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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Encruzilhada: entre a economia e a vida, escolher o quê?

Mesmo com economia praticamente parada, não há previsão para desabastecimento de produtos essenciais

A economia da nação ou a preservação da vida das pessoas? É preciso mesmo escolher entre uma e outra? Essa dicotomia, essa verdadeira encruzilhada, está sendo mais um motivo de polarização num país já conflagrado por um embate quase imbecil entre o que é esquerda e o que é direita. E tudo o mais se agravou e se dividiu após pronunciamento do presidente Jair Messias Bolsonaro na terça-feira da semana, defendendo que as pessoas deveriam sair do enclausuramento e ir para as ruas.

Diferentemente de médicos e pesquisadores, o presidente Jair Bolsonaro é contra as medidas de isolamento social e acredita que a crise econômica decorrente da ausência de pessoas em seus postos de trabalho supera a crise de saúde gerada pelo Covid-19 que, aparentemente, está em estágio inicial.

Mas para o economista Emerson de Sousa Silva, mestre em Economia e doutor em Administração, já há impactos na economia causados por essa crise do coronavírus. “A riqueza gerada por uma sociedade/economia é resultado da soma de todo o consumo das famílias, investimento das empresas, gastos governamentais e o saldo líquido de exportações e importações. Quando alguma dessas parcelas é afetada, o resultado já não mais será o mesmo”, argumenta Emerson.

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Setor de distribuição garante que não há previsão de desabastecimento
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Emerson Sousa: “o mais provável é uma brutal retração econômica, porque o grande motor da economia brasileira é o consumo”

MEDIDAS
“Com transferências, subsídios, crédito e etc, há como reduzir o impacto da pandemia na atividade econômica. Nessa hora, com perdão do trocadilho, o governo tem que coçar o bolso. Gastar, mesmo. E é esse o principal viés de Bolsonaro: ele não acredita em ação estatal. Mas esse é um dogmatismo tolo de quem não entende de economia”, reforça Emerson Sousa.

Por isso, Emerson de Sousa Silva avalia o discurso do presidente Bolsonaro como uma fala infantil e inadequada. “Eu poderia dizer que foi um discurso desinteligente, irresponsável e criminoso. Mas não farei isso. Apenas digo, em respeito à sua posição e liturgia do cargo, que foi uma fala infantil e inadequada”, reitera.

Isso porque, para Emerson, Bolsonaro precisa entender que a disseminação da Covid19 é um jogo jogado. Com ou sem isolamento social, a economia vai tomar um “tombo”. “Se não for pela paralisação temporária racional e controlada do isolamento social, vai ser pela mortandade generalizada causada pela doença, como estamos vendo na Itália”, analisa.

CRISE
Até porque, para o economista, não é possível manter a economia em época de pandemia. “Se o termo manter se referir à promoção de uma estabilização do crescimento do produto, a resposta é claramente não. Doenças mexem com o principal insumo da atividade produtiva: a ação humana. Sem o ser humano, não há economia”, resume.

Segundo Emerson, pandemias afetam a sociedade das mais variadas formas, tanto para infectados, que perdem a saúde; quanto para sãos, que restringem as suas condutas. “Dessa forma, o princípio unificador de toda e qualquer medida tomada é o de que, mais do que nunca, "o forte tem a obrigação de defender o fraco. Até por uma questão de sobrevivência da própria espécie”, reitera.

Apesar disso, paradoxalmente, segundo ele, ainda é cedo para fazer previsões, mas, por outro lado, já é possível supor que 2020 está economicamente perdido. “Se a atual política econômica, calcada em uma austeridade fiscal desnecessária e míope, já ia atrasar o país, a Covid19 sedimentou esse quadro. Mas uma mudança que espero que ocorra é a de que os brasileiros passem a valorizar a existência de serviços públicos universais e gratuitos e passem a lutar pela melhora de sua qualidade”, avalia.

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Empresas estão fechadas em Aracaju

DISTRIBUIÇÃO
O líder empresarial Breno França atua como administrador na empresa França, do setor atacadista distribuidor e é diretor da Federação de Bens de Comércio e Turismo de Sergipe - Fecomércio -, além de presidir o Sindicato do Comércio Atacadista de Sergipe. Segundo ele, “não há risco de desabastecimento no comércio varejista de nenhum dos 75 municípios do Estado”.

“Venho mantendo contato quase que diariamente e eles garantem que todos os pedidos programados junto às indústrias estão sendo entregues e que há estoque suficiente de produtos alimentícios, de higiene, sanitizantes, bebidas, medicamentos, produtos médico-hospitalares, agropecuárias, pets, embalagens, etc”, garante Breno França.

“Há estoque de todos os produtos que são essenciais às famílias sergipanas, por isso não há necessidade de irem às pressas ao mercadinho, ao açougue e comprar de modo excessivo ao que habitualmente costumava comprar”, completa o administrador.

ABASTECIMENTO
Para Breno França, garantir o abastecimento dos lares é a prioridade nesse momento. Por isso, segundo ele, não houve alteração nos preços dos produtos. “Até mesmo porque não há justificativa, pois o que controla o preço do produto é a lei da demanda e da oferta. Diante da oferta regular e, se preciso for, do aumento dessa oferta para atender a necessidade de consumo da população, não há justificativa para o aumento”, reitera.

Breno França destaca, porém, que alguns produtos pontuais, como o do álcool em gel, tiveram diferenciação de preços. “Mas a gente pede que entre em contato com a polícia civil e denuncie, porque as lojas que são genuinamente sergipanas têm praticado os mesmos preços de antes”, ressalta.

Breno ressalta que o Sindicato montou uma sala de monitoramento, de onde tem acompanhado diariamente o abastecimento em todos os municípios. “Caso haja necessidade, temos um plano de contingência mapeando as eventuais cidades que necessitem de intensificação da visita dos atacadistas para abastecer o pequeno e médio varejo”, garante. Mas ele reforça: “não há risco de escassez”.

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Breno França: “há estoque de todos os produtos que são essenciais às famílias sergipanas”

EMPRESAS
“Estamos atuando junto a entidades que representam o setor produtivo para solicitar medidas do Governo do Estado para mitigar os efeitos, dando condições para que possamos manter os empregos e voltar com as atividades das empresas”, enfatiza.

Isso porque, de acordo com Breno França, os efeitos do fechamento de lojas certamente afetarão em cheio muitas empresas. “Se faz necessário que o Governo do Estado siga o exemplo do Governo Federal e de Estados vizinhos para mitigar os efeitos desse fechamento, para que após o período da quarentena, elas possam continuar funcionando e gerando emprego e renda para a população de Sergipe”, ressalta.

Ele acredita que tão importante quanto cuidar da população é cuidar das empresas. “Nesse momento em que as empresas estão fechadas, é importante que a população faça suas compras no pequeno e médio varejo para que a economia seja retroalimentada e a gente continue promovendo a geração de renda”, destaca.

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Presidente da Emsurb se reuniu com produtores de alimentos

AMBULANTES
Para além das empresas formais, o momento também compromete os feirantes e vendedores ambulantes, já que as feiras livres estão suspensas por 15 dias em Aracaju e a comercialização de itens está proibida em diversos pontos da capital. Inclusive, por decreto municipal.

O presidente da Empresa Municipal de Serviços Urbanos – Emsurb -, Luiz Roberto Dantas, reuniu-se, na manhã da último quarta-feira, 25, com representantes das cadeias produtivas de frangos e hortifruti que abastecem as feiras livres da capital, e discutiu alternativas para a não descontinuidade do escoamento da produção do campo devido à suspensão temporária da realização das feiras no município de Aracaju.

Durante a semana, Luiz Roberto Dantas se reuniu com esses produtores para discutir o escoamento da produção dos alimentos. “A Prefeitura reconhece a importância desta cadeia produtiva para o abastecimento da capital, entretanto, explicamos que a situação que ocorre em Aracaju, no Estado, no país e no mundo, demanda que sejam estabelecidas medidas mais restritivas e com um olhar voltado, acima de tudo, para a saúde da população”, afirma Luiz Roberto (leia a Entrevista Domingueira concedida por ele ao Portal JLPolítica ontem, na qual garante que não há ameaça de colapso em nenhum setor - http://jlpolitica.com.br/entrevista/luiz-roberto-nao-colocamos-em-segundo-plano-a-preservacao-de-vidas.)

O presidente da Emsurb explicou, ainda, que o período de suspensão de realização das feiras livres, estabelecido no Decreto 6.101, que prossegue até o dia 6 de abril, servirá para que seja feita uma análise visando à reestruturação dos espaços e adoção de medidas de higienização e distanciamento social - medidas cruciais para conter o alastramento do vírus.

Em síntese, neste momento em que as pessoas estão com medo nessa encruzilhada do entre a economia e vida, a escolha não pode ser feita com gestos irresponsáveis. E se esse cuidado partir de quem comanda a nação, melhor ainda.

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Em pronunciamento, presidente Bolsonaro disse não haver necessidade de isolamento