Articulista
Aurélio Belém do Espírito Santo

É advogado e ex-diretor da OAB-SE. Escreve às terças.

Relembrar para nunca esquecer: 50 anos do golpe mais violento da história latina, o do Chile!
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Augusto Pinochet: imagem de um tirano a mais a borrar a imagem da democracia da América

“E a minha voz nascerá de novo, talvez noutro tempo sem dores, e nas alturas arderá de novo o meu coração ardente e estrelado” - Pablo Neruda

No último dia 11 completaram-se 50 anos do golpe militar de estado que instaurou a ditadura no Chile, comandada pelo então Chefe das Forças Armadas Chilenas, o general Augusto Pinochet, que liderou o cerco ao Palácio de La Moneda, que foi bombardeado e deu causa à morte do então presidente eleito Salvador Allende - médico e político social-democrata, fundador do Partido Socialista. Há controvérsias se fora suicídio ou assassinato pelas tropas invasoras do palácio.

O regime sanguinário de exceção perdurou por longos 17 anos - de 1973 a 1990 -, sendo considerado o mais violento golpe da América Latina no século XX, com números estarrecedores de mais de 40 mil vítimas, sendo 3.200 mortos ou desaparecidos.

Segundo dados oficiais de 2004, da Comisión Nacional sobre Prisión y Tortura – CNPPT -, 28.459 pessoas sofreram prisões políticas e tortura no país. No entanto, mais de um terço nunca se envolvera com a militância política. A repressão militar foi tamanha que exigiu o uso do Estádio Nacional do Chile como presídio para conter aqueles considerados subversivos.

Infelizmente, o ano de 1973 não só empurrou o Chile para o abismo tenebroso dos porões da tirania, como também silenciou a voz e derrubou a pena do maior poeta de língua espanhola, o também político - senador e diplomata - Pablo Neruda, que morreu aos 69 anos, juntamente com a velha democracia chilena, 12 dias depois do golpe, provavelmente devido ao câncer de próstata metastático, todavia há quem defenda a versão de assassinato por envenenamento pela bactéria clostridium botulinum, conforme divulgou um grupo de cientistas.

No contexto acirrado da guerra fria, a ditadura chilena foi fruto da estratégia política estadunidense para derrubar o governo do primeiro político socialista eleito pelo voto popular, tal qual ocorreu em outros países latino-americanos, a exemplo do Brasil, cujo golpe civil-militar de 1964 contou com o decisivo apoio norte-americano. Allende fora eleito em 1970, numa coalisão de partidos de esquerda denominada Unidade Popular.

No campo econômico, o governo Pinochet aboliu benefícios sociais e se fez entreguista, adotando uma política neoliberal, cujo plano fora traçado por um grupo de jovens economistas chilenos egressos da Universidade de Chicago, EUA, conhecidos como Chicago Boys, o que aumentou a desigualdade social no país.

A ditadura só encontrou seu final em 1990, quando uma coalizão oposicionista venceu o referendo e decretou o fim do regime ditatorial de Pinochet. Com isso, tomou posse o presidente Patricio Aylwin. Contudo, infelizmente, as marcas da ditadura chilena ainda não foram apagadas pelos 33 anos de democracia. A maior prova viva dessa renitência caudilhesca é a permanência em vigor da Constituição Política da República do Chile, escrita por um “grupo de notáveis” e outorgada em 1980 por Pinochet, a décima na história chilena.

Embora a ditadura tenha sido derrubada, a luta da democracia chilena ainda não foi vencida, eis que a proposta de nova constituição não foi implementada. Após as intensas manifestações populares de 2019/2020, 80% dos chilenos decidiram, em plebiscito, aposentar a Constituição de 1980.

Dois anos depois, a proposta de nova constituição, redigida pela Assembleia Constituinte, foi rejeitada por um conselho de legisladores eleitos. Com isso, atualmente, a pedido do presidente Gabriel Boric, está em discussão a segunda proposta da nova constituição chilena.

A esperança é que as mais diversas forças políticas em reunião consigam encontrar um denominador comum e ajustar um texto que avance no contexto social-democrático e possa desbancar de vez a herança maldita do autoritarismo. 

Mas voltando para o nosso quintal, o que chama atenção e exige reflexão é que tamanha brutalidade não é algo distante, antigo ou medieval, mas bem próximo da nossa geração, basta atentar que o regime ditatorial chileno só foi derrubado em 1990, quando este articulista já contava com 11 anos de idade.

A propósito, no último domingo, 10, relembrou-se a data com abertura da exposição sobre a ditadura chilena e a morte do poeta Neruda no Museo de La Memoria y Los Derechos Humanos de Santiago, situado Bairro Yungay, considerado maior museu da ditadura militar sul-americana. Inaugurado em 2010, o projeto foi tocado por um escritório de arquitetura brasileiro - Estúdio América -, que ganhou o concurso público promovido pelo Ministério de Obras Públicas Chilenas.

Enfim, penso que a ideia de construção do museu é grande passo para superação do passado nefasto e deve servir como exemplo para os países vizinhos - incluindo o Brasil, marcado por infames anistias - todos vítimas da mesma opressão e violência oportunista.

 

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Telma
Vamos, amigo, lute. Vamos, irmão, agora, levante e lute, senão a gente acaba perdendo o que já conquistou. São as palavras do compositor Edson Gomes que me ocorrem enquanto leio
Maurício Nascimento
Corrigindo: A segunda ditadura mais sanguinária da América Latina. A primeira mais sanguinária sem dúvida é a ditadura comunista cubana.
Ana Patrícia Arango
Perfeito relato , é a lembrança , de uma época que nunca será esquecida , um governo que , além de genosida, afetou famílias, e economia LATINOAMERICANA...como disse o famoso escritor ERNESTO SABATO... no seu livro "Las venas abiertas de LATINOAMERICA".. que a história, nos façarefletir. Excelente artigo , parabéns Dr Aurélio Belém do Espiritu Santo