Articulista
Alê Cavalcanti

É jornalista, cronista e poeta, autora do livro "Letras Jardineiras". Escreve às sextas.

O dia em que o bolo de rolo desenrolou uma saudade
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Aquela massa finíssima, quase translúcida, enrolada em camadas delicadas de goiabada, exige precisão, paciência e afeto

Tem coisa que a gente come com a boca. E tem coisa que a gente come com a memória.

Essa semana, confesso, exagerei um pouco - e sem o menor remorso. Comi mais bolo de rolo do que o habitual. Culpa da amiga e colega de trabalho, Júlia Lucena, que tem mãos de fada e faz um dos melhores que já provei. Como se não bastasse, ela ainda preparou um bolo lindo e especial - estilo naked cake -, desses que a gente come primeiro com os olhos, para celebrar as nossas queridas Mariza Araújo, que aniversariou no comecinho de abril, e Bruna Carla, que completou mais um ciclo no dia de Tiradentes, 21.

E, como pernambucana que se preza, não parei por aí: às vésperas do feriado, passei na padaria, garanti camadas extras de doçuras e fiz o que precisava ser feito - bolo de rolo e café. Ritual completo. Porque o bolo de rolo não é só um doce. É patrimônio.

É oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco. E, mais do que isso, é símbolo. Da nossa história, da nossa adaptação - dizem que nasceu da releitura do antigo “colchão de noiva” português, ajustado ao nosso açúcar e à nossa delicadeza -, da nossa capacidade de transformar simplicidade em arte.

Aquela massa finíssima, quase translúcida, enrolada em camadas delicadas de goiabada, exige precisão, paciência e afeto. Não é só receita. É ofício.

E, talvez por isso, ele carregue tanto. Porque há sabores que fazem mais do que agradar – eles despertam. E foi assim, no meio de garfadas despretensiosas, que aconteceu. O bolo de rolo desenrolou uma doce lembrança. Veio sem pedir licença. Veio inteira. Minha avó.

Vovó Dapaz. Ela amava bolo de rolo.

E eu amava levar para ela daqueles em miniatura, numa tentativa – sempre meio frustrada – de controlar o entusiasmo dela com o doce. Porque, convenhamos, havia ali uma formiga-mor. E eu, naturalmente, herdei o cargo de formiguinha-neta.

Nós duas sabíamos que era pouco. Mas fingíamos que não. Era o nosso acordo silencioso. Ela comia devagar, como quem respeita o prazer. Eu observava, satisfeita, como quem entende que certas alegrias não devem ser interrompidas.

E vocês, caros leitores, podem ficar despreocupados: esse tipo de lembrança doce não costuma dar formiga. Dá outra coisa. Dá saudade.

Vovó nos deixou em 25 de fevereiro de 2025. Há um ano e dois meses. E a saudade… bem, a saudade não vai embora. Mas muda. É, automaticamente, ressignificada – e precisa mesmo ser, para que não enlouqueçamos. Antes, ela vinha como ausência. Hoje, em boa parte das vezes, ela vem como doçura. Vem assim: inesperada, leve, quase gentil. Como esse pedaço de bolo que, de repente, não era só bolo. Era encontro. Era memória. Era presença de outro jeito. 

E eu fiquei pensando no quanto é bonito quando a vida permite isso. Quando a lembrança não chega só para doer. Quando ela chega também para aquecer. Para lembrar que houve amor. Que houve riso. Que houve partilha.

Alê - ao centro, vestindo preto - e sua entourage: celebrando a vida com doçura e afeto

E, talvez, seja também por isso que eu quis escrever esta crônica. Porque ela não é só sobre saudade. É também sobre celebração. Sobre o talento delicado de Júlia, que transforma ingredientes em afeto.

Sobre o novo ciclo de Mariza e Bruna, que chegou rodeado de cuidado e beleza. E sobre essa capacidade tão nossa, de transformar o simples em algo que permanece.

Talvez, seja isso que a gente precise aprender com o tempo: nem toda saudade precisa ser pesada. Algumas podem ser degustadas. Devagar. Como um bom bolo de rolo. Com café. E com um sorriso meio úmido no canto da boca.

Porque, no fim das contas, há lembranças que não se apagam. Elas apenas se enrolam dentro da gente. E, vez ou outra, a vida vem e - delicadamente - desenrola.

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