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Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Tempos difíceis: economia já sofre impactos da disseminação da Covid-19 em Sergipe

Boletim da Sefaz aponta retração de 21,15% no valor das notas ficais ao consumidor e FPE apresentou retração nominal de 6,3%, ou 9,2% em termos reais

Uma pesquisa global da Consultoria EY, que entrevistou online cerca de cinco mil pessoas, apontou que 78% das pessoas saíram de casa apenas para comprar itens como alimentos e remédios; 31% disseram acreditar que terão gastos alterados e 13% dos consumidores planejam fazer cortes profundos nos gastos.

O mais recente Boletim de Impacto da Pandemia sobre as finanças da Sergipe, da Secretaria de Estado da Fazenda, apontou uma retração de 21,15% no valor das notas ficais ao consumidor, na comparação entre abril de 2020 e abril de 2019. A quantidade de notas fiscais emitidas caiu em 28,7%. 

Já o Fundo de Participação dos Estados - FPE - de abril apresentou retração nominal de 6,3%, ou 9,2% em termos reais, equivalentes a queda de cerca de 20 milhões de reais, mas certamente a queda se intensificará nos próximos meses.  

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Índices de comércio e serviços estão cada vez piores
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Ricardo Lacerda: “as atividades econômicas foram muito afetadas, especialmente o comércio varejista, hotelaria, restaurantes”

CRISES SIMULTÂNEAS
Para ele, a ajuda federal demorou. “Foram quase dois meses para chegar aos necessitados. E os impactos são generalizados: no emprego, na renda da população, nas arrecadações do estado e dos municípios,  na intensificação da demanda por políticas públicas na saúde e na assistência social”, afirma. 

“As atividades econômicas foram muito afetadas, especialmente o comércio varejista, hotelaria, restaurantes, atividades culturais e as atividades do setor informal urbano”, completa Ricardo. 

Ele explica que a situação de emprego, por exemplo, foi muito impactado e  poderá se agravar nos próximos meses. “É a marca dessa pandemia: de uma hora para outra, parcela muito extensa da população, em todo o mundo, teve que se recolher em casa , para atenuar a intensidade de contaminação do vírus”, analisa. 

Dessa forma, há, segundo Lacerda, simultaneamente, uma crise pelo lado da oferta, porque a produção e a distribuição de bens e serviços sofrem uma retração abrupta, na medida que as pessoas precisam permanecer em casa, e uma crise pelo lado da demanda, diante da falta renda para consumir de uma larga fração das famílias. 

AJUDA DO GOVERNO
“No curto prazo, diante do fato inescapável de que o isolamento social é a única alternativa para conter o ritmo de contaminação, cabe aos governos injetarem diretamente dinheiro na economia , com um duplo objetivo: de uma lado , socorrer às famílias que de uma hora para outra ficaram sem renda; e,  de outro lado, impedir o colapso da economia por falta de demanda”, sugere. 

Em todo o mundo, Governos têm injetado até 8%  e até mesmo 10% do PIB para impedir o colapso econômico e social, mesmo que isso implique no aumento do endividamento público. “O problema no Brasil é que a resposta do governo federal tem sido muito lenta e insuficiente”, reforça.

Isso porque somente o governo federal tem essa capacidade de emitir títulos de dívida para ampliar os gastos. “Governos estaduais e municipais estão impedidos de emitir dívidas para financiar a ampliação de suas despesas”, reitera.

(DES)EMPREGO
Somente na semana passada, foi aprovada uma ajuda mais substancial do Governo federal para Estados e municípios, no montante de R$ 60 bilhões, quantia que, segundo Ricardo, é insuficiente diante da magnitude da crise. 

“Em um cenário dessa natureza, naturalmente o emprego vem caindo em todo o Brasil. Como o governo federal havia sustado, antes mesmo da pandemia, a divulgação dos resultados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que está sendo substituído pelos registros do E-social, estamos sofrendo um apagão estatístico”, critica. 

Isso significa que não há, hoje, dados precisos de perda de emprego no Brasil e nas unidades da federação. O governo federal informou no dia 23 de abril que já haviam sido concedidos 3,5 milhões de benefícios emergenciais para manutenção de emprego pelas empresas, dos quais 2 milhões eram relacionados à suspensão de contratos, ou seja, os trabalhadores que foram para casa e o governo assume uma fração dos seus salários. 

FATORES
“O montante de desemprego vai depender basicamente de três fatores: da capacidade do país conter a contaminação da virose, do montante de recursos que o governo federal injetar na economia para impedir o colapso do circuito de renda, da gravidade da crise mundial e seus efeitos no comércio internacional”, esclarece. 

Ricardo Lacerda admite que há muitas incertezas sobre o desdobramento dessa crise e que, portanto, é imprudente estipular um número para o desemprego. “Mas há estimativas de que a crise pode gerar até 4 milhões de desocupações no Brasil. Sergipe representa 0,99% das ocupações totais  e 0,83% do emprego formal. Mas tudo depende do comportamento dos três fatores que citamos acima, principalmente da qualidade da resposta que o governo federal dará em termos de controle da contaminação e da injeção de renda  que fará para impedir o colapso econômico. 

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Alexandre Porto: “quase todas as atividades comerciais tradicionais foram afetadas e não somente pela determinação do fechamento, mas pela pandemia em si”

EFEITO DOMINÓ
Por quanto tempo o Estado pode suportar a situação econômica atual? “Isso vai depender da agilidade do repasse e do montante final da ajuda do governo federal para os estados e municípios. Estou confiante, todavia, que o Brasil saberá enfrentar e vencer mais essa crise”, acredita. 

Empresário e ex-presidente da Associação Comercial de Sergipe, Alexandre Porto não tem dúvida de que a pandemia já está provocando efeitos na economia, seja a redução na renda das pessoas, da circulação de dinheiro no mercado ou a retração do consumo.

“O fechamento do comércio tradicional, as incertezas sobre o futuro, o isolamento social, entre outros fatores, têm provocado uma retração na economia e uma redução da confiança de empresários e trabalhadores.  Quando não temos circulação de pessoas, geração de novos negócios e estimulo ao consumo, vivemos uma queda na movimentação de dinheiro no mercado e consequentemente afeta a vida das pessoas”, avalia Alexandre Porto. 

SEGMENTOS
Na opinião dele, setores como turismo e eventos são os mais afetados, já que tiveram suas atividades totalmente paralisadas. “Não há como fazer delivery nesses setores e imaginar vendas antecipadas em um mercado que ainda não se imagina quando retornará. É mais difícil do que em setores onde se espera um tempo de retorno menor”, justifica. 

Mas, segundo ele, todos os setores foram afetados, com exceção dos segmentos essenciais, como gêneros alimentícios, medicamentos e produtos de higiene. “Penso que quase todas atividades comerciais tradicionais foram afetadas e não somente pela determinação do fechamento, mas pela pandemia em si, afinal, mesmo em localidades onde o comércio tradicional tem funcionado, as vendas caíram em função da redução da renda das pessoas e das incertezas”, opina. 

Por outro lado, alguns segmentos tiveram crescimentos expressivos, a exemplo de materiais médico hospitalares, dos serviços de entregas, seja de produtos adquiridos pela internet ou de comida ou compras em supermercados, e de serviços ligados a tecnologia.  

DICOTOMIA
“O fato é que estamos passando por um momento de transformação e, nesse momento, setores serão mais impactados e até sumirão da forma que os conhecemos hoje e outros setores crescerão ou surgirão como novidade”, destaca Porto. 

Nessa pandemia, o que também está bastante claro é que empresários querem uma coisa e poder público, muita vezes, outra. Isso porque os governos têm mantido, por exemplo, o isolamento social e a maioria dos estabelecimentos comerciais fechados. 

Para Alexandre, ambos estão defendendo seus objetivos e propósitos. “Os Governos, pelo menos em sua grande maioria, estão preocupados em salvar vidas e isso significa ter o número de pessoas contaminadas de forma mais lenta para que o serviço de saúde possa se adequar e atender a demanda.  Por outro lado, boa parte dos empresários estão olhando para seus sonhos de vida e desesperando-se por estarem vendo sucumbirem”, analisa. 

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Sefaz emite boletins e a pergunta que fica é: até quando o Estado suportará?

MEDIDAS COMPENSATÓRIAS
Nesse dilema, ele defende que o isolamento social é peça fundamental no retardo da expansão da pandemia, porém, que é preciso fazê-lo com disciplina e com medidas compensatórias para todos e não somente para uma parcela da população.  

“Uma fatia da população pouco ou nada sentiu em relação a sua renda, são os servidores públicos e os trabalhadores formais de serviços essenciais. Outra parcela está sendo atendida com medidas compensatórias, ainda que de forma precária, são os desempregados, a população de baixa renda, os MEIs, etc. Porém, existe uma parcela da população que está abandonada, são justamente os empresários, principalmente os pequenos, que viram seus negócios serem fechados”, diz.

Esses empresários, segundo Alexandre Porto, não possuem reserva de capital, acumulam dívidas nas empresas e, para completar, não têm nenhuma fonte de sustendo alternativa, pois vivem do seu prolabore. “Não é à toa que justamente essa classe que tem gritado para voltar a retornar as atividades comerciais, já que não tem nenhum auxílio do poder público”, pontua.

INCENTIVOS
Vale lembrar que, aos empresários, foi concedida a prorrogação de alguns tributos, assim como medidas de redução na folha salarial e a possibilidade de contrair empréstimos. “O que esperar dessa parcela da população? Naturalmente que, se tivesse sendo atendida de maneira mais efetiva, certamente estariam menos ansiosos e tensos com as medidas de isolamento”, observa.

O IBGE apresentou no último dia 30 de abril, a Pnad Contínua do primeiro trimestre de 2019, onde registra-se um número de desempregados de 12,5 milhões de brasileiros, mostra ainda uma queda de 2,33 milhões de pessoas empregadas entre o primeiro trimestre de 2019 em comparação a 2020 e um aumetno no número de desempregados de 1,22 milhão entre o último trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2020. 

Segundo matéria da Folha de São Paulo e com dados do Ministério da Economia, mais de 800 mil trabalhadores solicitaram seguro desemprego entre 01 de março e 15 de abril e mais 200 mil não puderam solicitar o benefício em função do isolamento social, perfazendo mais de 1 milhão de pessoas.

INCERTEZAS
Alexandre vê o cenário pós-pandemia com muitas incertezas. “É fato que teremos uma grande retração, podendo até chegar a uma depressão econômica mundial. Certamente, haverá um empobrecimento geral da população e serão necessárias medidas dos Governos para injetar recursos na economia, visando a sua recuperação pelos próximos anos”, acredita.

No que diz respeito às empresas, para Alexandre, aquelas que sobreviverem, necessitarão se reinventar, seja em um novo modelo de negócio dentro da sua mesma atividade, seja com a implantação de novos produtos e serviços ou seja com a mudança comportamental da sua política de mercado. 

“O fato é que novos tempos virão e precisaremos estar preparados para enfrentar.  Quem conseguir estar mais preparado e adequar-se a essa nova realidade, estará na frente no mundo dos negócios”, admite. Ricardo Lacerda estima que apenas em 2021 possa haver uma reação da economia.

“Tudo vai depender dos três fatores que citei anteriormente, notadamente da qualidade da resposta que as autoridades econômicas federais darão  em termos de injeção de renda para evitar o colapso do circuito econômico”. 

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Turismo e setor e eventos têm sido bastante prejudicados

DADOS COMPROMETIDOS
Rodrigo Rocha, economia e superintendente do Instituto Euvaldo Lodi - IEL/SE -, explica que ainda é muito cedo para mensurar esses impactos na economia brasileira e sergipana. Isso porque a pandemia passou a afetar a economia brasileira mais direta e intensamente a partir da segunda quinzena de março, e infelizmente algumas pesquisas estão suspensas ou com suas execuções comprometidas.

“Desse modo, as estatísticas disponíveis para mensurar os impactos a partir de março ainda são pouco conclusivas, o que dificulta inclusive a formulação de políticas públicas mais assertivas para a economia”, diz Rodrigo Rocha.

Ele afirma que, apesar de o segmento industrial não ter sido fortemente afetado pelos decretos, em virtude de o ambiente industrial ser bastante controlável, a indústria de uma forma geral também está sentindo bastante o impacto, devido à menor demanda, causada pelo fechamento de empresas e a consecutiva redução da circulação pessoas e das compras dos consumidores. 

PERDA DE RENDA
“Toda essa situação se torna ainda mais grave pela perda de renda e emprego por parte de muitos trabalhadores”, reconhece. Para Rodrigo, é possível e extremamente importante buscar soluções que priorizem a devida atenção à saúde, mas sem descuidar da economia. 

“É evidente que esse trabalho é um grande desafio. Porém, é necessário unir esforços dos setores público e privado na busca de soluções. É isso que muitas entidades, empresas e gestores públicos têm buscado. Dialogar e alinhar as medidas que serão tomadas para diminuir os impactos da pandemia e traçar planos já com vistas à restruturação após o fim da pandemia”, ressalta. 

O resultado da Sondagem Industrial, pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria - CNI -, referente ao mês de março, mostra que a crise desencadeada pela pandemia da covid-19 causou impactos intensos na indústria. Os dados mostram que a queda da demanda forçou uma redução sem precedentes da atividade industrial, que levou a utilização da capacidade instalada ao menor nível já registrado na série mensal, iniciada em 2010.

INDÚSTRIA
“Os setores de Móveis, Produtos têxteis, Vestuário e acessórios, Calçados e suas partes e Impressão e reprodução estão entre os mais afetados. Em março, Perfumaria, sabões, detergentes, produtos de limpeza e de higiene pessoal, Farmoquímicos e farmacêuticos, Químicos e Alimentos registraram impactos menos negativos ou até mesmo positivos, de um modo geral em sua produção, mas como são cadeias produtivas muito diversificadas, algumas destas atividades também estão sofrendo impactos significativos”, revela Rodrigo Rocha.

Com esse quadro, a previsão é de que essa crise gere uma redução significativa nos postos de trabalho, mesmo levando-se em consideração algumas medidas para tentar mitigar os custos dos empregadores ou fornecer algumas alternativas trabalhistas para a preservação de empregos.

“Um quadro de recuperação gradual necessitará de grande cooperação entre as instâncias públicas e privadas. Como ainda é difícil mensurar os impactos totais e a duração da crise, é muito difícil fazer uma previsão mais precisa. Contudo, é certo que, como disse o presidente da CNI, Robson Andrade, “precisamos, ao máximo, preservar empregos para que a retomada, quando vier, se dê em condições menos desfavoráveis”.

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Rodrigo Rocha: “é necessário unir esforços dos setores público e privado na busca de soluções”

RETOMADA?
Essa retomada, porém, ainda é uma grande incerteza. E vai depender de alguns fatores, como explica o professor Luiz Carlos de Santana Ribeiro, doutor em Economia que integra o Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe.

“A  intensidade dos efeitos sobre as economias do Nordeste vai estar associada a três fatores: o tempo que vai durar a quarentena, o grau de dependência da administração pública e as medidas de política compensatória, monetária ou fiscal, por parte do Governo”, ressalta Luiz Carlos.

Ele é autor de um estudo sobre estimação de impactos econômicos da pandemia no Estado, que traz dois cenários hipotéticos a fim de identificar a importância de dois grupos de trabalhadores na economia sergipana.

ESTUDO
No primeiro cenário, há os trabalhadores informais, uma vez que esse grupo é o mais vulnerável, tendo sido afetado direta e imediatamente pela política de isolamento social. O outro é o da retirada de trabalhadores acima de 50 anos, que, segundo dados do Ministério da Saúde, são mais propícios a desenvolver complicações respiratórios caso sejam contaminados pelo vírus.  

“O primeiro cenário geraria um custo econômico mensal de quase R$ 866 milhões para a economia sergipana. Isso seria equivalente a 3,29% do PIB sergipano atualizado  a valores de 2019. Já o 2º cenário geraria impacto mensal de R$ 548 milhões, o que equivaleria a 2,09% do PIB Sergipe do mesmo ano”, revela Luiz Carlos.

As simulações também mostram que entre os setores de serviços mais impactados estão os de transporte, educação, serviços prestados às famílias e às empresas; assim como o comércio, que também cai, mas em menor magnitude.

SERVIÇOS
Em nossas simulações, consideramos os setores essenciais da economia, como agropecuária, fabricação de alimentos e bebidas, serviços industriais de utilidade pública – geração de energia e distribuição de água, por exemplo –, saúde e administração pública. “Todos eles, ainda que sejam essenciais, sofrem queda, mesmo que continuem operando normamente”, destaca.

Apesar disso, para o professor Luiz Carlos, é mais fácil visualizar os impactos imediatos no setor de serviços, potencializado pelo fechamento de shoppings e lojas, e que contém os agentes econômicos mais vulneráveis da economia, que são os informais; além das micro e pequenas empresas.

“Um levantamento nacional apontou que mais de 600 mil já fecharam as portas no país. E é difícil mesmo se manter, uma vez que não estão tendo receita de vendas”, afirma. Na Junta Comercial de Sergipe – Jucese –, segundo a Assessoria de Comunicação, de janeiro a abril deste ano, foram registradas 832 baixas de empresas, contra 983 no mesmo período do ano passado.

Somente em abril, primeiro mês completo de quarentena no país e no Estado, foram 165 empresas fechadas, contra 223 no mesmo período de 2019. Vale lembrar que, mesmo sem atendimento presencial, a Jucese continua prestando os serviços online.

Os dados são um retrato fiel do atual momento econômico, que vê, numa relação diretamente proporcional, os números de casos de covid-19 aumentarem literalmente dia após dia e os da economia descerem vertiginosamente. São empregos, empresas e rendas cada vez menores e mais comprometidas por uma crise que ainda não se sabe quando ou como vai parar.

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Luiz Carlos acredita que a intensidade dos efeitos sobre as economias do Nordeste vai estar associada a alguns fatores