Aparte
Opinião - O episódio de Genivaldo de Jesus Santos e a licença para matar

[*] Luis Fernando Silveira de Almeida

Poucos dias depois da desastrosa operação na Vila Cruzeiro, realizada pela Polícia Militar e a Polícia Rodoviária Federal, que resultou em 25 mortes, presenciamos cenas dantescas, na pacata cidade de Umbaúba, interior de Sergipe.

As cenas à luz do dia, às margens de uma rodovia, se contadas, ou escritas, seriam certamente tomadas como devaneio, ou obra de ficção. Mas foram filmadas, divulgadas com imagem e som. Um homem de 38 anos, desarmado, é abordado por três policiais rodoviários federais numa ação na qual um bom policial pediria desculpas pelo transtorno e o liberaria, uma vez, que não havia cometimento de crime, reação ou ameaça. Mas começa ali um circo de horrores...

O cidadão – que tem nome, Genivaldo de Jesus Santos, e origem - já revistado, com as mãos para cima, ouve xingamentos e é derrubado no chão, imobilizado pelo pescoço (parece algo já visto). Logo depois, é jogado no porta-malas da viatura, que vergonhosamente ostenta as iniciais PRF - que sempre nos foi símbolo de socorro, auxílio, prevenção, os anjos das estradas – e, com as pernas para fora do porta-malas, começa a inalar uma grande quantidade de gás que vaza pelos orifícios da viatura. Começa a gritar por socorro (parece algo já visto).

Levado pelos mesmos policiais ao hospital, já chega sem vida.

Marido, pai de uma criança, era esquizofrênico, segundo familiares, e tomava seus remédios regularmente.

Era pacato e, repito, não esboçou nenhuma reação de violência, nem mesmo resistência naquela abordagem. A esposa, que convivia com ele há 20 anos, pergunta, o que dizer para o seu filho, como contar, que seu pai não mais está?

Mais um brasileiro, mais um cidadão comum, que como dizia Belchior “era como aquela gente, honesta boa e comovida, que caminha para morte, pensando em vencer na vida”. Mas ele tinha nome, era Genivaldo de Jesus Santos. Se fosse um fugitivo da justiça, deveria ser algemado e levado para a delegacia, ponto. E ponto, mesmo!

Tudo isso poderia ter ocorrido na calada da noite, longe de observadores e dos corajosos cineastas do cotidiano, que munidos de coragem de uma câmera de celular, elucidam barbaridades, diariamente.

Aí reside a gravidade maior desse trágico acontecimento. Perdeu-se o medo, o pudor. É como se aquela graça presidencial, concedida ao deputado, fosse virar, em breve, indulto à tortura e à morte praticadas por maus policiais.

A imensa maioria é boa, e sofre com a degradação de suas instituições. Contudo, “a dor da gente não sai no jornal”. Nos porões da ditadura, os gritos eram abafados, isolados das ruas. Apenas ouvidos, pelos próximos, que ali, também presos, pudessem viver numa espécie de antessala da barbárie, e sentir a dor na alma, antes de senti-la no corpo.  

O que vivemos neste país é gravíssimo, já falei disso antes. Abuso policial, crescimento de milícias, armamento crescente, destas e do “cidadão de bem”.

Nunca foi tão urgente resgatar e resguardar a verdadeira democracia, garantir a independência e o funcionamento das instituições de Estado. Afastá-las da política partidária e se fazer respeitar o resultado, que virá das urnas.

O Brasil não é de A nem B. O Brasil não é lacaio de país nenhum, o Brasil é uma nação soberana, propriedade de seu povo, com imenso potencial de desenvolvimento em prol desse mesmo povo. E só devemos nos curvar à Constituição da República Federativa do Brasil!

[*] É oficial da reserva da Polícia Militar do Estado de Sergipe, ex-secretário municipal de Defesa Social e da Cidadania de Aracaju e pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB.

 

Ω Quer receber gratuitamente as principais notícias do JLPolítica no seu WhatsApp? Clique aqui.

Deixe seu Comentário

*Campos obrigatórios.