Interviewer 9e83481dd7efcf8e

Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

Compartilhar
Newspapper report 263fcfb46af126d0

Renovar política exige mudança de candidatos e eleitores

E o novo nem sempre implica negação aos nomes tradicionais. O que estão em jogo são as ideias e as práticas diferenciadas

Da última quarta-feira, 1º de agosto, até este domingo, 5, foram realizadas as convenções partidárias, como determina a legislação eleitoral. Todas as siglas apresentaram seus quadros para a disputa deste ano. Em Sergipe, são dezenas de candidatos a deputado estadual, federal, senador e governador.

Entre os nomes já consagrados na política, há alguns novos, recém-lançados e até pouco conhecidos no segmento. Características que podem ser decisivas para a vitória no pleito. Ou não, isso porque, enquanto muitos eleitores defendem a renovação dos nomes que são postos no jogo eleitoral, outros preferem continuar votando em quem já conhecem.

É o que mostra uma pesquisa do Instituto Ipsos divulgada esta semana. De acordo com os dados dela, metade dos brasileiros (50%) prefere que o próximo presidente do país seja político há muitos anos. Em dezembro de 2017, quando outro levantamento semelhante foi feito, esse índice era de 39%. Na época, a maioria dos entrevistados (52%) preferia um nome novo.
Nota:  a foto de abertura tem caráter ilustrativo. Clicando aqui, você confere o site e a matéria de onde ela foi extraida

6f5c500effb21b10
Professor Marcelo Ennes defende renovação em dois níveis: o dos candidatos e dos eleitores
Newspapper report internal image 56ad157fc8282bb6
Milton Andrade se considera o “realmente novo” para Sergipe entre seus opositores diretos

DICOTOMIA

É desejado pela maioria dos entrevistados (55%) que o novo presidente tenha capacidade de combater a corrupção, enquanto 43% preferem alguém que tenha capacidade de gerar mais empregos. As opiniões estão divididas entre ter um político de partido tradicional na Presidência (preferência de 48%) ou ter um político de um partido novo (44%).

É uma eterna dicotomia entre o novo e o experiente, que, pelo menos até aqui, tem feito com que a renovação política, tão defendida e propagada, permaneça apenas e tão somente nos discursos tanto de eleitores quanto de candidatos, que acabam se perpetuando no poder.

Por aqui, você certamente já ouviu falar nos Alves, Franco, Sobral, Reis, Ribeiro, Mitidieri e, provavelmente, já até votou em alguns deles também. São nomes e sobrenomes que dominam os espaços de poder no Estado geração após geração (Confira no boxe a linhagem política).

CONFIGURAÇÃO ATUAL

Em todo o Estado, o PMDB, presidido por João Augusto Gama, ex-prefeito de Aracaju e atual secretário de Estado da Cultura, administra 15 cidades, seguido pelo PSC, com 12; PSB, com 11; DEM, com 6; PSDB e PSD, com 5 cada; PR, com 4; SD, PRB e PT, com 3; PTN, PDT e PCdoB, com 2, e PTdoB e PTC, com apenas uma cidade.

Por trás de cada uma dessas siglas, há um nome - um dono ou um cacique, pois, nesse caso, a nomenclatura não altera a função. E também há os herdeiros, os filhos/filhas, genros, sobrinhos dos caciques. Muitos deles, senão todos, mesmo já tendo o sobrenome há décadas em mandatos, têm seus slogans de campanha baseados em verbetes ligados à renovação, como “a mudança” e “o novo”.

Eles são relativamente jovens, defendem o mesmo partido e os mesmos ideais de seus impulsionadores políticos, mas se autointitulam diferentes, renovadores. É possível?  Para Marcelo Ennes, doutor em Sociologia e professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação de Sociologia da UFS, talvez.

RESGATE À CONFIANÇA

Para Marcelo Ennes, a renovação é mais do que necessária e deve ser pensada em, pelo menos, dois níveis: o da política partidária e o da política cidadã. “É preciso mudar em nível de eleições, de nossos representantes, já que o país vive uma profunda crise de legitimidade, de credibilidade; e também de sociedade civil. Não podemos querer eleger pessoas diferentes se somos os mesmos”, analisa o professor.

Ele acredita que, com uma renovação efetiva, a classe política poderia resgatar a confiança da população. “Obviamente que não estamos falando apenas de renovação de pessoas, de nomes, mas principalmente de ideias, propostas e de práticas políticas por parte dos nossos representantes, para que assim eles contribuam para esse resgate da representatividade”, afirma.

Marcelo não credita essa renovação única e exclusivamente ao aspecto etário. Mas entende que ela passa, sim, pelo questionamento da juventude. “Obviamente que essa não é uma tarefa só deles, mas é desolador ver os jovens sem criticidade, que não contestem essa desordem política em que a gente vive. É necessário que eles entrem nesse jogo político tão desgastado e nocivo”, avalia.

MOVIMENTO PROFUNDO

Para Marcelo Ennes, o momento também exige uma renovação de ideias, de valores e de práticas e, por isso, não deve se ater apenas a novos nomes ou pessoas. “Não adianta trocar o A pelo B se B vai fazer o mesmo. É muito mais profundo”, reforça. Mas ele admite que a perpetuação dos mesmos nomes nos espaços de poder prejudica essa renovação.

“Esses caciques, quando optam por deixar a cena política, vão para os bastidores e colocam parentes: esposa, filhos, irmãos. É claro que isso não tem nada a ver com renovação, e o eleitor precisa ficar atento”, orienta Marcelo Ennes. Ele completa: “não é porque é uma outra pessoa que está havendo renovação política de fato”.

Pelo contrário. “Pode ser um mecanismo poderoso de perpetuação das velhas práticas. Velhas e negativas, maléficas do ponto de vista da gestão pública, das garantias dos direitos”, acrescenta Ennes. Por isso, o professor sugere que um dos critérios que devem ser analisados na escolha do candidato é o da ancestralidade. Ou seja, verificar se esse candidato pertence a uma família que está há muito tempo no poder.

4afe85ef14270415
Eduardo Amorim: apelo ao que é certo mais do que ao que é novo

DISCERNIMENTO

Além de atenção, o professor também sugere discernimento ao eleitorado na hora de decidir, porque, na visão dele, não se trata apenas de escolher entre o velho e o novo, o experiente e o estreante. “Acho que a questão não é apenas experiência”, adverte.

“Deve se pensar na experiência e no desempenho dos políticos que já tiveram mandatos. Não é simplesmente votar por ser novo e não votar por ser velho. Isso esconde armadilhas”, ressalta. Isso porque, para Ennes, é possível encontrar bons políticos que já estão na Assembleia ou no Congresso, por exemplo.

E, na opinião do professor, eles merecem continuar. “Se foram coerentes, dignos, podem ser reeleitos. Não há nada que impeça isso. Essa lógica de tudo que é velho é ruim e o que é novo é bom é uma lógica perigosa. A questão fundamental é nossa capacidade de discernimento, de compreensão, de análise do que consideramos ser políticos bons e ruins”, pondera.

PROPOSTAS X NOMES

Um dos estreantes na disputa eleitoral é o advogado e empresário do setor de comércio Milton Andrade, PMN, 30 anos. Em entrevista ao JLPolítica, ele diz que resolveu se candidatar por dois motivos: insatisfação com o cenário de Sergipe, líder em índices negativos - como o pior Ideb, o Estado mais violento e o pior Estado para empreender - e também pela certeza de poder contribuir com a melhoria dessa realidade.

Milton se considera o “realmente novo” para Sergipe e diz que, dos seus adversários diretos – leia-se os demais candidatos a governador Belivaldo Chagas, PSD; Eduardo Amorim, PSDB; e Valadares Filho, PSB. “Na verdade, eles não têm compromisso com o povo, com o serviço público, apenas em se manter no poder. Eles têm apego ao poder”, acusa Milton.

Segundo ele, em nome desse apego, os demais candidatos adotam o discurso que o povo quer ouvir – esse da mudança, por exemplo –, e acabam fazendo velhos conchavos, a fim de terem mais tempo de propaganda na TV, mais fundo partidário, tudo através de alianças políticas, mas depois vem a conta, o fatiamento das secretarias, que é o oposto da gestão técnica.

PROPOSTAS DE MUDANÇA

Especialista em recuperar empresas em dificuldade financeira, ele tem propostas para mudar Sergipe e parte desse princípio. “São propostas viáveis, dentro de uma realidade, exequíveis, para tirar Sergipe do buraco. E não temos rabo preso com grupo nenhum para não poder colocá-las em prática”, avisa.

Isso porque, segundo Milton, uma das principais medidas num futuro governo seu seria a redução no número de Secretarias. De 22 atualmente, elas passariam a ser apenas oito. “É um número mais do que suficiente para manter a administração”, garante o candidato do PMN, que também reduziria custos com cargos comissionados, carros e viagens.

Por falar em cargos comissionados, Milton Andrade assegura que adotaria a implementação da meritocracia em uma futura gestão, afastando critérios políticos e tendo predileção pelos critérios objetivos para a escolha de superintendentes, diretores, etc. “Sem priorizar quem votou em mim. Seriam nomeações técnicas para cargos técnicos, afastando a interferência política”, explica, usando como exemplo o que não aconteceu na Secretaria de Estado do Turismo, que, em quatro anos, teve quatro secretários. Nenhum deles técnico.

NOVO NÃO, CERTO

Quem também levanta a bandeira da mudança é Eduardo Amorim, PSDB. Mas ele garante que não o faz pela simples ideia de mudar os nomes e os gestores, e sim porque é necessário. “Eu não quero fazer o novo, quero fazer o que é o certo, que é o zelo, a probidade, o respeito que a coisa pública deve ter. Mas isso se tornou novo por não ser feito”, diz Eduardo Amorim.

Para ele, o fato de optar pelo certo faz com que ele saia à frente dos demais. “Se eu saio na frente? Veja a história, os exemplos. Agora mesmo estou falando do meu celular próprio e não no do Senado, estou no meu carro particular e não no do Senado. O que é público, é público. Merece respeito”, reforça.

Para Amorim, nenhum dos seus dois principais adversários, Belivaldo e Valadares Filho, podem ser classificados como “o novo”. “O governo que está aí não pode falar em renovação. Esse afundou Sergipe. É a continuidade”, diz, referindo-se a Belivaldo, a quem ele classifica como aluno das escolas de Jackson e Antônio Carlos Valadares.

D835698f8892a413
Belivaldo Chagas: renovação está na forma de governar

ESCOLAS DE BELIVALDO

“JB hoje significa Jackson Belivaldo e não Barreto (tamanha a junção). Jackson é o primeiro, o governador de fato, e Belivaldo o de direito. Mas Belivado também veio da escola de Valadares, onde fez o fundamental. A graduação foi com Jackson”, alfineta. E qual o conceito dessa formação acadêmica de Chagas, então?

“O conceito é a realidade que está aí nos últimos anos, quando ele se tornou o B (de JB), com cirurgia cardíaca parada por dois meses, pessoas morrendo, licitação emergencial de R$ 17,4 milhões para prestar serviços por seis meses, sendo que com esse dinheiro dava para operar todos os 300 pacientes. Ou seja, a escola não é boa. JB - de Belivaldo - é um estelionato eleitoral”, acusa Eduardo Amorim.

Em sua defesa, o governador Belivaldo Chagas, PSD, também em entrevista ao JLPolítica, diz que não vê desvantagem no fato de ser a continuidade de um Governo – do qual ele era vice. Pelo contrário. “Em hora nenhuma. Renovação diz respeito à forma que cada gestor administra a máquina pública, priorizando algumas coisas, por exemplo”, assegura Belivaldo Chagas.

AÇÕES REAIS

E exemplifica: “nós tínhamos uma folha de pagamento que estava com quatro meses de atraso e eu já consegui reduzir esse tempo. Hoje, 70%, ou 44 mil servidores, recebem dentro do mês. Isso é obrigação, mas cada um entende o que é prioridade de forma diferente”, analisa.

Questionado sobre o porquê de ter adotado o slogan “já está diferente”, Belivaldo diz que foi exatamente por essas conquistas de seus exatos quatro meses de agosto - ele assumiu em 7 de abril. “Trago uma maneira nova, a minha maneira, de governar”, resume. E a maneira BC de governar, segundo ele, é saindo do ar condicionado do gabinete e indo lá na ponta verificar as demandas, como, aliás, fez com o trágico Centro de Nefrologia, inaugurado só no faz de conta pelo então secretário Almeida Lima.

“É uma gestão moderna administrativamente, sanando as medidas reais, o fluxo de caixa, praticamente zerando o “corredor da catástrofe” do Huse, onde já estive quatro vezes desde que assumi. Então, a prova dessa mudança eu já estou dando”, garante Belivaldo. 

“PIOR GOVERNO”

Para Valadares Filho, PSB, nada disso parece convergir com a realidade. “Alguns dos candidatos ao Governo podem sim representar uma nova geração, uma nova concepção política, mas Belivaldo não. Em nenhum momento ele representa a renovação política. Ele representa o continuísmo do pior governo da história de Sergipe, a página mais triste da administração pública do nosso Estado. Então ele nem de longe representa algum tipo de renovação”, atesta Valadares Filho.

Do agora adversário Eduardo Amorim, Valadares Filho tem uma visão mais branda. Mas também não o considera uma opção de mudança para o Estado. “Eduardo, apesar de eu ter muito respeito pessoal por ele, não pode falar em renovação política, em um novo momento político, já que tem, entre suas companhias, pessoas que praticam os mesmos hábitos da velha política e que levaram o país a ter hoje uma descrença muito grande com a classe política”, opina VF.

E completa, deixando mais evidente de quem está falando: “temos o governo mais corrupto da história do Brasil e o que rasgou conquistas sociais do trabalhador. Um Governo verdadeiramente atolado em corrupção. E quando você não consegue se distanciar dessa política arcaica, atrasada, você não consegue representar esse sentimento de renovação”.

SOBRENOME FORTE

Mas na visão dele, ter um sobrenome encrustado há tantos anos na política, primeiro com o pai, o senador Valadares, e agora com ele mesmo, que já vai terceiro mandato de federal, não desabona em nada o seu discurso de mudança.

“Pelo contrário. Tenho a credibilidade de um nome muito respeitado na política, ao mesmo tempo em que venho, naturalmente, liderando e participando de uma geração que vem com conceitos diferenciados. E que podem levar esse bom exemplo, mas dentro de uma nova concepção”, ressalta.

Além disso, Valadares Filho garante que traz, em sua trajetória e característica política, os novos valores, as novas ideias, a conduta ética e que procura sempre atuar democraticamente, em sintonia com a sociedade, com a mudança de hábitos tradicionais que fizeram muito mal à política durante décadas. “Creio que todas essas características inclusive norteiam essa nossa candidatura ao Governo do Estado”, pontua.  

90aa944fea9ea00d
Valadares Filho: garante trazer novos valores à política

PESSOAS COMUNS

No campo do Senado, dos principais candidatos, a maioria é figurinha repetida na política: Rogério Carvalho, PT; Jackson Barreto, MDB; André Moura, PSC; Antônio Carlos Valadares, PSB; e Sônia Meire – que já disputou o Governo do Estado, a Prefeitura de Aracaju, mas não venceu nenhuma. Estreantes mesmo, só Henri Clay, PPL, e Alessandro Vieira, Rede.

Alessandro, aliás, defende a força dos cidadãos frente ao que ele classifica de a velha política e menciona que será o poder dos cidadãos que fará a diferença nesse pleito eleitoral em detrimento das práticas e forças tradicionais da política.

“Essa caminhada pela política partidária, que é nova para mim, vem mostrando sucessivos desafios e sucessivas oportunidades de crescimento. Sinaliza uma inovação em termos de propostas, com todos os candidatos ficha-limpa e comprometidos com a mudança”, afirma Alessandro Vieira.

Ele acredita que essa mudança depende muito do envolvimento e do interesse de pessoas comuns, as quais ele vê como “mais importantes que as autoridades”. “Essas pessoas são mais importantes do que os partidos também. São as pessoas comuns, cada um de nós que pagamos nossas contas, que trabalhamos, que nos esforçamos e que queremos o melhor para nossos filhos. É o cidadão comum que pode fazer a diferença no Brasil”, ressalta.

PARTIDOS

Esse suposto consenso de que é preciso renovar a política, obviamente, também passa pelos partidos. O advogado Herbert Pimenta, 24 anos, é um dos dirigentes do PSDB Jovem e diz que há espaço para a juventude e para as novas ideias na sigla. “A renovação política é necessária, não tem como ser contrário a ela. A sociedade deseja ver novos nomes disputando e assumindo os cargos políticos”, acredita.

De acordo com Herbert, isso ocorre porque a população está saturada de sempre ver os mesmos nomes e sobrenomes comandando a política sergipana e a brasileira. “É importante que novos nomes surjam e que apareçam pessoas da sociedade e que não tenham vivido exclusivamente da política. É fundamental uma oxigenação na máquina pública, novos gestores com modelos administrativos mais eficientes. É preciso fazer gestão, e tem uma galera jovem muito boa que está se preparando para isso”, assegura.

Essa galera é acolhida pelo PSDB, que, segundo Herbert, “acredita fielmente na renovação política”. “Tanto é assim que o partido aposta acertadamente no seu segmento jovem – a JPSDB. Além disso, vale destacar as candidaturas jovens que teremos dentro do agrupamento, como o pré-candidato do PSDB para deputado federal, Adriano Cabral, e João Marcelo, pré-candidato a deputado estadual. Ambos são jovens e com reais chances de se eleger. Isso vem acontecendo de forma natural”, destaca.

Dd078561e2a9450d
Alessandro Vieira: pessoas comuns são importantes na política

MAIS JOVENS

Herbert aponta que, nesta eleição, a expectativa de eleger mais jovens é grande. “Acredito que teremos uma renovação entre 30 a 40% tanto na Assembleia Legislativa quanto no Congresso Nacional”, estima. Para isso, o partido tem ações específicas. “Com a chegada de Eduardo Amorim para presidir o PSDB em Sergipe, o secretariado da Juventude foi criado. É uma determinação dele que criemos uma militância engajada no crescimento do partido e na discussão política do nosso Estado. Vamos discutir internamente políticas públicas para a Juventude e nos inserirmos em áreas como Saúde, Segurança Pública e Educação”, revela Pimenta.

Mas, na opinião de Herbert, nem todas as agremiações partidárias adotam essa postura. “Para alguns grupos políticos, a renovação só acontecerá com uma imposição da sociedade, ou seja – com a derrota nas urnas. Porque a gente sabe que nem todo partido tem interesse nesta renovação, infelizmente. Não podemos admitir que as pessoas façam da política suas carreiras. A renovação deve ser constante”, destaca.

Para Pimenta, o povo, além de preparado, está ansioso por essa renovação. “Disto, não tenho dúvidas. O país atravessa uma crise ética sem precedentes e isso fez com que as pessoas reflitam sobre o poder do voto. Teremos eleitores mais críticos e dispostos a algo que faça com que mudemos a realidade que passamos hoje em Sergipe e no Brasil”, espera.

NÃO É SÓ IDADE

Vitor Déda, bacharel em Direito, 30 anos, dirigente do Partidos dos Trabalhadores em Sergipe, frisa que quando se fala em renovação, não se deve considerar apenas o fator idade. “Vejo que a renovação tem que ser nas ideias e no modo de gerir o erário. É necessário que essa mudança venha para, só assim, a sociedade voltar a ter confiança no político”, ressalta Vitor Déda.

Ele confirma o fato de o tema ser tratado e trabalhado de formas diferentes. “Tem partidos em que a renovação já é algo de raiz, ou seja, já é a política do próprio partido, natural. Já outros, só fazem a renovação quando visualizam que é algo improrrogável para a continuidade do partido, ou seja, uma imposição mesmo”, avalia. O PT estaria nos quadros do primeiro grupo.

“Nós incentivamos essa participação com cursos de formação e colocando os jovens para ocupar espaços de relevância no partido”, revela. Mas Vitor admite que ainda há entraves para que a renovação política de fato aconteça. “O principal deles é a confiança. Tanto por parte dos partidos, em dar condições e espaço para que o jovem possa se candidatar a cargos de expressão, quanto em ter jovens ocupando secretarias de gestão”, reconhece.  

Com essa ocupação, o caminho para a renovação estaria meio andado. Mas a outra metade do trajeto, para o professor Marcelo Ennes, compete aos eleitores. São eles os responsáveis por garantir que renovando os quadros haveria um cenário melhor.

“A garantia vem de nossa capacidade de escolha, de nossa coerência não só para votar, mas para, após a eleição, ter efetivamente participação política. A garantia está no nosso comprometimento com o país e não simplesmente no ato de votar num novo nome”, assegura.  

8883a146c334ecb3
Herbert Pimenta: PSDB quer ampliar quadro jovem

Novos velhos x Velhos novos

Alguns nomes já bastante conhecidos na política sergipana parecem andar na contramão dessa renovação. Os Reis, de Lagarto, já passaram pelo avô, dois filhos, dois netos e, na última eleição, tentaram emplacar o bisneto. Tudo começou com Arthur Reis, que foi prefeito do município e deputado estadual. A linhagem política seguiu com Jerônimo Reis, filho dele, que também foi eleito vice-prefeito, prefeito de Lagarto e deputado estadual e federal.

Mais recentemente, Sérgio e Fábio, filhos de Jerônimo e netos de Arthur, foram os responsáveis por manter o sobrenome da família aceso na urna eletrônica. O primeiro foi deputado federal, mandato ocupado hoje por Fábio pela segunda vez – na tentativa de um terceiro. Jerônimo Neto foi candidato a prefeito de Lagarto no ano passado, no lugar do avô, impedido por questões judiciais. Sem falar em Goretti Reis, irmã de Jerônimo, que é deputada estadual.

Também em Lagarto, o atual prefeito, Valmir Monteiro, já tem no filho um sucessor. Ibraim Monteiro é vereador, presidente da Câmara do município e candidato a deputado estadual. Ali, tem ainda o deputado estadual de dois mandatos Gustinho Ribeiro, candidato a deputado federal. É neto do ex-prefeito e do ex-deputado estadual de diversos mandatos Rozendo Ribeiro, além de sobrinho de José Raimundo Ribeiro, o Cabo Zé, identicamente ex-prefeito e ex-deputado estadual.

Já em Itabaiana, o sobrenome que predomina é o Mendonça, que começou com Francisco Teles de Mendonça, o Chico de Miguel, pai, e os José Teles de Mendonça, ex-deputados estadual e federal. Chico de Miguel é pai, ainda, de Maria Mendonça, que hoje é deputada estadual. A irmã dela, Carminha Mendonça, é a vice-prefeita da cidade. O prefeito Valmir de Francisquinho lançou o filho Talysson Costa a deputado estadual.

Em Itaporanga D’Ajuda, quem dá as cartas são os Sobral Garcez. Antônio Francisco Sobral Garcez, hoje morto, fez Gracinha, a filha, prefeita, e de Júnior, o filho, vereador. O caso dos Franco, com Augusto Franco, é sobejo: numa única eleição, a de 1982, eles elegeram um senador - Albano - um federal – Augusto, o pai - e um estadual - Walter. No passado, Walter Franco, irmão de Augusto, também foi senador.

Os Franco deram, ainda, Antônio Carlos Franco como deputado federal e prefeito de Laranjeiras e o filho dele, Marcos Franco, como estadual, tendo sido o mais votado na década de 90. Já Ulices Andrade deixou a política em 2010, passando o mandato para o filho, Jeferson Andrade, que vai no exercício do segundo mandato de deputado.

Os Mitidieri, com Fábio, o filho, federal, e o pai, Luiz, estadual, também fizeram história. Atualmente, com a provável aposentadoria de Luiz, a filha, Maísa, está em campanha para sucedê-lo. Angélica Guimarães deixou a política depois de cinco mandatos de estadual, botou o marido, Vanderbal Marinho, em cena e ele já fala em reeleição no ano que vem.

Carlos Magno era prefeito de Estância e tinha um filho, Tito Magno, vereador. Antes, numa outra vez, foi deputado estadual e a mulher, Deise Garcia, virou prefeita. Em Malhador, Elayne de Dedé herdou a Prefeitura do pai, Dedé do Inhame, que foi prefeito por diversas vezes.

A família Alves, de João Alves Filho e Maria do Carmo, ex-governador e senadora, não parece se bastar nestes dois vínculos. Ana Maria Alves, filha do casal, andou se articulando para ser candidata a deputada federal. O deputado estadual Georgeo Passos também se elegeu com a força do nome. O pai dele, Antônio Passos, hoje é prefeito de Ribeirópolis e também já passou pela Assembleia Legislativa, onde seu pai, Chico Passos obteve cinco mandatos.

André Moura, ex-prefeito de Pirambu e atual deputado federal e candidato a senador, tratou de colocar a esposa, Lara Moura, prefeita de Japaratuba, na política, cujo espaço ele herdou do pai, Reinaldo Moura. O próprio governador Jackson Barreto, que, não tendo filhos, tentou eleger deputado estadual o irmão, Jugurta Barreto, de quem sempre foi muito próximo. Pelo menos para ele, não deu. 

F446c77df190b343
Vitor Deda: alguns partidos só se renovam impositivamente