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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Infecções por via de atos sexuais ainda preocupam

E não se trata apenas da Aids. Há cerca de mais 12 tipos delas: Sífilis, Cancro Mole, Condiloma, Hepatites Virais, Donovanose, Doença Inflamatória Pélvica, Gonorréia, Clamídia, Herpes Genital, Infecção pelo HTLV, Tricomoníase e Candidíase. “Coloca-se na cabeça que transar com camisinha é ruim, mas isso é um descuido muito grande consigo mesmo”, adverte a psicóloga e sexóloga Sheyla Andrade


“Tudo hoje é sexo. Há um erotismo generalizado e um estímulo à prática sexual, nem sempre acompanhados da prevenção”. O alerta é do médico Almir Santana, referência quando se fala em Infecções Sexualmente Transmissíveis - IST - no Estado de Sergipe.

E a visão de Almir Santana converge com os dados da Organização Mundial da Saúde - OMS -, que estima a ocorrência de mais de um milhão de casos de Infecções Sexualmente Transmissíveis – IST – por dia no planeta. Ao ano, estima-se aproximadamente 357 milhões de novas infecções, entre HPV, clamídia, gonorreia, sífilis e tricomoníase. 

Os números desenham bem que, além de um problema ligado à educação e ao preconceito social, também é um caso, literalmente, de saúde pública. E por conhecer bem esse cenário, Almir Santana não tem dúvidas ao afirmar que o capítulo de prevenção e tratamento às ISTs é preocupante e enfrenta situações complexas.

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Prevenção é defendida por gestores e profissionais da área
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Almir Santana: “há um relaxamento por parte da população, que acha que não contrai as infecções”

MUNICIPALIZAÇÃO
Em Sergipe, 19 municípios recebem recursos financeiros para as ações em IST/HIV/Aids e Hepatites Virais. São Aracaju, Socorro, Itabaiana, Estância, Propriá, São Cristóvão, Nossa Senhora das Dores, Barra dos Coqueiros, Lagarto, Campo do Brito, Ilha das Flores, Capela, Carmópolis, Laranjeiras, Glória, Areia Branca, Boquim, Itaporanga e Canindé de São Francisco.

Mas ainda não é suficiente, na opinião do médico Almir Santana. “Há necessidade de uma visibilidade maior dessas ações em muitos municípios que recebem recursos específicos”, afirma Almir Santana. 

A farmacêutica Débora Kelly Santos de Oliveira é quem coordena o Programa Municipal de IST/AIDS/HIV em Aracaju. Débora explica que as Infecções Sexualmente Transmissíveis – ISTs – são causadas por vírus, bactérias e/ou outros microrganismos e transmitidas, principalmente, por meio do contato sexual - oral, vaginal ou anal - sem o uso de camisinha masculina ou feminina, com uma pessoa que esteja infectada. 

TRATAMENTO
Existem cerca de 13 tipos dessas doenças: Aids, Sífilis, Cancro Mole, Condiloma, Hepatites Virais, Donovanose, Doença Inflamatória Pélvica, Gonorréia, Clamídia, Herpes Genital, Infecção pelo HTLV, Tricomoníase e Candidíase. “Os principais sintomas são a coceira, presença de feridas, corrimento ou dor no local da lesão. Contudo, algumas ISTs não manifestam sintomas e os sinais podem variar conforme o tipo de doença”, esclarece Débora Oliveira. 
As mais comuns, porém, são HIV/AIDS, Vírus do Papiloma Humano-HPV, Clamídia, Gonorreia, Hepatite B, Sífilis, Herpes genital e Tricomoníase. O tratamento às ISTs ofertado em Aracaju é realizado totalmente nas Unidades Básicas de Saúde – UBS – e no Centro de Referência em IST, o Centro de Especialidades Médicas – Cemar – do Bairro Siqueira Campos. 

O Huse é o principal hospital da rede de saúde que interna pessoas com HIV\Aids. Segundo a Assessoria de Comunicação do Hospital, a maioria dos pacientes chega com outra patologia para ser tratada e em meio a exames é descoberto o HIV. Quando isso acontece, ele é cuidado com a medicação e, depois, encaminhado para tratamento ambulatorial. 

Ainda de acordo com a Assessoria, em 2017, foram notificados pelo Núcleo de Vigilância Epidemiológica Hospitalar 65 casos. Em 2018, foram 56 casos e, em 2019, já foram 43 casos.

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Débora Oliveira: “o sexo sem proteção está causando um aumento do número de pessoas infectadas”

PREVENÇÃO
Mas, no âmbito municipal, também são realizadas, através do Programa IST/AIDS e Hepatites Virais, ações de educação em saúde e prevenção junto à população, que funciona com palestras educativas, salas de espera, oficinas nas escolas para alunos, professores, universitários, empresas públicas e privadas, profissionais, Fundação Renascer, distribuição de folders explicativos e insumos de prevenção - preservativos masculinos, femininos e gel lubrificante. 

“Além disso, também passamos informações quanto aos comportamentos de riscos e à importância da prevenção e diagnóstico precoce, com a oferta dos testes-rápidos de HIV, Sífilis, Hepatites B e C, disponíveis em toda a rede de assistência”, diz Débora.

Ela confirma que há um aumento no número de ISTs. “O sexo sem proteção está causando um aumento do número de pessoas infectadas. Nos últimos anos, o aumento é, principalmente, em relação à sífilis, que é uma doença fácil de tratar”, revela. 

NÚMERO DE CASOS
Dados do Ministério da Saúde mostram que a população entre 25 e 39 anos é a mais suscetível a contrair as enfermidades transmitidas pelo sexo. O Estudo Epidemiológico sobre a Prevalência Nacional de Infecção pelo HPV – Papilomavírus Humano – constatou que das 7.586 pessoas testadas, 54,9% tinham o vírus e 38,4% apresentavam alto risco de desenvolver câncer. 

Ainda segundo o Ministério da Saúde, há dois anos foram notificados 87.593 casos de sífilis adquirida, 37.436 em gestantes e 20.474 congênitas. “As consequências de algumas destas doenças podem ser drásticas, inclusive levando ao óbito. Outras são passíveis de prevenção com vacina disponível em postos de saúde, caso do HPV e Hepatite B”, ressalta.

Quanto à Aids, o índice de contágio dobrou entre jovens de 15 anos a 19 anos, passando de 2,8 casos por 100 mil habitantes para 5,8 na última década. Na população entre 20 anos e 24 anos, chegou a 21,8 casos por 100 mil habitantes. Em 2016, cerca de 827 mil pessoas viviam com o HIV no País. Aproximadamente 112 mil brasileiros têm o vírus, mas não o sabem.

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Sheyla Andrade: “coloca-se na cabeça que transar com camisinha é ruim, mas isso é um descuidado muito grande consigo mesmo"

SEM CURA
O HIV sempre foi a mais temida das ISTs, e permanece assim. “AIDS ainda mata, principalmente se o diagnóstico for tardio. A evolução no tratamento contra o HIV reduziu sua mortalidade, mas as consequências da infecção ainda são a principal causa de morte entre seus portadores. Ainda é a mais temida, mas também a mais combatida no mundo”, avalia Débora.

Segundo Débora, o HIV é um vírus com um longo período de incubação. Isso significa que os sintomas demoram muito a se manifestar, o que aumenta o risco de contaminação. “E é durante esse período de incubação que ocorre a destruição das células do sistema imunológico, diminuindo-as drasticamente em quantidade e tornando o paciente extremamente suscetível a infecções oportunistas”, explica.

Entretanto, existem diversas medicações disponíveis hoje em dia para o tratamento do vírus, buscando evitar a evolução para a AIDS e possibilitar a sobrevivência à doença e novas estratégias de prevenção surgem como ferramentas complementares no enfrentamento da epidemia.

ALTERNATIVAS
O Serviço de Atenção Especializada às Pessoas Vivendo com HIV/AIDS - SAE - é um serviço referência para todo o Estado de Sergipe e, de janeiro a junho de 2019, registrou uma média mensal de atendimentos de 55 casos novos de HIV. “Destes, 52,8% de residentes de Aracaju”, revela Débora. 

Assim como o preservativo, todas essas novas estratégias devem ser vistas e consideradas como novas opções que compõem a prevenção combinada ao HIV. O Tratamento como Prevenção, conhecido como Tast, é o uso de medicamentos antirretrovirais e faz com que as pessoas vivendo com HIV/AIDS alcancem a chamada “carga viral indetectável”. 

“As evidências científicas também mostram que pessoas vivendo com HIV/AIDS que possuem carga viral indetectável, além de ganharem uma melhora significativa na qualidade de vida, têm uma chance muito menor de transmitir o vírus à outra pessoa”, ressalta a coordenadora. 

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Carlos Noronha: “As ISTs são infecções previníveis e, embora muitas tenham cura, o que querermos é a prevenção delas”

MEDICAMENTOS
Já a PEP é a utilização da medicação antirretroviral após qualquer situação em que exista o risco de contato com o vírus HIV. Ela age impedindo que o vírus se estabeleça no organismo – por isso a importância de se iniciar a profilaxia o mais rápido possível após o contato: em até 72 horas, sendo o tratamento mais eficaz se iniciado nas duas primeiras horas após a exposição. O tratamento deve ser seguido por 28 dias.

A PrEP é a utilização do medicamento antirretroviral por aqueles indivíduos que não estão infectados pelo HIV, mas se encontram em situação de elevado risco de infecção. Segundo Débora, evidências comprovaram que a PrEP se trata de uma estratégia eficaz, com mais de 90% de redução da transmissão e sem nenhum indício de compensação de risco. 

“Nos estudos, pessoas que usaram PrEP não aumentaram número de parceiros nem a incidência de outras ISTs e, além disso, tiveram maiores taxas de uso consistente de preservativo", afirma. Para ela, é preciso entender que qualquer pessoa pode se infectar e transmitir o vírus do HIV, e que há a necessidade de conscientização por parte da população dos comportamentos de riscos e prevenção", reforça.

RESISTÊNCIA
A psicóloga e sexóloga Sheyla Andrade concorda. Para Sheyla, há uma resistência quase que generalizada, de fato, ao uso do preservativo. “Há uma cultura muito forte com relação a isso. Coloca-se na cabeça que transar com camisinha é ruim, mas isso é um descuido muito grande consigo mesmo”, afirma a sexóloga.

Essa resistência se dá, basicamente, pelo medo que os homens têm de perder a ereção com o uso do preservativo - o que não tem qualquer fundamento científico, diga-se de passagem. "Para esconde esse receio, ele se utiliza das coisas mais sem noção, como preguiça, preço, etc", diz Sheyla.

"Mas a realidade é que eles optam por fazer um contato sexual sem cuidado nenhum, sem prevenção, mesmo havendo informação sobre as ISTs, em vez de usar e correr o risco da falta de ereção", completa a sexóloga.

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Huse é o principal hospital que realiza o internamento de pessoas com Aids

(IN)SEGURANÇA
Sheyla Andrade explica que, aliada a esse medo masculino, também há uma falsa sensação de segurança de que aquela situação não vai acontecer com você. "Mas qualquer pessoa está suscetível", ressalta. 

"Então, é tudo isso junto: o tabu do sexo, o descuido, o excesso de segurança. E, assim, as pessoas fazem da própria vida uma roleta russa e nem percebem", critica.

O secretário-adjunto da Saúde municipal, Carlos Noronha, também ressalta a necessidade de conscientização das pessoas. "As ISTs são infecções previníveis e, embora muitas tenham cura, o que querermos mesmo é a promoção e a prevenção delas, pois se protegendo, a pessoa protege também os seus parceiros, os seus filhos, etc", reforça Carlos Noronha.

SINTONIA
Por isso, segundo Noronha, o programa do município precisa ser integrado. "Ele tem que ter ordem transversal e não ser isolado numa caixinha, perpassando por todos os ciclos e áreas de atuação, como o Programa de Saúde da Mulher, do Homem, do Idoso e da Criança, por exemplo. Não deve servir só para tratar e prevenir a doença propriamente dita, mas o conjunto", analisa. 

Ele reitera que a população precisa entender a necessidade do sexo seguro. "A gente não discrimina nenhum tipo de relação, mas qualquer um precisa ser protegido. E a principal forma de proteção é a camisinha, um meio de barreira que evita tanto a gravidez quanto as ISTs", ressalta.

Carlos Noronha também chama a atenção para a Aids. "Ela é um problema de saúde pública: não tem cura, embora com o diagnóstico precoce seja possível realizar o tratamento e, com ele, conseguir uma qualidade de vida melhor", esclarece o secretário. 

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Preservativo é o melhor caminho para prevenir ISTs, e é distribuído gratuitamente

POLÍTICAS PÚBLICAS
O médico Almir Santana diz que as ISTs trazem um impacto importante na saúde pública e ressalta que, embora tenha havido a municipalização do tratamento delas, o Estado atua em parceria com municípios e com as Secretarias de Educação para potencializar a prevenção.

De acordo com ele, algumas dessas infecções merecem destaque, como as Hepatites Virais, que podem ter consequências sérias para o fígado, pois podem levar à cirrose e ao câncer se não forem diagnosticadas precocemente; e a sífilis adquirida, por ser muitas vezes assintomática e trazer impacto nas crianças – a sífilis congênita é transmitida da mãe para o feto durante a gestação.

Almir Santana revela que, em Sergipe, 300 bebês com sífilis congênita nascem por ano no Estado. Por isso, segundo ele, o cenário ainda é desafiador.

INVESTIMENTOS
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju, o repasse feito para o programa de ISTs\Aids é de R$ 36.731 ao mês, um aporte de R$ 440.775 anualmente.

Em termos de recursos, Aracaju é seguido pelo município de Nossa Senhora do Socorro, que recebe R$ 10.324 por mês e R$ 123.895 ao ano; Lagarto vem depois, com R$ 6.440 e R$ 77.281; Itabaiana, com R$ 5.900 mensais e R$ 70.800 anuais; São Cristóvão, R$ 5.400 e R$ 64.808; Estância, R$ 4.348 e R$ 52.180; Capela, R$ 2.616 e R$ 31.402; Itaporanga, R$ 2.597 3 R$ 31.165; Glória, R$ 2.778 e R$ 33.341;

Em seguida, vêm Propriá, com R$ 2.384 e R$ 28.612; Laranjeiras, R$ 2.286 e R$ 27.442; Barra dos Coqueiros, R$ 2.171 e R$ 26.059; Boquim, R$ 2.143 e R$ 25.72; Canindé de São Francisco, R$ 2.144 e R$ 25.733; Dores, R$ 2.078 e R$ 24.941; Areia Branca, R$ 1.859 e R$ 22.727; Campo do Brito, R$ 1.840 e R$ 22.083, Carmópolis, R$ 1.530 e R$ 18.369 e Ilha das Flores, R$ 1.044 e R$ 12.538.

Os recursos, para Almir Santana, ainda não são suficientes. “Há uma necessidade de descentralização da assistência às pessoas com HIV/AIDS para a atenção básica de alguns municípios, como Lagarto, por exemplo, pois o Cemar Siqueira Campos, em Aracaju, já está superlotado e com pouca possibilidade de aumento do atendimento", alerta o médico.

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ISTs geram impacto significativo na saúde pública

Equipes da Saúde realizaram ação durante São João

Provando que sempre é momento para falar em prevenção,
a Prefeitura de Aracaju levou ao Forró Caju 2019 ações preventivas do Programa IST/Aids. De acordo com a secretária municipal da Saúde, Waneska Barbosa, a gestão tem aproveitado a realização de grandes festas populares para potencializar ainda mais as ações de prevenção. Com essa proposta, durante todas as noites do Forró Caju, foram ofertados diversos serviços da pasta, como o Previna Móvel.

“O programa municipal de combate à IST/Aids levou o Garoto Camisildo, que interagiu com os forrozeiros e chamou atenção dos cantores. A equipe do  Previna Móvel realizou ações simultâneas, com a distribuição de preservativos, gel lubrificante, e a interação com o público no entorno do evento para conscientizar a população para se prevenir”, destacou a secretária.
Durante as quatro noites do Forró Caju 2019, a  coordenação do Programa Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST/Aids) distribuiu 36 mil preservativos masculinos, 500 preservativos femininos 16 mil gel lubrificantes.
 

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Previna Móvel é uma das ações da Secretaria Municipal de Aracaju no combate às IST