Aparte
OPINIÃO - Que Brasil você quer ver na TV: do presente ou do futuro?

[*] Adalberto Vasconcelos Andrade

Indiferença é uma palavra que não cabe no dicionário da vida política. Nas ruas, nos bares e em todos os lugares, quem nunca ouviu alguém dizer que não suporta falar sobre política?

Infelizmente, poucas pessoas acompanham o dia a dia dos parlamentares - o que fazem, defendem ou aprovam em plenário -, ou se interessam em cobrar as promessas de campanha. Aliás, a maioria nem se lembra do nome dos candidatos em quem votou nas últimas eleições.

Para muitos, o futebol é mais importante do que a política. Dominam todas as rodadas dos campeonatos brasileiro e europeu - onde estão os melhores jogadores do mundo. Mas aonde eu quero chegar com tudo isso? À mais nova campanha da Rede Globo - e não ao acaso.

É evidente que num país de tamanho continental, com mais de 207 milhões de habitantes espalhados pelos 5.570 municípios, realmente se tem muito o que mostrar, o que se ver e o que pensar. Que Brasil você quer para o futuro?

Foi lançada há poucos dias e tem como objetivo ouvir o que a população brasileira deseja para o futuro do país. E para isso, os interessados devem enviar um vídeo, da forma como está sendo divulgado pelos repórteres da emissora ao longo da programação.

Qualquer cidadão tem 15 segundos para dar o seu recado, servindo de porta-voz de sua própria cidade. A ideia é boa, apesar de não ser original. Em novembro passado, o PT lançou uma campanha intitulada “O Brasil que o povo quer”. Plágio ou não, a iniciativa poderia ser melhor aproveitada e bem mais útil se os idealizadores mudassem apenas um item: o pano de fundo.

Todos os repórteres seguem um roteiro preestabelecido, dando dicas aos interessados de como gravar o vídeo selfie. O indivíduo começa dizendo o seu nome, a cidade onde está e é orientado a escolher como referência os lugares mais conhecidos de sua localidade.

Tudo muito bonito e bem planejado. Mas é exatamente desse ponto que eu discordo. Da forma como está sendo feito, parece mais um roteiro turístico pelos rincões do Brasil. Posso até estar enganado, mas a impressão que se dá é a de que a ideia central disso tudo é desviar o foco da realidade brasileira.

O momento é propício. A Copa do Mundo da Rússia está se aproximando e logo depois vêm as eleições para presidente da República, governadores, etc. É uma maneira de desviar a atenção do caos social, político, econômico e moral em que o país se encontra - embora os teóricos da Globo possam me contraditar, dizendo tratar-se de algo que fomente o pertencimento das pessoas aos locais. Vá lá!

Mas o dia a dia do povo brasileiro é bem diferente do que vai aparecer em destaque nos vídeos selfie. Como já disse, a iniciativa é plausível, mas deveria mostrar a cara do Brasil como ele é.

Seria muito melhor se cada cidadão usasse os 15 segundos da gravação, utilizando como “pano de fundo” os rios poluídos, uma floresta sendo desmatada, a falta de saneamento básico, os hospitais sem leitos para atender os enfermos, a falta de medicamentos nos postos de saúde, o drama vivido pelos 13 milhões de brasileiros desempregados, a crise na educação e na segurança pública. Essa é a minha visão de pertencimento. Pertencemos a essa realidade.

Acho difícil a Rede Globo abrir espaço na sua grade - onde cada segundo vale uma fortuna -, para mostrar de fato e de selfie o caos que tomou conta do país e das pessoas. Esta verdadeira cara do Brasil que ninguém mais suporta ver.

Dizem que a esperança morre cinco minutos depois do homem. A maior arma que o cidadão brasileiro tem é o seu voto. Se não usar o poder que tem para mudar o rumo da Nação, pode ter certeza de que o despenhadeiro para onde estamos a caminho já tem dia e hora marcados: 7 de outubro, das 8 horas às 17 horas.

Depois que os portões se fecharem, poucos irão sobreviver à catástrofe. Terminado as eleições, só o tempo é quem vai dizer nosso futuro. E nele não há maquiagem para selfie.

[*] É administrador de empresas, policial rodoviário federal aposentado e escritor.