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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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“Seres sociais”: por que tem sido cada vez mais difícil manter a população em casa?

Várias correntes explicam a necessidade do ser humano de se relacionar, mas também a capacidade de adaptar a situações adversas, como a de uma pandemia

Enquanto o resto do mundo se isolou o máximo que pôde e saiu da pandemia em cerca de dois meses, o Brasil nunca determinou o isolamento total e segue acumulando casos de covid-19 e, consequentemente, muitas mortes. 

Especialistas criticam a gestão da pandemia por aqui e são unânimes em afirmar que se o país tivesse fechado tudo, com o tão falado lockdown, já teria tido o pico da doença e estaria numa curva decrescente dela. 

Mas porque há tanta dificuldade em cumprir o isolamento ou mesmo o distanciamento social? Qual a necessidade de continuar indo à praia, ao calçadão, enquanto milhares de pessoas morrem? 

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Movimento parece “normal” em muitos segmentos, como se a quarentena tivesse acabado
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Índices de isolamento continuam baixos e preocupantes

AMEAÇA INVISÍVEL
“Outro ponto é ser o vírus uma ameaça invisível, então se não vejo aquele que pode “atentar contra minha vida”, não consigo perceber que existe ali um perigo”, completa Daniela. Para a socióloga, todos esses fatores se somam a uma politização da pandemia, que passa a ser encarada também de forma ideológica.

“Dessa forma, passa a servir como mais uma peça no cenário político-partidário, onde já percebemos uma luta (disputa) de qual será a tese vencedora”, analisa. Essas teses, segundo a profissional, podem ser resumidas em três: os que apoiam a abertura total, os que apoiam a abertura gradual e os que apoiam uma abertura imediata total. 

“Essa confusão, ou falta de alinhamento nas políticas de combate à pandemia, por assim dizer, alimenta a imagem de individualidade que falei mais cedo, o indivíduo de costas para ciência escolhe o discurso ideológico que mais o agrada”, argumenta Daniela. 

ALTERNATIVAS
Por outro lado, sabe-se que o isolamento é um dos desdobramentos mais necessários da pandemia. Como, então, lidar com ele, mesmo sendo seres sociais? “São várias as possibilidades de lidar com o isolamento, mas todas elas dependem do indivíduo, ou seja, cada um de nós nos encontramos dentro de um processo de construção de mecanismos particulares para superar o período de quarentena, mesmo aqueles que negam o isolamento”, acredita a socióloga. 

No entanto, a tecnologia, em suas várias formas, representa um ponto em comum entre as alternativas. Seja no campo do entretenimento – filmes, séries – seja no campo das relações pessoais – redes sociais, chamadas de vídeo com amigos e familiares - ou ainda, no trabalho, a tecnologia da informação tem sido usada exaustivamente para suprir a necessidade do outro e ao mesmo tempo, manter viva a complexa rede econômica local e global. 

Com ou sem tecnologia, negacionista ou não, o fato é o que essa vida temporária em isolamento pode causar em nossa sociedade: reflexões, problemas? Segundo Daniela Moura Bezerra, pesquisas apontam para diferentes impactos do isolamento.

IMPACTOS
“Na vida doméstica, aumento dos índices de separação, aumento das agressões; no consumo, aumento do uso de bebidas alcoólicas e fast food; nas crianças pequenas, que por não entenderem o que está acontecendo começam a vivenciar problemas como ansiedade e depressão; nos idosos, que por serem do grupo de risco e terem menor contato com outros, sentem mais a solidão do isolamento”, exemplifica.

Por outro lado, ou para outras pessoas, tem servido como momento de reflexão, de aproximação com a família, de mudança nos hábitos alimentares, de maior tempo de vivência com os filhos - como é o caso da socióloga. “Enfim, ainda é muito cedo para apontarmos se serão mudanças permanentes ou temporárias e se estas terão força para transformações mais profundas na organização da sociedade”, pondera. 

Mas uma coisa já é certa: o fato de a pandemia ter chegado de forma tão abrupta já não é argumento para essa relutância em se isolar. “Se em um primeiro momento o fato da pandemia ter pego a todos de surpresa, talvez justificasse a baixa adesão ao isolamento, hoje não mais”, diz Daniela. 

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Daniela Bezerra: “o fato de sermos seres sociais tem influenciado na pouca adesão à quarentena, porém, existem outros fatores”

MUDANÇAS
Isso porque já são quatro meses de quarentena e das mudanças sociais que ela trouxe e, para a socióloga, o que se observa é uma diminuição dos índices de isolamento em diferentes cidades do país. “Claro que essa não é uma discussão tão simples, pois, temos aí uma questão econômica, de sobrevivência. No entanto, vejo aqui da minha janela, literalmente falando, uma população aglomerada em festas e sem preocupação com os protocolos de segurança recomendados”, critica.

Isso a leva a crer que a baixa adesão nesse momento tem relação com a chegada abrupta da pandemia, é muito mais uma questão comportamental, cultural, dificilmente modificadas por normativas legais ou científicas. 

O psicólogo André Luiz Mandarino Borges, conselheiro Secretário do Conselho Regional de Psicologia de Sergipe, residente da Comissão de Orientação e Fiscalização da entidade e coordenador do curso de Psicologia da Uninassau Aracaju, afirma que embora sejam necessárias, a sociedade nunca teve contato com medidas tão extremas e num contexto tão amplo, o que acabam trazendo desafios para a dimensão psicológica. 

MEDIDAS EXTREMAS
“Quanto mais formos resilientes e capazes de adaptar nosso cotidiano, desenvolvendo novas maneiras de realizar nossas rotinas, maior será nossa saúde psicológica nesse momento. Há pessoas que até estão ampliando suas capacidades, agregando novas habilidades e aprendizados”, acredita André Mandarino. 

Contudo, ele admite que, para alguns, o isolamento vem acompanhado de outras consequências e de acúmulo de responsabilidades, o que dificulta o aproveitamento mais positivo da experiência e produz acúmulo de estresse.

“Temos visto comumente o desenvolvimento de sintomas relacionados à ansiedade, tanto por questões relacionadas à saúde, quanto por receios no aspecto financeiro, perda de emprego e renda em decorrência da crise econômica que acompanha a pandemia. Os sintomas depressivos também são comuns à medida que se prolonga o afastamento da rotina habitual e as limitações nas atividades costumeiras de lazer e socialização”, avalia.

REFLEXOS
Os sintomas depressivos podem, ainda, estar associados ao medo de adoecer e às perdas de pessoas próximas, toda essa atmosfera de perplexidade e impotência diante de tantas hospitalizações e mortes. “Também se percebe o aumento no número de pessoas comportamentos compulsivos relacionados à limpeza, de forma exagerada, numa lógica distorcida que pode até causar danos físicos pelo uso demasiado de produtos em contato com a pele”, revela. 

Também questionado sobre o porquê de o ser disso acontecer, de o ser humano parecer não ser propenso à vida em isolamento, André Mandarino teoriza: “na Grécia antiga, o filósofo Aristóteles já classificava o homem como um animal social, é no social que nos desenvolvemos estabelecendo as trocas e recebendo as influências que terão forte contribuição na formação do que somos”. 

E continua: “precisamos do contato social, a vida em isolamento não é típica do ser humano, mas somos seres com grande flexibilidade comportamental e podemos viver momentos de isolamento sem maiores prejuízos. O momento de pandemia exige que façamos este esforço”, reforça.

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André Mandarino: “precisamos do contato social, a vida em isolamento não é típica do ser humano, mas somos seres com grande flexibilidade comportamental”

CONTATO PRESENCIAL
O profissional lembra que, embora o isolamento atual não seja tão rigoroso, já que há muitos meios de comunicação que favorecem o contato social e a continuidade das trocas afetivas, cedo ou tarde, em algum momento sente-se falta do calor das relações em contato presencial, do compartilhamento de momentos na  companhia de outras pessoas. 

“Um outro aspecto interessante do isolamento atual ocorre no  caso de isolamento em convívio com outras pessoas, o contato permanente e forçado, no mesmo ambiente, pode gerar atritos e desgastar as relações, caso os conflitos não sejam bem administrados. Em suma, precisamos de contato sim, o isolamento não é natural”, reitera. 

Para André, os meios de comunicação ajudam mas não suprem totalmente esta necessidade, mas não são suficientes. “Precisamos também de liberdade para estabelecer com quem e quando estabeleceremos o contato que precisamos”, afirma.

COMO LIDAR
Para as pessoas que estão tendo mais tempo com o isolamento, ele aconselha que o melhor é aproveitar o momento para colocar pendências pessoais em dia, organizando as coisas que precisavam organizar dentro e fora de si mesmos. “Deve-se buscar novos aprendizados através de leituras, cursos online, lives de debates”, sugere.

André também recomenda atividades que mexam com o corpo, como exercícios físicos e atividades manuais, até mesmo serviços domésticos como uma limpeza caprichada num momento de maior disposição ou arriscar-se a cozinhar um prato que sempre quis aprender.

“E por que não exercitar talentos, tentando atividades artísticas ou artesanato? Para os que estão com acréscimo de responsabilidades, como continuar trabalhando ou o cuidado de filhos em casa, é interessante tentar criar uma rotina que inclua um tempo só para si, por menor que seja, para um relaxamento e alívio de tensões”, orienta. 

ESFORÇO
Em todo caso, ele diz que é preciso buscar atividades que promovam prazer, alegria e exercitar a solidariedade. “É recomendável aproveitar também para planejar, dentro do que estiver no seu controle, o retorno após isolamento, estabelecendo medidas de segurança para retomada da vida social em contato direto”, ressalta.

André Mandarino define a pandemia como uma surpresa desagradável, que atinge a vida de forma tão ampla, gera um processo de luto pelo que se perde da vida habitual. Da mesma forma, o aumento do desconforto psicológico pessoal pode gerar uma bola de neve no agravamento de conflitos que estavam latentes.

“Nestes casos, é importante buscar ajuda de profissionais especializados do campo psi, muitos estão trabalhando com atendimentos online, ou mesmo presencialmente, nos casos mais graves de emergências psicológicas”, orienta o profissional. 

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Christiano Cavalcante: “mas controlar as pessoas dentro de casa, e durante quatro meses, é uma tarefa praticamente impossível”

NO INTERIOR
Presidente da Federação dos Municípios de Sergipe - Fames-, Christiano Cavalcante, prefeito de Ilha das Flores, garante que a entidade tem acompanhado as cidades do interior nesse sentido. “Nossa atuação maior tem sido na orientação dos gestores e técnicos municipais nos desafios surgidos nas administrações públicas em virtude da pandemia do novo coronavírus”, diz Christiano.

Para ele, esse trabalho tem sido feito diretamente pelos municípios, que são responsáveis pelo primeiro atendimento dos moradores com sintomas da doença. Além disso, as mudanças na legislação, publicação de portarias, medidas provisórias e decretos exige uma atualização constante das equipes, buscando atender às novas normas estabelecidas. 

“Para se ter uma ideia, desde o início da pandemia, já realizamos 40 webinários para os gestores sobre os mais diversos temas. Neles, tiramos dúvidas, orientamos e esclarecemos sobre todas as mudanças que estão acontecendo nas administrações públicas municipais”, revela o gestor.

CONTROLE
Mas ele admite que, infelizmente, os números mostram que os índices de isolamento em todo o estado de Sergipe estão abaixo do ideal. “E afirmo que não é por culpa das prefeituras. Todas as administrações têm feito a sua parte”, reforça.

Segundo Christiano, foram criadas barreiras sanitárias, distribuição de máscaras, álcool em gel, ações de higienização nas feiras livres, ruas e prédios públicos, entre outras ações. “Mas controlar as pessoas dentro de casa, e durante quatro meses, é uma tarefa praticamente impossível”, reconhece.

De acordo com ele, “o esforço tem sido grande de todos os prefeitos e prefeitas com o objetivo de alcançar índices razoáveis de isolamento e assim evitar um colapso do sistema público de saúde”. Ele atribui ao clima de cidade de interior, onde todos se conhecem e acabam estando juntos em algum momento do dia, a dificuldade para o cumprimento do distanciamento social.

COSTUME
“No interior, ainda há aquele costume de ficar na porta de casa, de ir na casa do vizinho, do parente, de conversar com os amigos. O que temos reforçado é o uso da máscara em todas as circunstâncias. E esse novo hábito tem sido colocado mais em prática, contribuindo para a diminuição dos índices de contaminação”, afirma.  

Como presidente da Fames, ele reitera que o comportamento dos municípios nessa pandemia tem sido de muito esforço e aprendizado. “Logo no início, tomamos uma decisão difícil e que poucos imaginavam: cancelar todos os festejos juninos, e isso ainda faltando três meses para junho”, lembra.

“Esforço no sentido de acompanhar e cumprir todas as mudanças na legislação, de agilizar contratações, de montar equipes e, ao mesmo tempo, aprender com os erros e acertos, uma vez que essa doença ainda é um grande mistério para a comunidade científica de todo o mundo”, completa Christiano.

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Dados apontam que segmento de farmácia e mercearias já vivencia praticamente a normalidade de movimento

CASOS
Vale lembrar que há uma relação direta entre o crescimento do número de casos e a baixa adesão ao isolamento. Em Aracaju, os índices de isolamento social, embora sigam a média do Estado e do país, continuam abaixo do ideal: os últimos levantamentos apontam para taxas que ficam abaixo dos 40% de isolamento.

Secretária municipal da Saúde, Waneska Barboza explica que, ao analisar o índice de isolamento social e as taxas de registros de doença, fica clara a relação entre os indicadores. “A melhor medida a ser tomada ainda é manter o isolamento social, o distanciamento entre as pessoas, para que, dessa forma, o serviço de saúde possa ter capacidade para atender a quem precisa”, afirma. 

O governador Belivaldo Chagas também tem chamado a atenção para essa relação. “Estamos fazendo um grande esforço para ampliar o número de leitos e intensificando as fiscalizações da PM e do Procon. Mas, infelizmente, a população não está fazendo a sua parte”, diz Belivaldo. De fato, os últimos dados do Observatório de Sergipe apontam para um “arrefecimento” do isolamento e menos tempo em casa.

DADOS
O Google está usando dados de localização dos usuários para elaborar relatórios com o objetivo de fornecer informações sobre o que mudou em função das políticas criadas para enfrentar a Covid-19. Eles mostram gráficos com tendências de deslocamento ao longo do tempo por região e em diferentes categorias de locais, como varejo e lazer, mercados e farmácias, parques, estações de transporte público, locais de trabalho e áreas residenciais.

O Observatório de Sergipe analisou esses dados e relatórios com o objetivo de contribuir para a reflexão e atuação sobre o problema da Covid-19 em Sergipe. Os gráficos mostram a tendência de mobilidade de lugares como mercados, armazéns de alimentos, feiras, lojas de alimentos gourmet, drogarias e farmácias e constatam que deslocamento de pessoas até supermercados e farmácias e registraram a maior queda em dia útil, de 46%, em 29 de março, logo que as pessoas procuram concentrar suas compras para evitar exposição ao Coronavírus, e/ou recorrem ao delivery.

No entanto, nota-se que a demanda por esse setor vem aumentando expressivamente ao logo do tempo. Com relação à tendência de mobilidade de locais de trabalho, o volume de pessoas se deslocando caiu no máximo 54%, logo no início da quarentena. Depois se estabiliza em torno de -40% em abril, para ir paulatinamente aumentando nos outros meses, até chegarmos ao patamar atual em torno de -23%, em julho.

MOBILIDADE
Nos terminais de transporte público, por exemplo, o volume de usuários que vão até esses locais chegou a despencar 83% em um domingo, logo após o 1º decreto, se comparada a janeiro de 2020. Já em dias úteis, caiu no máximo 75% (26/mar). Foi uma das áreas analisadas de maior retração e estabilidade (passou de abril a junho entre -70 e -60), mas a demanda voltou a crescer em julho.

Quanto à mobilidade em lugares como como parques nacionais, praias públicas, marinas, praças e jardins públicos, podemos ver que a demanda por parques, chegou a despencar 77%, logo após o 1º decreto, se comparada a janeiro de 2020. Depois se estabiliza em torno de -50% e no início de julho teve um pequeno aumento na procura

Por fim, a tendência de mobilidade de áreas residenciais aumentou em média 14,7%, com maiores diferenças nos feriados. Nota-se que essa duração vem se mantendo estável, com pequenas oscilações. A partir de junho e julho, começa a haver um sutil declínio. Dentro desse contexto, chama a atenção o segmento farmácia e mercearias, que mesmo sempre estando aberto, dada a sua essencialidade, depois de redução média de 25% em abril, já vivencia praticamente a normalidade de movimento no mês de julho.

Em todos os segmentos analisados, com diferentes ritmos e intensidades, viu-se o “arrefecimento” do isolamento social, refletido em mais visitas a esses locais e um pouco menos de tempo em casa, quando, na verdade, deveria ser o contrário. Resta torcer para que o lado social do ser humano dê lugar ao lado racional para que, enfim, a curva da doença seja revertida e se possa, de fato, falar em normalidade.

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Segundo os dados analisados, pessoas têm ficado menos em casa