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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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O “politicamente correto” ganhou tom pejorativo e lado partidário

Atribuído à esquerda, o movimento é duramente criticado pelo presidente Jair Messias Bolsonaro, PSL, mas, na visão de alguns segmentos, é extremamente necessário e importante

“O mundo está ficando chato”. Essa é uma afirmação recorrente na contemporaneidade. E está atrelada a um movimento contra o preconceito, a discriminação e, principalmente, a banalização deles. Trata-se do “politicamente correto”, uma corrente de pensamento que não é nova, mas que vem criticada mais fortemente nos últimos anos.

Usado para descrever um movimento que combate o uso de linguagem ou ações que são vistas como excludentes, que marginalizam ou insultam grupos de pessoas que são vistos como desfavorecidos ou discriminados, especialmente grupos definidos por sexo ou raça”, o politicamente correto ganhou tom pejorativo e até lado partidário.

Atribuído à esquerda, ele é duramente criticado pelo presidente Jair Messias Bolsonaro, PSL, desde a sua pré-campanha. Bolsonaro considera que o movimento é uma das “táticas da esquerda” para criar situações injustas. A afirmação foi feita pelo Twitter.

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Declaração de Jair Bolsonaro feita no Twitter
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Em discurso de posse, presidente voltou a criticar o politicamente correto

ETMOLOGIA

Mas, na verdade, o politicamente correto, como o nome diz, foi criado para, literalmente, designar algo relacionado à política. Um dos primeiros registros de seu uso data de 1793, quando foi citado em uma decisão da Suprema Corte Americana. Depois disso, já foi usado para descrever ideologia política e para ironizar possíveis exageros entre o próprio grupo que usava o termo.

Em seguida, ser politicamente correto passou a significar escolher palavras que não ofendam grupos minoritários e oprimidos, como mulheres, negros, gays e deficientes. Ultimamente, o uso de politicamente correto ganhou força como termo pejorativo. Críticos do movimento afirmam que a concepção atual do termo tem origens no regime stalinista da União Soviética.

Também afirma-se que a expressão passou a ser usada de forma mais disseminada nos EUA, com uso mais próximo da concepção atual, nas décadas de 1960 e 1970, emprestado de um discurso do chinês Mao Tsé-Tung, cujo título foi traduzido no país como “Sobre a forma correta de lidar com contradições entre as pessoas.”

USO IRÔNICO

A professora de literatura do MIT Ruth Perry afirmou ao The Guardian que muitos esquerdistas começaram a usar o termo a partir daí, mas de um jeito jocoso. “O termo era usado de forma irônica, sempre chamando atenção para um possível dogmatismo”, diz.

Foi apenas nos anos 1990 que o termo passou a ser associado a sentimentos partidários, cujo uso é associado à esquerda e o desprezo dele, à direita. Segundo Clive Hamilton, a discussão ganhou força nas universidades, onde matérias tradicionais estavam sendo substituídas por outras, como feminismo e pós-colonialismo.

Marcelo Ennes, sociólogo, doutor em Sociologia, professor do Departamento de Ciências Sociais da UFS e do programa de Pós-Graduação em Sociologia da mesma instituição, explica que o politicamente correto é uma expressão que já existe há vários anos em outros países, a exemplo dos Estados Unidos, e está relacionada a algumas mudanças sociais pelas quais esses países – e mais recentemente o Brasil – têm passado.

MUDANÇAS SOCIAIS

“Essas mudanças, na realidade, têm a ver com a emergência de novos setores, novos grupos sociais, raciais, ligados a etnias, à sexualidade, ao gênero, etc, que ao longo da história sempre foram subordinados, secundarizados, e que a partir desses últimos anos passaram a ter maior espaço e a circular em meios que eram mais homogêneos, como as universidades e outros espaços públicos”, esclarece Marcelo Ennes.

Para ele, isso gerou algumas tensões, porque determinadas ideias, valores, brincadeiras, denominações que eram utilizados para se referir a esses grupos em sua ausência nesses espaços, passaram a sofrer críticas exatamente das pessoas a quem se referiam essas denominações e apelidos.

“Essas pessoas que chegam a partir desse processo de mobilidade social de garantia de direitos, de materialização de direitos, de acesso a espaços antes muito restritos, elas começam, evidentemente, a dizer não, que não aceitavam aquelas classificações por entenderem que eram formas ofensivas”, ressalta.

REINVINDICAÇÃO

Ou seja, o politicamente correto se resume a uma reivindicação de respeito por parte de pessoas que eram/são discriminadas e que passam a compartilhar espaços públicos comuns nos quais vivenciam situações de constrangimento, estigmatização e preconceito.

Para Ennes, de fato, existe uma associação que é construída entre o politicamente correto e a esquerda. Mas ele adverte que nem todo mundo que é politicamente correto é de esquerda e nem todo mundo que não é politicamente correto é de direita. Ou seja, há pessoas dentro da esquerda que não são politicamente corretas e há gente na direita que é politicamente correta.

“Mas de maneira geral a esquerda é historicamente associada à reivindicação de direitos, de novos espaços de pessoas que eram excluídas. Essa é a pauta básica da esquerda. Assim como acesso a bens materiais e simbólicos que são considerados privilégios, mas que são direitos de todos”, reitera.

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Donald Trump também é um dos críticos ao politicamente correto

PRECONCEITO

Além de ser atribuído a pauta de esquerda, o politicamente correto também se tornou ameaçador e pejorativo para aqueles que cometem discriminação. Por isso é um movimento tão atacado.

“Essas pessoas que são ofensivas, por trás de brincadeiras e piadas, na verdade, expressam uma visão de mundo extremamente intolerante, excludente. Elas se veem ameadas por esse processo de mobilidade social que levou pessoas totalmente excluídas dos espaços públicos a terem acesso a eles”, opina o sociólogo.

Então, na verdade, para Marcelo Ennes, muitas vezes quem critica o politicamente correto se sente ameaçado por essa nova realidade. “O preconceito, a brincadeira, a humilhação são formas de reagir. É uma forma de defesa dessas pessoas que se sentem ameaçadas por terem que conviver com quem sempre julgou inferior. Além de ter que conviver com essas pessoas, elas não podem manifestar publicamente, de maneira preconceituosa”, ressalta.

MIMIMI?

Nesse contexto de reação ao politicamente correto, outro termo ganhou ampla abordagem: o mimimi. Marcelo Ennes trata a definição como uma resposta ao politicamente correto, além de uma generalização prejudicial. “A questão básica é: quando é mimimi e quando não? Quando é exagero e quando não é?”, questiona.

“Para responder a essas questões, o básico é o seguinte: se a pessoa em geral aceita a brincadeira, e aceita não como uma maneira de amenizar a situação, mas porque acredita mesmo, então o politicamente correto não cabe. Se está rindo com a outra e não rindo da outra, não há preconceito, em princípio”, define o sociólogo.

Além disso, para Ennes, quem deve responder efetivamente se é mimimi ou não é a pessoa a quem a denominação, brincadeira se dirige. “Se a pessoa x é alvo, ela vai dizer, de maneira livre, se se sente ofendida ou não. Se sente, não pode ser feito, mesmo que quem faça ache que é brincadeira. Isso tem que ser observado. O importante é entender que a pessoa não quer ser tratada de tal maneira e tem o direito de não ser. Isso é básico”, enfatiza.

DIREITOS

O politicamente correto, segundo Ennes, surge exatamente como uma tentativa de garantir esses novos direitos, para que as pessoas portadoras deles não sejam algo de descriminalização. “Os exageros têm que ser colocados em questão, mas não se pode generalizar, achar que tudo é mimimi”, pondera.

A advogada Valdilene Oliveira Martins concorda. Ela é vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil em Sergipe – OAB/SE – e sente na pele o quanto a “teoria do mimimi” pode ser cruel. “Eu não consigo entender tanta gente sendo contrária ao politicamente correto, já que somos todos humanos, independentemente de gênero, etnia, classe social... então não tem porque se adjetivar pejorativamente o que vem fortalecer essa verdade que deveria ser entendida por todos”, afirma Valdilene Oliveira.

Exatamente por isso, ela acredita que todos devem trabalhar para efetivar esses direitos. Não só a esquerda, como tentam colocar. “Eu acho isso tão sem noção... Só é ser humano quem é de esquerda?”, questiona. “A busca pelos direitos tem que ser da humanidade, independentemente desse direcionamento que não tem cabimento algum”, destaca.

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Marcelo Ennes: politicamente correto ataca privilégios

CONSERVADORISMO?

Valdilene vai além nesse questionamento e argumenta que esse discurso de conservadorismo adotado pelos que são contra o politicamente correto é incoerente. “Conservador? Desde quando ser racista, machista, homofóbico, misógino, classista é ser conservador? Isso é ser preconceituoso. Conservar é algo positivo, não se conserva o que não presta. Claro que há tradições,  hábitos que devem ser preservados, mas que não prejudiquem os outros”, reforça.

A teoria de Valdilene Oliveira é a de que o senso comum deprecia certos movimentos exatamente para deslegitimá-los. “Isso acontece com o feminismo, por exemplo. E não se trata da direita conservadora, mas sim de pessoas que se escondem por trás dessa denominação. São preconceituosas, discriminadoras”, critica a advogada.

Para Valdilene, ser contrário ao politicamente correto é não ver as pessoas como iguais em direitos e obrigações e se utilizar de deturpações, “porque sendo de direita ou de esquerda, a pauta é o bem-estar social”. “Não dá para ficar nessa binaridade de vilões e dos mocinhos, nivelando por baixo. Os governantes precisam entender isso, que somos todos iguais. Mas, antes, o povo é que tem que ter essa noção”, analisa.

SURTINDO EFEITO

Mulher e negra, Valdilene é duplamente contrária à “teoria do mimimi”. “Está na moda dizer que tudo é mimimi. E quem diz isso não são pessoas que não sabem e sim que querem deslegitimar. Isso chateia, ofende, mas tem um ponto positivo: está funcionando”, teoriza. Isso porque, na opinião de Valdilene, já que se bate tanto no politicamente correto, é porque ele tem caminhado a passos largos.

“Cada tempo tem suas conquistas e essa é uma das nossas. Entender que não precisa passar por determinada situação para saber que as oportunidades não são iguais, que as pessoas são eliminadas pelo gênero, pela etnia e pela classe social. Então quando dizem que mimimi é o que entendemos por machismo, racismo, lgbtfobia, é claro que me chateio, mas, ao mesmo tempo, vejo que estamos no caminho certo”, argumenta.

O empresário João Tarantella, filiado ao PSL, mesmo partido de Bolsonaro e um dos admiradores da forma “sincerona” dele, acredita que foi exatamente a fala politicamente incorreta que fez Bolsonaro ganhar a eleição. “Ele recebeu muitas críticas, mas essa forma de fazer política, arrumadinha, mas com malandragem, está ultrapassada. Não adianta ir para as entrevistas ou debates e falar tudo bonitinho, sob orientação de um publicitário, se não é de coração”, opina Tarantella.

LINGUAGEM

Mas ele admite que, às vezes, o presidente comete excessos e que eles devem ser menos comuns a partir de agora. “É normal. Uma coisa é ser candidato e outra coisa é ser o presidente. Ele precisa de uma linguagem mais branda, que não ofenda, mostrar para a população tudo que ele pode fazer e que é importante para o país”, avalia Tarantella.

Diferentemente, o sociólogo Marcelo Ennes aposta no politicamente correto como uma nova frente de batalha – e não como algo a ser combatido. “Porque esse tipo de crítica ao que é o preconceito, humilhação, desprezo e exclusão, acaba sendo um momento desse novo movimento conservador colocar as coisas “dentro do lugar”, da maneira como eram, como defendem que seja o correto”, alerta.

A questão, para Marcelo Ennes, é que a sociedade vislumbra um modelo hierárquico a ser seguido, com bens materiais e simbólicos sendo prioridade exclusiva das “castas” mais importantes. “Atacar o politicamente correto, então, é atacar uma das facetas dessa nova ordem, em que essas pessoas se sentem ameaçadas por terem os seus privilégios questionados e igualmente ameaçados”.

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Valdilene Oliveira: ataque mostra que politicamente correto surte efeito