Aparte
Artigo - Ciclos e sucessões em Sergipe

[*] Carlos Cauê

O presente processo sucessório estadual em Sergipe tem se apresentado complexo para muitas pessoas. Ainda que, em anos de intensa observação desses processos, nunca tenha testemunhado nenhum que se desenvolvesse de forma simplória, devo admitir que há singularidades neste de 2022 que o distingue dos demais, e por diversas razões.

Em primeiro lugar, é preciso observar que as eleições deste ano encerram em definitivo um ciclo político no qual lideranças históricas dominaram a cena por quase cinco décadas. É um momento mais complexo do que se poderia esperar, por obra e arte do destino.

Sergipe ensaiou o início de um novo ciclo com a eleição de Marcelo Déda ao Governo do Estado em 2006, mas foi interrompido inesperadamente com a sua morte e a de José Eduardo Dutra, adiando por quase 10 anos a consolidação dessa nova fase

Agora, sem que esse novo ciclo nascente esteja claramente definido, o pleito em curso ocorrerá numa espécie de limbo entre uma dimensão que não se findou totalmente e outra que ainda não se afirmou de vez.

O que é certo é que apresentará - como, aliás, já vem fazendo - as novas caras da etapa seguinte na disputa política em nosso Estado. Ou seja, os potenciais líderes de uma nova fase política em Sergipe. O governo de Belivaldo Chagas tem o mérito de ser a transição entre esses dois momentos históricos.

Outro elemento que torna mais complexo o presente processo sucessório é o modo como o agrupamento governista veio se transformando ao longo dos anos. Fundado na herança de resistência e de oposição que foi construído por diversas forças, este agrupamento como tal ganhou sua face primeva em 2006, com a vitória de Marcelo Déda ao Governo do Estado, reunindo já ali um conjunto variado de forças de centro-esquerda, mas que veio se ampliando ao longo dos anos seguintes.

É natural aos agrupamentos políticos que sua vasta ampliação crie, dentro deles mesmos, a sua antítese em forma de oposição. Uma espécie de mitose política da célula-mãe, dividindo-a. A recente saída do PT demonstra isso, além do fato de que, inescapavelmente, o alargamento dessas frentes produz conflitos de interesses muitas vezes insanáveis no processo.

Numa conjuntura de mobilidade e transição como a que assistimos no país, onde os projetos nacionais existentes foram varridos numa onda caótica e ainda hoje pouco compreendida, com reflexos evidentes nas políticas locais, é fácil entender o cipoal que envolve a atual conjuntura e como ela atua embaralhando ainda mais os horizontes da política.

Outro fator que tumultua o meio de campo são as mudanças da legislação eleitoral. Isso tem causado muita inquietação e responde por parte significativa da dispersão dos grupos políticos.

Com uma imposição draconiana contrária à formação de coligações proporcionais, e uma janela de liberação partidária em voga, todos os partidos - e os políticos mais ainda - precisam fazer contas, analisar friamente a agremiação que melhor abriga seus interesses de se eleger e de eleger bancadas.

Sem falar na possibilidade de, ainda até abril, se formarem federações partidárias. Tudo isso gera instabilidade no quadro e faz o cenário político da sucessão situar-se mais inseguro.

Note que a complexidade da conjuntura atual incide com igual intensidade, ou até maior, também nos setores da oposição. A natural, que se antagonizou há tempos contra o grupo governista, e a mais novel, que recentemente deslocou-se para esta situação. Aliás, até há bem pouco tempo o governo parecia não ter oponente eleitoral à altura de sua força.

À medida que as variáveis que enevoam a conjuntura vão se dissipando, que os políticos e os partidos vão encontrando seus caminhos na complexidade dos dias, o quadro sucessório também vai se alterando e trazendo novas variáveis, que certamente desenharão novos cenários. E novos cenários trazem novos desafios, novos obstáculos, novas exigências de estratégias e posicionamentos. É aí que a sucessão começa de verdade.

[*] É jornalista e marqueteiro político.

 

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