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Opinião - Uma visão do livro "John Locke político: a marca da tolerância"

Capa do livro “John Locke político: a marca da tolerância”, 248 páginas, do professor Antônio Carlos dos Santos

[*] Antônio Carlos dos Santos

O livro “John Locke político: a marca da tolerância”, que acaba de ser publicado pela Edições Loyola, 2021, 248 páginas, é fruto material de cerca de 10 anos de pesquisa sobre o pensamento político de Locke, a partir do olhar da tolerância.

Locke é um autor inglês do século XVII que produziu muito e em variados temas. Seus textos versam sobre filosofia, epistemologia, religião, teologia, educação, medicina, dentre outros. A partir desse caleidoscópio de produção, foquei-me no tema da tolerância.

A problemática da tolerância, enquanto uma questão propriamente filosófica, surgiu no século XVII, em meio às guerras de religião na Europa. O tema era delicado porque envolvia tanto as religiões, católicas e protestantes, quanto o poder político, que se misturavam e se confundiam.

Havia a identificação do governante com a sua própria crença, não admitindo religião contrária em seu reinado. John Locke, então, surge como um dos primeiros filósofo que defende a ideia segundo a qual a religião é do foro privado e a política é do público, não podendo, portanto, misturar-se.

A condição da vida social e política é que haja diversidade religiosa na esfera pública. Este é um dos pilares da Modernidade. Esta solução para as guerras de religião defendida por Locke durou mais ou menos 300 anos.

Ora, após a queda das torres gêmeas em Nova York, no dia onze de setembro de dois mil e um, aquele pacto político internacional ficou sob judice, quebrando a ideia de diversidade religiosa e política no mundo. Se no século XVII o problema religioso era o foco da intolerância, hoje ele se desloca para a questão racial, a questão de gênero, de classe social, dentre outros. É neste contexto que a discussão do tema da tolerância se mostra absolutamente necessária, urgente e atual.

Embora eu estude o pensamento político de Locke há mais de dez anos, foi a partir de 2017, após um estágio Pós-doutoral na Universidade de Paris I – Sorbonne, França, que o livro surgiu de forma sistemática.

Foi neste período, em contato com outros pesquisadores e colegas europeus que o livro ganhou vida própria e que culminou na aprovação pela Editora Loyola. Mas, certamente, a materialização do texto só pode vir a lume graças ao debate constante do Grupo de Ética e Filosofia Política da UFS.

Neste Grupo de Pesquisa as nossas ideias são geradas, discutidas, curtidas e testadas antes de ampliarmos para um público maior. É assim que se faz conhecimento e produzimos filosoficamente.    

O livro é composto de nove capítulos, divido, grosso modo, em três partes: a primeira, um texto de interpretação sobre as leituras de Locke; a segunda, os manuscritos iniciais sobre o tema da tolerância de Locke, que estavam meio esquecidos; e a terceira, temas vinculados à tolerância, como a economia, a pobreza, o ateísmo e a educação.

De uma coisa o leitor pode ter certeza: tolerância, em Locke, não é aceitar tudo, posto que ela tem limites. Para Locke, há limite em tudo. Lendo o texto, o autor se deparará com esse debate, à luz do século XVII, mas que se mantém atual.

[*] É professor titular de Ética e Filosofia Política do Departamento de Filosofia da UFS. Foi professor convidado na Université de Paris I - Sorbonne (2017-2018). É doutor em Filosofia pela Université Paris X – Nanterre (2003) e pós-doutor em Filosofia pela Université de Sherbrooke, Canadá (2008-2009), e pela Universidade de São Paulo (2011). Faz parte do Comitê Executivo da Société Internationale d’étude du dix-huitième siècle na condição de delegado da Associação Brasileira de Estudos do Século XVIII (ABES). Suas pesquisas se concentram no tema da tolerância entre os autores dos séculos XVII e XVIII.

 

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