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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Empresas do setor de serviços seguem em alta. Mas elas podem alavancar economia?

No ano passado, das 4.277 empresas em Sergipe, 2.487 foram nesse segmento, o que, para Paulo do Eirado, ocorre por uma série de fatores. Mas economista alerta: pode ser apenas negócio de sobrevivência

O setor de serviços pode ser considerado um grande ‘case de sucesso’ no Brasil e em Sergipe. Mesmo num momento de desaceleração econômica, como o atual, ele segue crescendo. 

Em Sergipe, são milhares de empresas, de diversos subsegmentos, que contratam mão de obra e geram renda: das 75.059 empresas ativas na Junta Comercial de Sergipe – Jucese –, 42.536 são da área de serviços.

No ano passado, das 4.277 empresas abertas pelo órgão, 2.487 foram do segmento de serviços, que também foi maioria em 2017, quando foram registradas 2.155 num total de 3.853 empresas abertas no Estado. 

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Em 2017, a atividade econômica mais registrada no Setor de Serviços foi a de restaurantes e similares
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Paulo do Eirado: além de sinalizar a vontade de empreender dos sergipanos, aumento também ocorre porque serviços apresentam demanda constante

BAIXO INVESTIMENTO

“Nesse período, segundo dados do Ministério do Trabalho, foram abertos 608 postos de trabalho com carteira assinada no setor. Somente nos dois primeiros meses de 2019 foram criados 899 empregos, o que aponta que apesar das dificuldades, os empresários estão apostando na melhoria do cenário e realizando contratações.

“Além de sinalizar a vontade de empreender dos sergipanos, isso ocorre porque os serviços apresentam uma demanda constante, mesmo em tempo de crise. Além disso, esse setor demanda baixo investimento e não requer grande complexidade para a abertura de um negócio”, justifica Paulo do Eirado.

Para o economista Emerson de Sousa Silva, mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade Federal de Sergipe – UFS -  e doutorando em Administração pela Universidade Federal da Bahia – UFBA -, de fato, a explicação para esse crescente no número de empresas voltadas para serviços se dá por causa dos pequenos níveis de investimento iniciais.

SOBREVIVÊNCIA?

“No atual cenário, o empreendedorismo se impõe como uma necessidade de sobrevivência. Logo, fica mais fácil fornecer alimentos ou organizar festas do que abrir uma olaria ou uma pequena siderúrgica ou fábrica de confecções”, explica Emerson Silva. 

Exatamente por isso, para ele, o que importa, então, é saber se esses negócios se sustentam para além dos seus primeiros anos de existência e não necessariamente a abertura deles. “Os empreendedores, os estudiosos do empreendedorismo e os atuais administradores políticos sofrem de miopia. Eles não percebem que o principal entrave do ambiente de negócios brasileiro não reside na burocracia, na carga tributária, nas leis trabalhistas ou nas dificuldades de se abrir ou fechar empresas”, analisa. 

E qual seria esse entrave, então? “Não que esses tópicos não sejam importantes, mas o principal problema para o empreendedorismo no Brasil é nossa iníqua estrutura de distribuição de renda. Isso inibe fortemente os negócios porque aumenta os custos médios de transação”, explica Emerson. 

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Emerson Sousa: “No atual cenário, empreendedorismo se impõe como uma necessidade de sobrevivência”

INDICADOR

Milton Andrade, coordenador do Fórum Empresarial de Sergipe, concorda. “O setor de serviço cresce porque requer menos investimento. Muitas vezes, não requer ponto fixo, instalações ou investimento em estoque. Por isso, acaba sendo um grande refúgio para quem acabou de ficar desempregado e quer empreender”, afirma Milton.

De acordo com Paulo do Eirado, além de sinalizar a vontade de empreender dos sergipanos, o aumento também ocorre porque os serviços apresentam uma demanda constante, mesmo em tempo de crise. “Além disso, esse setor não requer grande complexidade para a abertura de um negócio”, aponta. Mas até que ponto o registro de novas empresas, mesmo que de um setor em ascensão, pode ser considerado um bom indicador econômico?

A abertura de novos empreendimentos é um termômetro importante para avaliar o grau de confiança do empresário em relação à economia. Quando alguém decide investir recursos na criação de um negócio, é porque ele aposta que o cenário para a sua atuação é, ou pelo menos será, positivo nos próximos meses”, assegura Paulo.

CICLO VIRTUOSO

Isso porque, ao abrir a empresa, ele realizará contratações, abrindo também novas perspectivas para aqueles que estavam buscando uma ocupação no mercado de trabalho. “Com mais pessoas trabalhando, a renda passa a circular gerando assim um círculo virtuoso de crescimento”, completa. Nesse cenário, portanto, segundo Paulo do Eirado, as micro e pequenas empresas têm papel fundamental.

“Os pequenos negócios são fundamentais para a economia brasileira. Em 2018, por exemplo, eles foram responsáveis por mais de 580 mil contratações no Brasil, maior salto dos últimos quatro anos e representando um crescimento de 67% em relação a 2017. Enquanto isso, as médias e grandes empresas encerraram o ano de 2018 com saldo negativo. Isso por si só mostra a força dos pequenos negócios”, ressalta.

O superintendente do Sebrae – órgão voltado exatamente à orientação e apoio aos futuros e microempreendedores – também afirma que eles, os pequenos negócios, possuem por conceito uma estrutura mais leve, menos burocrática e isso faz com que as decisões sejam tomadas de forma mais rápida. “Outro ponto a ser considerado é que nesses locais é possível inovar com mais facilidade. Isso tudo ajuda muito a dinamizar a economia e leva as micro e pequenas empresas a ocupar um papel de destaque no país”, assegura.

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Milton Andrade: “setor de serviço cresce porque requer menos investimento”

CRISE

A verdade é que, por causa desse destaque, a tábua de salvação da economia parece estar focada no empreendedorismo, com políticas que o incentivem e fortaleçam, fomentando ainda mais o ambiente de negócios. Mas, segundo o economista Emerson Sousa, a tão sonhada retomada econômica ainda não está acontecendo. “A economia brasileira cresceu somente 1,1% no último ano, reforçando uma tendência de estagnação do crescimento que vem se apresentando desde o 4° trimestre de 2017”, aponta.

Segundo Emerson, embora o Volume da Produção Industrial, medido pelo IBGE, tenha crescido 2% em fevereiro deste ano, quando em comparação com o mesmo mês do ano passado, em janeiro e em dezembro de 2018 esses indicadores foram negativos.

Além disso, as taxas de variação dos volumes de venda do comércio e de serviços também vêm estagnadas desde o segundo semestre do ano passado. “Enquanto a política econômica não mudar, o Brasil vai viver patinando”, sentencia. E por estar patinando há tanto tempo, é que o economista não confia muito na relação entre abertura de empresas e melhora da economia.

CONCENTRAÇÃO

Ele exemplifica: “se você faz um investimento de R$ 100 mil para um mercado consumidor de 10 mil pessoas, a venda média tem de ser de R$ 10,00. Mas se for para 50 mil pessoas esse custo esperado cai para R$ 2,00. Então, como nosso mercado consumidor é constrangido por conta da concentração de renda, fica difícil um empreendimento prosperar”, alega.

A relação, segundo Emerson, é a seguinte: o rendimento médio habitual da força de trabalho, em Sergipe, é de R$ 1.492,00. Só que 40% desse bolo recebe algo em torno de R$ 483,00 enquanto que os 10% de maior rendimento recebem R$ 6.290,00, segundo a PNAD/IBGE. “Nesse caso, qual o poder de compra desse contingente? Que tipo de negócio pode dar certo num ambiente assim?”, questiona.

Por isso, para Emerson, essas “reformas” de cunho liberal que vêm acontecendo– que desregulamenta as relações de produção –, num contexto de brutal concentração de renda, apenas aprofundam esses problemas. “Porque ele tira renda do trabalhador e repassa para as grandes empresas, geralmente organizadas em oligopólios.

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Em 2018, a maioria das empresas registrada exercia atividade médica ambulatorial restrita a consultas

FECHAMENTO

Dessa forma, ele acredita que, se houver alguma “retomada” econômica, não será por conta dessas medidas de apoio ao que ele chama de ‘empreendedorismo de necessidade’, que é quando a falta de oportunidades no mercado formal de trabalho força vários trabalhadores a partirem para o negócio próprio.

“O ideal seria analisar o grau de fechamento de empresas com até dois e cinco anos. Quanto mais empresas passam desses sarrafos, é sinal de que a economia está, provavelmente, indo bem”, define Emerson.

E entre 2008 e 2016, enquanto a economia crescia, a taxa de sobrevivência de empresas até dois anos saiu de 54% dos empreendimentos para 76%. “É bem possível que esse cenário tenha se revertido por conta da crise de 2015”, opina Emerson.

QUEDA LIVRE

Para Milton Andrade, do Fórum Empresarial, de fato, o número de novos CNPJs não indica crescimento da economia. Ao menos não isoladamente. “Ele pode significar, por exemplo, que outras empresas que tiveram problemas estão migrando para outros CNPJs limpos, e não crescimento econômico”, argumenta. Por outro lado, Milton, assim como Paulo do Eirado, reconhece o papel dos pequenos negócios no cenário econômico.

“A micro e pequena empresa é muito importante, porque o pequeno empreendedor consome em sua própria comunidade. Ele não vai para o exterior e não importa produtos. Isso faz com que o PIB local cresça. E é esse tipo de crescimento que nos interessa”, atesta. Mesmo assim, Milton define o cenário econômico sergipano como a ‘pior crise econômica da história do Estado’.

“Sergipe está em queda livre e não consegue encontrar o paraquedas para frear o impacto”, resume. E, para ele, essa “pior crise” só será vencida com união entre os poderes públicos e a iniciativa privada. “Nesse aspecto, o papel do Fórum é o de qualificar o debate, trazendo ideias novas, que não gerem custo para a administração pública e que tornem o Estado mais competitivo, com um ambiente de negócios melhor”, almeja.

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Governo Bolsonaro tem medidas específicas para apoiar empreendedorismo

MEDIDAS

Melhorar o ambiente de negócios foi, aliás, uma promessa do presidente Jair Bolsonaro, como lembra Paulo do Eirado, do Sebrae. “O presidente Jair Bolsonaro, em seu plano de governo, prometeu fomentar o empreendedorismo e criar um ambiente favorável para a atuação dos empresários. Estes sempre foram princípios defendidos pela nossa instituição, pois é fundamental estimular o setor produtivo para que a nossa economia volte a crescer”.

Outro ponto defendido pelo presidente é a disseminação do estudo do empreendedorismo nas universidades, projeto que já vem sendo desenvolvido pelo Sebrae em todo o Brasil, sobretudo em Sergipe. “Temos importantes parcerias firmadas com instituições públicas e privadas, além de estimular o ensino em escolas dos ensinos médio e fundamental na capital e interior do Estado”, comemora.

Ainda nesse bojo de medidas propostas por Bolsonaro, o superintendente teme a retirada de recursos do Sistema S. “Essa diminuição de receita poderá comprometer seriamente os serviços que são disponibilizados por essas entidades aos cidadãos”, lamenta. No caso do Sebrae, seriam reduzidos a oferta de capacitações, os atendimentos, as orientações empresariais e todo o tipo de apoio que a entidade oferece aos pequenos empresários sergipanos.

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Sebrae desenvolve papel de orientação e apoio às pessoas que desejam se formalizar como microempreendedores

OTIMISMO

Já Milton Andrade define o pacote de Bolsonaro como “o que há de melhor no mundo”. “Paulo Guedes é um grande economista e tem demonstrado que o Brasil pode entrar na rota do crescimento econômico, basta adotar as medidas de livre mercado, de redução de burocracia e de aumento da competividade”, acredita.

De acordo com Milton, todos os países que prosperaram adotaram, em algum momento, essas medidas. “Temos convicção de que esse é o modelo mais acertado para o Brasil”, reforça. Diante disso, Milton espera que esse panorama econômico melhore em breve. “Já paramos de cair”, diz.

Para além disso, projetos como o da termoelétrica e da retomada de poços da Petrobras em terra, segundo Milton, vão impactar o PIB sergipano. “Sem falar na parceria do Fórum com a Prefeitura e o Governo do Estado, através da qual podemos melhorar esse ambiente, atrair investimentos e fazer parcerias público-privadas”, ressalta.

Para Milton, o Estado nunca pode perder de vista o foco na qualificação da mão de obra e na infraestrutura. Quem sabe assim, as previsões de Paulo do Eirado se concretizem: “acreditamos sim em uma melhoria do ambiente econômico em 2019. Penso que o pior da crise já passou e deveremos ter um ano positivo”.

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Junta Comercial registra, a cada ano, mais empresas do setor