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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Greve dos caminhoneiros: 10 dias que ainda não chegaram ao fim

Entidades de classe, políticos e trabalhadores da área fazem uma avaliação dos impactos da paralisação no Brasil e no Estado e dizem que mais efeitos ainda podem surgir

Foram dez dias de greve dos caminhoneiros em todo o Brasil e um resultado posterior tão ou mais impactante do que os próprios dias de paralisação, com perdas significativas em diversos setores da economia, desabastecimento da população e efeitos que ainda não podem ser mensurados na produção, exportação e no consumo interno do país.

“Como ocorreu no país todo, os impactos foram diversos e sentidos em graus diferentes por toda a sociedade, mas ainda não existem dados consolidados sobre o tamanho exato do impacto total”, avalia Rodrigo Rocha Pereira Lima, economista que coordena o Núcleo de Informações Econômicas da Federação das Indústrias de Sergipe – Fies.

De acordo com Rodrigo, ainda não existem dados seguros sobre qual segmento foi mais afetado pela paralisação, mas toda a logística de recebimento de insumos e escoamento da produção passa fortemente pela necessidade de utilização de caminhões e, possivelmente, sofreu os danos diretos.

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Greve gerou desabastecimento e aumento de combustíveis
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Rodrigo Rocha: ainda não é possível quantificar os efeitos

SEGMENTOS

“Houve desabastecimento parcial, com alguns itens faltando nos supermercados e padarias; houve também desabastecimentos de alguns depósitos de gás de cozinha e perda de cargas para aqueles caminhoneiros que tinham como carga principal gêneros alimentícios. Houve queda dos negócios para a economia local que deverão ser compensados após alguns dias”, avalia.

Laércio acredita que, do ponto de vista de estratégia de negociação, houve falhas do governo. “O Governo não conseguiu identificar com maior rapidez uma liderança dos caminhoneiros para negociar de prontidão as demandas da categoria, assim como não houve um interlocutor líder do Governo para negociar”, exemplifica.

Para ele, isso permitiu que a greve se alongasse e causasse perdas enormes para o país. “Ficou clara a predominância de uma estatal sobre a economia do país, e isso não pode acontecer. O preço dos combustíveis é um preço-chave para a nossa economia, que tem o modal rodoviário como principal. Não houve avaliação de risco associado a esse modal de transporte”, ressalta o parlamentar.

COMBUSTÍVEIS

Ele também concorda que os impactos já mensurados ainda não são um retrato fiel do que de fato houve. “Vai haver aumento de preços espontâneos que serão repassados ao contribuinte, mas que no médio prazo tenderão a ser diluídos. Até o momento, não se fala no preço da gasolina, somente do diesel. Mas penso que em algum momento, no curto prazo, o preço da gasolina também deverá ser revisto pelos governos”, acrescenta Laércio.

Wenderson Wanzeller é secretário-Executivo do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado de Sergipe – Sindpese –, e, na avaliação dele, a greve deixou “sérios prejuízos” no setor. “Vários postos ficaram sem funcionar em sua plenitude. Alguns ficaram seis dias fechados, sem nenhum faturamento. A sociedade sofreu com enormes filas, pânico, alteração de suas programações. Os impactos provocaram muitos transtornos”, resume Wenderson.

Tudo isso, segundo ele, gerou um grande prejuízo financeiros aos postos. “Por causa dos elevados preços dos combustíveis, o setor já vem sofrendo com a queda da demanda. Só nestes últimos 12 meses, oito postos foram fechados. Essa paralisação contribuiu ainda mais para o prejuízo”, admite.

PREJUÍZOS GIGANTESCOS

De acordo com Wenderson, muitos revendedores entraram em franco desespero por não saber como arcar com contas, salários e compromissos bancários atrasados. “Os prejuízos são gigantescos”, reforça. Apesar disso, ele comunga da mesma opinião do economista Rodrigo Rocha e diz que é difícil quantificá-los com exatidão.

“Vários postos fecharam suas portas. Caminhões presos, motoristas sem voltar para o lar, empresas com obrigações a cumprir e sem faturamento...”, estima. Para ele, de fato, não houve, na história recente, outra paralisação tão impactante para o setor quanto esta.

E, diante disso, Wenderson acredita que há, sim, motivos para preocupação. “O que mais o Sindicato tem é motivos para isso: temos uma carga tributária elevadíssima. Um combustível fora da realidade, com 42,25% de aumento na Petrobras só de julho até maio. Arcamos com um ICMS altíssimo, 27% mais 2% para o fundo da pobreza, totalizando 29%”, justifica.

“Temos muitos revendedores sem saber se conseguirão chegar ao final do mês com as portas abertas. Agregado a isso, temos também uma população que não suporta mais pagar as contas da corrupção. Vivemos, de fato, num cenário de grande apreensão”, completa Wenderson.

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No Porto de Santos, contêineres ficaram amontoados

QUEDA NAS VENDAS

O presidente da Fecomércio, Hugo Lima França, também considera que a greve deixou grandes lacunas. Para a entidade, a paralisação levou a economia brasileira a uma situação de alta gravidade, provocando sérios problemas para a classe empresarial no que diz respeito à situação tributária das empresas.

Segundo a Fecomércio, as atividades comerciais sofreram um impacto de mais de 60% de queda durante os dias de paralisação da categoria, o que incidiu em queda nas vendas das empresas do comércio sergipano e, obviamente, no recolhimento do ICMS no período.

Por isso, Hugo França foi ao governador do Estado, Belivaldo Chagas, para pedir que a data de arrecadação fosse modificada para um momento posterior, devido às dificuldades enfrentadas pelos empresários sergipanos no período.

EM VENDA, SEM ARRECADAÇÃO

Hugo pediu a Belivaldo que a data fosse prorrogada para o dia 30 deste mês, argumentando que o recolhimento do imposto na data estipulada, 10 de junho, seria nociva para as empresas, considerando que a movimentação do comércio sofreu uma grande queda.

“O prejuízo para o comércio foi muito grande, incalculável para os empresários, durante os dias de greve, pois as empresas praticamente pararam de funcionar. Para aliviar um pouco esse problema, pedi ao governador para que mudasse a data de arrecadação para o dia 30, pois o empresário não poderia pagar o imposto. Não se arrecada sem que se venda”, avalia.

Após o apelo do presidente da Fecomércio, o governador  Belivaldo Chagas emitiu o decreto 40.055, no qual especifica que a arrecadação do ICMS do período correspondente entre 15 e 31 de maio serão contados somente em 1º de junho, o que posterga a arrecadação para 30 de junho.

PORTOS

Após os dias de greve dos caminhoneiros, o prejuízo no Porto de Santos, no litoral de São Paulo, chegou a R$ 1,5 bilhão. A paralisação bloqueou estradas em todo o país, impedindo o tráfego de caminhões, e bloqueou os acessos aos terminais do Porto durante todos os dias.

De acordo com o Sindamar – Sindicato do segmento –, o levantamento leva em conta os cerca de 70 navios parados na barra, que aguardavam autorização para atracar, e a movimentação de contêineres e granéis sólidos como milho e soja, que foi prejudicada com a greve. 

Já em Sergipe, este setor não sofreu grandes impactos. O Terminal Marítimo Inácio Barbosa ficou interrompido por poucas horas e não teve o funcionamento prejudicado. “A VLI, empresa que administra o Terminal Marítimo Inácio Barbosa, informa que a operação do ativo não foi impactada”, disse, em nota, a assessoria da empresa.

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Laércio Oliveira: Sergipe sentiu os prejuízos e governo falhou

GESTÃO

Em virtude dos desdobramentos da greve, os gestores ficaram receosos de haver grandes prejuízos para as administrações e, consequentemente, a população. Edvaldo Nogueira, prefeito de Aracaju, agiu rápido. “Reuni o secretariado, criamos um comitê de gerenciamento de crise, para poder agir de maneira coordenada para dar respostas aos cidadãos e não parar o atendimento dos equipamentos municipais”, diz Edvaldo.

Assim, segundo ele, escolas, postos de saúde, as duas Unidades de Pronto Atendimento, os Centros de Referência da Assistência Social e demais órgãos administrativos funcionaram todos os dias. “Da mesma forma, a Guarda Municipal continuou atuando com todo o seu contingente. Não houve ponto facultativo”, reforça. Mesmo assim, houve uma ou outra alteração no andamento dos serviços.

“Tivemos uma redução de 30% da frota do transporte público, e assim fizemos justamente para não haver falta de ônibus um dia sequer. Também não paramos a coleta do lixo domiciliar, mas enfrentamos atrasos, porque, com o fechamento da BR, a ida dos caminhões para o aterro sanitário ficou prejudicada”, revela.

SERVIÇOS

Ainda em Aracaju, houve suspensão do recapeamento, em virtude de atrasos na chegada de material. “Decretamos estado de emergência, o que nos permitiu requisitar um posto de combustível para atender aos veículos das Secretarias que prestam serviços essenciais, além de termos solicitado escolta policial para o transporte de combustível”, completa.

A avaliação de Edvaldo é de que a Prefeitura lidou bem com a situação. “De maneira geral, sim. O aracajuano, óbvio, que sentiu os efeitos da paralisação, que foi nacional, mas o cidadão que precisou de um serviço público municipal não ficou desassistido. Respeito o movimento, reconheço sua legitimidade, mas como prefeito não podia deixar Aracaju parar”, reitera.

Em Itabaiana, intitulada a Capital Nacional do Caminhão, o impacto também foi grande. A paralisação chegou a ameaçar a realização – ou o sucesso – da 53ª Feira do Caminhão, que chega à sua 53ª edição este ano, e que começou no sábado, 9, e vai até a quarta-feira, dia 12.

O PESO DO CAMINHÃO

Em virtude da paralisação, o gestor admite que chegou a pensar em cancelar o evento. “Houve grande receio, sim. Porque a greve nos impactou muito nesse sentido, ela trouxe alguns prejuízos e problemas. Algumas montadoras e revendedoras não conseguiram chegar ao Estado por não terem tido tempo hábil para se organizar para o evento”, diz Valmir. 

Mas a festa é uma realidade. “Ela vem exatamente para coroar a importância do caminhão e do caminhoneiro para a nossa cidade”, afirma o prefeito. Aliás, para Valmir, Itabaiana sequer seria o que é sem essa atividade. “Eles foram os precursores para que o município tivesse essa pujança, esse comércio forte. Foram eles que levaram o nome da cidade para além-fronteiras”, justifica.

Na visão de Valmir de Francisquinho, os caminhoneiros, transportam o desenvolvimento, o progresso. “Por causa disso, a população de Itabaiana tornou-se um povo diferenciado. Não em superioridade, mas no sentido do talento para negociar e para o comércio, carregar no sangue, no ser, essa capacidade de empreender. A festa é um momento de agradecer a eles por tudo isso”, reforça.

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Wenderson Wanzeller: prejuízos foram enormes para o setor

TRABALHADORES

O sergipano Bruno Batista Sales trabalha como caminhoneiro autônomo há cinco anos e participou da manifestação sergipana da categoria. “Deixei o caminhão em casa e fui para Pedra Branca, um dos pontos de paralisação aqui em Sergipe”, conta Bruno.

Para ele, a paralisação e suas vertentes valeram a pena, já que, junto aos pontos acordados com o Governo, promoverão mais segurança e economia ppara a categoria e também para a população. “A política de preços adotada penalizava o caminhoneiro e a população”, opina.

Segundo Bruno, o trâmite agora será o seguinte: ao chegar para carregar o carro, o caminhoneiro receberá o valor, que deve ser, ao menos, o mínimo estipulado pela nova tabela – conquistada com o acordo entre o Governo durante a manifestação. Caso o valor esteja aquém do mínimo, o caminhoneiro deve acionar a Agência Nacional de Transporte e Trânsito e comunicar.

MOBILIZAÇÃO

“A empresa contratante pagará multa e diária ao motorista do caminhão”, completa Bruno, que assegura não haver qualquer negociação entre a categoria para retomar a greve. “São fake news que as transportadoras estão criando por estarem insatisfeitas com as nossas conquistas”, diz ele.

Para Rodrigo Rocha, economista do IEL, a expectativa é que, de fato, a situação permaneça normalizada, não havendo previsão de nova paralisação. No entanto, as coisas podem mudar nos próximos dias, já que os acordos com o Governo ainda estão atravancados.

Na última sexta-feira, por exemplo, segundo a Agência Brasil, representantes de caminhoneiros e técnicos da Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT – se reuniram para discutir a possibilidade de ajustes na nova tabela com preço mínimo do frete para o transporte rodoviário de cargas.

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Edvaldo Nogueira: Aracaju lidou bem com a situação

TABELA

O próprio presidente Michel Temer anunciou, na quinta, que a Casa Civil e o Ministério dos Transportes estudavam "uma adaptação à tabela dos preços mínimos do frete" para que os caminhoneiros tenham condições de trabalho, sem que a economia seja abalada.

A tabela hoje em vigor é a segunda a ser publicada pelo governo federal. Com a suspensão do texto, que deve ser ainda publicada no Diário Oficial da União, voltará a vigorar a primeira versão, do dia 30 de maio. As duas tabelas são alvos de uma disputa de interesses entre caminhoneiros e representantes do setor produtivo.

De um lado, donos de transportadoras rodoviárias e caminhoneiros autônomos se queixam de que os valores hoje pagos pelo frete mal cobrem os custos das viagens, com combustível, pedágio, alimentação e manutenção do veículo. De outro, empresários de outros setores, principalmente do segmento agropecuário, alegam que o estabelecimento de um valor mínimo para o frete limita a concorrência e aumenta os custos de transporte de cargas.

O tabelamento do frete foi uma das reivindicações de caminhoneiros atendidas pelo governo no fim do mês passado para tentar terminar com a paralisação que durou 11 dias, afetando amplos setores da economia.

“Enquanto não houver uma revisão profunda na estrutura tributária do país, o que também exigirá maior eficiência nos gastos públicos, em especial com educação, saúde e segurança, a sociedade estará sempre sujeita a demonstrar de alguma forma sua grande insatisfação com alta carga tributária e a precária oferta de serviços públicos”, analisa Rodrigo Rocha.

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Valmir de Francisquinho: Itabaiana deve muito aos caminhoneiros, mas greve preocupou

Produção de veículos caiu 15,3%

Em maio, na comparação com o mesmo período do ano passado, a produção de veículos caiu 15,3%, segundo a Associação das Montadoras – Anfavea. É a primeira queda neste tipo de comparação desde outubro de 2016, interrompendo uma sequência de 18 meses de altas seguidas.

É que as montadoras passaram os últimos dias do mês totalmente paradas por causa da greve dos caminhoneiros, que impediu a chegada de peças e afetou a logística das fábricas.

No total, 212 mil automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus foram feitos em maio, enquanto no mesmo mês de 2017 o volume foi de 250,7 mil. No acumulado de janeiro a maio, a indústria automotiva segue com alta de 12%, passando do primeiro milhão de unidades em cinco meses.

A greve também afetou as vendas, derrubando a média diária em cerca de 15%, entre 21 e 30 de maio, segundo as concessionárias. A associação ainda espera algum impacto da greve em junho, mas acredita que o volume perdido pode ser recuperado nos próximos meses, com turnos extras ou produção também aos finais de semana.

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Produção de veículos despencou

Medidas Provisórias

O Congresso Nacional se debruçou sobre as três primeiras medidas provisórias assinadas pelo presidente Michel Temer para atender demandas dos caminhoneiros. As MPs 831, 832 e 833 foram assinadas por Temer no último dia 27. O prazo para os parlamentares apresentarem emendas aos textos acabou na segunda-feira, 4.

A primeira medida provisória obriga a Companhia Nacional de Abastecimento – Conab – a reservar até 30% de sua demanda para a contratação de transportadores autônomos. A meta é priorizar cooperativas, associações e sindicatos de transportadores autônomos.

A MP 832 institui a Política de Preços Mínimos para o Transporte Rodoviário de Cargas, uma das principais demandas da greve. A ANTT divulgou a tabela, separando o preço por eixo e de acordo com a especificidade de cada carga: geral, a granel, frigorificada, perigosa e neogranel.

Já a MP 833 amplia as normas previstas na chamada Lei dos Caminhoneiros, sancionada em 2015 no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, justamente em meio a outra paralisação – a isenção do pedágio para os caminhões e carretas que transitarem com eixos suspensos já vale há três anos, mas a medida provisória dá maior abrangência à lei.

Como se trata de medidas provisórias, as matérias já têm força de lei, mas precisam ser referendadas pela Câmara e Senado nos próximos 60 dias, prorrogáveis uma vez por igual período.

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Bruno Batista: manifestação foi necessária e vitoriosa