
Valmir de Francisquinho: sua fala não pode ser medida pela régua do ato falho!
A política brasileira ainda convive com declarações que revelam muito mais do que opiniões pessoais. Revelam mentalidades atrasadas, autoritárias e incompatíveis com a democracia.
A fala do ex-prefeito de Itabaiana e pré-candidato ao Governo de Sergipe neste ano, Valmir de Francisquinho, ao afirmar que “mulher minha na política não, mulher minha na política, esquece”, é um exemplo claro disso.
Esta não se trata apenas de uma frase infeliz. Na verdade, há muitas camadas ruins embutidas nela. Pra começar, a declaração carrega a ideia de posse sobre a mulher, como se ela precisasse de autorização masculina para ocupar espaços públicos, tomar decisões ou construir sua própria trajetória.
Quando alguém diz “mulher minha”, reduz uma mulher à condição de propriedade. E isso, em pleno 2026, é inaceitável. Mas a fala também escancara outro problema histórico: o desprezo pela participação feminina na política.
Ainda hoje, muitas mulheres enfrentam resistência, violência política, descredibilização e ataques simplesmente por ousarem ocupar espaços de poder tradicionalmente dominados por homens.
É justamente por isso que a presença feminina na política precisa ser fortalecida. Não como favor, concessão ou estratégia eleitoral - viu, Valmir? -, mas porque democracia de verdade exige pluralidade, diversidade e representatividade.
Mulheres precisam estar nos parlamentos, nas prefeituras, nos governos e nos espaços de decisão porque fazem parte da sociedade e conhecem, muitas vezes de forma direta, problemas que durante décadas foram ignorados pelo olhar masculino na política.
Defender maior participação feminina na cena política não é “ideologia”. É compromisso democrático. É entender que políticas públicas mais eficientes surgem quando diferentes realidades estão representadas à mesa.
E talvez o mais simbólico dessa declaração de Valmir seja justamente o que ela revela sobre quem a fez. Um líder público incapaz de compreender o papel das mulheres na sociedade moderna demonstra também dificuldade de compreender a própria evolução da democracia.
Governar exige diálogo com a diversidade, respeito às diferenças e capacidade de enxergar a sociedade como ela é - múltipla, plural e formada igualmente por homens e mulheres. Aliás: uma sociedade, proporcionalmente, composta mais por mulheres do que por homens.
Enquanto alguns tentam empurrar as mulheres de volta ao silêncio, outras seguem ocupando espaços, disputando eleições, liderando mandatos, construindo políticas públicas e transformando a realidade. É assim que deve ser. E é exatamente isso que incomoda tanto determinados setores mais conservadores da política brasileira.
A história mostra, porém, que nenhum avanço social aconteceu sem resistência. E a participação feminina na política não será exceção. Resta saber se Priscila Felizola, supostamente cotada para ser candidata a vice-governadora de Valmir, aceitará ocupar esse lugar “vazio” ao lado dele.
















