
Caetano Veloso: 80 anos com a dignidade do adolescente e do jovem dos anos 50 e 60
[*] Luiz Eduardo Oliva
O tempo, esse “Senhor dos Destinos”, costuma ser implacável. Vence no próprio tempo o tempo, e deixa as marcas nas rugas, no embranquecer dos cabelos que restam. Hoje, 7 de agosto de 2022, o calendário registra os 80 anos de um artista multifacetado, icônico, genial. Superlativos que ainda são pouco para definir sua grandeza: Caetano Emmanuel Viana Telles Veloso.
Numa das canções que canta sua terra, Santo Amaro da Purificação, cidade incrustada no recôncavo baiano, ao denunciar a poluição do rio Subaé, diz da sua origem, nascente primária, como o início dos rios de inspiração perene que nele desaguaria: “O amparo do sergi-mirim/ Rosário dos filtros da aquária/ Dos rios que deságua em mim/ Nascente primária”.
Olho fotos desse Caetano octogenário e digo a mim mesmo: "és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho". Não, o tempo não lhe foi implacável. A jovialidade expressa no riso, no olhar, na fala, parece confirmar o pacto que fez na música “Oração ao Tempo”: “Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos.../ Tempo tempo tempo tempo, entro num acordo contigo...”.
O Brasil, no final dos anos 50 e início dos 60 do século passado, trouxe a bossa nova como o ritmo que encantaria o mundo.
Mas foi outro movimento que tinha a Bossa Nova como esteio que inovou culturalmente o país, inegavelmente também contendo em suas cores a modernidade inspiradora da semana de de arte de 1922.
Era um tempo de aridez pela ditadura que se instalava no país, onde a palavra estaria logo contida pela nefasta censura, e a alegoria era o caminho para dizer o que se queria dizer, mas não se podia dizer.
Assim surgiu a “Tropicália” sob a liderança de um nordestino magro, cabelos ondulados dando vivas à já adulta “bossa”, à palhoça, à negritude (usando inclusive uma palavra hoje politicamente incorreta): “eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval... Viva a bossa-sa-sa/ Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça/ O monumento é de papel crepom e prata/ Os olhos verdes da mulata”. Dali em diante - e eu nem sabia -, parte da trilha sonora da minha geração se iniciava.
Um dia Caetano cantou também Aracaju, pouco depois do seu forçado exílio no tempo da ditadura e dizia: "Chegar no Brasil por um atalho/ Aracaju terra cajueiro papagaio/ moqueca de cação no João do Alho".
Ironia do tempo, no tempo dos seus 80 anos o João do Alho - até há pouco tempo o mais tradicional restaurante aracajuano - fechou e virou memória. Culpa desse tempo, tão difícil, tempo compositor de destinos!
Olho mais uma vez Caetano e vejo o seu derredor: Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa, Maria Betânia... nomes que o tempo não fez passar.
“Nossos ídolos - para o nosso bem - ainda são os mesmos” como cantou Belchior. E de fato, para o nosso bem e para a nossa felicidade num tempo de tanta mediocridade, essa brilhante geração já octogenária não para de criar.
Talvez nem em 100 anos outra geração tão genial. A voz e a inteligência ativa de Caetano, mais que atual, se fazem necessárias: "Então cada paisano e cada capataz/ com sua burrice fará jorrar sangue demais/ nos pantanais, nas cidades caatingas e nos gerais".
Parece que escreveu para esses dias. Porque de fato continuam a ressoar, numa impressionante atualidade, ridículos tiranos? Será, será, que será? Na banalidade do mal que se impregnou nesse país, ouçamos Caetano: "Enquanto os homens exercem seus podres poderes/ morrer e matar de fome de raiva e de sede/ são tantas vezes gestos naturais" .
Em Sergipe, agentes federais mataram um preto pobre em estúpida câmara de gás como se fosse natural matar. Vale parafrasear o próprio Caetano em Oração ao Tempo: por seres tão inventivo e pareceres contínuo, Caetano tão maravilhosamente divino, em tua obra és um dos deuses mais lindos!
Que sejas ainda mais vivo, no som do seu estribilho, tempo, tempo, tempo, tempo! Que o tempo, esse Senhor dos destinos te dê mais vida, vida, vida, vida!
[*] É advogado, poeta, ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania e membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas










