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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Enquanto câncer avança, há no HU unidade de tratamento à espera de parceiros

Espaço foi inaugurado em 2017, mas ainda não opera de forma plena porque precisa que Estado ou Aracaju adiram à contratualização. “Vamos estudar a possibilidade de parceria para trazer para nosso Estado o modelo de gestão e de assistência que funciona tão bem lá”, diz Belivaldo, numa referência ao Hospital do Amor, de Barretos

A imagem que abre essa matéria, na atual condição da saúde pública no país, parece até uma brincadeira: uma sala completamente pronta e preparada para atender ao crescente número de pacientes oncológicos. Porém, sem uso. O espaço, inaugurado em 2017, atende à necessidade de expansão do Hospital Universitário.

E poderia significar o terceiro serviço de Oncologia que o Estado de Sergipe tanto precisa - atualmente, conta apenas com dois, o do Hospital de Urgência de Sergipe - Huse - e o do Hospital Cirurgia. Com o funcionamento de apenas essas duas unidades, o atendimento é deficitário e as falhas vão desde a falta de equipamentos e medicamentos até a interrupção do serviço.

Problemas que agravam, e muito, a situação já bastante difícil de quem enfrenta a doença. Sheyla Galba da Costa Santos conhece bem essa situação. Ela foi diagnosticada com câncer de mama e, desde 2015, quando seu tratamento foi concluído, luta, junto a outras mulheres, por um atendimento mais digno no Estado. Esse grupo de mulheres, unido por essa busca, é o Mulheres de Peito.

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Hospital de Cirurgia deixou de ofertar radioterapia desde o ano passado
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Sheyla Galba: “nos unimos para lutar por um tratamento digno”

INTERRUPÇÃO

Para Sheyla, nesse período os casos de câncer aumentaram na mesma proporção que o da deficiência do Estado na oferta de serviços e tratamentos. “A gente sente na pele. E sabe que a luta é importantíssima, porque o tratamento não pode ter interrupção, embora seja o que mais vem acontecendo”, revela.

De 30 de janeiro de 2015 até aqui, 34 mulheres que integravam a Associação Mulheres de Peito já morreram em virtude dessa interrupção. “Quando interrompe, o tumor volta, e bem mais agressivo”, diz Sheyla. A primeira a morrer foi Iva Leite, que tinha 32 anos e teve a radioterapia atrasada e depois interrompida completamente.

“Depois disso, dissemos que iríamos lutar até tudo ficar dentro da normalidade”, avisa Sheyla. No entanto, essa normalidade ainda está longe de ser alcançada. “Porque é como se as autoridades não se atentassem ao nosso grito de socorro. Além da doença, a gente tem que implorar pelo tratamento. São insensíveis”, acusa.

PROBLEMAS

Para Sheyla, a insensibilidade é tão grande que, mesmo perdendo duas personalidades importantes na histórica política recente do Estado para a doença - Marcelo Déda e José Eduardo Dutra -, a postura em nada muda. “Eles pelo menos tiveram tratamento e morte dignos. Mas essas 30 mulheres morreram sem qualquer dignidade, algumas até amarradas, sem tratamento, com químio interrompida”, reafirma.

Para mudar esse cenário, Sheyla aponta algumas inciativas que seriam fundamentais. “Transparência nas filas de cirurgia de químio e rádio, com um sistema alinhado, porque a gente dá entrada na químio, vai para um oncologista, radioterapeuta, psicólogo, e eles não têm acesso ao nosso protocolo. Isso seria muito importante, pois daria acesso a informações importantes a todos os médicos”, destaca.

A falta de medicamento também é um problema sério. “Desde dezembro do ano passado o carboplatina estava em falta. Chegou dia 1º de fevereiro e acabou dia 7. É uma falta de compromisso muito grande”, critica.

TRATAMENTO

Assim como na maioria das doenças, o tratamento do câncer varia a depender do tipo e da gravidade dele. No caso do câncer de mama, é feita uma cirurgia para retirada do tumor e a químio é realizada a cada 21 dias, chamada de químio vermelha. Depois, as sessões passam a ser semanais e são chamadas de brancas. Depois da químio, vem a radioterapia, que são 30 sessões diárias. Sem interrupção, em tese.

Isso porque, atualmente, pelo SUS, só são duas máquinas de radioterapia, que são as que funcionam no Hospital de Urgência. “Isso prejudica todo o tratamento. Além do atraso, o câncer volta. O tumor volta mais agressivo ou com metástase, e aí o organismo não aguenta”, reforça Sheyla Galba.

Uma das integrantes do Mulheres de Peito ficou sem a rádio e, ao fazer uma ressonância, foi constada a volta do tumor, dessa vez nos dois lóbulos do fígado. “Agora, ela está fazendo uma nova químio. Por isso, a nossa luta é para que o primeiro tratamento seja feito da forma correta, o que já diminuiria esse sofrimento”, reitera.

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Carreta do câncer está inativa e fez MP entrar no circuito

SÓ NO HUSE

O Hospital de Cirurgia, em Aracaju, também realizava a radioterapia. Mas a oferta foi interrompida em setembro do ano passado, após várias paralisações por causa do mau funcionamento da máquina.

Segundo a Assessoria de Comunicação do Hospital, quando a cogestão foi iniciada, em agosto, havia um orçamento do conserto no valor de R$ 125 mil a R$ 130. No entanto, isso não daria a segurança de que os pacientes pudessem retomar o tratamento sem mais interrupções, já que nos últimos anos este equipamento apresentou defeito mais de cinco vezes.

A Assessoria informou que a Direção focará forças agora na implantação de uma nova máquina. Enquanto isso, os pacientes estão sendo encaminhados ao Huse para a atuação dequipe de Radioterapia do Hospital de Cirurgia, que montou um 3° turno de atuação no Hospital. “No Cirurgia, os atendimentos de oncologia clínica, cirúrgica, clínica pediátrica, tratamento de quimioterapia e hormonioterapia continuam”, ressalta a Ascom.

DEMANDA JUDICIAL

Essas interrupções no tratamento - não só no Cirurgia - já motivaram diversas ações judiciais, inclusive provocadas pelo Mulheres de Peito. “Desde 2015, quando o meu tratamento não foi realizado por causa da máquina quebrada, recorremos ao Ministério Público para ter acesso tanto ao tratamento quanto aos medicamentos”, revela Sheyla.

Mas ela diz que o diálogo com a gestão pública melhorou. “Temos conseguido abertura com os assessores da Secretaria de Saúde e, com isso, reduzido essas ordens judiciais. Mas também temos muita paciência. A gente espera e acredita na palavra deles”, diz.

E por falar nisso, a 9ª Promotoria de Justiça dos Direitos à Saúde, titularizada pelo promotor de Justiça Manoel Cabral Machado Neto, ajuizou Ação Civil Pública com pedido de tutela antecipada para que o Estado de Sergipe, no prazo de 30 dias, “evide todas as providências necessárias para colocar em funcionamento a “Carreta das mulheres” - carreta de atendimento oncológico de prevenção ao câncer em mulheres”.

CARRETA

Caso não cumpra a decisão, o Estado pode ter o bloqueio da conta única, na quantia de R$ 2,7 milhões. De acordo com ação, a Carreta da Mulher foi adquirida por meio de licitação, com dinheiro oriundo da sobra do duodécimo do Tribunal de Contas do Estado - TCE -, que pactuou, através de um Termo de Compromisso celebrado com o Governo do Estado, SES, membros do Crafi e outros órgãos em novembro de 2017, que os recursos seriam devolvidos para a aquisição da carreta feminina.

O valor do contrato foi de mais de R$ 2,7 milhões, assinado no ano de 2017 pelo ex-governador Jackson Barreto, pelo ex-secretário de Saúde Almeida Lima e pelo conselheiro Clóvis Barbosa. Hoje, a carreta encontra-se em solo sergipano, mas inativa, já que não houve o seu recebimento, pois o Governo do Estado, segundo a decisão do MP, passou a adotar o entendimento de que o superávit devolvido pelo TCE não se trata de verba vinculada para o atendimento específico do Programa Saúde Já.

Segundo o Governo, foi solicitada uma avaliação técnica que ateste condições favoráveis de funcionamento e de manutenção dos equipamentos que constam na carreta que já está em Sergipe. “São uma prioridade a prevenção e o tratamento de câncer. Mas o que me preocupa com relação à carreta que está aqui é que ainda não conhecemos a assistência técnica do mamógrafo instalado. Pedimos que o hospital de Barretos nos encaminhe para que tenhamos pareceres que garantam que esse mamógrafo pode ser utilizado”, diz o governador Belivaldo Chagas.

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Belivaldo garante: voltou decidido a resolver o problema do câncer

VISITA

Para ampliar o serviço de prevenção que deverá acontecer da capital ao interior do estado, o governador Belivaldo Chagas já autorizou lançamento de edital de licitação para a aquisição de uma nova carreta, tendo como referência os padrões aplicados nos veículos vistos Hospital de Amor, em Barretos, onde esteve na semana passada em busca de parcerias para a solução do tratamento oncológico no Estado.

Belivaldo Chagas foi recepcionado por Henrique Prata, que é neto de sergipanos e presidente da Fundação Pio XII, mantedora do Hospital de Amor e voltou, como ele mesmo disse, “decidido a resolver o problema do câncer”. “Vamos estudar a possibilidade de parceria para trazer para nosso Estado o modelo de gestão e de assistência que funciona tão bem lá”, diz Belivaldo.

O Hospital de Amor é uma instituição de saúde filantrópica especializada no tratamento e prevenção de câncer. É a maior instituição oncológica do país, contando com unidades espalhadas pelas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, sendo três hospitais em Barretos, Jales e Porto Velho, Rondônia, além de unidades fixas de prevenção ao câncer em Campinas, Fernandópolis, Campo Grande, Nova Andradina e Juazeiro. 

ESTRUTURA

Com uma média de 4.100 atendimentos a pacientes por dia e mais de 400 médicos que trabalham em período integral com dedicação exclusiva, a unidade é o hospital que mais atende casos de câncer pelo SUS no Brasil em 18 especialidades. Ou seja, trazer essa expertise para Sergipe seria um divisor de águas nesse tipo de tratamento.

Em 2018, foram 159 pessoas tratadas com 18.528 sessões de quimioterapia no Huse. Já na radioterapia, foram 720 pacientes tratados na Unidade, 17.851 sessões, o que resultou em mais de 80% de alta – 587 pacientes. O Centro de Oncologia do Huse realizou 33.157 consultas ambulatoriais, uma média de 2.763 atendimentos mensais.

Segundo o Governo, para atender a essa demanda, o Huse passou por grandes avanços em 2018, tanto no contexto de melhorias estruturais, como na assistência prestada ao paciente na unidade. A maior delas foi a entrega da nova Unidade de Radioterapia com o segundo aparelho de Acelerador Linear, duplicando a capacidade de atendimento dos pacientes.

INVESTIMENTOS

O governo também garante estar investindo em parcerias para o tratamento oncológico com a ampliação de contrato para prestação de serviços da Clinradi aos pacientes do SUS.  Em 2018, foram realizados 244 pacientes na unidade. A Clinradi disponibiliza exames de ressonância e tomografia, com e sem contraste e sedação, assim como, pela primeira vez, o exame de PET Scan, para os serviços de oncologia.

Outro braço do Governo que auxilia no combate ao câncer é o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher – Caism –, também visitado por Belivado nos últimos dias. O Centro recebe 200 mulheres, em média, para a realização de exames e consultas diariamente. Gerenciada pela Secretaria de Estado da Saúde, a unidade é a única a ofertar, gratuitamente, desde consultas especializadas até o diagnóstico com exames específicos, como o diagnóstico por anatomia patológica e citopatologia, mamografia, ultrassonografia e videohisteroscopia diagnóstica. 

Durante a visita, Belivaldo defendeu a causa da prevenção do câncer de colo de útero, mama, próstata - que configuram entre os dez mais comuns no Brasil, conforme dados do Instituto Nacional do Câncer de 2018. “Eu abracei esta causa. Eu quero fazer o maior programa de prevenção do câncer de colo de útero, mama e próstata já feito na história de Sergipe. Por isso, vou estar atento, acompanhando e determinando que as coisas aconteçam. Até o meio do ano, quero que o Caism tenha um novo visual, com novos equipamentos e um novo atendimento. Acompanharei pessoalmente as obras e os exames, se preciso for”, afirmou.

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Ângela Silva: HU pode dar ajudar significativa no cenário oncológico do Estado

HU tem 25 leitos oncológicos prontos para internação, mas parados

O Hospital Universitário, da Universidade Federal de Sergipe, também conta com uma estrutura pronta e preparada para auxiliar o tratamento do câncer no Estado. O prédio, de quatro andares, dispõe de um centro de diagnóstico de imagem, centro de quimioterapia, ala de internação e centro cirúrgico. Tudo isso num prédio novo, construído exclusivamente para oncologia e transplante.

Com investimento de R$ 12 milhões do Governo Federal, através de emendas disponibilizadas pelo ex-senador Eduardo Amorim, o espaço está subutilizado. “Já funcionamos com exame e atendimento ambulatorial dos pacientes oncológicos ou com presunção diagnóstica de câncer, assim como o centro cirúrgico, que funciona em sua plenitude. A parte estrutural já está pronta, agora o que necessita é a parte de medicamentos”, assegura Ângela Silva, superintendente do Hospital Universitário.

E aí entra o impasse que leva uma superestrutura como a do HU não ser utilizada como poderia: falta a contratualização com algum ente, seja ele a Prefeitura de Aracaju ou o Governo do Estado. “A operacionalização será feita com parceria a partir disso, porque embora os servidores sejam pagos pelo Governo Federal, o custeio e a manutenção do hospital, não. Eles são custeados pela prestação de serviço. O Hospital recebe pelo que produz”, destaca Ângela.

AJUDA IMPORTANTE

A superintendente ressalta que o HU acabou realizando cirurgias oncológicas em virtude do grande montante, mas que ele ainda não é habilitado para o serviço, como Huse e Cirurgia são. “Por problemas operacionais nessas duas unidades, a gente acabou dando um suporte. Isso foi algo pactuado com o MPF (Ministério Público Federal), porque não dava para os pacientes chegarem aqui e a gente não fazer por se tratar de câncer, ainda mais vendo a grande deficiência do Estado”, pondera Ângela.

Ela acredita que o HU já vem se configurando como um importante auxílio ao tratamento oncológico no Estado, mas que essa atuação pode ser ampliada. “Pelo levantamento que Inca fez em relação à necessidade dos serviços de oncologia no Estado, seriam necessários 4, como já temos o Huse e o Cirurgia, faltam dois. A entrada do HU vai colaborar muito, mesmo ainda precisando de mais um serviço para atender der forma plena e adequada”, analisa a superintendente.

Apesar de realizar um número significativo de cirurgias, hoje a demanda maior do tratamento é a quimioterapia, que o HU ainda não realiza pela falta da contratualização legal. “Falta habilitação por parte do gestor público, municipal ou estadual, com quem estamos em tratativa. Diante da carência e do quantitativo de pacientes desassistidos, e da necessidade de novos serviços, a gente espera que elas avancem, pois os órgãos de controle não permitem que a gente atue de forma independente”, afirma.

FUNCIONAMENTO

Enquanto essa pactuação não se concretiza, as 25 poltronas para a oferta da quimioterapia e os25 leitos para internação seguem inativos. “Nós estamos prontos. Se hoje o município ou o Estado quiserem fazer a proposta da contratualização, a gente pode funcionar. Fechada a contratualização, em 60 dias a gente já estaria operando”, reitera Ângela Silva.

O reitor da Universidade, professor Ângelo Antoniolli, aguarda essa pactuação que, na visão dele, beneficiará, e muito, a população sergipana. “Estamos cumprindo com uma missão, que é a de ampliar nossos serviços e formar recursos humanos nas diversas áreas do conhecimento. Com isso, ganha a universidade, o Estado e, fundamentalmente, a sociedade. Mas para isso nós precisamos que os agentes da pactuação estejam na mesa, buscando soluções para os problemas”, avalia Ângelo Antoniolli.

O reitor diz que a UFS lutou insistentemente para ter acesso aos recursos e poder ampliar essa atuação do HU, que demandou uma infraestrutura para se adequar à nova realidade na prestação de serviços ao SUS.

“Agora, uma boa pactuação é necessária para dar sobrevivência aos serviços. É nessa linha que estamos trabalhando. Entendemos que ampliar com serviço oncológico era importante, porque somos a única universidade pública do Estado, com curso de Medicina há 56 anos e a quantidade de pacientes aumentando. Não podíamos ficar esperando que esses serviços acontecessem apenas na iniciativa privada ou em outro lugar”, ressalta o professor.

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Professor Antoniolli: estamos cumprindo nossa missão de prestar serviço à sociedade

DIÁLOGO

Belivaldo Chagas confirma a existência da negociação com o HU. “Mas não temos nada definido”, admite o governador. Além dessa negociação, ele ressalta que o Estado vem investindo na ampliação do tratamento oncológico, a exemplo do convênio com a Clinradi, da reforma do Caism, da parceria com o Hospital de Barretos, da unidade pediátrica que será entregue hoje e do novo bunker, já em funcionamento no Huse”, elenca.

Edvaldo Nogueira, prefeito de Aracaju, também admite que o município está em tratativa com o HU e diz que há interesse na contratação do serviço, porque, sozinho, o município não tem como manter essas unidades. “Não temos recursos. Tanto que a Prefeitura não tem hospital próprio, ela precisa comprar serviços específicos. Esse é o caminho”, diz Edvaldo Nogueira. Segundo ele, a Prefeitura está buscando contratualizar e a demora se dá por ainda não ter tido acesso às regras para que ela ocorra.

“Deve se concretizar, se der tudo certo. Atualmente, nós encaminhamos os pacientes para o Huse e até para clinicas particulares, então temos interesse sim”, reforça o prefeito. Para ele, a saúde tem sido o grande desafio das gestões e, nesse cenário, o câncer é um dos graves problemas.

CORRUPÇÃO

“Sergipe precisa resolver o problema do tratamento oncológico, que é complicado. Entendo que deve haver esforço conjunto, dos entes federal, estadual e prefeituras. E essa ideia do HU é extraordinária, mas é preciso saber como manter a unidade, porque é um grande desafia”, avalia, ressaltando que a atual gestão coloca 21% dos recursos na área, mais do que o obrigatório, que é 15%.

Ocorre que como em todas as áreas, a corrupção também alcançou o sistema de tratamento oncológico. Pelo menos é o que mostra a CPI instalada na Câmara Municipal de Vereadores de Aracaju, destinada a investigar os contratos dos hospitais filantrópicos firmados com a Prefeitura, popularmente conhecida como CPI da Saúde.

Ela foi concluída, e cópias do relatório final serão encaminhadas para a Secretaria de Estado da Segurança Pública – SSP – e para outros órgãos de controle dos gastos públicos, a exemplo do Ministério Público Federal.

O objetivo é que haja uma investigação mais aprofundadas sobre o siposto uso indevido de recursos públicos destinados ao tratamento de pacientes com câncer no Hospital de Cirurgia.

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Hu conta com 25 leitos para internação oncológica

RECURSOS

De acordo com o vereador Seu Marcos, presidente da CPI, ex-diretores do Hospital de Cirurgia confirmaram que os recursos destinados para a oncologia foram usados em outras finalidades. Como os membros da CPI não conseguiram identificar o paradeiro destes recursos, a Comissão encaminhará o relatório e todos os documentos do processo aos órgãos públicos de controle de gastos públicos, inclusive para o Ministério Público Federal, por envolver verbas federais.

O relatório também será encaminhado para o Ministério Público Estadual e para o Tribunal de Contas do Estado. “Essa verba é carimbada para a oncologia, mas foi usada para outros fins. Os ex-diretores confirmam, mas não disseram em que a verba foi aplicada”, ressalta Seu Marcos.

Além disso, segundo o vereador Isac Silveira, há também informações conflitantes entre aquelas repassadas pela Prefeitura de Aracaju e as repassadas pelos então diretores do Hospital de Cirurgia. “A Prefeitura enquanto gestora diz que pagou a mais e a direção do Hospital diz que não recebeu. Nas duas possibilidades, é crime: por pagar a mais ou por não pagar”, avalia.

CURA

Na ótica do vereador, há a necessidade de se estabelecer critérios para assegurar o controle social da gestão de instituições filantrópicas contempladas com recursos públicos. “É necessário responsabilizar estes gestores de forma mais contundente”, observa.

Com esse controle, quem sabe mais pacientes consigam chegar à condição de Sheyla Galba, que, como ela mesmo diz, está agora na “fila da cura”. “Porque em setembro faz cinco anos que concluí o tratamento, sempre fazendo checkups para verificar se está tudo bem. Graças a deus, está. Mas vamos continuar lutando por todas as outras mulheres”, avisa.

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Edvaldo Nogueira: Saúde é o grande desafio dos gestores

Avosos: um alento em meio à dor

A Associação dos Voluntários a Serviço da Oncologia em Sergipe – Avosos – é uma grata surpresa em meio à dos pacientes e suas famílias. A Associação atua por meio de duas unidades: Casa Tia Ruth de Apoio e Unidade Ambulatorial/Centro de Oncologia.

A Casa Tia Ruth assiste gratuitamente à criança e ao adolescente com câncer e doenças hematológicas crônicas, oferecendo suporte e apoio ao tratamento médico que é realizado em hospitais públicos como Huse e HU, e a Unidade Ambulatorial/Centro de Oncologia presta serviços para tratamento de pacientes adultos com câncer de planos e cooperativas de saúde.

É uma unidade geradora de recursos para manutenção da Casa Tia Ruth de Apoio, complementando as doações da sociedade, as quais não são suficientes para a assistência gratuita no apoio e suporte ao tratamento das crianças e adolescentes.

“De janeiro a dezembro de 2018, foram 464 atendidos, 10.718 atendimentos multiprofissionais, 17.170 hospedagens, 27.198 refeições, 2.653 cestas básicas, 8.155 passagens, 47.885 medicamentos e 1.947 exames”, revela Wilson Melo, fundados e presidente voluntário da Avosos.

Segundo Wilson, as doações são disponibilizadas integralmente para o suporte ao tratamento, dentre eles: alojamento, passagens, custos básicos, medicamentos, exames e atendimentos de uma equipe multidisciplinar, com assistentes sociais, nutricionista, dentista, pedagoga, psicóloga, fisioterapeutas e outros.

Para ele, se não fosse a hospedagem e o transporte/passagem disponibilizados pela Avosos, a taxa de abandono ao tratamento, que hoje é zero, seria alta – como foi há algumas décadas atrás. Mas não é só isso. De acordo com Wilson, as limitações dos serviços da Rede SUS para crianças e adolescentes com suspeita de câncer como também as que estão com a doença e em tratamento passam, ainda, pelas oscilações na disponibilidade de medicamentos e pela demora na realização de exames laboratoriais de imagens.

“Motivos pelos quais a Avosos, ao longo dos anos, tem suprido muitas dessas faltas, tem contribuído para melhores chances de cura, de sobrevida, e tratamento com menos sequelas”, garante. Ele acredita que a falta de planejamento e organização estão sendo, e foram ao longo dos anos, os maiores empecilhos para o tratamento adequado.

Exatamente por isso, a Avosos buscou ampliar esta parceria com o Governo do Estado. “A Diretoria da instituição entendeu que era preciso fazer mais, garantindo um espaço exclusivo para as crianças e os adolescentes. Nesta segunda, 18, entregaremos ao Governo do Estado o novo Internamento Pediátrico da Oncologia Maria Ruth Wynne Cardoso Tia Ruth”, comemora Wilson Melo.

São cinco Enfermarias, 17 leitos, 1 leito da Sala de Estabilização, 1 leito da Sala de Isolamento, 1 sala de Prescrição Médica, 1 Posto de Enfermagem, 1 estar da equipe de Enfermagem, 1 copa, 1 depósito e 7 banheiros. “Um espaço bem organizado, ilustrado e exclusivo para crianças e adolescentes com câncer do Estado de Sergipe, não apenas aos assistidos pela Avosos”, ressalta.

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Wilson Melo: Avosos entendeu que era preciso fazer mais