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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Melhores do Ideb: escolas sergipanas dão receitas para sucesso

Tati Melo
ESPECIAL PARA O JLPOLÍTICA 
13 de janeiro de 2018 às 20h00


Mesmo ainda ocupado as últimas posições do Índice de Desenvolvimento da Educação, Sergipe guarda bons exemplos, como a rede municipal de Itabaianinha

O futuro de um país passa pela educação. Ela é fundamental para a transformação de uma nação. É a base do desenvolvimento. Se o Brasil, seus Estados, o Distrito Federal e seus municípios desejam um dia alcançar a prosperidade visível em países do primeiro mundo é necessário avaliar, refletir e investir no ensino, principalmente o básico, que é o alicerce de tudo.

Instituído em 2007 pelo Ministério da Educação - MEC -, através do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - Inep -, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - Ideb - é um desses termômetros que serve de avaliação e reflexão, por meio de suas metas estabelecidas a nível nacional, estadual, municipal e por escola.

Calculado a cada dois anos, o Ideb aponta o desempenho das escolas públicas e particulares do Brasil por meio de um cálculo baseado no aprendizado dos alunos em português e matemática - Prova Brasil - e no fluxo escolar - taxa de aprovação - dos alunos do 5º e 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio.

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Dados disponibilizados pelo Inep do Ideb a nível Brasil
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Josué Modesto, secretário da Educação: melhoria do Ideb da rede estadual foi tão significativa que Sergipe deixou de ocupar as últimas posições

ENSINO MÉDIO CRÍTICO

Nos anos finais, a meta foi descumprida pela primeira vez em 2013 e não atingiu mais o esperado. Em 2017, com a nota 4,7, o Brasil não alcançou novamente os pontos esperados, 5,0. Somete sete estados atingiram ou superaram: Rondônia, Amazonas, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Mato Grosso e Goiás.

No ensino médio, etapa mais crítica, o Brasil avançou só 0,1 ponto em comparação a 2015, após ficar estagnado por três divulgações seguidas, atingindo a nota 3,8. O alvo para 2017 era 4,7. Vale ressaltar que nenhum Estado alcançou a meta. Além disso, cinco unidades federativas pioraram seu desempenho: Amazonas, Roraima, Amapá, Bahia e Rio de Janeiro.

Se considerada apenas a rede estadual, responsável por 84,6% das matrículas do ensino médio no Brasil, o Ideb 2017 ficou estagnado e teve um crescimento modesto nos últimos anos - em 2015 e em 2017 com a nota 3,5; em 2009 era 3,4.

SITUAÇÃO DE SERGIPE

Em Sergipe, a rede estadual alcançou resultados melhores em 2017, mas continua ocupado os últimos lugares no ranking dos Estados. Nos anos iniciais, saiu da 24ª posição em relação a 2015 para a 21ª, com a nota de 4,7, atingido a meta. Já nos anos finais, saiu da 27º colocação para a 22º, com a nota 3,5. Porém, não alcançou a meta de 4,4. 

A mesma curva de crescimento na rede estadual foi apurada no ensino médio, quando em 2015 Sergipe estava em 27º lugar, e em 2017 ficou na 22ª colocação, com a nota 3,1, sendo que a meta era 4,2.

“Entre 2015 e 2017, a melhoria nos indicadores do Ideb da rede estadual de Sergipe foram tão significativos que deixamos de ocupar as últimas posições entre os Estados quanto à qualidade de ensino”, ressalta o secretário da Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura - Seduc -, Josué Modesto dos Passos Subrinho.

“Nossa grande responsabilidade é manter a tendência de melhoria. Feito isto, certamente alcançaremos as metas fixadas”, afirma o secretário. Ele explica quais são as estratégias da rede estadual para conservar e avançar. “Quando recebemos os resultados do Ideb, reunimos todos os diretores de escolas, nas respectivas diretorias regionais, para apresentar em detalhes os resultados, bem como para nossa equipe técnica solicitar de cada um plano para melhorar a qualidade”, diz.

“Todas escolas serão estimuladas a desenvolver estratégias para melhorar o ensino e esperamos que a comunidade escolar esteja devidamente motivada para exibir os resultados no ano em curso”, destaca Josué. Para ele, a fórmula para melhorar o desempenho das escolas no Ideb está na motivação, propostas de trabalho, apoio e acompanhamento. “E, claro, na divulgação das múltiplas experiências exitosas de ensino em nossa rede, e em outros estados e municípios”, diz.

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Dados disponibilizados pelo Inep do Ideb a nível Sergipe

ITABAIANINHA, IDEB EXEMPLO

Mesmo Sergipe ficando ainda muito atrás no ranking nacional do Ideb, quando se fala em rede pública aqui há experiências exitosas tanto na rede estadual quanto na municipal. O município de Itabaianinha, localizado na Região Sul do Estado, é um desses exemplos positivos a serem seguidos.

Com 8.350 alunos e, atualmente, com 29 escolas, Itabaianinha conquistou no Ideb a primeira colocação entre os municípios sergipanos nos anos finais, com a nota 4,3; já nos anos iniciais, alcançou a segunda posição, com a nota 4,9. O bom desempenho da cidade é reconhecido, inclusive, pelo Tribunal de Contas do Estado - TCE - e pelo Ministério Público de Contas.

De acordo com estudo técnico realizado pelo Ministério Público de Contas, Itabaianinha atingiu a primeira colocação em relação à eficiência no investimento na educação, quando se leva em consideração a nota do Ideb e a quantidade de recursos investidos por aluno. “Esta experiência de Itabaianinha vai irradiar para outros municípios”, afirma o conselheiro do TCE, Clovis Barbosa.

“Sabemos que o nosso Ideb é um dos piores do país, mas que tem tido um esforço dos gestores em vários municípios sergipanos para melhorar a prestação de serviço nesta área educacional”, afirmou o conselheiro Clovis em reunião com o prefeito de Itabaianinha, Danilo Carvalho, o Danilo de Joaldo, para parabenizar pela primeira colocação.

CONSULTORIA DE SOBRAL

Qual é fórmula de sucesso de Itabaianinha? Segundo o secretário de Educação do município, Thiago Carvalho, vários são os fatores que levaram a cidade a este patamar. “A partir de janeiro de 2017, começamos um projeto audacioso. O prefeito colocou a educação como a maior bandeira de gestão. Ele quer tornar Itabaianinha referência no Estado. Graças a Deus, nesses dois anos, conseguimos galgar degraus importantes”, ressalta.

Primeiramente, Itabaianinha, que hoje é exemplo, foi atrás de exemplos fora daqui. “Fizemos uma parceria com a ex-secretária de Educação da cidade Sobral, a professora Iracema Sampaio. Sobral, no Ceará, hoje é destaque nacional. É referência em educação básica no Brasil. Ela veio trabalhar um período conosco e nos ajudou bastante”, informa o secretário de Educação.

Com a consultoria da ex-secretária de Sobral, Itabaianinha colocou em ação primeiro o extermínio da multisseriação. “Ela informou que, se o município de fato deseja ser referência em educação e oferecer aos alunos ensino de qualidade, teríamos que combatê-la”, diz Thiago Carvalho.

“A multisseriação são aquelas salas que têm alunos de várias idades - 4, 5, 8, 9, 10 anos -, sob a regência de um mesmo professor, tentando atender essas diversas faixas etárias diferentes. No final, por mais que o educador seja dedicado, bem formado, tenha boa vontade, não consegue levar a um resultado satisfatório. E a sensação é aquela de derrota”, explica o secretário de Itabaianinha.

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Dados disponibilizados pelo Inep do Ideb a nível Brasil

FECHAMENTO DE ESCOLAS

Para acabar com a multisseriação foi necessário outra ação mais drástica e polêmica: fechar escolas. Reduzi-las para depois amplia-las com planejamento. “Escuta-se de algumas pessoas: “o prefeito tal fechou duas, três escolas. Ah, isso é um absurdo. O prefeito não investe em educação. Está fechando escola quando tem que abrir”. Mas a realidade é que a taxa de natalidade de hoje é uma, diferente de dez, 20 anos atrás”, explica Thiago Carvalho.

“Chegamos a ter 14 mil alunos e hoje temos 8.350 mil. Então, perdemos mais de seis mil de dez a 15 anos para cá. Isso foi fazendo com que escolas de povoados e de bairros periféricos fossem ficando pequenininhas. Não dava para formar turma com cinco alunos de jardim I, dois de jardim II, com três de primeiro ano, dois de segundo ano. Aí, juntava-se. No primeiro ano, fechamos dez. Levamos os alunos para escolas maiores de comunidades próximas”, relata o secretário de Itabaianinha.

As críticas por fechar as escolas, claro, foram muitas. De 2017 para cá, Itabaianinha as reduziu de 50 para 29, sendo que e a meta para 2019 é chegar a 27. “A professora Iracema disse ao prefeito: “o senhor está preparado para enfrentar vereador, rádio, comunidade que resistirá quando disser que fechará escola? Está preparado para resistir a pressões quando precisar mudar um diretor que não está dando resultados, um professor que não está ensinado o menino a ler?””, relata Thiago Carvalho.

COMBATE À REPROVAÇÃO

“Ele (o prefeito Danilo de Joaldo) perguntou a ela: “foi o que Sobral fez?”. Ela disse: “foi”. Lá fez e colheu os resultados depois. Sobral tinha 96 escolas em 1999, 2000 e, em três anos, caiu para 33. Fechou dois terços das escolas do município. Depois, começou a expandir, mas com planejamento. E está hoje com 54”, informa o secretário de Itabaianinha.

Ainda sob a consultoria de Iracema Sampaio, Itabaianinha colocou em ação outras estratégias, como a firmação da parceria com o Instituto Alfa e Beto, que trabalha na alfabetização; implantação da prova de sondagem na educação infantil, uma avaliação que mede a qualidade do ensino e da aprendizagem das crianças do pré-escolar; fortalecimento de outros avaliações já existentes; e instalação do conselho de classe nas escolas.

“O Conselho de Classe é a junção de professores de todas as disciplinas com a direção e coordenação, onde fazem avaliações dos alunos. Isso só acontecia no final de ano para ver se conseguia salvar alguém. Mas num final de ano não tem muita a se fazer. Aí, incentivamos para que no mês de julho ou agosto os professores se reunissem”, explica Thiago Carvalho.

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Dados disponibilizados pelo Inep do Ideb a nível Brasil

MUNICÍPIOS INTERESSADOS

Do Conselho de Classe, muitos frutos foram colhidos em Itabaianinha. O secretário de Educação cita um. “Em agosto, em certa escola, a diretora perguntou a um professor: “Se o ano terminasse hoje, quantos dos seus alunos estariam reprovados?”. Ele olhou e viu que 86% estariam. Ele quase caía de costas. Não tinha noção. Nos quatro meses seguintes, fez um trabalho e, no final do ano, a turma dele foi a melhor da escola. Reverteu a situação”, relata.

Para Thiago Carvalho, a aprovação e o combate à evasão escolar são tão importantes quanto o trabalho pedagógico do que é ensinado e aprendido na escola. “Buscamos fazer essas duas frentes”, frisa. Evidentemente, o trabalho desenvolvido em Itabaianinha desperta atenção de municípios vizinhos, bem como de todo Estado.

“Temos levado o combate à multisseriação para outros municípios. Já tivemos visita de Campo do Brito, Tomar do Geru, Umbaúba, Arauá, Riachão do Dantas, Lagarto, Estância. E muitos municípios estão querendo vir aqui também, como Dores, Lourdes, Aparecida, Aquidabã, Propriá. Fazemos questão de dividir. Eu não quero que fique só com Itabaianinha. É para ser uma coisa de Sergipe”, ressalta o secretário de educação.

TRABALHO POR AMOR

Da rede estadual, também se extraem outros bons exemplos. Localizada em Aracaju, a Escola Euvaldo Diniz Gonçalves - que funciona no sistema de comodato com a Casa da Doméstica, com auxílio da Diocese - conquistou a nota 6,3 nos anos iniciais do Ideb. Diretora da unidade escolar, a pedagoga Manoela Campos atribui o resultado ao trabalho de “formiguinha” desenvolvido por toda sua equipe. Lá são 240 alunos, do 1º ao 5º ano, divididos entre 11 professores.

“Temos muita parceria com os pais dentro da escola, acompanhando o nosso trabalho. Pedimos ajuda e eles estão sempre presentes. E nossos professores, profissionais são muito compromissados também. Eles fazem além do trabalho. É como costumo dizer: eles não trabalham por dinheiro. Trabalham por amor”, enfatiza a diretora da Euvaldo Diniz.

Infelizmente, em qualquer área, sempre têm aqueles só querem cumprir o seu horário, vivem dentro da caixinha, da bolha e não têm força de vontade, atitude de sair dentro delas com objetivo de ajudar um todo. Na escola Euvaldo, pessoas assim são raras. Lá todos vão além. Não ficam bitolados apenas à sua função. E isso faz todo o diferencial.

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Itabaianinha vem revolucionando à educação, conquistando a primeira colocação do Ideb nos anos finais e a segunda nos anos iniciais

ALÉM DO GABINETE

“Nós temos lá cargos. Ocupo a direção, mas vou dar aula, vou tomar tabuada. Meu diferencial é que não estou no gabinete sentada. Todo mundo faz tudo”, destaca. “O aluno teve problema? Chegamos junto para saber o porquê de estar tendo dificuldade de aprendizagem. Vamos ver se é algum problema a mais, porque, às vezes, ele tem um problema psicológico. Aí, descobrimos que ele está desestimulado”, relata Manoela Campos.

Segundo a diretora da Euvaldo, aluno seu não é cliente. “É um ser humano que está ali para crescer, e ser ajudado. Não é porque ele está ali na escola pública que não terá oportunidade. Pelo contrário: ali é onde ele precisa ter oportunidade maior, porque os pais não podem pagar (um colégio particular). E por que a gente não fazer? Temos que fazer com que a escola pública seja melhor a cada dia”, destaca.

O “comodismo” de ser servidor público passa longe. Se todos pensassem como o time da escola Euvaldo Diniz, a coisa seria diferente em Sergipe, no Brasil. “Não é porque é público e sou uma servidora que eu não vou fazer. “Ah, sou concursada mesmo”. Não. A gente trabalha. Ninguém da minha equipe tem essa visão”, informa Manoela Campos.

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Thiago Carvalho, secretário da Educação de Itabaianinha: “Não quero que só fique com Itabaianinha (resultado). É para ser uma coisa de Sergipe”

ACOLHIMENTO E LEITURA

Além da dedicação do porteiro ao professor, outros diferenciais da Euvaldo Diniz são os projetos. “Iniciamos o dia com o nosso projeto de acolhimento. Os alunos chegam na escola e não são colocados em sala de aula. Antes, trabalhamos a cidadania, amor ao próximo, civismo. Eles cantam o hino da bandeira, oram, conversam sobre convivência, bullying. São trabalhados vários temas”, explica a diretora.

“Batemos muito na tecla do civismo porque quando entrei aqui (ela é diretora há cinco anos) os alunos não sabiam cantar o hino nacional. Eu disse: “como assim?”. Na minha época era algo tão importante e olhe que não sou velha não”, afirma Manoela Campos, aos risos. “Explicamos o porquê da importância de cantar o hino, de ter amor a nossa pátria”, diz.

Outro projeto importante da Euvaldo é o de leitura. “Temos o nosso carrinho, que passamos de turma, em turma com livros. E eles leem. Os pequeninhos, claro, com a ajuda da professora. Fazemos esse trabalho para desenvolver a parte da interpretação, crítica. Perguntamos: “por que está certo, errado?”. Uma vez no mês, fazemos a culminância, debaixo de uma mangueira, com todas as turmas, onde eles apresentam qual foi o livrinho que trabalharam, o que aprenderam”, explica a diretora.

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Com consultoria da ex-secretária de Sobral, Itabaianinha colocou em prática várias ações, como combate à multisseriação e fechamento de escolas

REFERÊNCIA EM SOCORRO

Outra unidade referencial, pelo menos no Município de Nossa Senhora do Socorro, é a Escola Padre Pedro. Com 284 alunos e 12 professores, a unidade escolar obteve a nota 6,0 nos anos iniciais do Ideb. Para a diretora Edlene Santana, o trabalho e o compromisso de toda a equipe fazem a diferença. “Quando a escola acredita que pode realizar um trabalho de qualidade, ela consegue”, diz.

“O trabalho não começou na minha gestão. Em 2015, a escola já tinha alcançado a nota 6. Então, dei continuidade a partir do finalzinho de 2017. E minha grande responsabilidade foi deixar a peteca não cair. Tudo isso, como disse, é fruto de um trabalho sério, com cuidado e atenção da aprendizagem dos meninos”, informa Edlene Santana. 

Assim como a Escola Euvaldo Diniz, a Padre Pedro sempre está em contato com a família dos alunos, pois eles não são apenas números ali na sala de aula. Eles vivem em comunidade. E, por viver em comunidade, é necessário, sim, a forte presença dos pais em sua educação. A casa do estudante é extensão da escola. “Nós conscientizamos os pais da responsabilidade do acompanhamento dos seus filhos”, frisa Edlene Santana.

A Padre Pedro tem como um dos principais projetos o reforço escolar. “Temos tem uma professora readaptada que fica com esse trabalho. As docentes das salas encaminham para a direção pedagógica e diz: “olha, tenho tais alunos com dificuldade”. Analisamos a situação, chamamos os pais, conversamos e colocamos o estudante no reforço, durante o tempo que ele precisar para melhorar desempenho. O reforço é no mesmo turno em que estuda, pois ele não consegue acompanhar as atividades em sala de aula”, explica a diretora.

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Com projetos de acolhimento, leitura, profissionais comprometidos e aulas de dança gratuita, Escola Euvaldo Diniz conquistou nota 6,3 no Ideb

Referência no Estado: Escola de Lagarto obtém maior nota no Ideb

Com 30 anos de experiência em sala de aula e ex-diretora da Escola Estadual Nossa Senhora da Piedade, a unidade escolar da rede estadual que obteve a maior nota no Ideb - 6,8 nos anos iniciais -, a pedagoga Marize Amorim crê que o trabalho coletivo é que faz a diferença no ensino do aluno. Além do mais, para ela, números não são importantes e sim a qualidade.

“Quando trabalhamos em função dessa qualidade, esse número vem de forma involuntária. Não podemos ver apenas números. Temos que trabalhar independentemente de números, porque é uma consequência”, frisa a ex-diretora da Escola Piedade. Para ela, não há mistério para se alcançar resultado positivo.

Mesmo assim, a pedagoga elenca algumas ações aplicadas na escola durante sua gestão. “Trabalhamos muito a questão da leitura. Sempre é nossa menina dos olhos. E também trabalhamos com acompanhamento do aluno individualizado o projeto reforço, pois têm crianças que têm assistência em casa, já outras não”, afirma.

“Por mais que conversemos com os pais, tentemos conscientizá-los, infelizmente, sabemos da realidade de nossas escolas públicas. Tem pais que trabalham o dia todo. Até entendemos. Mas nem tudo é justificativa, porque, se não souber, se for analfabeto, o acompanhamento (via presença) é essencial. Quando a criança percebe que alguém está acompanhando, desenvolve mais”, relata a ex-diretora.

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Escola Estadual Nossa Senhora da Piedade, em Lagarto, obteve a maior nota no Ideb - 6,8 - entre as unidades da rede estadual

“GOSTO PELO QUE FAZ”

Ao ser questionada por que os anos iniciais avançam, e os finais e o ensino médio ainda estão longe da meta do Ideb, a pedagoga diz que “quando trabalhamos os anos iniciais, é um professor na turminha. Acredito que isso faz diferença. Já no fundamental maior e no médio, são muitos professores. Além do mais, as escolas desses anos trabalham com várias modalidades, lidam com alunos na adolescência, mudando de fase. Isso contribui (negativamente). Mas está mudando. No último Ideb, já teve um avanço, principalmente aqui em Lagarto”, afirma.

Segundo a ex-diretora, mesmo ainda tendo muito que avançar, a educação nesses 30 anos para cá tem evoluído muito. “Quem chega agora tem uma visão completamente diferente. Eu entrei nos anos 80 e já houve um grande avanço com relação ao olhar do Governo com o professor e aluno. Estudei em escola pública e era muito difícil”, relembra.

“Hoje, temos muito mais oportunidade. Só falta, na minha opinião, valorizar mais um pouco o professor. Contudo, acredito também que, se formos trabalhar só focados no salário, não alcançamos bom resultado. Temos que ter um olhar para o nosso aluno e gosto pelo que se faz”, aconselha a pedagoga.

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Com nota 6,0 no Ideb, Escola Padre Pedro - reconhecida na comunidade pela qualidade - tem bastante procura por matrícula

Para Sintese, é preciso rever o modelo de avaliação do Ideb

Quando se fala em educação, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe - Sintese - não pode ficar de fora. A entidade não é contra a avaliação feita através do Ideb, contudo, tem suas dúvidas com relação à veracidade das notas, visto que, na visão dela, não contempla a realidade das escolas, dos alunos.

“Na nossa opinião, deveria ser reavaliado o modelo de avaliação do Ideb, Prova Brasil, Provinha Brasil. A avaliação é necessária. Não temos dúvidas disso. É necessário que o sistema educacional e o ensino-aprendizagem sejam avaliados. Mas é necessária uma política de avaliação que leve em consideração onde a escola está inserida”, explica a presidente do Sintese, a professora Ivonete Cruz.

A presidente do Sintese exemplifica mais: “Uma mesma avaliação é feita no Rio Grande do Sul, que tem outras escolas com patamar de organização, projetos, gestão, e numa escola do Nordeste, que tem outra forma, tem a ausência do acompanhamento familiar”. “Compreendemos que não é justa uma avaliação que é construída sem levar em consideração a realidade de onde o aluno está inserido, geográfica, econômica, política, social e cultural”, afirma.

Segundo a professora Ivonete, primeiramente, a educação brasileira precisa entrar num patamar de igualdade. “É necessária condições de trabalho, valorização do profissional, do magistério, proporcionar a eles todas condições de estudar, e do estudante aprender. A gente sabe, por exemplo, que uma das características da urgência da aprendizagem é a fome. E sabemos que alimentação escolar é muito fraca, deficitária no contexto de Sergipe”, diz.

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Ivonete Cruz, presidente do Sintese: “Uma avaliação que é construída sem levar em consideração a realidade, não é justa”