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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Pecuaristas de Sergipe enfrentam sérias dificuldades para abate

Profissionais, com tecnologias e rigores de engordas, eles não têm frigoríficos que abatam e deem destino comercial às carnes. Sobra o varejo direto e miúdo com marchantes. Tem bois indo para matadouros da Bahia

Com um rebanho de mais de um milhão de cabeças de gado, o Estado de Sergipe tem na pecuária uma boa atividade para a sua economia e, consequentemente, para a composição do seu Produto Interno Bruto – PIB –, que registrou variação média de 3,1% no período acumulado dos últimos 14 anos, apresentando a quinta melhor média regional do Nordeste.

No entanto, o setor ainda sofre com uma problemática que se arrasta há anos: a falta de frigoríficos no Estado e, principalmente, a falta de frigoríficos que também comercializem a carne, em vez de só abater o animal.

Atualmente, são apenas dois, um em Propriá e outro em Itabaiana. Somados a eles, há mais umas dezenas de matadouros insalubres e ilegais que continuam realizando um abate também ilegal, além de perigoso – sem a mínima garantia para a cadeia produtiva.

Para Alberto Carvalho, o Betinho, empresário e produtor de gado de corte, esse ainda é o principal gargalo para um desenvolvimento maior da atividade no Estado. “Em todos os Estados, os frigoríficos compram diretamente dos produtores e dão finalidade à produção. Aqui, muitas vezes, não temos a quem repassar, a não ser aos marchantes. Mas, para isso, temos que atender às exigências de cada um deles”, afirma Alberto Carvalho. Isso é pura insegurança.

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Esmeraldo Leal: Estado precisa da iniciativa privada para sanar a questão
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Geraldo Barreto: visão científica e preocupação com os tais matadouros municipais

CONCORRÊNCIA DESLEAL

E tudo isso gera mais gasto para os produtores. “Temos que engordar o boi, como se diz. No meu caso, que produzo animais de alto nível, o custo é bastante alto”, reitera. Mas o próprio Geraldo faz um adendo e não culpa somente os frigoríficos pela falta de interesse na comercialização da carne. “Entendo que há uma concorrência desleal”, justifica.

Sim, há. Um frigorífico de qualidade, moderno, como os que estão instalados em Sergipe, custa um alto investimento. Enquanto que os matadouros irregulares abatem o mesmo boi sem qualquer higiene, equipamento ou técnica - e, claro, sem o investimento que não precisa ser repassado ao cliente.

“O Ministério Público tem feito um trabalho duro nesse sentido. Mas os políticos só pensam neles próprios e não fazem nada em benefício da população. Sou contra as Prefeituras manterem matadouros ou investirem em algo que a iniciativa privada tem mais capacidade técnica e financeira para fazer. Prefeitura tem que se preocupar é com saúde, educação, segurança”, argumenta Barreto.

INVESTIMENTO PRIVADO

De fato, a parceria com a iniciativa privada tem sido a grande salvação das administrações públicas, falidas pelos seus próprios vícios e modus operandis. O Grupo Maratá, por exemplo, tem o projeto de construção de um frigorífico orçado em R$ 100 milhões.

“O frigorífico já tem um projeto, mas continua em standby por um único motivo: a Rodovia Itabaiana-Itaporanga. Nosso projeto fica nessa rodovia e depende disso. Sem ela, não vamos dar início ao projeto, porque temos um confinamento. A rodovia faz parte da logística”, explica Frank Vieira, um dos diretores do Grupo.

José Augusto Vieira, pai de Frank e o criador e mantenedor do Grupo Maratá, diz que a ideia surgiu exatamente da necessidade que o Estado tem neste setor. “Sergipe tem 75 municípios e comporta uns quatro frigoríficos de médio porte e em pontos estratégicos do Estado. Enxergamos essa demanda e resolvemos investir”, admite José Augusto Vieira.

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Moacir, do Serrano: boa ideia a serviço da sanidade no abate bovino de Sergipe

SAÚDE PÚBLICA

Indignado, José Augusto diz que é inadmissível ainda se matar boi com pancada, sem higiene, de qualquer jeito. De fato, é inadmissível. Até porque essa é a carne que você consome na sua casa - compreendeu a gravidade da coisa?

E é justamente em nome dessa gravidade que o empresário Manoel Moacir Souza, dono do Frigorífico Serrano, o de Itabaiana, não entende a pouca adesão que o projeto dele teve. Com uma capacidade de abate de 600 bois por dia, o que daria 3 mil por semana, o local tem recebido apenas 10% disso.

“Nosso planejamento foi o de criar um espaço que resolvesse a questão do abate clandestino em Sergipe. Mas só estamos recebendo 300 bois por semana. Um número bem abaixo do que esperávamos e do que temos capacidade de receber”, lamenta Moacir.

 BRIGA POLÍTICA

Mas se há demanda para mais frigoríficos no Estado, porque que não há aproveitamento total dos que existem? Para o empresário Manoel Moacir Souza, a questão está na política. Ou melhor, nos políticos. “Os prefeitos seguem brigando para manter uma coisa irregular e que só faz mal à população, por isso a baixa adesão ao nosso negócio”, explica.

Manoel Moacir Souza diz que os matadouros municipais não cumprem em nada nenhum dos aspectos que eles são obrigados a cumprir, como inspeção, meio ambiente e refrigeração, os três pilares para um abate de qualidade. “A população fica à mercê da carne produzida pelos animais que eles matam, sem saber a origem dela”, completa.

Inclusive, isso ocorre na própria Capital do Estado, que é abastecida pela carne abatida no interior, muitas vezes, também sem registro de origem. “No nosso frigorífico, não. A carne tem todo um ritual enquanto está lá e depois sai com uma nota fiscal para que possa ser acompanhada”, ressalta Moacir.

De fato, o Ministério Público de Sergipe vem empreendendo uma verdadeira caçada aos matadouros municipais, que, praticamente em sua totalidade, estão irregulares. Segundo o procurador-chefe Rony Almeida, do Ministério Público Estadual, as ações agora estão sendo tratadas em nível de Procuraria Geral de Justiça. “Existem diversas ações no interior”, admite Rony Almeida. 

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Matadouros são alvo de diversas ações do MPE, mas continuam operando

FUNÇÃO SOCIAL

Moacir destaca que o planejamento inicial da empresa já era o de apenas prestar o serviço de abate e não o de comercializá-la. Portanto, isso não tem nada a ver com a baixa adesão que o negócio teve até agora. Hoje, o Frigorífico Serrano emprega cerca de 60 funcionários. Se operasse com a capacidade máxima, seriam 140. Ou seja, para ele, o argumento de que acabar com os matadouros municipais tiraria empregos é uma balela.

Primeiro, porque o pessoal poderia ser absorvido pelos próprios frigoríficos, por exemplo. “E, segundo, porque a cadeia produtiva continuaria existindo: os marchantes, as fateiras, todos continuariam trabalhando. Só que com as condições necessárias, cumprindo nossa função social”, reforça.

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José Augusto Vieira: Enxergamos a demanda e resolvemos investir

E O ESTADO?

Procurado pelo JLPolítica para falar sobre o assunto, o secretário de Estado da Agricultura, Esmeraldo Leal, reconheceu a relevância da atividade. “Sergipe tem uma diversidade muito grande na agricultura e na pecuária. É um produtor de leite e de carne, porque tem uma genética muito boa. Os investimentos que fazemos são uma resposta a esse setor que já cumpre papel importante”, define Esmeraldo.

De acordo com o secretário Esmeraldo Leal, o Estado chega a ser, em termos proporcionais, um dos primeiros do Nordeste na atividade. “O rebanho de Sergipe é grande para a proporção do Estado”, diz. “Ele ganha ou fica entre o terceiro em quase todas as culturas, inclusive na pecuária”, acrescenta Esmeraldo.

Mas Esmeraldo Leal reconhece que há essa deficiência. “Esse era um dos grandes limites e continua sendo, mesmo havendo uma melhora significativa com o Frigorífico Serrano”, admite, lembrando que, apesar disso, Sergipe se consolidou como um Estado livre há 22 anos da febre aftosa e tem reconhecimento internacional de sua carne.

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Sergipe tem animais de boa qualidade, mas outros Estados estão usufruindo deles

INICIATIVA PRIVADA

“Ainda precisamos de mais dois frigoríficos regionais para corresponder melhor a essa produção. Para isso, temos conversado com alguns grupos, inclusive o próprio Serrano foi provocado para que no futuro amplie a planta e faça outro, mesmo que não seja de mesmo porte”, garante o secretário.

Mas por que o Estado não cuida pessoalmente desse entrave? “Não temos suporte para construir. O custo é alto e falta capacidade, inclusive técnica”, confessa. “Na nossa avaliação, temos capacidade de frigorífico com porte intermediário para o Alto Sertão e para a Região Sul, pois há esses dois vazios no Estado e o ideal é preencher. Mas para isso dependemos da construção de parcerias com a iniciativa privada”, frisa.

O empresário Manoel Moacir, do Serrano, diz que ainda não tem planos para essa expansão, mas que também não se arrepende do investimento, porque, na visão dele, as coisas tendem a melhorar com a interdição dos matadouros. “A civilidade e a modernidade têm que acontecer”, prega ele.

Geraldo Barreto tem outra receita para colocar um fim a essa situação. Ele aposta na união. “Para esse mercado melhorar, é preciso unir as forças. Os produtores, a população, os órgãos de controle e fiscalização. Só assim poderá a pecuária sergipana fornecer carne de qualidade para toda a população, além de aumentar a arrecadação do Estado”, sugere.

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Sergipe tem tradição de engorda tanto em confinamento quanto a pasto: boa qualidade