Articulista
Alê Cavalcanti

É jornalista, cronista e poeta, autora do livro "Letras Jardineiras". Escreve às sextas.

O pão que cada um amassa
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Ainda assim, a gente segue. Cada um com sua massa. Com seu tempo de forno

Dizem que cada um sabe onde o sapato aperta. Eu diria mais: cada um sabe o pão que amassa.

E não é só o pão literal, aquele da cozinha, do café da manhã, da rotina que começa cedo. É o pão invisível: o da vida. Aquele que a gente prepara todos os dias, muitas vezes sem receita, sem descanso e, quase sempre, sem plateia.

Há um tipo de trabalho que ninguém vê. Não aparece em currículo, não rende promoção, não dá bônus no fim do mês. Mas sustenta. E como sustenta!

É o trabalho de continuar quando se está cansado. De levantar mesmo quando o corpo pede mais um pouco de silêncio. De organizar o dia enquanto a cabeça ainda está tentando entender a noite anterior.

É o trabalho de quem cuida. De quem escuta. De quem segura as pontas. De quem se mantém de pé, mesmo quando tudo por dentro parece meio desalinhado.

E há também o outro lado. O trabalho que aparece. O que tem crachá, meta, entrega, prazo. O que se mede, se avalia, se cobra. O que ocupa horas, define rotinas, constrói caminhos. Esse a gente reconhece com mais facilidade. Esse a gente nomeia.

Mas, curiosamente, nem sempre é o mais pesado. Porque o peso não está apenas no que se faz. Está no que se sente enquanto se faz.

Eu conheço gente que trabalha muito e vive leve. E conheço gente que, mesmo fazendo pouco aos olhos dos outros, carrega um cansaço difícil de explicar.

Porque há dias em que o trabalho maior não é produzir. É sustentar. Sustentar a própria sanidade. Sustentar a calma. Sustentar o afeto. Sustentar a esperança de que, apesar de tudo, vai dar certo.

E isso também é trabalho. Talvez o mais difícil de todos.

A gente cresce ouvindo que é preciso “ganhar o pão”. E é mesmo. Mas ninguém ensina direito que, antes disso, existe o trabalho de não deixar o pão endurecer dentro da gente.

De não endurecer o olhar. De não endurecer o gesto. De não endurecer a forma de existir. Porque viver exige um tipo de delicadeza que também cansa. E muito.

Ainda assim, a gente segue. Cada um com sua massa. Com seu tempo de forno. Com suas tentativas - às vezes acertadas, às vezes nem tanto.

Tem gente que sovou demais e ficou dura. Tem gente que cresceu bonito. Tem gente que ainda está tentando entender o ponto. E está tudo bem.

No fim das contas, talvez o mais honesto seja isso: cada um sabe o pão que amassa. 

E, por isso mesmo, talvez a gente devesse olhar mais para o outro com menos julgamento e mais cuidado. Porque ninguém vê tudo. Mas todo mundo carrega alguma coisa. E isso, por si só, já merece respeito.

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