“Eu comparo o Canal de Xingó a um poderoso rio”

Por Jozailto Lima
20 mar 2017, 08h38

Esta afirmação não é de um leigo. De um mero torcedor de que o Estado de Sergipe ganhe, com o Canal de Xingó, um belo e novo caudal de água a serviço de gentes, dos bichos e da agricultura. Ela é do engenheiro civil Renato Conde Garcia, 69 anos, e uma figura de proa quando o assunto é recursos hídricos em Sergipe.

Veja o comparativo completo que salta da frase inteira de Conde Garcia e sinta o peso da afirmação: “Eu comparo esse Canal a um poderoso rio, que veiculará uma vazão de 36 metros cúbicos por segundo, serpenteando toda a região sofrida do semiárido. Comparativamente, para o abastecimento de toda a população sergipana hoje não produzimos 10 metros cúbicos por segundo”, diz ele.

O Canal de Xingó, que é promessa dos Governos da União e do Estado há mais de 20 anos, voltou à pauta ultimamente com o governador Jackson Barreto se mobilizando para unir a classe política estadual e convencer a execução de um projeto executivo que termine dando, afinal, na realização da obra.

Nesta hora, o engenheiro Renato Conde Garcia, autor do livro “Linha Mestra Xingó”, (edição do autor, 100 páginas, publicada no ano passado) é uma voz sensível e importante a ser ouvida. Os sistemas integrados, que compõem as adutoras atuais que abastecem o Estado, foram por ele concebidos, e executados pelo governador Augusto Franco, ampliados posteriormente por todos os demais governadores.

Isso corresponde aos Sistemas Integrados do Alto Sertão, do Agreste e Piauitinga, além da Adutora do São Francisco. “O Plano está esgotado e, por tal, me debrucei para apresentar uma nova concepção que resultou no “Linha Mestra Xingó””, diz Conde Garcia. Mas o Canal de Xingó, como está pré-concebido, equivale ao quê mesmo? Tem que configuração? Parte de onde para onde? “Ouça” o que Renato Conde Garcia diz.

“O Canal parte da barragem Paulo Afonso IV, iniciando por um túnel escavado na rocha com 4 quilômetros de extensão e 5,6 metros de diâmetro. Após o túnel, haverá uma bifurcação. Parte vai para terras de Santa Brígida e Paulo Afonso, no Estado da Bahia, e parte adentra as terras sergipanas, para atingir os municípios de Canindé, Poço Redondo, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória, onde os estudos demonstraram a existência de terras propícias à agricultura irrigada”, diz Renato.

Renato Conde Garcia é graduado pela Escola Politécnica da Bahia, especialista em Estrutura de Concreto Armado, com Suficiência Investigativa em Administração pela Universidade de Valladolid/Espanha. Ele é de Aracaju e já exerceu a condução de grandes projetos do Estado, a exemplo das Adutoras do São Francisco, do Porto de Sergipe e do Polo Cloroquímico. Casado com a professora da UFS Ana Rosimere, tem dois filhos e morre de amores pelo Centro Hípico Atlântico, um espaço de 25 mil metros quadrados na Rodovia dos Náufragos, na Aruana, onde guarda cavalos raros e recebe quase 100 alunos que variam de dois a 72 anos. Vale a pena ver esta entrevista com ele ao JLPolítica.   JLPolítica – Como é que senhor vê esta retomada da discussão em torno do Canal de Xingó?

Renato Conde Garcia – Vejo com extrema concordância e simpatia pela atitude do governador Jackson Barreto que, num gesto estadista, tenta reunir a bancada para avançar esse projeto que considero a redenção hídrica de nosso Estado.   JLPolítica – O senhor teme que a falta de unidade da classe política sergipana empurre a obra para um sem-fim e uma não-realização?

RCG – Os nossos representantes, especialmente os senadores Antônio Carlos Valadares, Eduardo Amorim e Maria do Carmo, são pessoas lapidadas e nunca colocariam os interesses partidários acima do interesse coletivo. Tanto eles quanto todos os oito deputados federais levantarão a bandeira branca, num armistício, para atender à necessidade de apoio ao governador para tão grandioso projeto.   JLPolítica – O modelo canal serve ao abastecimento humano também. Qual a vantagem ou desvantagem dele em relação às adutoras?

RCG – Um canal, tanto quanto uma adutora, é um meio de transporte para um fluido, no caso a água. Ambos iniciam em determinado ponto e terminam em outro, onde se instalam unidades de tratamento ou reservatórios que servirão ao abastecimento humano, industrial ou para agricultura irrigada. Não há vantagens ou desvantagens de um em relação ao outro. O que há é que um canal transporta o fluido sujeito a pressão atmosférica, enquanto as adutoras estão sob pressões bem maiores, e se prestam para vencer altitudes.   JLPolítica – A primeira e maior finalidade do Canal de Xingó seria a agricultura ou o suprimento de água para humanos?

RCG – Esse foi um dos grandes problemas com que me deparei ao ler as conclusões do projeto elaborado. O canal foi concebido para atender apenas o suprimento de pequenas comunidades ao longo do seu trajeto e praticamente toda sua vazão foi destinada para projetos de agricultura irrigada.   JLPolítica – Geograficamente, qual seria o traçado do Canal de Xingó? Ele faz muito zigue-zague?

RCG – Segundo a concepção do projeto em vigor, o Canal parte da barragem Paulo Afonso IV, iniciando por um túnel escavado na rocha com 4 quilômetros de extensão e 5,6 metros de diâmetro. Após o túnel, haverá uma bifurcação, parte vai para as terras de Santa Brígida e Paulo Afonso, no Estado da Bahia, e parte adentra as terras sergipanas, para atingir os municípios de Canindé, Poço Redondo, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória, onde os estudos demonstraram a existência de terras propícias à agricultura irrigada. De Paulo Afonso até o seu final em Glória, é um zigue-zague sem fim, pela necessidade de se acompanhar as curvas de níveis que permitam a água descer por gravidade. Compare-se: de ponta a ponta, cortando todo o Estado de Sergipe no sentido Norte-Sul, de Canindé a Tobias Barreto, a distância de condução é de 233 quilômetros. A previsão do canal é de uma extensão de 305 km.   JLPolítica – A proximidade de sua realização pode provocar um boom de especulação das terras da divisa com a Bahia até Nossa Senhora da Glória?

RCG – Sim. Por que não? Veja: com o Canal de Xingó, um rio perene correrá serpenteando novas terras, embora haja restrições ao uso dessa água. Mas a natural possibilidade de desenvolvimento de projetos agropastoris irá certamente valorizar muito essas áreas. A terra é boa. Tem muita vida, e quando irrigada de forma permanente formar-se-á um oásis de riqueza. Diante disso, há de se esperar uma natural transformação na valorização.

JLPolítica – A operacionalidade desse canal não seria muito cara? Vai exigir bombeamento ou a água dele é captada por gravidade?

RCG – O projeto elaborado pela Codevasf é por gravidade. Não haverá custos com energia elétrica até os pontos definidos – reservatórios a céu aberto, de onde partirão os bombeamentos para os projetos de irrigação.   JLPolítica – Em seu livro, o senhor afirma que o Canal de Xingó é uma obra que vale um Governo. Por que esta dimensão toda?

RCG – Vale até mais de um. Vale muitos governos, porque não é obra de um só governo. Estamos falando de uma obra que prevê um custo de R$ 4,5 bilhões para sua implantação. Eu comparo esse Canal a um poderoso rio, que veiculará uma vazão de 36 metros cúbicos por segundo, serpenteando toda a região sofrida do semiárido. Comparativamente, para o abastecimento de toda a população sergipana hoje não produzimos 10 metros cúbicos por segundo.   JLPolítica – Qual seria a síntese de “Linha Mestra Xingó”, seu livro lançado no ano passado?

RCG – Meu livro traz severas críticas ao abandono do rio São Francisco. Tece considerações para um reestudo do traçado do canal e apresenta uma concepção para resolver o problema do abastecimento de todos os municípios sergipanos a partir da água desse canal. Todos os mananciais hoje existentes já estão sendo explorados pela Deso e nenhum deles permite mais qualquer ampliação. Toda a água terá que vir do Rio São Francisco, o único manancial que suportaria essa envergadura. Essa é a minha visão, e o livro apresenta essa proposta de solução.   JLPolítica – Melhorou a procura do seu livro a partir do momento em que o governador Jackson Barreto o adotou para conhecer melhor a causa do canal?

RCG – O livro não tem nenhuma pretensão comercial. É um livro de alerta, de chamamento aos problemas hídricos de nosso Estado, cujo abastecimento poderá entrar em colapso em breve tempo. E esse alerta não tem preço.   JLPolítica – Quando se fala no Canal de Xingó, de imediato vêm à lembrança o sertão e o semiárido. Apesar de se limitar geograficamente a estas duas regiões, ele tem que significado para o resto Estado?

RCG – É exatamente esse ponto um dos mais importantes do livro. Os sistemas integrados, que compõem as adutoras atuais que abastecem o Estado, graças a Deus também foram por mim concebidos, e executados pelo governador Augusto Franco, ampliados posteriormente por todos os demais governadores até hoje. Na época denominei de Plano de Adutoras e o Dr. Augusto Franco, com sua visão desenvolvimentista e visionária, entendeu de pronto a proposta e pôs tudo em prática, tanto que realizou no seu governo os Sistemas Integrados do Alto Sertão, do Agreste e Piauitinga, além da Adutora do São Francisco. Mas o Plano está esgotado e, por tal, me debrucei para apresentar uma nova concepção que resultou no “Linha Mestra Xingó”.   JLPolítica – De quantos quilômetros seria formado o Canal de Xingó em todas as suas fases?

RCG – Como antes me referi, serão 305 quilômetros. No livro, apresento a necessidade de se reanalisar esse traçado – aliás, já estudado pelo projeto que está sendo desenvolvido pela Codevasf. Partindo do reservatório da Barragem de Xingó, o canal se reduz a 198 quilômetros, o que traria o custo da obra a R$ 1,5 bilhão.   JLPolítica – Existe alguma semelhança entre um canal como este que se discute para Sergipe e os projetos irrigados de Petrolina e Juazeiro?

RCG – Sim, existe. Petrolina e Juazeiro foram perímetros implantados pela Codevasf na década de 1960 e hoje são oásis de riqueza. É o que se pretende para o semiárido sergipano.

 JLPolítica – Pela sua visão, uma obra dessa duraria que período?  RCG – Depende. Se partir de Xingó, cinco anos. Se partir de Paulo Afonso IV, 10 anos.

JLPolítica – O senhor não teme que quando a obra do Canal de Xingó fique pronta o São Francisco não suporte mais supressão extra de água?

RCG – O São Francisco está moribundo. Destruíram toda a floresta de seus afluentes e de seu curso. As áreas adjacentes às suas margens estão em processo de desertificação. É uma vergonha nacional o que se fez com esse grande rio. As autoridades lhe deram as costas. Se hoje fosse definida a sua recuperação, isso levaria 100 anos. É triste, muito triste!   JLPolítica – O senhor se soma aos que temem que o São Francisco possa morrer em breve?

RCG – Meu Deus! É hora de rezar!   JLPolítica – O que deve ser feito de Minas a Sergipe, do ponto de vista institucional e ambiental, para garantir mais vida e maior longevidade ao São Francisco?

RCG – O presidente da República e os governadores dos Estados que formam sua bacia são os principais responsáveis. Primeiro, a decisão: salvar o São Francisco. Talvez seja o São Francisco o rio mais estudado do mundo. Muitos sabem o que fazer para recuperá-lo. O que falta é decisão por parte do presidente da República e do Conselho de Governadores.   JLPolítica – Um canal como o de Xingó poria fim à indústria do carro-pipa no sertão e no semiárido?

RCG – Infelizmente não, mas, permitiria as ações para que um dia eles deixassem de existir. Apesar de moribundo, o São Francisco despeja por hora o equivalente a 250 mil carros-pipa no mar. É preciso se exigir a reserva legal das propriedades e do rio e a preservação das nascentes. Atualmente, com a crise do clima, parece que o diabo se assentou por lá. Não há uma árvore e o chão está queimado. Um inferno.   JLPolítica – A primeira e maior finalidade do Canal de Xingó seria a agricultura ou o suprimento de água para humanos?

RCG – Não há o que discutir: a prioridade haverá de ser sempre o suprimento humano e animal. ​