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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Que força é esta que vem de junho?

Povo, gestores públicos e classe artística se unem e fazem das festas juninas o maior ciclo de cultura popular e da autoestima de Sergipe. 


Junho é um mês diferente no Nordeste: é o da festa, da fartura, e da tradição. É um apelo cultural e comercial tão intenso em 30 dias que praticamente valem por um ano inteiro - o que justifica toda a expectativa em torno dessa época. Mas não só ela. A relação entre junho e o sergipano vai bem além disso.

Segundo Conceição Vieira, presidente da Fundação de Cultura e Arte Aperipê, o Estado, enquanto ente federativo mesmo, entende a importância dessa época. “É aquilo que tem a nossa cara, a nossa identidade nordestina”, diz Conceição.

De acordo com Conceição, Sergipe tem uma diversidade junina muito grande. “Pelo seu tamanho territorial, não se imagina a quantidade de grupos folclóricos de diferentes atrações, de bandas, de orquestras, quadrilhas, sanfoneiros, etc”, ressalta.

Este ano, inclusive, houve um debate entre o poder público e o empresariado para retomar o bordão de que “Sergipe é o país do forró”, tão bem cantado pelo compositor e entusiasta do forró Rogério, já falecido.

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Junho é a época de maior representatividade para o sergipano
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Conceição Vieira: “esse sentimento está em nosso coração e foi aflorado com a canção de Rogério”

DIVULGAÇÃO

Conceição reforça que se trata de um mês fortíssimo para Sergipe no aspecto cultural e turístico, inclusive, segundo ela, o Estado enviou um casal caracterizado de quadrilheiros para ir dançar, folhetear, divulgando nos shoppings da Bahia as festividades sergipanas.

Além do casal de quadrilheiros, que ensina forró ao público, o Estado também divulgou as comidas típicas e a música. “Temos uma cultura muito diversificada e precisamos estendê-la aos Estados vizinhos, porque sabemos que somos um polo rico de cultura, que os influencia”, diz Conceição Vieira.

Para ela, essas ações atraem turistas - o principal polo emissor de turista para Sergipe é a própria Região Nordeste - e geram emprego. “A construção dessa festa envolve muitos segmentos”, afirma. Esse ano, segundo Conceição, a festa está - ainda não acabou - mais autêntica, com artistas sergipanos, atendendo a um pedido do próprio governador Belivaldo Chagas. “Uma boa festa para o povo de Sergipe e para quem nos visita”, resume.

EVENTOS

Este ano, a Fundação ficou responsável pelo Encontro Nordestino de Cultura, que está sendo constituído de um Fórum Nacional, que ocorreu durante dois dias e teve a figura de Jackson do Pandeiro como objeto de estudo. 

Jackson completou 100 anos agora em 2019 e teve sua vida e sua obra debatida no Fórum por músicos, biógrafos, jornalistas e familiares. Depois do Fórum Nacional, o Estado promoveu uma prévia de São João no Bairro 18 do Forte.

“Uma parceria que compreendeu o Governo do Estado na execução e na gestão do evento, mas também a Plamed e o Ministério do Turismo, que viabilizou os recursos principais, como parceiros. Foi um projeto a várias mãos”, destaca a presidente da Fundação Aperipê.

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Turismo é potencializado com o período junino

ARRAIÁS

Já na última segunda, 17, no Centro de Criatividade, houve o concurso de quadrilha do Arraiá do Arranca Unha, que já é tradição. “No dia 20, começaram o concurso de quadrilhas do Gonzagão e também o Arraiá do Povo, na Orla, de forma mais suave, por causa (da falta) dos recursos”, revela.

O Arraiá do Povo também homenageia Jackson do Pandeiro, assim como a cantora Clemilda, a quem tem um espaço dedicado. A festa na Orla vai até o dia 30 desse mês. Conceição reconhece que há uma certa cobrança pela realização das festas, seja de associações de bairros ou até de Prefeituras com menos recursos.

Mas considera que essas festas são naturais. “A forma que vimos de dar uma resposta a tantas solicitações é realizando uma festa democrática e transparente, com todos os esforços no sentido de oferecer os melhores arraiás do Estado, mas tendo em mente que não temos recursos para permear por todos os pedidos”, reitera.

TURISMO

Todas essas festas e eventos atraem milhares de turistas por si sós, mas a Secretaria de Estado do Turismo acredita na importância de ações de promoção do destino Sergipe voltado ao fortalecimento da cadeia turística local e, por isso, realiza o evento “Venha Sentir Sergipe - O país do forró”, no período de 22 a 26 de maio, em Salvador.

“O intuito foi o de atrair mais turistas durante os festejos juninos e para que estes possam explorar os atrativos da região. Atrelado a este trabalho, estão ainda programadas para o ano de 2019 outras novas ações promocionais, incluindo mídias digitais, publicidade e eventos de alcance nacional”, afirma o secretário Manelito Franco Neto.

De acordo com Manelito, o São João é o Natal de todo o Nordeste. E o período de alta estação, de dezembro a fevereiro e de junho a julho, movimenta de forma considerável toda a cadeia turística. “A expectativa é de uma média de 90% de ocupação de 20 a 25 de junho”, comemora Manelito Franco.

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Manelito Franco: “expectativa é de uma média de 90% de ocupação hoteleira no São João”

CAPITAL

Em Aracaju, segundo Cássio Murilo, presidente da Funcaju, nessa edição de 2019, a festa será reestruturada. “Como o prefeito Edvaldo Nogueira explicou, além do já tradicional Polo Luiz Gonzaga, localizado na Praça Hilton Lopes, há uma novidade: o Arraial da Clemilda, onde teremos o palco com apresentações de quadrilhas, trios pé-de-serra, e outros grupos da cultura popular ligados ao ciclo junino: o Samba de Coco do Mosqueiro, o Pisa Pólvora, e as Caceteiras de Hindu”, revela Cássio Murilo.

Segundo Cássio Murilo, o Forró Caju é uma referência quando se fala em São João. A festa começou neste domingo, 23, segue até o dia 24 e depois será retomada nos dias 28 e 29 de junho. “Graças a interveniência do deputado federal Fábio Mitidieri, a Prefeitura realizou um convênio com o Ministério do Turismo, que ajudou na realização da edição 2019 do Forró Caju”, reconhece.

Para Cássio Murilo, a Prefeitura entende a importância desse evento para a cidade. “O Forró Caju ganhou essa expressão nacional nos governos de Edvaldo Nogueira. Nesta atual gestão, o Forró Caju entrou como um projeto prioritário do Planejamento Estratégico da Prefeitura de Aracaju. Mesmo diante do atual cenário econômico, a gestão tem o entendimento da importância da cultura como vetor de desenvolvimento socioeconômico da cidade”, assegura Cássio.

IDENTIDADE

O gestor da Funcaju também ressalta que a administração do município entende que, do ponto de vista simbólico, além de celebração mais importante, também ajuda a consolidar a identidade aracajuana. Cássio Murilo explica que essa tradição cultural junina vem da ocupação europeia no Brasil e que a ela se juntam elementos das culturas de matriz africana e dos povos originários.

“Em Sergipe, a tradição de festas nas ruas se perde no tempo. Em seu formato contemporâneo, o Forró Caju é criado em 1993 e já nasce com a perspectiva de valorização da expressão simbólica da nossa cultura e dos costumes. Como já disse antes, o Forró Caju é um dos projetos prioritários do planejamento estratégico da gestão”, garante.

E ele continua: “o Forró Caju é entendido como celebração da nossa mais profunda identidade, porque celebramos a nossa música, a nossa dança, a nossa sensibilidade, através do que comemos, vestimos, cheiramos. Em última instância, celebra a nossa autoestima”.

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Se Sergipe é o país, Aracaju é a capital do forró

FESTAS

Cássio Murilo admite que, por causa dessa tradição, as pessoas cobram muito a realização de festas nesse período. “Cobram, e com toda razão”, diz Cássio. Isso porque, para ele, o Forró Caju já demonstrou sua importância para a cultura nordestina e se inseriu entre as principais festas do país. “Desde a sua retomada, no ano passado, criamos uma festa que dialoga com as nossas tradições, com a cultura popular e com a alma nordestina”, reitera.

Segundo Cássio, uma gestão democrática não se sente prejudicada pela cobrança, mas estimulada a melhorar cada dia o seu trabalho. Por outro lado, o presidente da Funcaju reconhece que essa é uma festa que motiva as cadeias produtivas direta e indiretamente, gerando emprego, renda e inclusão produtiva.

“Para que o evento aconteça de forma organizada, a Prefeitura de Aracaju, através das secretarias municipais, não tem medido esforços para oferecer todo o respaldo necessário e garantir a realização de um dos festejos mais aguardados pela população local e turistas. O trabalho conjunto das secretarias é de suma importância para que o Forró Caju 2019 seja um sucesso e contribua para manter viva a tradição junina da capital”, ressalta.

INVESTIMENTOS

E se Sergipe é, de fato, o país do forró e Aracaju é a capital do forró, o deputado federal Fábio Mitidieri, PSD, é, este ano, o padrinho do forró. Ele foi o parlamentar que viabilizou os recursos para muitos dos festejos juninos sergipanos, especialmente os de Aracaju.

“De minha parte, foram R$ 500 mil, através de emenda, mais R$ 400 mil extra pelo Ministério do Turismo”, contabiliza Fábio Mitidieri. No total, ele destinou quase R$ 1 milhão para os festejos. “O Forró Caju faz parte da nossa tradição, da nossa cultura. Sempre digo em Brasília que a busca é por recursos para Saúde e Educação, mas eu nunca esqueci da Cultura, porque entendo que a sociedade precisa tê-la bem preservada”, justifica o parlamentar.

E Fábio certamente levou a sério essa preservação. “Para garantir que as festas fossem bem estruturadas, destinei, somente em 2019, R$ 2 milhões em emendas individuais minhas, que beneficiaram cinco municípios: Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora de Lourdes, Itabi, Feira Nova e Rosário do Catete”, ressalta.

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Cássio Murilo: “a gestão tem o entendimento da importância da cultura como vetor de desenvolvimento socioeconômico da cidade”

PROPORCIONAL

Para Fábio, o investimento é proporcional à relevância que a época e os festejos têm para o Estado. “Sergipe é um Estado pequeno em tamanho, mas gigante quando falamos em cultura. E as festas juninas ressaltam exatamente isso: a tradição nordestina. Seja em danças, comida, ou músicas, todo o jeito de ser do sertanejo é exaltado nesta época. Então, nada mais justo do que incentivar essas comemorações do orgulho nordestino”, analisa.

Por tudo isso, Fábio se diz feliz com a parceria. “Fico feliz de ter colaborado, com o nosso trabalho em Brasília, para a captação de recursos e emendas, e para que isso pudesse ser uma realidade hoje. Os festejos juninos costumam agitar Sergipe com as variadas opções e é ótimo para o Estado, por ressaltar a cultura local e ainda aquecer a economia, com o turismo”, diz ele.

Para além das emendas, Fábio Mitidieri apresentou, em Brasília, o PL 943/2019, que é uma proposta para tornar lei o reconhecimento das festas juninas como uma manifestação nacional. Aprovado semana passada na Comissão de Cultura, o projeto agora segue para a Comissão de Constituição e Justiça – CCJ – da Câmara. Caso seja aprovado, o PL dará ainda mais força a esse junho que tanta força sinaliza para o Nordeste.

São João no interior


Embora seja o maior “palco” junino do Estado, Aracaju não é a única entre as 75 cidades de Sergipe que realizam os festejos. Aliás, muitas do interior têm tanta tradição nessa época quanto a capital.

Estância, por exemplo, realiza tradicionalmente a Salva de São João, que abre os 30 dias de festa da “Capital Brasileira do Barco de Fogo”. Lagarto também tem festejos tradicionais, que, este ano, foram unificados.

A Prefeitura uniu o Festival da Mandioca e as festas de São João e de São Pedro, com o objetivo de movimentar ainda mais a economia neste período de crise, com o aumento das vendas no comércio e na prestação de serviços. 

Na programação, a valorização da cultura lagartense com shows de artistas locais, regionais e nacionais. Em Socorro, a tradição é o Forró Siri, que contempla o São Pedro, já no finalzinho do mês.

O prefeito do município, Padre Inaldo Luis da Silva, recebeu a imprensa e convidados num café da manhã no Centro Administrativo para divulgar a programação. A festa por lá ocorre nos dias 28 e 29 e conta com atrações locais e nacionais.

O município de Capela também tem um forte apelo festivo nessa época. A “Festa do Mastro”, em alusão a São Pedro, ocorre no fim do mês e reúne milhares de turistas. Este ano, a festa comemora 80 anos e segue a tradição de se reinventar a cada edição, mas sempre mantendo o apelo popular.

Em Tobias Barreto, a festa foi chamada de “São João da Alegria” e teve uma programação diversa e também itinerante, com shows em povoados e bairros diferentes no decorrer dos dias.

Areia Branca, como sempre, abriu os festejos, e recebeu milhares de pessoas ainda em maio, mostrando que, por aqui, São João não tem dia. 

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Fábio Mitidieri: emendas dele foram responsáveis por muitas festas juninas esse ano