentarem em frente às suas casas e quando a gente vê as comunidades retomando isso, é claro, precisamos aprimorar a escola, para que ela atraia e mantenha o jovem”, reforça. Mas o coronel ressalta: a Polícia está fazendo a parte dela: “estamos trabalhando constantemente em operações e prisões extraordinárias e temos dado grande exemplo de redução”.

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Coronel Neto: Educação afasta jovens das drogas e do crime

Da tração animal aos congestionamentos: Aracaju tem carências de mobilidade

Desde a formação, Aracaju passou por bondes de tração animal, bondes elétricos, implantação do sistema de transporte coletivo integrado através de ônibus e, mais recentemente, por um crescimento de veículos particulares acima da média nacional.

No final dos anos 70, o GEIPOT, uma estatal brasileira, desenvolveu um estudo para a cidade de Aracaju quando foi cogitada a implantação de hipovias, as vias para tração animal. Isso foi há apenas 38 anos. Hoje, o tráfego dele pela Capital é praticamente inviável – e alvo, inclusive, de ações políticas no sentido de retirá-los completamente de circulação.

“Esse fato nos leva a refletir sobre o rápido crescimento de Aracaju. Há 38 anos atrás tínhamos uma Aracaju muito nutrida por veículos de tração animal e cavalos. Já nos últimos tempos, tivemos um crescimento de 35% do número de motocicletas, perda de aproximadamente 25% de passageiros no transporte público e a inserção dos sistemas por aplicativo de transporte”, compara o arquiteto e urbanista Ricardo Soares Mascarello, que também é professor universitário.

De fato, o cenário atual da cidade de Aracaju, que teve sua ocupação espraiada por toda a extensão do seu território, demandou, segundo Ricardo, vários vetores de sistema viário e consequentemente de novos eixos de transporte coletivo. “Esta expansão urbana foi marcada por carências de planejamento com uma visão integrada de cidade no tocante ao meio ambiente natural, à necessidade de equipamentos urbanos de fácil acesso, mobilidade, infraestrutura de saneamento básico e um projeto alicerçado ao funcionamento equilibrado da cidade”, avalia.

A falta de tudo isso acarretou a implantação espalhada de infraestrutura urbana de mobilidade, gerando investimentos e custos demasiados. “A forma de ocupação urbana está ligada diretamente a relação de mobilidade dos cidadãos”, justifica Mascarello. Nesse contexto, ele garante que a implantação dos Conjuntos Habitacionais dos anos 80 gerou grandes distâncias a serem percorridas para alcançar os equipamentos urbanos e postos de trabalho.

“A malha viária não foi estruturada no tempo em que o crescimento da ocupação ocorreu. A grande extensão dos novos condomínios fechados e a falta de planejamento integrado geraram espaços desconectados devido à fragmentação da malha urbana”, ressalta. Esses fatores também terminaram por configurar rupturas na malha viária, prejudicando assim a permeabilidade urbana e os grandes adensamentos em regiões de difícil acesso.

“A visão tecnicista de direcionar a cidade para o uso do automóvel consolidou sérias desigualdades entre os modais de circulação, que, muito além do olhar mais específico para o uso da bicicleta, consolidou uma desatenção profunda com a caminhabilidade da cidade”, observa o arquiteto e urbanista. Por conta disso, ele acredita que, em algumas situações, é difícil solucionar essas questões. É o caso da caminhabilidade.

“Temos um Código de Obras de 1966 e, desde lá, já exigia que as rampas para acesso de automóveis às edificações deveriam ocupar apenas 50cm da calçada. Evidenciamos em Aracaju que as rampas ocupam toda a seção transversal da calçada e que, atreladas ainda à falta de cuidado com as cotas de nível das edificações, geraram desníveis constantes nas calçadas constituídas em toda a cidade. Não há possibilidade efetiva de alteração neste fato por já termos uma idade construída nesta morfologia”, atesta.

No que diz respeito ao caminhar nas calçadas, as melhorias só podem acontecer se forem constituídas calçadas complementares no local dos estacionamentos junto às vias. Ou seja, proibir estacionamento e aumentar as calçadas. Nesse caso, ele diz que Aracaju, por ser uma capital com uma escala relativamente pequena, possui imensas possibilidades de mudança do cenário tanto na cidade existente quanto da cidade do futuro – relativa à Zona de Expansão Urbana.

“Visualizamos claramente que a partir de uma leitura sensível da atual situação da cidade – diagnóstico e dados atuais de origem e destino –, podemos começar a exercer um profundo debruçar de planejamento para a consolidação da conexão cicloviária, ampliação de calçadas, licitação do transporte coletivo e um olhar futuro para a expansão e a forma de ocupação da cidade”, destaca. O professor está se referindo à proposta de consolidar uma pequena equipe municipal para efetivamente desenvolver planejamento processual e contínuo frente a mobilidade urbana.

Isso se daria com vistas a uma cidade com premissas elementares de cidade sustentável e humana e ainda com pequenas pitadas de tecnologia, como, por exemplo, com o uso de um aplicativo único para o transporte público coletivo, indicando horário e percursos dos veículos. “Temos a certeza e convicção de que isso ainda é possível, através de um trabalho técnico compromissado, vontade política e uma expressiva articulação entre técnicos, a gestão pública, o empresariado e com uma aproximação efetivas com os cidadãos, que são os protagonistas que vivem a cidade”, argumenta Mascarello.

Uma mudança nesse nível poderia, enfim, melhorar a qualidade de vida em Aracaju, já que a mobilidade e ela, segundo o professor, estão intimamente ligadas. “Os centros urbanos se tornaram um organismo vivo de deslocamento cotidiano e qualquer fator que emperre os deslocamentos prejudica a vida diária de seus habitantes. Basta pensar em um usuário de transporte coletivo que espera 40 minutos em um ponto de ônibus e ainda fica sem fluidez na malha viária, gerando alto tempo de percurso”, analisa.

Para Ricardo, essas sensíveis mudanças remetem a profundas reflexões. “E um vislumbrar para uma Aracaju que continue sendo esta cidade maravilhosa e que nossas crianças possam, daqui a 36 anos, comemorar os 200 de Aracaju dizendo: Aracaju, cidade maravilhosa”, ressalta.

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Mobilidade e qualidade de vida estão intimamente ligadas

Aracaju ajuda a consolidar política cultural de Estado  

Investir e apoiar a cultura local é mais um passo para tornar Aracaju uma cidade inteligente, humana e criativa. E é por esse caminho que a Fundação Cultural Cidade de Aracaju – Funcaju – está seguindo. Ela é responsável pela supervisão das ações e serviços na área cultural, artística e de preservação do patrimônio histórico municipal e garante ter uma programação para 2019 que atende a todas essas áreas.

“Em 2019, a Prefeitura de Aracaju, através da Funcaju e das suas unidades vinculadas, promoverá um conjunto de ações de formação, fomento e difusão, ofertando 82 cursos e oficinas culturais, sendo um total de 3.600 vagas. Além disso, a Funcaju possui projetos prioritários com o propósito de ocupar o centro histórico da capital sergipana com as diversas linguagens das artes”, afirma Cássio Murilo, presidente da Funcaju.

Entre tantas atividades desempenhadas pela Funcaju, talvez uma das mais importantes seja a de fomento às atividades comprometidas com o caráter cultural da cultura popular aracajuana e, claro, de difundi-la. “Seguindo por esse caminho que a Prefeitura Municipal de Aracaju (PMA), através da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju), tem buscado oferecer produtos e serviços que visam proporcionar uma maior inclusão social e uma valorização da cultura aracajuana. Trabalhamos para fortalecer a ideia de que a cultura deve falar com todos e contribuir para transformar e aproximar territórios”, ressalta Cássio Murilo.

Além da formação, a Funcaju também lança, agora em 2019, programas de fomento à arte e à cultura, englobando um conjunto de editais que será lançado no decorrer do ano. “Inclusive, já foram lançados dois editais para projetos que buscam identificar novos talentos, capacitar profissionais, além de incentivar a cena artística aracajuana”, diz o presidente.

O Projeto Quinta Instrumental é um deles. Criado em 2017, o projeto potencializa a criação, interpretação e execução da música instrumental em suas mais variadas formações. O outro é o Salão dos Novos. Já na sua 27ª edição, a iniciativa tem o intuito de valorizar os artistas visuais sergipanos. 

“Na difusão cultural através dos eventos, serão realizadas 30 ações, com o objetivo de trazer o público para o Centro Cultural de Aracaju, localizado na Praça General Valadão, marco zero da capital”, destaca. E por falar no Centro Cultural de Aracaju, a unidade representa um dos principais espaços de valorização e disseminação da cultura e arte sergipana. “Em 2018, comparadas a anos anteriores, as visitações de turistas nacionais cresceram cerca de 17%, mostrando como o Centro Cultural vem se tornando cada vez mais reconhecido no país”, comemora Cássio.

O Centro traz diversas programações por meio do Teatro João Costa, do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira – NPDOV –, e das Salas de Oficinas e Exposições, além de muitos outros eventos realizados pelo público externo que utiliza o local. Outro importante espaço do prédio é o Museu Cidade de Aracaju Prefeito Viana de Assis, que guarda toda a história da capital, com o propósito de trabalhar a educação patrimonial, e oferece exposições que narram a cultura do Estado.

Para Cássio Murilo, tudo isso contribui para a consolidação de uma política cultural de Estado, que, na visão dele, é constituída por uma rede de ações que busquem o fortalecimento, a salvaguarda e a difusão da cultura. Nesse contexto, a Funcaju tem papel de destaque e uma grande responsabilidade. “A Funcaju tem como missão a supervisão e desenvolvimento das ações e serviços na área cultural, artística e de preservação do patrimônio histórico da cidade de Aracaju, considerando-os como responsabilidade social, de modo que contribuam para a melhoria da qualidade de vida da sociedade aracajuana”, reitera.

A programação em alusão aos 164 da Capital foi lançada pelo prefeito Edvaldo Nogueira na manhã da última sexta, 15. Ao contrário dos anos anteriores, em 2019, a celebração pelo aniversário da capital sergipana terá conotação diferente, segundo Edvaldo.

“Será a comemoração do trabalho e das realizações. Chegamos ao final de um período de muitos esforços em que realizamos uma transformação jamais vista na nossa cidade e é justamente o final desse marco que celebraremos. Arregaçamos as mangas, não hesitamos diante dos problemas e, graças ao planejamento e esforços, chegamos até aqui. Por isso temos muito que comemorar”, destacou o prefeito.

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Cultura aracajuana é a especialidade da Funcaju, presidida por Cássio Murilo

Aracaju, porta de entrada de turistas de e para todos os cantos

Com 5.500 estabelecimentos alimentícios – restaurantes, bares, lanchonetes –, Aracaju é um verdadeiro convite à diversão. O setor emprega entre 4 e 5 milhões de pessoas no Brasil e cerca de 50 mil na Capital sergipana.

Toda essa gente é treinada para receber bem o turista e o próprio aracajuano em seu momento de lazer. Segundo Augusto José de Carvalho, presidente da Associação de Bares de Restaurantes de Sergipe – Abrasel/SE –, o segmento vem “crescendo e aparecendo”, agora que mantém uma relação mais próxima com a gestão municipal.

“Temos bastante diálogo, conversamos muito, seja com secretário de Turismo ou com o próprio prefeito”, diz Augusto Carvalho. É que a Abrasel faz parte do Conselho Municipal de Turismo, recriado no ano passado pela gestão de Edvaldo Nogueira.

O Conselho reúne 24 membros, sendo 50% representantes de órgãos ou entidades governamentais e 50% não governamentais, garantindo equilíbrio e pluralidade em sua composição. O órgão também integra a estrutura organizacional da Secretaria Municipal da Indústria, Comércio e Turismo (Semict) e tem como objetivo a promoção e desenvolvimento do turismo no município.

Entre algumas de suas competências, estão a realização de levantamentos e diagnósticos turísticos, análise de projetos e a constituição de um fundo especial destinado ao desenvolvimento sustentável do turismo.  “Com a (re) instalação do Conselho, a política de turismo ficou mais evidente. Ficou mais fácil de a cadeia produtiva ser ouvida – isso não quer dizer que seremos atendidos, mas pelo menos estamos sendo ouvidos, o que já facilita”, afirma Augusto.

Uma das pautas em que esperam ser ouvidos é a da criação de um calendário anual de eventos. “A gente julga muito importante, não só para o segmento, mas para o turismo em si, esse calendário. Ele englobaria outros municípios, mas Aracaju é a porta de entrada do Estado, e esperamos que continue assim”, diz o presidente da Abrasel/SE.

Ele ressalta que, inicialmente, o calendário não estará completo, já que trata-se de uma primeira versão. “Mas vamos enchendo, completando, o importante é ter um ponto o de partida para melhorar a vinda de turistas, pois uma das reclamações mais constantes dos turistas é a falta de entretenimento. Com o calendário, esperamos preencher essa lacuna”, reforça. Turistas e aracajuanos agradecem.

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Turismo é primordial para Aracaju e já é uma de suas grandes marcas

OPINIÃO - [*] Carlos Cauê

Aracaju, capital da sergipanidade

Em agosto de 1980 eu desembarcava na Rodoviária Nova de Aracaju, vindo de Alagoas para estudar Engenharia Química na UFS. A rodoviária por si só já era um monumento moderno e arrojado da cidade - bem diferente daquele monstrengo que eu deixara em Maceió - sinalizando para mim um toque de civilização que a nova cidade parecia oferecer. E oferecia mesmo.

Caí direto numa república universitária e ali foi o meu primeiro laboratório sobre as gentes sergipanas, os jeitos, os falares e seus saberes. Incrustrada no endereço privilegiado (e chique) da Avenida Ivo do Prado, no centro da cidade, a república era a babel da sergipanidade.

Estancianos, propriaenses, itabaianenses, gararurenses, freipaulistanos e tantos outros compunham o caleidoscópio do novo Estado em que eu viera me abrigar para ter um título superior - e todos nós tínhamos na pacata e charmosa Aracaju da época, o Eldorado dessa busca: Aracaju era sonho e era esperança.

Logo depois a própria Universidade Federal veio também revelar-se como um fabuloso celeiro da diversidade sergipana, originária nas suas cidades e suas juventudes. Ali também pude conviver com essa heterogeneidade vinda do interior do Estado, que encontrava síntese tão perfeita e acolhedora em sua capital.

Aracaju era mesmo, como continua sendo até hoje, um grande espelho da vida que se processa nos mais variados ambientes dos municípios interioranos - espelho diverso e tão parecido, irmanado por um traço subjetivo que só encontra expressão completa aqui.

E de fato, se já naquela época nossa capital conseguia ser um elemento simbólico da grandeza e da vastidão que Sergipe é culturalmente, e essa característica não se amainou com o passar do tempo. Pelo contrário: diria mesmo que se acentuou e consolidou-se como a principal vertente por onde se pode ver aquilo que se poderia chamar de Sergipe profundo.

Isso ocorreu numa via de mão dupla. Por um lado, as prerrogativas de capital fizeram com que Aracaju fosse cingida diariamente por um sem-número de demandas vindas do interior, que lhe marcaram fortemente a existência e delinearam seu principal perfil como centro urbano.

Foram incursões que variaram desde aspectos econômicos de produtividade e prestação de serviços, passando por vetores sociais inseparáveis das relações familiares entre capital e interior, até os aspectos mais exóticos da cultura e da antropologia.

Por outro lado, as cidades sergipanas aprenderam o caminho da capital e incorporaram, cada uma a seu modo, a maneira de serem, também, um pouco capital. O resultado é esse formidável amálgama que resultou no que somos hoje enquanto cidade-capital.

É claro que as peculiaridades do nascimento da nossa capital têm muito a ver com esse processo rico e complexo que se operou no tempo e na história.

Aracaju foi, por assim dizer, uma cidade “inventada” pela visão estratégica de um grande homem público, o presidente da província, Inácio Joaquim Barbosa, que teve a ousadia de plantá-la numa região economicamente promissora para que ela edificasse sua sina de polo de desenvolvimento e aglutinador de gentes - sergipanos e tantos outros de tantos outros lugares - que aqui aportaram para vivenciar a aventura de uma nova cidade e a mescla cultural que dela resultou.

Foi assim que nossa capital foi incorporando os distintos modos de vida de sergipanos dos vários cantos e produzindo uma síntese que hoje é a própria essência de nossa identidade. Uma capital moderna e planejada - uma das primeiras do país -, mas que nunca perdeu, porque ganhou desde o princípio um jeitinho muito especial de ser sergipana.

[*] É jornalista, marqueteiro político e está secretário de Comunicação Social do Governo Municipal de Aracaju.

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Cauê: "Aracaju foi, por assim dizer, uma cidade “inventada” pela visão estratégica de um grande homem público"