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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Não dá para ter retrocesso como opção

QUEM FOI SERGIPE
Durante muitos anos, Sergipe teve uma alta taxa de crescimento, maior do que a de outros Estado da região Nordeste. Tinha, também, o melhor PIB – Produto Interno Bruto – per capta. Aracaju chegou a ser a Capital com o maior PIB per capta do Nordeste. Ou seja, Sergipe crescia mais do que a média da Região Nordeste.

Hoje, porém, os dados do Anuário Socioeconômico de Sergipe de 2017 mostram que há um abismo entre o Sergipe de antes e o de hoje: o Produto Interno Bruto caiu cerca de 10% nos últimos dois anos; a produção de petróleo não consegue se recuperar; a taxa de desemprego chegou a 15%; a dívida corrente líquida corresponde a 60% da receita corrente líquida.

E não para por aí: proporcionalmente, Sergipe possui mais analfabetos do que a média do Nordeste; cresceu o número de jovens que não estudam nem trabalham; caiu o número de domicílios atendidos com redes de esgoto, água encanada e coleta de lixo.

Publicado 6 de agosto 20h00 - 2017

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Fecomércio reuniu cadeia produtiva para debater os dados

PÉSSIMOS INDICADORES

A maioria deles é ruim. “Uma conclusão que nós temos é que as soluções são de longo prazo; para resolver a questão do emprego, da indústria, indicadores sociais, educação, são coisas que vamos pensar em longo prazo e pensar a longo prazo não é uma tradição brasileira; somos muito imediatistas”, diz o professor Luiz Rogério de Camargo.

A Federação do Comércio de Sergipe – Fecomércio – também realizou um debate sobre o Anuário. O evento ocorreu na terça, dia 1º, e reuniu lideranças do setor produtivo de Sergipe, que, junto ao deputado Laércio Oliveira, que preside a Federação, analisaram a situação da economia sergipana.

Para Laércio, o momento é de muita reflexão. “Porque a situação econômica atual exige criatividade e muita abnegação de todos, para buscar alternativas viáveis e no curto prazo de incremento da economia. O estudo apresentado é importante para subsidiar nossas análises e ações conjuntas, envolvendo todos os representantes do setor produtivo, academia, governo e sociedade”, afirma.

ANÁLISE

De fato, os dados merecem mesmo uma apreciação aprofundada. E foi o que buscou o JLPolítica. Um dos entrevistados, o economista Dilson Menezes, acredita que o Anuário representa um importante indicativo da realidade do Estado de Sergipe, além de servir como subsídio para que os governantes, ao tomarem conhecimento dessa realidade, promovam as medidas necessárias para reverter o processo.

“Pelo conjunto de dados e informações nele contidas, representa um importante instrumento para se planejar Sergipe para o futuro”, reitera Dilson, que continua: “duas páginas iniciais revelam a pouca preocupação do governo com a gestão pública que, no turbilhão da crise econômica brasileira, não tomou nenhuma iniciativa para reduzir os impactos desta crise que já demanda três anos”, opina.

Isso, para ele, mostra que “o governo está muito mais voltado para as questões politico-eleitorais do que para a efetividade de uma gestão pública racional”, o que, na tese do economista seria a causa pétrea de tudo o que está acontecendo. “Independentemente da crise, há falta de planejamento. Basta observar o tipo de secretariado escolhido: em sua grande maioria, com o olhar voltado para as próximas eleições, pouco se sensibilizado com as reais questões do Estado”, ressalta.

APATIA GOVERNAMENTAL

Para Dilson, o próprio documento revela que não houve nenhuma atitude concreta para reduzir ou conter o crescimento do gasto público, além do uso equivocado dos recursos públicos. “Por não existir planejamento, também não existe uma política racional para os investimentos, o que é realmente preocupante quando se pensa no futuro, no longo prazo”, resume.

Josenito Oliveira Santos também é economista. Professor da Universidade Tiradentes, ele vê como de grande importância a divulgação do Anuário Socioeconômico de Sergipe 2017. “Pois expõe a nossa realidade que, por um lado, mostra preocupação com os dados revelados, ou seja, um retrocesso social e econômico no nosso Estado”, diz Josenito.

Por outro lado, o economista também levanta a bandeira que os dado corroboram a necessidade de pensar Sergipe. “Estimular e aprofundar o debate, principalmente, sob os aspectos mais preocupantes, para que possamos elaborar um planejamento, aproveitando as oportunidades e investir em áreas que venham promover o crescimento e desenvolvimento econômico, para, no futuro reverter essa situação”, analisa.

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“Porque a situação econômica atual exige criatividade e muita abnegação de todos, para buscar alternativas viáveis e no curto prazo de incremento da economia”, diz Laércio Oliveira

“É APENAS UM ANUÁRIO”

Apesar de ser unânime a necessidade de discutir as informações do Anuário, também procurado pelo JLPolítica, Ricardo Lacerda, economista do Governo do Estado, não quis falar muito sobre o assunto. Disse apenas que o relatório é válido somente como uma coleta e sistematização de dados socioeconômicos sobre Sergipe.

“Na verdade, esse é o objetivo de um anuário. O problema é quando o anuário se arvora a fazer diagnóstico. E quando faz isso, o Anuário é falho e superficial e produz um diagnóstico equivocado sobre Sergipe”, assegura Ricardo.

O empresário Alexandre Porto discorda. “De modo geral, a gente vê que o anuário serve como diagnóstico. Todo dado precisa ser analisado, embora você possa analisá-lo da forma que lhe convém – positiva ou negativamente”, destaca. Para Alexandre, alguns fatores fizeram com que a economia sergipana a esse ponto. Um deles é o fato de o Estado ter uma dependência muito grande do setor público.

ONDA ERRADA

“O PIB, a movimentação dos recursos, da massa salarial, depende muito disso de modo geral. Também temos uma dependência grande da cadeia da indústria, sobretudo da indústria de mineração. Esses dois setores – o público e a mineração –  estão em crise hoje”, avalia.

Alexandre acredita que o “grande erro de Sergipe” foi ter surfado em bons resultados no passado, quando a indústria de petróleo e de fertilizantes ia muito bem, e não ter se preparado para o depois. “O grande erro é não ter pensado o Estado e diversificado, por exemplo, com a cadeia turística, que apesar do potencial, é pouco explorada”, opina.

Por isso, para Alexandre, Sergipe precisa aproveitar a oportunidade de acesso a essas informações para começar a discutir os problemas, deixando de lado os culpados e buscando soluções. “As armas devem ser postas em baixa. A classe política precisa se desarmar e se reunir com o setor produtivo, com a Academia, de modo a estabelecer um diálogo”, sugere.

CONTINUARÁ PATINANDO?

Isso porque, na tese de Porto, as crises econômicas são cíclicas. Ou seja, passageiras, embora recorrentes. “Vamos sair desse período e Sergipe estará preparado ou vai ficar patinando e colocando a culpa em “A” ou em “B”?”, comenta.

Dessa forma, para ele, os setores público e privado devem se unir para apontar soluções, caminhos, para que ao menos se sugira ao poder público o que fazer. “E aí cabe a ele decidir se fará algo ou não”, pontua.

Alexandre está há vinte anos atuando com entidades de classe ligadas ao empreendedorismo e, de forma macro, com a economia, e sabe que não se pode retardar ainda mais a solução desses problemas. “É preciso descobrir porque Sergipe vive esse problema com intensidade maior do que outros Estados. Não podemos ficar aguardando o acaso: quando fatores externos são propícios, Sergipe vai bem. Quando não, Sergipe vai mal”, ressalta.

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Georgeo: Sergipe teve uma década perdida

MAIS DEBATES

Os dados do Anuário chamaram tanto a atenção que outros órgãos pretendem debatê-los. Na Câmara, o debate será na próxima terça-feira, dia 8 de agosto. A iniciativa da audiência foi do vereador Iran Barbosa – que foi procurado pelo Portal, mas não retornou aos contatos. Já o presidente da Casa, vereador Nitinho Vitale (PSD), falou com a equipe de reportagem.

Para Nitinho, a iniciativa de Iran Barbosa é louvável. “Precisamos ouvir os especialistas, discutir sobre o assunto e dar a nossa contribuição para que a nossa capital possa melhorar esse panorama de dificuldade e continuar crescendo, econômica e socialmente, com qualidade”, afirma Nitinho.

O Legislativo Estadual também realizará audiência pública. A deputada estadual Maria Mendonça PP, é quem pretende promove-la. “Lamentavelmente, tais dados apenas reforçam o que há anos tentamos alertar, quando nos referimos à ausência de um planejamento pautado na realidade do nosso Estado”, comenta.
Maria Mendonça defende que “é hora de acordar enquanto há tempo” e cobrou um redirecionamento do planejamento estatal.

“CRISE NÃO É JUSTIFICATIVA”

“Vamos promover este debate amplo e, quem sabe, a gente consegue propor algo que possa ajudar a minimizar o triste quadro. O caos não é restrito a Sergipe, mas a crise não pode servir de justificativa. Sei o quanto é difícil administrar.

Fui prefeita de Itabaiana e tivemos que enfrentar vários obstáculos. Mas com planejamento, dedicação e uma equipe comprometida vencemos a maioria deles. É preciso ter coragem de priorizar”, completa.

O deputado Antônio dos Santos, PSC, também considera o Anuário um “balizador. “O que mais nos preocupa é que, quanto mais demora, mais difícil será de estancar o caminho de voltar e retomar o retomar o crescimento. E a gente espera que a população tenha a oportunidade de mudar no próximo ano, porque já viu que com os atuais atores do Executivo Estadual não se vai a lugar algum. Estamos vivendo uma década perdida e a população precisa acordar e tentar melhorar esta situação”, argumenta.

O deputado estadual Georgeo Passos, PTC, líder do bloco de oposição, também criticou a gravidade do quadro que Sergipe apresenta. No retorno dos trabalhos na Assembleia Legislativa após o recesso, na terça, dia 1º, ele falou sobre a preocupação que o Anuário provocou.

DÉCADA PERDIDA

“Houve regressão em várias áreas, fruto da falta de políticas públicas eficientes daqueles que estão comandando o Estado nos últimos dez anos. Foi uma década perdida, onde só pioraram a vida dos sergipanos. Quem está falando isso não é o deputado Georgeo – são os professores e pesquisadores que estudaram o Estado nos últimos anos”, avalia Georgeo.

E essa falta de políticas públicas tem contribuído para a queda dos indicadores sociais. “O documento é um trabalho de fôlego e nos deixa bastante preocupados com o futuro de Sergipe. Ficam as perguntas: continuando o pouco caso com a gestão pública, onde vamos parar? O que o futuro nos espera?”, questiona o economista Dilson Menezes. Bem, se no presente não se fizer nada para reverter esses indicativos, o futuro, certamente, nem chegará.

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Na Câmara, o debate será na próxima terça-feira, dia 8 de agosto. A iniciativa da audiência foi do vereador Iran Barbosa