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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Sergipe deixa a desejar na infraestrutura industrial

A logística acaba prejudicada pela subutilização do Porto, pelas péssimas condições das rodovias e pelos altos custos do transporte aéreo de cargas

Sergipe possui uma área territorial de 21.926,9 Km2, uma população estimada de 2.298.696 pessoas e é um dos principais produtores de petróleo e gás do Brasil, exportando mais de 30 produtos. O Produto Interno Bruto – PIB – industrial sergipano é composto pela indústria extrativa, indústria de transformação e o setor energético e chega próximo a 25% do PIB de Sergipe.

Ao longo dos anos, porém, a participação da indústria nessa composição vem caindo, pois já chegou a representar mais de 30% do PIB, que tem se concentrado nas atividades comerciais e de serviços em aproximadamente 70,1%, dentro de uma lógica que caminha o mundo desenvolvido para um peso maior nestes setores.

“Isto vai refletir também nas finanças públicas, pois os tributos oriundos de tais atividades serão os mais representativos na formação da renda interna da economia sergipana”, explica o economista Saumíneo Nascimento, superintendente Geral do Grupo Tiradentes e ex-secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico.

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Produção da indústria esbarra na falta de infraestrutura para ser escoada
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Saumíneo: “nossa infraestrutura existente ainda possui muitos desafios a superar”

ESCOAMENTO
Na opinião dele, praticamente todos os modais utilizados para a atividade necessitam de mais investimentos ou mudanças operacionais, por exemplo. O principal alvo das críticas acaba sendo o Porto, ou Terminal Marítimo Inácio Barbosa – TMIB.

Isso porque, segundo o economista, durante muitos anos, o Porto teve um uso muito restrito, embora ao longo dos últimos anos tenha passado por um processo de mudança em sua gestão, o que, para Rodrigo, tem possibilitado um diálogo mais próximo com a classe empresarial.

“No momento atual, a grande questão a ser enfrentada é a forma de viabilizar a ampliação do uso do porto, através de investimentos necessários, mas que precisam encontrar uma demanda em uma escala que os justifiquem”, argumenta Rodrigo.

MUDANÇAS
De acordo com José Augusto Carvalho, secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico, da Ciência e Tecnologia, a infraestrutura do porto é boa, mas precisa de algumas adequações. “Por exemplo, o porto ainda não tem equipamento de movimentação de contêiner. Mas essas providências estão sendo tomadas”, garante José Augusto.

Os equipamentos a que o secretário se refere são os que armazenam o contêiner no retroporto e os que embarcam e desembarcam os contêineres do cais para o costado do navio e vice-versa, o que ampliaria a capacidade do Terminal e também daria mais celeridade à operação.

Todas essas possibilidades estão sendo discutidas com a empresa que opera o porto, um empreendimento privado. “O governo tem reuniões periódicas com a administração, já que faz parte de um comitê de investimentos que define o futuro dele. Nessas reuniões, o governo aponta todas as necessidades das indústrias locais e suas novas perspectivas”, afirma.

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Rodrigo: “o país inteiro precisa melhorar sua infraestrutura, aumentando os investimentos nessa área”

DIÁLOGO
Segundo o secretário, a pauta dos últimos meses tem sido a necessidade de movimentar contêineres dentro do porto. “Bem como de movimentar outras cargas novas que estão surgindo”, completa José Augusto. As tratativas já resultaram em um avanço: o Porto vai começar a operar cargas do Cencosud, que antes eram recebidas em Salvador e que serão desembarcadas agora no porto de Sergipe.

“Aqui eles encontram mais facilidade do que na capital baiana. A rede Cenconsud encontrou aqui em Sergipe uma área de retroporto abundante, descongestionada e com acessos livres. O que a Cencosud fazia pelo Porto de Salvador, agora irá fazer por Aracaju”, reitera. Segundo Carvalho, num segundo momento, a intenção da Cencosud é a importação direta pelo Porto da Barra dos Coqueiros.

O secretário reforça que o Porto de Sergipe é de propriedade da Petrobras e é administrado pela VLI. “O que o Estado está fazendo é uma interferência política para que a VLI e a Petrobras, na condição de proprietárias, possam investir mais no Terminal”, ressalta.

TERMINAL
Procurada pelo JLPolítica, a VLI afirma que o Terminal movimenta granéis sólidos, granéis líquidos, grãos e conta ainda com a operação offshore da Petrobras, suporte para as embarcações de apoio as plataformas de petróleo próximas à costa e que, por isso, é uma opção para o embarque e desembarque de produtos e insumos de todo o Nordeste do país, já que encontra-se entre os principais mercados da região.

Segundo a VLI, o Porto tem, num raio de 500 km um mercado consumidor de aproximadamente 30 milhões de pessoas e dispõe de píer com mais de 300 metros de extensão, área total de 2 milhões de m², sendo 800 mil m² de área alfandegada e capacidade de movimentação de 2 milhões de toneladas por ano. Para a VLI, o Terminal Marítimo também oferece para a indústria sergipana uma vantagem competitiva: o recebimento de contêineres.

De acordo com a VLI, o Terminal tem capacidade para armazenar mais de 500 compartimentos e, assim, garantir às empresas do Estado os benefícios fiscais da importação de diversos produtos. A empresa ressalta, ainda, que o Porto contribui para um dos maiores projetos de infraestrutura energética em andamento no Brasil. Isso porque, próximo ao TMIB, está sendo construída a termoelétrica Porto de Sergipe I, que será a maior usina do tipo na América Latina com capacidade para fornecer 15% da energia consumida no Nordeste.

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Eduardo Prado: “toda melhoria na infraestrutura é bem-vinda”

CAPACIDADE
Ainda de acordo com a empresa, mais 20 mil toneladas de cargas especiais já foram movimentadas, entre elas, cargas de grande porte, com peso de 300 toneladas e com mais de 30 metros de comprimento. Só em 2018, o TMIB movimentou quase 600 mil toneladas. No mesmo ano, os principais produtos recebidos – importados – foram coque, trigo e fertilizantes. Já entre as cargas exportadas, destacam-se a soja e o concentrado de cobre.

Este ano, o TMIB ampliou o atendimento feito à Votorantim Cimentos. O terminal já recebia coque importado para esse cliente e passou também a embarcar cimento numa operação de cabotagem, que é a navegação entre portos de um mesmo país, para Manaus. Esse contrato reforça o potencial do TMIB como um ativo capaz de ampliar os fluxos de cabotagem no Brasil.

O TMIB é um Terminal de Uso Privado outorgado pela agência reguladora. O consórcio formado pela VLI e Petrobras é responsável pelas operações desde 2014. Ou seja, a operação é feita de forma privada. No entanto, o Consórcio TMIB conta com um comitê de investimentos que avalia propostas e projetos em reuniões. O governo estadual é um parceiro importante e integra esse grupo.

RODOVIAS
Para Rodrigo Rocha, uma outra grande queixa dos empresários nesse sentido é com relação à duplicação da BR-101. “Já se arrasta há muitos anos e dificulta o tráfego no Estado”, critica o economista. Mas, no âmbito estadual, as rodovias também não estão boas.

E o próprio presidente do Departamento de Estradas e Rodagens – DER –, Ancelmo Luiz de Souza, o Estado, atualmente, oferta mais quantidade do que qualidade nesse cenário. “A gente tem 2.200 km quadrados de rodovia asfaltada. Destes, 450 estão ruins”, contabiliza.

Ancelmo está na Presidência do órgão há nove meses, mas ocupou a  Diretoria de Tecnologia do DER por nove anos e, por isso, garante conhecer “beco por beco desse Estado”. “Não posso dizer que, hoje, temos boa infraestrutura rodoviária, porque não temos. Mas estamos lutando para melhorar”, reconhece.

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Ancelmo Souza: “a gente tem 2.200 km quadrados de rodovia asfaltada. Destes, 450 estão ruins”

INVESTIMENTOS
De acordo com Ancelmo, o Governo está buscando recursos para recuperar as estradas, e há uma luz no fim do túnel. “Em novembro, a partir dos bônus dos leilões da Petrobras, que tem previsão de destinar R$ 420 milhões para Sergipe”, revela o presidente do DER.

Segundo ele, o Governo pretende aplicar boa parte desses recursos na recuperação das estradas. “As que estiverem em situação mais crítica serão recuperadas e as que só precisam de reparos passarão por uma manutenção”, detalha Ancelmo Luíz.

Para o presidente, são muitos os pontos mais críticos, como a rodovia entre Graccho Cardoso - Aquidabã; Riberirópolis - Serra do Machado - Moita Bonita – Itabaiana - Lagarto – Riachão do Dantas – Tobias Barreto - Poço Verde - Simão Dias – Pinhão - BR235.

Além disso, na Região Sul do Estado, o trecho mais prejudicado compreende Itabaiana – Arauá – Umbaúba – Cristinápolis - Geru. “A Região Centro-Sul é uma das mais importantes quando se fala em logística de escoamento industrial, porque reúne grandes cidades e grandes produções”, afirma Ancelmo.

MODAIS
“A própria Tobias Barreto é um grande polo de artesanato. Então, toda essa região deverá ser beneficiada com os recursos. Estamos à espera desses investimentos, já que o Finisa acabou não saindo. Mas o Governo tem essa preocupação e tem buscado saná-la”, assegura Ancelmo.

O uso limitado do Porto e a situação precária das rodovias acende a necessidade de se utilizar outros modais, como o aéreo. Mas, de acordo com o economista Rodrigo Rocha, a utilização do aeroporto para transporte de cargas ainda é muito restrita. “Para a exportação, é um modal muito caro, não sendo o seu uso competitivo para a maior parte dos produtos”, admite.

A indústria sergipana tem um destaque especial na produção de alimentos e bebidas, têxteis e calçados, petróleo e gás e minerais diversos e, para Rodrigo, todos esses segmentos sofreriam algum impacto com uma infraestrutura melhor. “Uma infraestrutura mais eficiente tem impacto em todos os segmentos, pois boa parte dos custos de qualquer indústria se refere à logística de distribuição”, reconhece.

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Porto é subutilizado e tem sido alvo de críticas de quem conhece o segmento

LOGÍSTICA
Para Eduardo Prado, presidente da Federação das Indústrias de Sergipe – Fies –, toda estrutura que vier em prol do empresariado é bem-vinda e melhora os investimentos do setor. “Se as melhorias se concretizarem, será de suma importância para o Estado, porque a condição “sine qua non” para o crescimento é ter uma base sólida de forma geral”, avalia Eduardo Prado.

Segundo ele, uma boa estrutura, que compreende, em sua visão, um porto eficiente, energia com fartura, gás com preço competitivo, é o que faz uma empresa – independentemente do tipo dela – se instalar em determinado lugar ou não. “São essas coisas que qualquer empresa analisa, porque elas são fundamentais”, reforça Prado.

O economista Saumíneo da Silva Nascimento, superintendente Geral do Grupo Tiradentes e ex-secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico, ressalta que fazem parte da infraestrutura as rodovias, usinas hidrelétricas, portos, aeroportos, rodoviárias, sistemas de telecomunicações, ferrovias, rede de distribuição de água e tratamento de esgoto, sistemas de transmissão de energia, e muitos outros itens.

AMPLIAÇÃO
Nesse sentido, na opinião de Saumíneo, o Estado de Sergipe possui uma boa malha rodoviária, porém com necessidades de reformas, ampliações, manutenções e duplicações. “O ideal é que todas as rodovias de Sergipe fossem duplicadas, tanto as estaduais quanto as federais. Porém, sabemos das dificuldades de recursos por parte do Governo Estadual para realizar investimentos em infraestrutura”, analisa.

“Imagino que a saída sejam as PPPs (parcerias com o setor privado) para, no que for possível, viabilizar a melhoria deste principal modal de infraestrutura para a indústria sergipana escoar a sua produção”, completa Saumíneo, que cita o aeroporto, que também é habilitado para o transporte de algumas cargas e que, segundo ele, movimenta aproximadamente seis mil toneladas, “mas poderia ser mais utilizado no transporte de cargas industriais”.

Ele tem a mesma opinião acerca do Porto. “É um terminal offshore, que opera cargas gerais como madeira, coque, uréia, trigo, fertilizantes e sucos naturais. A sua capacidade de movimentação e armazenagem são subutilizadas e possuem possibilidade de aumento de uso da capacidade instalada”, argumenta.

MÍNIMA
Em resumo, para Saumíneo, apesar das dificuldades, o Estado possui um mínimo de infraestrutura que possibilita a indústria sergipana escoar a sua produção no Brasil e para o exterior. “A nossa infraestrutura existente, mesmo com ociosidade de uso nos modais aéreo e aquaviário, ainda possui muitos desafios a superar na oferta de uma melhor infraestrutura para o setor produtivo local. Seria importante que conseguíssemos duplicar todas as rodovias as estaduais e as federais, acho que temos possibilidade de construir via a iniciativa privada mais um porto em Sergipe, que poderia ter um uso mais específico”, aponta.

Ele é um dos profissionais que mais conhecem, acompanham e entendem a economia sergipana e explica que a produção industrial do Estado utiliza muito o modal rodoviário, mas necessitaria de uma melhor estrutura no Porto e um maior uso do terminal de cargas do Aeroporto. “Seria muito bom e ajudaria as indústrias locais a recuperar o uso de rodovias no transporte de cargas”, ressalta. Para Saumíneo, boa parte da produção agropecuária, por exemplo, seria uma beneficiária desta melhoria de infraestrutura, além disso, novas plantas industrias poderiam ser atraídas a partir dela.

Ainda assim, Saumíneo atesta tratar-se de um setor fundamental e que precisa da continuidade dos incentivos ficais nas diversas esferas, de mais crédito para o aumento da capacidade instalada e modernização tecnológica, a fim também aumentar a oferta de empregos no setor com remuneração adequada e suficiente para transformar a realidade econômica de Sergipe. “Com a melhoria da infraestrutura poderemos exportar mais e reverter a situação de termos uma balança comercial deficitária”, espera – como todo sergipano.

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ndústria sergipana é pautada na produção de alimentos e bebidas, têxteis e calçados, petróleo e gás e minerais diversos