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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Saúde mental: como está a sua?

Janeiro Branco é uma das iniciativas pensadas para lançar luz sobre a necessidade de cuidar da mente e do emocional

Quando um novo ano se inicia, muitas metas são elencadas. Mas, dificilmente a lista delas envolve o cuidado com a saúde mental. Há, inegavelmente, uma certa negligência e até, porque não dizer, certo preconceito com esse tipo de cuidado. Para tentar mudar esse cenário é que foi criado o Janeiro Branco.

Trata-se de uma iniciativa estrategicamente criada há cinco anos a fim de preparar a mente para os 12 meses seguintes, que geralmente, causam ansiedade e frustração. Além disso, o primeiro mês do ano também costuma ser um período de muita reflexão.

Alie-se a tudo isso exigências por velocidade de resposta, competitividade, impulsividade coletiva e outros comportamentos da vida moderna, que estão levando as pessoas a uma agilidade incompatível, gerado inquietude e adoecimento psíquico e físico.

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Saúde mental é importante e deve ser encarada com a mesma relevância que demais áreas
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Taís Fernandina: “uma pessoa mentalmente saudável é aquela que consegue manter uma harmonia”

SINAIS
Essas implicações podem vir em forma de doenças cardíacas, do trato gastrointestinal e até enfermidades, como o câncer. “Outro dano é o que chamamos de prejuízo social, que é quando o sofrimento psíquico começa a impactar nas relações com a família e amigos, no trabalho, na academia. Nesse caso, a pessoa começa a querer ficar isolada socialmente, passa a não dar conta das suas atividades do cotidiano, perde o interesse pelas principais atividades da rotina”, esclarece Taís.

Segundo a psicóloga, os primeiros sinais de que algo não anda bem com a saúde mental está geralmente ligado a ansiedade que apesar de ser uma reação normal do organismo pode acender um sinal de alerta. “Dentro de algumas situações, como as que envolvem algo novo ou algo que nos imponha medo, é perfeitamente normal. Mas quando já acordamos ansiosos, com momentos de choro fácil, alteração no sono ou humor, aumento do nível de irritabilidade, redução do nível de concentração,  já é uma indicação de que há um sofrimento psíquico”, afirma.

Taís também sustenta que com um cotidiano cada vez mais pesado, com exigências para respostas rápidas, a possibilidade de as coisas acontecerem em um tempo muito curto, com auxílio da tecnologia, a sensação é de que é preciso viver tudo numa impulsividade coletiva e competitiva, uma cobrança por produtividade e uma imposição de sobrecarga causada por agilidade incompatível.

CONSEQUÊNCIAS
“Isso tem trazido inquietude, tirado o nosso sono, diminuído nossas horas de lazer. Tudo isso precisa ser reorganizado com uma boa gestão do nosso tempo. Precisamos compreender que a vida é construída de várias dimensões e para que a gente possa andar no equilíbrio não dá para direcionar o tempo só para o trabalho, por conta do risco de uma sobrecarga mental”, destaca.

Segundo a psicóloga Isabela Maria do Nascimento Macêdo, que também é psicóloga, empresária e educadora financeira e atua há 15 anos na área, há uma ascendência nos registros de pessoas que sofrem de doenças mentais, o que pode ser percebido no dia a dia, ao conversar com parentes, amigos e a comunidade geral.

Isso ocorre, de acordo com Isabela, porque a vida está cada vez mais agitada, numa busca contínua por sobrevivência, onde o imediatismo passa a dominar não somente o mercado, mas também as relações pessoais. “Esses fatores são relevantes no desencadear do sofrimento psíquico, seja mental ou emocional”, explica. 

DEPRESSÃO
Segundo Isabela, as doenças mentais mais comuns são a ansiedade, a depressão e a síndrome do pânico. “A depressão é uma doença que vem se instalando mundialmente e cada vez mais entre as pessoas, e no Brasil não é diferente. A ansiedade, a síndrome do pânico e a depressão estão interligadas, embora com suas diferenças”, ressalta.

Ela explica que, todos, enquanto seres humanos, estão sujeitos a qualquer doença, inclusive mental. Por isso, para a psicóloga, é importante buscar se conhecer melhor, criar hábitos saudáveis na alimentação, praticar exercícios e fundamentalmente ter planejamento, pois deixar de praticar o autocuidado, leva, em grande escala, ao estresse.

“E o estresse leva às demais doenças gradativamente, desde que não cuidado”, afirma. Taís Fernandina concorda. “O enfrentamento vem justamente no sentido de se investir em autoconhecimento. Se questionar quem de fato você é, o que deseja e entender que não somos um espelho do outro. É importante se perceber como sujeito único, singular, completo, complexo e, a partir daí, definir quais são as prioridades”, destaca.

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Isabela Macêdo: “importante se perceber como sujeito único, singular, completo e, a partir daí, definir as prioridades”

ALERTA
As doenças mentais também surgem por fatores biológicos e, pelos dados da Organização Mundial de Saúde – OMS –, o Brasil lidera o ranking da ansiedade em todo o mundo e o da depressão entre os países latinos. “Esses dados têm que ser vistos e cuidados pelas políticas públicas, o poder público precisa cuidar e paralelamente adotar medidas psicoeducativas, buscando agir na prevenção e não somente na cura”, alerta Isabela Macêdo.

Naldson Melo Santos é psicólogo e preside o Conselho Regional de Psicologia da 19ª Região, que abarca Sergipe. Segundo Naldson, que atua há 15 anos como profissional da área, o Conselho tem 2.700 inscritos. “Houve um aumento significativo nos últimos dez anos, praticamente dobrando a quantidade de profissionais inscritos. E nos próximos 5 anos deve aumentar ainda mais, graças à criação de novos cursos de Psicologia no Estado”, afirma.

Esse acréscimo converge para o crescimento também das demandas que os profissionais têm, por diversas questões, como as políticas públicas na aérea social, que abarcaram parte das profissionais. Outro ponto é a diminuição do preconceito em relação à busca por atendimento psicológico.

RECONHECIMENTO
“Sem contar com as diversas demandas em áreas variadas, como hospitalar, jurídica, saúde mental, bem como na luta pelas garantias de direitos das diversas populações que, historicamente, foram colocadas de lado e até mesmo marginalizadas”, argumenta Naldson.

Mesmo assim, o presidente do Conselho diz que a categoria ainda está engatinhando em relação ao reconhecimento por parte da sociedade. “Ainda precisamos evidenciar melhor quais os papéis que os psicólogos desempenham e quais benefícios para a população podemos proporcionar”, constata.

Mas Naldson reconhece que já há uma valorização notória por parte daqueles que usam os serviços de um profissional psicólogo, e que, inclusive, recomendam para seus entes e para pessoas próximas. Com relação à motivação do aumento da incidência desses problemas mentais, ele afirma que vários fatores podem ser levantados.

FATORES
“Porém, podemos elencar o modo alucinado que vivenciamos o cotidiano, onde tudo e qualquer coisa se torna mais importante do que o nosso próprio bem-estar”, reitera. Ele diz que cuidar da mente deve encabeçar a lista de novos afazeres.

“Sem dúvidas. Quando gozamos do bem-estar de nossa saúde mental, a tendência é que consigamos executar tarefas do cotidiano com mais facilidade, com menos pesar. Portanto, o cuidado mental deve, sim, ser uma meta prioritária em nossas vidas em qualquer período do ano”, explica.

Além da ausência do bem-estar em realizar os afazeres diários, ou seja, trabalhar, estudar, socializar, ter relações afetivas, em alguns casos, essa não atenção a esse cuidado pode contribuir no desenvolvimento de diversos males, como transtornos de ansiedade, depressivos, psicossomáticos, entre outros.

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Naldson Melo: “o cuidado mental deve, sim, ser uma meta prioritária”

JOGOS PATOLÓGICOS
Um dos desdobramentos da falta de saúde mental são os jogos patológicos, que têm sido fator de adoecimento para muitas pessoas como jovens e adultos. “É preciso estar atento ao vício nesses tipos de jogos e conhecer as diversas estratégias para lidar com essa situação, tanto para os indivíduos diretamente envolvidos quanto para os familiares”, afirma

De acordo com ela, o vício em jogo é uma doença comportamental semelhante à dependência química, mas há tratamento. “A tendência ao jogo patológico não significa falta de caráter ou fraqueza moral, qualquer pessoa pode estar suscetível a esse tipo de problema”, esclarece.

Como diferenciar o jogador patológico daquele que só joga para se distrair? O que pode levar a pessoa ao vício? Quais os fatores de risco para a doença? Como é o comportamento dos homens e mulheres que jogam? O que acontece com o cérebro nesse intervalo de tempo em que a pessoa joga e recebe a recompensa? Esses e diversos outros pontos serão abordados no I Debate sobre Jogos Patológicos, que ocorrerá próximo dia 22.

JANEIRO BRANCO
A ação faz parte do Janeiro Branco e conta com palestras do psiquiatra Alexandre Agacir, da terapeuta de família e casal e educadora parental Caroline Campos e do terapeuta, professor de yoga e meditação, Ruhan Victor Oliveira. O evento beneficente arrecadará alimentos para a Creche Ação Solidária Almir do Picolé.

Ao longo de 30 dias, profissionais da saúde, especialmente psicólogas e psicólogos, promovem atividades em prol da construção uma cultura de saúde mental.  “A proposta de uma campanha como o Janeiro Branco vem justamente para chamar a atenção para um assunto cercado ainda de mitos que é a saúde mental e emocional”, define Taís Fernandina.

Para ela, esse é um assunto que não é devidamente tratado no âmbito familiar até mesmo pela própria herança da referência saúde-doença, como se percebia a doença, o que é saúde mental, o que é loucura. “Todos esses conceitos que estão sendo revisitados na atualidade trazem a necessidade uma campanha para chamar a atenção de um cuidado que devemos ter durante toda vida”, avalia.

 A campanha foi criada em Minas Gerais, pelo psicólogo Leonardo Abrão, e tem nas reflexões naturalmente feitas por grande parte das pessoas no final de ano o seu ponto forte. “O Janeiro Branco tem como principal meta trazer visibilidade a necessidade de a sociedade enxergar que doença mental existe, que todos estamos sujeitos às mesmas e que devemos nos cuidar, assim como há uma obrigação do poder público em cuidar do que já se instalou”, resume Isabela Macêdo.

PODER PÚBLICO
E parece que o poder tem tentado fazer a lição de casa. Renata Roriz é psicóloga, referência de gestão da Rede de Atenção Psicossocial – RAPS - Conta Comigo da Secretaria de Estado da Saúde e explica que a Rede prevê a criação, a ampliação e a articulação de pontos de atenção à saúde para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas no âmbito do Sistema único de Saúde – SUS.

“A RAPS tem como objetivos gerais ampliar o acesso à atenção psicossocial da população, promover a vinculação das pessoas com transtornos mentais e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas e de suas famílias aos pontos de atenção; e garantir a articulação e a integração dos pontos de atenção das redes de saúde no território, qualificando o cuidado por meio do acolhimento, do acompanhamento contínuo e da atenção às urgências”, resume a psicóloga.

Além disso, também são objetivos da Rede promover cuidados em saúde especialmente a grupos mais vulneráveis – crianças, adolescentes, jovens, pessoas em situação de rua e populações indígena; prevenir o consumo e a dependência de álcool e outras drogas e reduzir os danos provocados pelo consumo; promover a reabilitação e a reinserção das pessoas com transtornos mentais e com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas por meio do acesso ao trabalho, à renda e à moradia solidária.

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Renata Roriz: “infelizmente, as pessoas tendem a emitir julgamentos morais ao invés de tratar as patologias emocionais”

OBJETIVOS
A Rede também visa produzir e ofertar informações sobre os direitos das pessoas, as medidas de prevenção e cuidado e os serviços disponíveis na rede; regular e organizar as demandas e os fluxos assistenciais da Rede de Atenção Psicossocial e monitorar e avaliar a qualidade dos serviços mediante indicadores de efetividade e resolutividade da atenção.

“Entendendo que o SUS tem como princípio o atendimento ao usuário, a porta de entrada para o cuidado em saúde da pessoa que apresente qualquer tipo de sofrimento emocional, é a Unidade Básica de Saúde, presente em todos os municípios sergipanos, que recebe esses usuários. Recentemente, em setembro, realizamos uma grande campanha na mídia justamente para informar isso a toda a sociedade sergipana”, afirma Renata.

De acordo com a coordenadora, a Secretaria ainda está em processo de monitoramento da Rede de Saúde Mental, elaborando indicadores que permitam obter o quantitativo das doenças mentais. “Ainda existem muitos preconceitos e desinformações quanto aos sofrimentos psíquicos, isto faz com que as doenças sejam subnotificadas. Infelizmente as pessoas tendem a emitir julgamentos morais ao invés de tratar as patologias emocionais. O que só aumenta o sofrimento tanto do paciente, quanto dos familiares”, analisa.

ESTRUTURA
Renata acredita que sempre há o que melhorar, mas que a rede de saúde pública está preparada para esse tipo de demanda crescente da sociedade. “Não medimos esforços em trabalhar para aumentar a qualidade de vida das pessoas com sofrimento mental. Sabemos que os desafios são enormes, mas lutamos para garantir o cuidado em liberdade, sem excluir o paciente. A doença mental não pode ser uma sentença de exclusão. Todo paciente merece ter tratamento digno, e que solucione seu problema de saúde. Sabemos que a doença mental é crônica, mas também sabemos que há tratamento”, ressalta.

Já a Rede de Atenção Psicossocial – Reaps – da Prefeitura de Aracaju, ofertada por meio da Secretaria Municipal de Saúde, conta com seis Centros de Atenção Psicossocial – Caps – e 14 órgãos de referência em saúde mental – 10 para o público adulto e quatro para o infantojuvenil –, que atendem a todas as especificações da Organização Mundial da Saúde – OMS – e estão espalhadas em diferentes bairros da cidade.

Cinco Caps funcionam 24 horas por dia na capital sergipana, realizando acolhimento noturno como opção terapêutica para as situações de crise dos usuários dos serviços. Para as situações que precisam de uma internação ou casos de urgência, há ainda a Urgência Clínica e Mental do Hospital São José, localizado na zona Norte de Aracaju.

NOTIFICAÇÕES
Essa estrutura, somada à mão de obra qualificada e diversa, é responsável por ofertar atendimento a mais de 8.500 pacientes ao mês, entre os seis Caps e as 14 unidades de referência. As ações vão desde oficinas de teatro e atividade física a arte e atividades lúdicas que dão sustentação a uma política pública de saúde mental efetiva e eficaz.

O atendimento dessa rede começa com a notificação da tentativa de suicídio. Segundo Lidiane Gonçalves, área técnica do Núcleo de Prevenção de Violência e Acidentes – Nupeva – da Secretaria da Saúde de Aracaju, etapa importante para a identificação do problema como questão de saúde pública. “É um instrumento de vigilância disparador de cuidado e que serve para dar visibilidade ao problema”, afirma Lidiane.

Entre 2008 e o dia 9 de setembro de 2019, foram registradas 355 notificações de casos de suicídio em Aracaju, sendo que 258 deles foram provocados por homens e 97 por mulheres. A maioria na faixa etária entre 20 e 29 anos; seguidos de 40 a 49 anos; 30 a 39 anos; 50 a 59; 15 a 19; 60 a 69; 70 a 79; 10 a 14 e acima de 80 anos.

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Lidiane Gonçalves: “é fundamental tentar traçar o diagnóstico e, assim, definir ações estratégicas de prevenção”

INCIDÊNCIA
Os bairros com maior incidência são o Santa Maria, com 33 ocorrências nesse período; São Conrado, com 31; Farolândia, 22 casos; Olaria, 13; Jabotiana e Santos Dumont, ambos com 12; América e Atalaia, com 11; Coroa do Meio, Centro e Cidade Nova, com 10 casos, seguidos pelo bairro Industrial, com 9; Getúlio Vargas, com 8; Siqueira Campos e Bugio, com 7; Soledade, Lamarão e Luzia, com 6.

Os demais bairros registraram entre 1 e 5 casos, mas todos tiveram ocorrências de suicídio nos últimos 11 anos. “A partir do momento em que a gente recebe a notificação, é disparado o aviso de cuidado da equipe de saúde mental, para fazer a busca ativa e ofertar o tratamento necessário”, explica Lidiane.

Segundo Lidiane Gonçalves, a notificação é importante tanto para possibilitar o atendimento e, com ele, evitar uma nova tentativa de suicídio, quanto para traçar as estratégias de atuação da rede municipal. Por isso, há uma atualização constante com os profissionais de saúde que atendem nos diversos serviços – UBS, urgência e emergência, Cemar, Caps – para que notifiquem os casos suspeitos ou confirmados de violência.

PLANEJAMENTO
O próprio médico, os enfermeiros, assistentes sociais ou agentes comunitários de saúde podem fazer a notificação. “Casos de tentativa de suicídio precisam ter notificação imediata, como determina a lei. No máximo, em até 24h tem que ser comunicada, até porque a pessoa pode tentar novamente. Se o profissional ficar no cuidado e não notificar, a violência pode se repetir”, reitera.

A partir desse levantamento das notificações, a equipe vê quais regiões, perfis e população demandam uma intensificação das ações de prevenção. “Outro ponto importante é investigar, na medida do possível, as causas que estão por trás dessas tentativas de suicídio, pois é fundamental tentar traçar o diagnóstico, com um perfil mais real daquele território e, assim, definir ações estratégicas de prevenção”, reforça Lidiane.

Inclusive, Aracaju é a única capital do país que conta com o programa de redução de danos vinculado ao Sistema Único de Saúde. Presente no município desde 2002, o Projeto Redução de Danos faz parte da Rede de Atenção Psicossocial e atua através do Consultório na Rua e conta com oito agentes redutores, que realizam no município cerca de 1.200 acessos por mês.

Além do Debate sobre Jogos Patológicos, o Janeiro Branco traz outras ações e projetos que ajudam a demonstrar que a saúde mental é tão – ou mais – importante do que qualquer outra área da vida e que, portanto, merece o mesmo nível de comprometimento e atenção, preparando a mente para caminhar em meio às alegrias e também às adversidades.

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Rede de atenção do Estado é distribuída em todos os 75 municípios