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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Ok: a economia sofre impactos do Carnaval. Mas seriam negativos ou positivos?

Embora exista uma espécie de vacância entre o real início do ano e o Carnaval, período também aquece alguns segmentos específicos

Diz o senso comum brasileiro que o ano por aqui só começa depois do Carnaval, maior festa popular do país e que ocorre nos meses de fevereiro e março, a depender do calendário. Este ano, a folia teve fim no dia 26 de fevereiro – exatos 57 dias após o 2020 começar de no calendário.

Especialistas apontam que essa lacuna entre o início do ano lá no primeiro, ou segundo, dia de janeiro, e o Carnaval pode trazer grandes impactos para a economia, embora possam ser suplantados pelo aquecimento temporário que o período causa, como acredita Marco Pinheiro, presidente da Associação Comercial de Sergipe - Acese.

“O período do Carnaval traz consigo um momento de leve aquecimento em alguns setores da economia e complementa o período já marcado pelas férias escolares e as festas de fim de ano”, explica Marco Pinheiro. Para ele, esse contexto acaba por compensar essa espécie de vácuo que a festa propõe

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Marco Pinheiro: "por mais que a sensação que dá ao consumidor é de que finalmente é um ano novo a partir do Carnaval, para nós, a época marca o fim de um período geralmente positivo”

COMÉRCIO
Brenno Barreto, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas – CDL – de Aracaju, afirma que essa máxima – de que o ano só começa depois do Carnaval - tem apelo maior para alguns setores e menor para outros. “É um período mais aquecido para alguns segmentos, principalmente de dois anos para cá, com a realização desses bloquinhos na capital”, justifica Brenno.

De acordo com ele, esses eventos, mesmo que não tenham tanta expressão ainda, acabam aquecendo o mercado formal e o informal, o que, para ele, é positivo, já que o início do ano não é um período promissor para as vendas – isso em decorrência da descarga de consumo em dezembro.

“Essa percepção existe, porque no início do ano há muitas obrigações a pagar, como o Imposto Predial e Territorial Urbano – IPTU - e as compras de dezembro. Então, existe uma parcela da população que está endividada, comprometida com algumas obrigações”, ressalta.

INDÚSTRIA
O dirigente da CDL ressalta que, na indústria, por exemplo, a produção só é iniciada nesse período, após as férias coletivas. “Começa a andar a partir de agora”, diz Brenno Barreto. Mas ele admite que não há dados oficiais que corroborem essa lacuna. “É uma percepção, que, como eu disse, em alguns segmentos é mais sentida”, reitera.

O economista Rodrigo Rocha, superintendente do Instituto Euvaldo Loti - IEL - esclarece que o Carnaval já está devidamente previsto e incorporado no calendário das indústrias. “E, por isso, o seu impacto já faz parte do planejamento das empresas”, assegura. De acordo com ele, o ano começou com expectativas muito positivas, que foram dissipadas.

“Apesar deste cenário turbulento, mantém-se a esperança de que em breve esta situação estará controlada e a economia retomará o caminho do crescimento, mesmo que em um patamar inferior ao esperado no início do ano”, reitera.

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Edivaldo Cunha: “o empresário já fica naquela de aguardar o Carnaval passar para as coisas melhorarem. É uma cultura”

O OUTRO LADO
A previsão da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Sergipe - FCDL -, presidida pelo comerciante Edivaldo Cunha, era de um Carnaval com movimentação significativa em vários segmentos na capital e interior, especialmente nos municípios onde há tradição da festa momesca, como Aracaju, Neópolis, São Cristóvão, Estância, Itabaianinha, Barra dos Coqueiros, Pirambu, Japaratuba, Umbaúba e Tobias Barreto.

Segundo Edivaldo Cunha, os setores de roupas, adereços, fantasias, hotelaria, alimentação, transportes, serviços, bares, restaurantes, autônomos, ambulantes e costureiras são os que se beneficiaram e se beneficiam diretamente com a festa. Para estes segmentos, ele previu um aumento de 5% nas vendas, além do faturamento normal. “Devido à participação dos sergipanos na folia, desde os bailes, bloquinhos, festas escolares e ou as promovidas pelo poder público, que incrementam estes setores”, afirma Edivaldo.

Sobre a capital sergipana, o presidente da CDL, Brenno Barreto, também reforçou a tese da FCDL em relação às vendas, especialmente nos segmentos do turismo, transporte, lazer, bares, restaurantes e comércio ambulante. Ele crê que a maior movimentação na capital sergipana foi diagnosticada por quem procura Aracaju neste período.

“Os turistas vêm para cá justamente em busca de lazer, praia, tranquilidade e fuga dos carnavais mais aguerridos. Lotam os hotéis, visitam nossos pontos turísticos e fazem a economia girar nos seis dias de festa”, justifica Brenno. Para o economista Emerson de Sousa Silva, ao contrário do que se possa achar, o primeiro trimestre não é o de menor atividade econômica no Brasil – e aí estaria se tirando “a culpa” do Carnaval.

ATIVIDADE ECONÔMICA
De acordo com Emerson Sousa, analisando-se dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE -, desde 1996 se vê que, em comparação com o trimestre anterior, o período de menor atividade é o último trimestre, o de outubro a dezembro.

“Nesses 25 anos, no primeiro trimestre, a economia tem crescido algo em torno de 0,35% em relação ao período anterior. Enquanto isso, o quarto trimestre geralmente vê a atividade se expandir uma média 0,31% na comparação com os três meses anteriores”, aponta Emerson Sousa.

Nessas duas décadas e meia, no primeiro trimestre, segundo ele, o consumo das famílias cresceu 0,4% em comparação com o período imediatamente anterior. “O dispêndio público, 0,82%; a formação bruta de capital (uma medida de investimento privado), 0,23% e a agropecuária regride 0,28%. O último quartil do ano somente supera o primeiro nesse quesito e no consumo das famílias. Nos demais, ele é menor”, reforça.

Mas, lembra Emerson, esses dois não superam o segundo e o terceiro trimestres. “Porém, é nítido que a economia se move mais no primeiro do que no último, principalmente no setor público, onde há uma regressão média de 0,23% nesse interregno e uma forte expansão naquele outro (0,82%). Ou seja, por mais que não pareça, o início do ano no Brasil é no início do ano”, destaca.

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Rodrigo Rocha: “apesar deste cenário turbulento, mantém-se a esperança de que em breve esta situação estará controlada e a economia retomará”

INVESTIMENTOS
Este ano, a previsão era de que o feriado prolongado que abarca o Carnaval movimentasse R$ 8 bilhões em atividades relacionadas ao turismo, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo - CNC. O faturamento representaria aumento real de 1% em relação ao obtido em igual período do ano passado e o maior volume desde 2015.

Segundo a CNC, “a recuperação gradual da atividade econômica, combinada à inflação baixa” tende a refletir na recuperação moderada dos serviços turísticos. Além disso, o fortalecimento do dólar ante o real deve favorecer um maior fluxo interno de turistas. O Ministério do Turismo calcula que pelo menos 36 milhões de brasileiros passaram o feriado dos seis dias nos principais destinos carnavalescos do país e no Distrito Federal.

Entre os setores esperados como geradores de maior receita, a CNC destacavam a alimentação fora do domicílio, como bares e restaurantes (R$ 4,8 bilhões), as empresas de transporte de passageiros rodoviário, aéreo e de locação de veículos rodoviários (R$ 1,3 bilhão) e os serviços de hospedagem em hotéis e pousadas (R$ 861,3 milhões). Juntos, esses segmentos devem responder por 88% do faturamento da data carnavalesca.

ESTADOS
O Estado do Rio de Janeiro foi escalado com a tendência de concentrar a maior fatia da movimentação financeira do período, com faturamento de R$ 2,68 bilhões, seguido por São Paulo. com R$ 1,94 bilhão, Bahia com R$ 1,36 bilhão, Minas Gerais com R$ 809,7 milhões, Pernambuco com R$ 381,9 milhões. e Ceará com R$ 318 milhões.

A Confederação previu, ainda, que a maior taxa de crescimento das receitas deveria ser observada em São Paulo com alta de 5,4% e Pernambuco com incremento de 3,2%. Já o Ceará tende a obter um decréscimo de 2,9% no faturamento acumulado no feriado.

A CNC calcula que, para atender ao aumento sazonal de demanda, 25,4 mil trabalhadores temporários foram contratados entre janeiro e fevereiro deste ano - o maior contingente desde 2014. O número representa 2,8% trabalhadores a mais que no carnaval de 2019. O setor serviços de alimentação deve responder por 71% destas vagas com 18,2 mil postos.

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Emerson Sousa: “é nítido que a economia se move mais no primeiro do que no último trimestre”

CORONAVÍRUS
O comerciante Edivaldo Cunha diz que essa percepção de melhora após o Carnaval sempre existiu, mas que, este ano, está diferente. A razão? O Coronavírus. “O Coronavírus está afetando o comércio,  o turismo, a exportação e a importação. Não tenho dúvida de que há retenção na compra. Hoje está se vendendo muito pouco e isso tirou a esperança de que depois do Carnaval tudo vai melhorar”, reforça.

“O Coronavírus piorou esse cenário de lacuna até o Carnaval, trazendo uma insegurança muito grande. Estamos todos apreensivos, também com relação à economia, porque ela será ainda mais afetada”, completa.

O economista Rodrigo Rocha confirma. “Infelizmente, o Coronavírus trouxe um clima de incerteza muito grande para a economia global, o que já está causando um efeito negativo em algumas áreas mais sensíveis da economia brasileira”, afirma. Mas seja lá que se confirme na economia, o Carnaval de fato passou e o ano econômico começou.

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Brenno Barreto: “é um período mais aquecido para alguns segmentos, principalmente de dois anos para cá, com a realização desses bloquinhos na capital”