Preço do gás de Sergipe explode e produz incerteza industrial

Por Tanuza Oliveira
16 jul 2017, 21h11

Sergipe figura como o terceiro maior produtor de gás natural do Nordeste nos últimos oito anos. No entanto, pratica um dos preços mais altos do produto em todo o Brasil. Só este ano, já foram dois reajustes: o primeiro aumentou o preço do insumo em 8,61% e o último, em mais 6,39%.

O gás de Sergipe tem boa demanda na atividade industrial. Para completar o cenário, entre abril de 2016 e o deste ano, a indústria sergipana apresentou saldo negativo de mais de 7.400 postos de trabalho. Será que há relação entre o preço do gás e essa evasão de indústrias e a consequente perda de empregos?

Para Wellington Paixão, presidente da Empresa Sergipe Gás S.A., a Sergás, não. Aliás, ele nega, inclusive, o que a mídia e alguns setores vêm noticiando, de que o Sergipe tem a tarifa mais alta do país.

“Tecnicamente, não tem”, rebate Wellington. Isso porque, segundo ele, há diversos fatores que compõem o preço e que devem ser levados em consideração – e não apenas o valor em si.

Industria deve se fortalecer com redução da tarifa do gás


CASO DA TARIFA

De acordo com Wellington Paixão, a tarifa sergipana é composta por vários insumos. “No nosso caso, temos basicamente 80% do preço do próprio gás comprado à Petrobras. Mais 14% de impostos do Estado. O restante é a margem de negociação da empresa”, revela.

Trocando em miúdos: “de R$ 1, a Sergás tira apenas 0,11. O restante é da Petrobras. Assim, não tem como negociar e baratear. Essa oscilação da tarifa obedece rigorosamente à oscilação do preço do gás”.

Além dessa margem de difícil negociação, Wellington Paixão explica que a tarifa é discutida com a Agência Reguladora de Serviços de Sergipe – Agrese – e leva em conta aspectos como o preço do gás, a margem de lucro, o custeio e a manutenção da própria empresa. “Não podemos estabelecer uma tarifa assim, de modo próprio”, ressalta.

Todo o negócio do gás em Sergipe passa pela Sergas


O QUE INCIDE
Inclusive, Wellington destaca que a empresa tem um pessoal bem qualificado, que lhe dá uma folha de pagamento razoavelmente alta. “São 65 servidores, que custam R$ 600 mil. Todos são concursados, não temos cargos em comissão e mais de 50% têm nível superior”, justifica.

“Manter esse pessoal qualificado é um custo para a empresa, porque a qualificação pressupõe bom salário. Ou seja, há uma série de componentes que formam a tarifa”, reitera.

Para além dessa construção da precificação, a própria estrutura de Sergipe enquanto revendedor de gás implica numa posição pouco confortável.

“Nos compararam à Bahia (para sustentar a tese de que Sergipe tem os maiores preços), mas a Bahiagás é 20 vezes maior que a Sergás: enquanto faturamos uma média de 260 mil metros cúbicos por dia, a Bahia fatura 3 milhões”, compara.

Seguindo o raciocínio do presidente da Sergás, por vender um volume considerável de gás, a empresa baiana bota o preço que quiser – a menos. “Não é uma comparação justa. Não é padrão”, diz Wellington.

Mas tem um vizinho que é padrão e que produz quantitativamente parecido com a Bahia, e que tem preço maior que Sergipe. “Trata-se de Pernambuco, um centro industrial muito grande, onde o gás é muito utilizado e, no entanto, nosso preço é melhor”, pondera.

Wellington Paixão: as perspectivas são muito boas 


PREÇO QUE ATRAPALHA?
Segundo Wellington, isso depende muito de quanto se compra. E também de onde se compra. “Nos compararam também à Santa Catarina, que é um Estado que não compra gás à Petrobras, e sim à Bolívia, onde é muito mais barato”, destaca.

Outra afirmação negada pelo presidente da Sergás é a de que o preço do gás daqui impossibilita a atração e a retenção de empresas no Estado.

“Do volume de indústrias que fechou nos últimos cinco anos, nenhuma alegou que o fez por causa do preço do gás. Este mês, fechou uma em Estância, uma vidreira, que era um cliente relevante, que comprava 20 mil metros cúbicos por dia. Mas não foi pelo gás, pelo menos não comunicou isso”, comenta.

E continua: “por outro lado, a Maratá, que é a indústria mais proeminente em Sergipe, está aí, estabilizada, firme, trabalhando. Tudo isso com nosso gás. A Ambev, que é a fábrica da Brahma, também. A Mabel está aí há 20 anos. Então, nunca recebemos uma reclamação dessas”, reitera.

“Nunca recebemos uma reclamação da Mabel”,  diz Wellington Paixão

BOAS PERSPECTIVAS
E por falar no gás como gerador de energia, Wellington explica que a implantação da usina termelétrica na Barra dos Coqueiros influenciará o valor do preço praticado.

“É bom para a Sergás estar num Estado que vai ter uma central de energia. E pode ter uma vantagem muito grande, pois poderemos comprar o excedente de gás que vai existir. Assim, a Petrobras vai tirar a faca da nossa garganta e poderemos comprar em outro fornecedor, barateando o produto”, analisa.

Reunião na Sedetec discutiu as tarifas 

PANORAMA INDUSTRIAL
Segundo dados cadastrais da Junta Comercial de Sergipe – Jucese –, atualmente (até a última quarta-feira, dia 12 de julho), o Estado possui 112.997 empresas ativas. “Sendo que, destas, 9.294 são indústrias”, revela Eduardo Garcez, coordenador de Tecnologia da Informação da Jucese.

Alguns desses empresários estiveram reunidos na Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia – Sedetec –, a fim de discutir o preço da tarifa de gás natural praticada em Sergipe e solicitar apoio do Governo do Estado para que o valor seja mais competitivo.

A reunião ocorreu no início deste mês e foi comandada pelo secretário José Augusto Carvalho. Mas, procurado pela equipe de reportagem do JLPolítica, o secretário não respondeu aos questionamentos.

Porém, numa matéria no site da Secretaria, José Augusto afirma que a tarifa cobrada atualmente em Sergipe difere da de Estados da mesma região, como Alagoas e Bahia, e não tem contribuído para a atratividade de novos empreendimentos para o Estado.

“Vamos trabalhar para reverter essa situação, não justifica os empresários sergipanos pagarem pelo gás natural uma diferença maior que 30% dos estados vizinhos, um produto imprescindível para atender a demanda da indústria”, destacou.

Sergas aposta na Fafen como cliente


CENÁRIO TEM QUE MELHORAR
Outro detalhe importante é que para vender os atuais 260 mil metros cúbicos, a Sergás paga uma multa à Petrobras. “Somos cativos da Petrobras. Ela estabelece o que posso tirar de máximo e mínimo, e se eu fugir de um ou outro, eu pago a multa. O mínimo é de 280. Estamos tirando 260. Esses 20 mil metros eu pago multa. Onde vou botar isso? Na tarifa!”, argumenta.

Para Wellington, os meses promissores que a Sergás vivenciará com a venda para a Fafen e com a termoelétrica da Barra mostram que o Governo vem fazendo a parte dele quando o assunto são as políticas de desenvolvimento econômico. “Espero que em janeiro do próximo ano a gente já esteja com outras perspectivas, que o tamanho de negócios seja multiplicado e que crie um ambiente e negócios ainda melhor para o Estado”, diz ele.

Wellington é advogado, ex-prefeito de Aracaju e estava há 30 anos “aposentado” da política. Mas foi puxado por Jackson Barreto há um ano, quando assumiu a Sergás e, ao que parece, não perdeu o tino da gestão da coisa pública.

Ambev é grande compradora de Gás


TERMELÉTRICA
Em entrevista ao Portal, José de Oliveira Júnior, assessor de Política de Desenvolvimento do Governo, falou sobre o projeto da termelétrica, que gerará 1.500 megawatts, o que seria capaz de abastecer 15% da demanda energética de toda a Região Nordeste e que, para isso, usará o gás como matéria-prima.

Ter esse domínio é estratégico”, assegura Oliveira Junior

Segundo Oliveira Júnior, em termos comparativos, a nova termelétrica irá produzir cerca de metade de toda a energia que a hidrelétrica de Xingó é capaz de gerar quando opera com toda a sua capacidade. E o que isso significa? “A possibilidade de Sergipe se consolidar enquanto produtor e exportador de energia e, em segundo lugar, atrair empreendimentos industriais”, resume o assessor.

Mas, para além disso, o novo projeto representa também, e sobretudo, uma garantia, já que, por ser um produto caro e essencial, é fator decisivo para toda uma cadeia produtiva.“
Segundo Oliveira, contratualmente, a usina precisa operar a partir de 2020, mas a previsão é de que esteja concluída já em 2019. “O pico de montagem da infraestrutura de energia ocorre a partir de janeiro”, revela.

Usina precisa operar a partir de 2020


ANÁLISE ECONÔMICA

Rodrigo Rocha, superintendente do Instituto Euvaldo Lodi em Sergipe, supervisor do Centro Internacional de Negócios de Sergipe, coordenador do Núcleo de Informações Econômicas da Federação das Indústrias do Estado de Sergipe, reconhece que a tarifa é uma das mais caras. Mas também admite que ela varia de acordo com o consumo. “Ou seja, quanto maior for essa faixa de consumo, menor será o preço cobrado por metro cúbico”, esclarece Rodrigo.

Rodrigo: Gás é insumo importante e decisivo

Segundo ele, o gás compõe parte significativa do consumo energético do setor industrial e, por isso, o custo elevado desse insumo repercute na estrutura produtiva da indústria e tem efeitos em toda a cadeia produtiva. “O gás é um insumo importante para uma parte significativa da indústria e diante do custo elevado, algumas indústrias acabam levando este fator em consideração na horar de adiar ou até mesmo desistir de realizar determinados investimentos”, analisa.

Ele ressalta que o setor industrial consome aproximadamente 60% do gás distribuído em Sergipe, sendo, portanto, o maior consumidor. Dessa forma, na opinião de Rodrigo, a primeira medida para mudar esse quadro seria que, pelo menos, houvesse uma maior antecedência em relação à informação sobre possíveis mudanças nas tarifas do gás natural, já que a imprevisibilidade do preço de um insumo tão importante, pode desestimular a instalação e/ou ampliação de indústrias.

“Além disso, se faz necessário um maior diálogo entre a Agência Reguladora, a distribuidora de gás e o setor industrial, minimizando a assimetria de informações, promovendo um ambiente previsível e com menos riscos, para que o setor industrial possa estar cada vez mais fortalecido”, pontua. Quem sabe assim, essa palavra crise saia de vez do nosso vocabulário.