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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Será que Sergipe embarca agora no trem do desenvolvimento?

Estado é varrido por onda de boas notícias, que vão de uma nova fronteira de gás da Petrobras, a parque de energia solar no sertão, passando por uma montadora de caminhão. Sem falar da termelétrica da Celse. Mas tem quem levante a lebre do pesadelo nesse sonho! “Empreendedores e investidores já estão com olhos voltados para Sergipe”, apalavra o governador


O Estado de Sergipe é o menor da federação, e anda ressabiado com promessas encantadoras do que pode acontecer - ou não - de positivo para ele e seu futuro. É que, de uma hora para outra, esse pequeno pedaço de terra se viu no centro de notícias bastante otimistas do ponto de vista econômico, com o anúncio de grandes projetos que acenderam um facho de luz que, ao mesmo tempo, ilumina e gera dúvidas.

Esses projetos são o parque de energia solar em Canindé de São Francisco, a descoberta da Petrobras e uma montadora de caminhão a gás na Barra dos Coqueiros. Todos muito grandiosos, impactantes e de alto investimento. Assim como outros tantos projetos anunciados num passado próximo, que não vingaram – e daí o ressabiamento, esse um olho aberto e outro fechado.

Quem não se lembra de, ainda no governo de Marcelo Déda, mas já com Jackson Barreto administrando, da assinatura de uma refinaria de petróleo para Sergipe, na Barra dos Coqueiros, que depois descobriu-se que viria por Paulo Roberto Sousa, aquele executivão da Petrobras, que está preso pela Lava Jato, e nada veio?

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Descoberta da Petrobras acenou para mercado da cadeia produtiva do gás
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Zezinho Guimarães: “não quer dizer que extraindo essas riquezas, esse potencial mineral, será a redenção de Sergipe”

PERSPECTIVAS

Zezinho Guimarães diz isso porque, segundo ele, essas três perspectivas de realidade podem não passar disso. “Se a gente não souber aproveitar essas potencialidades. Nós simplesmente vamos entregar elas a outras praças”, alerta o parlamentar.

O raciocínio de Zezinho, embora pouco otimista, faz bastante sentido: no caso da energia solar que seria gerada em Canindé, por exemplo, se não for consumida aqui, não gera riquezas significativas para o Estado. E, para ele, “consumida aqui” equivale a gerar novas centrais de produções no aspecto industrial.

“Essa energia é um potencial importante, mas vai entrar na rede e vai embora, e não volta. Então, se eu não tiver consumo interno, que gere emprego, não adianta. É preciso indústria como consequência disso”, ressalta Guimarães. A mesma relação existe com a produção do gás. “Se não tivermos capacidade de industrializá-lo, ele só vai gerar os royalties. E isso não basta”, diz. 

SÓ PROJETOS?

Com relação ao projeto da montadora de caminhões a partir do gás produzido na Barra, Zezinho admite não conhecer o projeto, mas diz que a perspectiva em si é saudável, mas que requer cautela. (O governador Belivaldo Chagas detalhe isso na Entrevista que concede neste domingo Portal JLPolítica).

“É importante lembrar que já tivemos essa mesma expectativa com a Kia, com a refinaria da Barra, com o Polo Cloroquímico, com um complexo de hotéis, etc. E que nenhum desses projetos se reverteu em realidade, gerando, sem dúvida, uma certa frustração”, pondera.

Rodrigo Rocha, economista da Federação das Indústrias do Estado de Sergipe - Fies -, está mais no campo dos otimistas. Rodrigo diz que vem acompanhando essas novas notícias com muita esperança de que a economia sergipana retome o caminho do desenvolvimento econômico e social, de forma acelerada e sustentada ao longo do tempo.

FOMENTADORES

Isso porque, de acordo com Rodrigo, a economia brasileira vem tendo um desempenho muito ruim ao longo dos últimos anos. E Sergipe vem sofrendo também, de forma ainda mais intensa, especialmente por causa da importância dos agonizantes segmentos da construção civil e de petróleo e gás. Os novos projetos, nesse caso, seriam de grande valia.

“Com a expectativa desses novos investimentos, o Estado ganha uma nova esperança, pois, além deles, outros negócios podem voltar a prosperar, gerando um ciclo econômico muito positivo”, analisa Rodrigo Rocha. Para ele, essas perspectivas podem desenhar um cenário próspero para o Estado nos próximos anos.

“Como falei anteriormente, junto com estes investimentos, poderão vir outros, ligados direta e indiretamente, gerando a possibilidade de um novo momento econômico para Sergipe”, reforça. Ele admite que esse tipo de notícia revigora a economia, mas que a não efetivação delas pode, de fato, gerar uma frustração.

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Celse já é realidade e fomenta novos investimentos no setor

VOLATILIDADE

“Todo projeto previsto e não executado com certeza gera frustração, mas no caso da Petrobras, em especial, o anúncio feito recentemente é fruto de um estudo aprofundado realizado ao longo dos últimos anos, sendo as expectativas muito bem fundamentadas. Espera-se que ao longo dos próximos anos o Estado realmente consiga ter um desempenho econômico muito mais positivo”, reitera.

Segundo Rodrigo, a economia, em um mundo globalizado como o atual, tem uma volatilidade muito grande, pois permite que grandes volumes de recursos facilmente se desloquem para investimentos em qualquer lugar do planeta que apresente potencial de bons resultados, o que explicaria uma mudança tão brusca de cenário como o que ocorre em Sergipe recentemente.

Num dia, o Estado não tem quaisquer perspectivas e no outro surgem vários projetos importantes. Pode? “Quando surge uma boa oportunidade, como as anunciadas recentemente em Sergipe, toda a perspectiva pode mudar, pelo potencial de atração de grandes investimentos”, explica o economista Rodrigo Rocha.

INVESTIMENTOS

Para o economista Saumíneo Nascimento, superintendente do Grupo Tiradentes e ex-secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico, essas notícias despertam interesse no setor privado para a vinda de mais investimentos, já que sinalizam perspectiva de atração de investimento. Portanto, são positivas. “Se elas se concretizarão ou não, são os riscos que todo e qualquer projeto corre. É normal que exista isso”, diz Saumíneo Nascimento.

Saumíneo Nascimento ainda fazia parte do Governo quando o projeto da termoelétrica da Barra surgiu e lembra que alguns outros empreendimentos não foram possíveis, ao contrário do da Celse. “Hoje é real. Está aí, sendo concretizado e em breve inaugurado. É um projeto que efetivamente vai dar um diferencial competitivo para o Estado”, avalia Saumíneo.

E isso, para Saumíneo Nascimento, se soma a essas novas perspectivas de ampliação da distribuição do gás como matriz energética alternativa no Estado. “Não é uma possibilidade apenas. Está confirmado. O que precisa agora é que a gente tenha um esforço de empresas que possam explorar a atividade”, diz.

CETICISMO

Para Saumíneo, alguns aspectos podem explicar o ceticismo de alguns setores da sociedade com relação aos novos projetos. “A economia da Região Nordeste é mais frágil, sempre esteve atrás da economia nacional, porque temos atividades mais concentradoras. Nosso PIB - Produto Interno Bruto - tem crescido menos, e somos o menor Estado da federação, com a menor população”, justifica.

Mas, mesmo pequeno, o PIB sergipano representa 0,6% do nacional, o que para Saumíneo não é um indicativo ruim, já que é proporcional à população do Estado – isso, segundo o último dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.

Segundo o economista, o PIB sergipano é composto da seguinte forma: 5% da agropecuária, 33% da indústria e 62% do setor de comércio e serviços. “É um Estado que tem bom processo de exportação, com concentrados, especificamente o suco de laranja. Mas a novidade é a exploração de recursos minerais, com gás natural, petróleo e também não podemos esquecer que ainda temos calcário para ser explorado em Sergipe”, ressalta Saumíneo.

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Rodrigo Rocha: “com a expectativa desses novos investimentos, o Estado ganha uma nova esperança”

OUTRAS ÁREAS

Ou seja, a visão sauminiana é a de que a produção de energia, de fato, é importante para o Estado. Mas não só ela. Saumíneo chama a atenção para duas áreas que, segundo ele, estão em ascensão e, portanto, também são importantes do ponto de vista econômico. “A saúde e a educação estão se transformando”, revela.

De acordo com Saumíneo, tem havido uma oferta de equipamentos de saúde e o surgimento de hospitais particulares de grande porte. “Antes, só tínhamos dois”, compara. Segundo ele, as unidades de saúde na capital e no interior estão melhorando a densidade tecnológica e as unidades de educação, sua formação de profissionais para o mercado.

“Se o Estado trouxer indústrias e empreendimentos, que acredito que vai trazê-los, o setor de educação, e agora falo pela Unit, está pronto para a preparação de profissionais para atender a essas novas demandas”, assegura. A Unit, por exemplo, conta com curso nas áreas de Engenharias, bastante demandadas, de saúde e tem internacionalizado o ensino para que ofereça mais condições de formação.

“É REAL”

Tudo isso, para Saumíneo, rechaça a ideia de que aqui não há mão de obra qualificada para esses novos projetos. “Aqui tem mão de obra muito bem qualificada que atende muito bem às demandas do Brasil e do mundo”, garante o economista, que aposta, acredita e torce para que os projetos se concretizem.  

O governador Belivaldo Chagas, a quem caberá o bônus da efetivação dos projetos e também o ônus da não efetivação deles, se soma, naturalmente, com os otimistas dessa suposta nova fase e garante que tudo isso já é mais do que “real”.

“O Governo Federal, dentro das suas pesquisas, descobriu que Sergipe tem gás para vários anos, e no mundo o gás hoje é sedutor, os empreendedores e os investidores já estão com os olhos voltados para Sergipe. É real a termoelétrica, que estará funcionando a partir de janeiro do próximo ano”, diz Belivaldo Chagas. 

DISSOCIADOS

Por tudo isso ser real, é que o governador não vê nenhuma simetria entre as ocorrências anteriores, como as que não vingaram e geraram frustrações, como a promessa da refinaria e do polo hoteleiro. 

“Não vejo, porque ali a gente pode identificar como um fato isolado. Um pensamento de refinaria por parte do governo. A realidade do gás hoje é nacional e mundial. O mundo busca energias alternativas, energias limpas, energias baratas”, ressalta. 

Por isso, para Belivaldo, não se pode deixar de levar em consideração hoje a necessidade de crescimento nessa área do gás e da energia solar, que pode se tornar uma realidade também. “Tudo está convergindo num conjunto. Não numa ação própria e exclusivista de Sergipe”, justifica o governador, em fala ao Portal JLPolítica

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Petrobras espera extrair 20 milhões de m³ por dia de gás natural – 1/3 da produção total brasileira

CAMINHÕES

Mas engana-se, também, quem pensa que o Estado estaria parado, esperando essas novas perspectivas se concretizarem ou não. Segundo Belivaldo Chagas, Sergipe está se planejando para construir um horizonte paralelo a tudo isso. “Nós já estamos trabalhando dentro de uma área aqui que será o nosso polo portuário, na Barra. A partir do Porto Ignácio Barbosa, com a possibilidade de ampliação dele e também de várias empresas se instalarem ali naquela região”, afirma.

O porto, segundo Belivaldo, será um polo voltado para a cadeia produtiva do gás e, portanto, para a cadeira produtiva de energia como um todo. É aí que entra a fábrica de caminhões a gás, também anunciada pelo Governo nos últimos dias.

Belivaldo explica que já é projeto da Celse trazer para o Brasil, especificamente para o Nordeste e para Sergipe, cerca de mil caminhões movidos a gás. Caminhões prontos e já montados da China. Mas depois, a expectativa é de que o Brasil - de preferência, o Nordeste ou especificamente Sergipe - possa receber uma montadora desses caminhões.

SERGIPE

“Quando a gente fala Brasil, a gente puxa para o Nordeste. Quando a gente puxa para o Nordeste, podemos puxar para Sergipe, e nós vamos puxar. Isso será uma realidade”, diz. A Celse vai gerar uma rede de postos de abastecimentos desse gás. “Esses postos de abastecimento não ficarão apenas localizados em Sergipe, mas até Petrolina e, possivelmente, até o Piauí”, revela.

“O que está posto com o advento do gás, com a possibilidade real de nos tornarmos a estrela do gás do Brasil, por causa da termoelétrica e dessas descobertas que tivemos, assim como da presença da Celse e de todo o seu conglomerado, com a Golar, e vem a Exxon, enfim, já estão dentro de um projeto, que vai acontecer, da distribuição de postos de gás no Estado de Sergipe”, completa o governador.

De acordo com o governador, o Estado deverá ter pontos de distribuição de gás em Itabaiana, Lagarto, Glória, Propriá e Simão Dias. Para isso, vai haver um centro de distribuição de gás que vai levar o gás daquela região e será distribuído, via gasoduto, para os polos. 

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Belivaldo: “no mundo do gás hoje, os empreendedores e os investidores já estão com os olhos voltados para Sergipe”

SEMINÁRIO

Toda essa efervescência em torno do gás motivou a realização de um seminário que será realizado nos dias 4 e 5 dessa semana. Um evento nacional voltado para o gás, que contará com 200 participantes e que já teve, segundo Belivaldo, mais de 400 pessoas procurando meios de fazer inscrição.

“Deveremos contar com figuras extremamente importantes do mundo do gás, a exemplo do próprio ministro de Minas e Energia, Bento Costa Lima Leite, que já confirmou presença. “Eu vejo isso como uma realidade para os próximos anos”, reforça o governador de Sergipe.

Mas o governador faz um adendo e mostra que tanto os argumentos otimistas quanto os mais céticos deverão ser guardados na gaveta por enquanto. “Só diria que não dá é para pensar que com essa descoberta, daqui a seis meses sejam atendidas todas as carências do Estado. Teremos investimentos, sim, e a Petrobras, que está quebrando o monopólio do gás, que vão fazer com que, a partir de uma nova regulamentação, surjam um novo horizonte, um novo marco regulatório. Portanto, que a gente tenha realmente um crescimento nessa área”, diz o governador.

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Reunião entre o governador e investidores da área, na última semana