
Tiradentes: um corpo punido vale como recado coletivo
Todo feriado nacional revela menos sobre o passado do que sobre o presente. Não se interrompe o funcionamento de um país apenas para recordar mortos ilustres. Suspende-se a rotina para reafirmar valores, fabricar consensos ou encenar memórias.
O feriado de Tiradentes, que enfrentamos na última terça, pertence a essa categoria. Ele não existe apenas para homenagear Joaquim José da Silva Xavier, o alferes executado em 1792. Existe para lembrar - ou ao menos fingir lembrar - que a liberdade, no Brasil, custou caro e sempre encontrou inimigos bem instalados.
Joaquim José da Silva Xavier não foi, em vida, o herói solitário que a iconografia posterior inventou. A própria imagem consagrada - barba longa, aparência quase messiânica - é construção republicana tardia, deliberadamente inspirada em modelos cristológicos. A República precisava de santos cívicos. Monarquias se apoiam em linhagens; repúblicas, em mitos fundadores.
Tiradentes serviu perfeitamente ao papel: militar de baixa patente, homem comum, punido pelo poder colonial, capaz de representar a ideia de resistência sem ameaçar demais as elites que o transformaram em símbolo. Esse detalhe importa.
O Brasil frequentemente canoniza figuras que, em seu tempo, desprezou. Depois de mortos, tornam-se seguros. Em vida, perturbavam. Mortos, ornamentam calendários. É um velho expediente nacional: neutralizar ideias radicais convertendo seus autores em bustos de praça.
A Inconfidência Mineira foi movimento complexo, ambíguo, formado por setores distintos e cheio de contradições. Havia ali desejo de autonomia, ressentimento fiscal, influência iluminista e também limites evidentes: não era revolução popular nos moldes modernos, tampouco projeto plenamente igualitário. Ainda assim, continha algo decisivo: a recusa ao arbítrio distante e à espoliação institucionalizada. Isso permanece atual.
Muda o século, mudam os figurinos, persistem velhos mecanismos. A relação entre sociedade e poder continua atravessada por excessos tributários mal explicados, burocracias opacas, privilégios corporativos e distância entre governantes e governados. O contribuinte brasileiro, muitas vezes, ainda se sente súdito. Não de Lisboa, mas de estruturas que arrecadam muito, entregam pouco e se explicam mal.
O legado de Tiradentes não está em slogans escolares, tampouco em sentimentalismo cívico. Está em perguntas incômodas. Quem paga a conta do Estado? Quem se beneficia dele? Quais instituições servem ao público e quais servem a si mesmas? Até que ponto a lei protege direitos ou apenas organiza hierarquias? Essas perguntas são mais perigosas do que qualquer efígie.
Há também uma lição moral relevante. Tiradentes assumiu, em larga medida, o peso exemplar da repressão portuguesa. Outros conspiradores receberam penas menores, exílio ou clemência. Ele foi enforcado e esquartejado para que o poder ensinasse medo. Toda ordem autoritária precisa de pedagogia do medo: um corpo punido vale como recado coletivo. A história está repleta disso, do Império Romano às ditaduras modernas.
Por isso sua memória não deveria ser protocolar. Ela deveria vacinar o país contra a naturalização do abuso. Quando cidadãos passam a achar normal censura arbitrária, perseguição seletiva, privilégios intocáveis ou decisões sem transparência, o espírito de 21 de abril se torna mera decoração.
Também convém reconhecer uma ironia: o Brasil gosta de celebrar rebeldes no feriado e obedecer resignado no dia útil seguinte. Exalta Tiradentes na segunda-feira e aceita servidões na terça. A distância entre homenagem e prática é um dos traços mais persistentes de nossa vida pública.
Se quisermos levar Tiradentes a sério, o gesto exigido não é colocar flores simbólicas nem publicar frases solenes. É fortalecer instituições responsáveis, limitar poderes sem controle, exigir racionalidade fiscal, proteger liberdades civis e cultivar coragem cívica. Liberdade não se herda; administra-se diariamente.
Feriados nacionais, no fundo, são espelhos. O de Tiradentes pergunta ao Brasil se somos uma República de cidadãos ou apenas uma colônia com tecnologia melhorada. A resposta, como quase sempre, ainda está em disputa.


















