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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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São João atípico mexe com autoestima e economia sergipanas

Período mais esperado pelos nordestinos deixará lacunas culturais e financeiras que poderão ser sentidas por muito tempo

Quem é nordestino sabe a importância que o ciclo junino tem. É, sem dúvida, o período mais esperado e mais próspero, cultural e economicamente falando. As festas movimentam o setor artístico, o comércio, a culinária e ainda mexem com o imaginário popular. 

“É um período muito rico para nós”, resume a professora e pesquisadora Aglaé Fontes. Mas, esse ano, o São João será atípico. Não terá quadrilha, festa de rua, shows artísticos. Não terá aglomeração e o calor humano que ela emana. 

Toda essa mudança, para Aglaé Fontes, obviamente trará impactos. “Claro que vai. E há dois tipos de prejuízo nesse São João atípico, que ninguém passou até agora: o cultural e o econômico”, analisa Aglaé Fontes.

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Este ano, São João ficará apenas no imaginário de cada nordestino
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Festa em casa deve respeitar medidas sanitárias de controle do coronavírus

PRODUTOS TÍPICOS 
Aglaé diz que até a produção das comidas típicas está sendo prejudicada. “Onde encontrar as comidas tradicionais do ciclo junino? Feitas com o milho do qual tantas famílias sobrevivem?”, questiona. 

“Mesmo que essas comidas possam ser encomendadas, o volume econômico de recursos não é a mesma coisa, porque a festa em si é provocativa. Claro que há uma perda muito grande. O mercado já foi prejudicado”, reitera.

ESTADO
Acostumado a realizar o tradicional “Arraiá do Povo”, na Orla da Atalaia, o Governo do Estado não deixará a data passar em branco. Segundo Conceição Vieira, presidente da Fundação de Cultura e Arte Aperipê - Funcap -, a programação será a partir do dia 23 e irá até 29, com atrações a partir das 18h até às 21h. 

Chamada de “Reinvente-se”, a celebração será transmitida pela TV Aperipê e pelos canais da Funcap no YouTube e no Instagram. “Teremos artistas sergipanos consagrados e a Orquestra Sanfônica de Sergipe (Orsse)”, revela Conceição Vieira. 

Ela diz que Sergipe terá São João, sim só que diferente. “Vai ser com todo mundo em casa, mas com uma programação igualmente agradável”, garante. “O ciclo junino não se perdeu, vamos comer pamonha em casa, assistindo e ouvindo nossos artistas”, completa a presidente da Fundação. 

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Aglaé Fontes: “há dois tipos de prejuízo nesse São João atípico, que ninguém passou até agora: o cultural e o econômico”

NOSTALGIA 
Mas o entusiasmo de Conceição não a impossibilita de admitir que fica uma lacuna na cultura nordestina e sergipana. “Porque nordestino é muito emocional,  quer sentir o físico. E curtir o São João em casa é diferente de estar na multidão”, destaca.

De fato, além de ter que ser em casa, o São João também será sem aglomerações, o que descarta a possibilidade de celebrar com família e amigos. “Será uma festa suave, com menos pessoas”, define.

Mas, para ela, compreender a necessidade disso também é uma das lições da pandemia. “Estamos tendo a oportunidade de aprender outros tipos de relação, a partir de nós mesmos. A gente se tornou mais próximo da gente, porque antes, muitos não prestavam atenção em si mesmos”, opina Conceição Vieira. 

CAPITAL
O “Forró Caju” também não passará em branco. A diferença é que, esse ano, ele também será em casa. A Prefeitura lançou a edição digital do evento, através de um edital via Fundação Cultural Cidade de Aracaju – Funcaju –, que recebeu 182 inscrições e selecionou 45 artistas para compor a programação.

Entre eles, Virgínia Fontes, Dedé Brasil e Jeanny Lins, Sena, Valtinho do Acordeon, Dialeto Nordestino, Nanã Trio, etc. Eles foram selecionados em cinco categorias: Sergipanos, Mestre Gonzaga, Arrocha, Forró Eletrônico e Tradicional. Segundo o presidente da Funcaju, Luciano Correia, a ideia é estimular as várias vertentes de produção local, além de auxiliar financeiramente os artistas sergipanos, uma vez que a pandemia impediu os eventos culturaispresenciais. 

“Nós estamos muito felizes com os resultados do Forró Caju em Casa. Ele cumprirá o papel cultural de levar entretenimento neste momento de angústia que a pandemia nos trouxe. Lamentavelmente, há artistas de qualidade fora da seleção. Mas tudo foi feito com a maior transparência, através de uma comissão que atuou com muito zelo e responsabilidade, fomentando a cadeia produtiva da música”, garante.

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Conceição Vieira: “nordestino é muito emocional, quer sentir o físico. E curtir o São João em casa é diferente de estar na multidão”

FOMENTO
Luciano ressalta que o objetivo do projeto é o de fomentar a cadeia produtiva da música neste momento de pandemia, assim como garantir aos cidadãos acesso a entretenimento de qualidade durante a quarentena. “O edital surgiu para movimentar as atividades culturais da capital sergipana durante a crise sanitária decorrente do coronavírus”, resume.

Inovador, o Forró Caju em Casa é um projeto que,segundo Luaciano, estimulará várias vertentes. Isso porque, além de as apresentações serem exibidas como programação junina e funcionarem como um mecanismo de fomento cultural, ajudando os artistas prejudicados pela pandemia, após o período de exibição, todas elas ficarão disponíveis, a qualquer momento, em acervo nas redes da Prefeitura e da Funcaju.

Ele afirma que a classe artística sergipana compreendeu bem o propósito de fomento à cultura e de ajudar aos artistas. “Já que muitos vivem exclusivamente da música e poderiam estar ganhando seu dinheiro nessa época, com apresentações no estado e fora dele”, afirma Luciano.

ARTISTAS 
Nino Karvan também foi selecionado e se apresentará no dia 29 de junho. Ele acredita que, muito mais que uma festa, o período junino é um dos mais importantes formadores das identidades culturais do povo nordestino. “A nossa alma pulsa em torno das simbologias, da culinária, das vestimentas, do cancioneiro popular, das rezas e trezenas para Santo Antônio e para os dias de São João e São Pedro”, afirma. 

É, segundo Nino, momento de congraçamento, de festejar a fartura das colheitas semeadas no período do outro santo que abre todo o caminho ainda em março, São José, quando se planta o milho”, contextualiza. 

Para ele, o impacto econômico é muito grande, mas o impacto simbólico de não realizar a culminância dos festejos com muita comida e forró é muito maior. “Eu não saberia quantificar... acho que futuramente os antropólogos têm um precioso objeto de pesquisa, acerca dos impactos  para autoestima do nosso povo, do impedimento dos festejos”, sugere. 

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Luciano Correia: “o edital surgiu para movimentar as atividades culturais da capital sergipana durante a crise sanitária decorrente do coronavírus”

CADEIA PRODUTIVA
No aspecto econômico, - e isso é possível se quantificar -, frisa Nino, se buscar indicadores, e ele espera que os gestores nordestinos o façam, uma série de cadeias produtivas terão seus trabalhos interrompidos. 

“Na cadeia produtiva da música, por exemplo, há uma infinidade de profissionais sem trabalho, desde técnicos de som e de luz a músicos, roadies, cantores, cantoras,  figurinistas, dançarinos, produtores, pessoal do audiovisual, enfim, muita gente sem trabalhar”, lamenta. 

Para as indústrias de alimentos e de bebidas, também haverá um impacto, mas, na opinião de ânimo, eles têm muito capital para segurar as pontas. “Mas eu me pergunto, e os pequenos comerciantes, os ambulantes, os armarinhos que vendem os aviamentos para as quadrilhas juninas? E o setor do turismo, bares, restaurantes?”, questiona. 

RETOMADA
Para Nino, o que envolve economicamente esse momento é muito complexo e o poder público tem um papel fundamental de buscar fomentar a retomada das atividades dos atores sociais envolvidos

Nesse cenário, ele cita exatamente o Forró Caju em Casa. “Acho bem legal a ideia, mas os cachês poderiam ser bem melhores. Também há um edital do Instituto Banese. Claro que essas iniciativas ajudam a manter, de alguma forma a chama acesa, mas é preciso muito mais, pois essas iniciativas ajudam aos artistas que estão à frente dos projetos, mas os técnicos e toda a cadeia produtiva?”, reforça.

“Eis uma questão que o poder público ainda não se debruçou, e isso não diz respeito necessariamente ao período dos festejos, mas enquanto durar essa pandemia e essa cadeia produtiva não puder voltar a exercer suas atividades”, alerta. 

A professora Aglaé Fontes acredita que essas opções de apresentações em live são mais uma espécie de solidariedade aos artistas. “O prejuízo é grande, essas alternativas não têm como superá-lo, são não resolvem a questão. Cria-se editais para que os artistas tenham alguma ajuda, mas o prejuízo econômico, só não vê quem não quer”, opina.

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Matheus Todt: “não é a fumaça causando, e sim ajudando ou piorando uma infecção respiratória já em curso”

E A FOGUEIRA, PODE?
Esse ano, até o maior símbolo do São João, a fogueira, está ameaçada. A Prefeitura de Aracaju incluiu no decreto a recomendação para o não acendimento de fogueiras na comemoração aos festejos juninos.

“O coronavírus ataca principalmente os pulmões e a fumaça pode provocar o agravamento do quadro, porque aumenta a incidência de doenças respiratórias. Então estamos recomendando aos aracajuanos que não acendam fogueiras e nem fogos de artifício em comemoração aos festejos juninos. Peço que cada um, pela sua consciência, nos ajude. E esse é um apelo que quero reforçar porque até mesmo esse processo de reabertura vai depender do empenho da sociedade”, justifica o prefeito Edvaldo Nogueira.

Mas, segundo o infectologista Matheus Todt, não há uma relação direta entre a fumaça e adquirir uma infecção viral, seja ela uma gripe, um resfriado ou mesmo a Covid. “O que acontece é que normalmente há um pico sazonal de infecções respiratórias nessa época do ano e a fumaça, a fuligem e cheiro dela, são de fato alérgicos importantes”, explica Matheus Todt.

Isso significa que pessoas que têm uma predisposição individual a essas síndromes gripais, como asmáticos e portadores de bronquites, vão ter uma exacerbação do quadro respiratório. “E consequentemente vão ter uma maior facilidade de se infectar”, pondera. Ou seja, se a pessoa já apresenta um quadro respiratório, por causa da época,  essa exposição vai exacerbar esse quadro. “Mas não é a fumaça causando, e sim ajudando ou piorando uma infecção respiratória já em curso”, esclarece. 

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Matheus Todt: “não é a fumaça causando, e sim ajudando ou piorando uma infecção respiratória já em curso”

E O COMÉRCIO?
Para Robson Pereira, vice-presidente da Associação Comercial e Empresarial de Sergipe - Acese -, o São João é notadamente um período de grande relevância para a economia do Nordeste, em função da movimentação da cadeia produtiva na qual ele está inserido.

“Todos sairemos perdendo de alguma forma, sendo assim, cada atividade econômica tentará mitigar as perdas e construir estratégias para este momento”, diz Robson, que completa: “no aspecto cultural, as nossas raizes nos reportam a importância desta data que deve ser comemorada de uma forma diferente porém dentro do espírito nordestino de ser”. 

Ele acredita que a não realização da festa não ampliará os indicies ruins que a economia sergipana vem apresentando. “Sou otimista, penso que precisamos alinhar nossos pensamentos na direção da construção de um ambiente de negócios favorável que neste momento passa necessariamente por uma mudança na cultura do empreendedor e do consumidor”, avalia. 

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São João, no formato habitual, só em 2021

UNIÃO
Para ele, as alternativas que o poder público tem apresentado representam uma união de forças fundamental neste momento. “A Acese se soma a todas as ações que visam minimizar os desgastes que estão sendo causados no setor produtivo”, garante. 

Segundo Robson, a grande preocupação da Associação neste momento está na necessidade de garantir emprego e renda, já que não existe comércio forte sem que as pessoas estejam empregadas, para isso, todas as ações devem estar alinhadas.

Conceição Vieira lembra que, mesmo em casa e numa época festiva, não se deve relaxar com as medidas de controle ao coronavírus, como a higienização, o distanciamento e o uso de máscaras. “Todos os cuidados devem ser mantidos, para que ano que vem tenhamos um São João de verdade, como sempre”.