Aparte
Opinião - Os Lusíadas: uma herança de D. Pedro II nas terras de Serigy

[*]  Mário Resende

Dentre as preciosidades que existem nas dependências do setor de obras raras da Biblioteca Pública Epifanio Dorea, há um exemplar de Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões, publicado no ano de 1880.

O livro, feito em papel superior, ilustrado e com capa dura, tem a dimensão de 60x30 centímetros. Há ainda a informação do editor Emílio Biel, da Cidade do Porto, de que foram impressos apenas 112 exemplares.

Provavelmente, aquele exemplar seja um dos últimos sobreviventes. Mas, para além da beleza da obra clássica, chama a atenção a dedicatória do editor Emílio Biel, presenteando a obra ao imperador D. Pedro II, escrito do próprio punho.
“A Sua Magestade, o Senhor D. Pedro II, Imperador do Brazil, homenagem do mais profundo respeito, ofereço e dedico”. Emílio Biel.

Como chegou essa preciosidade nas terras de Sergipe? Nunca saberemos. Fato é que no dia 15 de novembro de 1889, a então família real brasileira foi pega de surpresa por um golpe militar que a destituiria do poder no Brasil.

Junto ao aviso dado por um militar de alta patente, o major Sólon, do Rio Grande do Sul, o sogro de Euclides da Cunha, foi dada a ordem para deportação dos membros da família para a Europa, no prazo de 24h.
Laurentino Gomes narra no seu livro 1889 que dias antes do 15 de novembro um grupo de militares reuniu-se na casa do coronel Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. O objetivo era preparar a golpe que fundou a República. Tudo muito incerto ainda. A certa altura, travou-se o seguinte debate:

- O que devemos fazer do nosso imperador? E se ele resistir? Perguntou Benjamin Constant.

- Fuzila-se, gritou o alferes Joaquim Ignácio Batista Cardoso, avô do nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Indignado com a resposta, respondeu Constant:

- O senhor é um sanguinário! Ao contrário, devemos rodeá-lo de todas as garantias e considerações, porque é um patrício muito digno.

E assim aconteceu. D. Pedro II e família foram forçados a morrer no exílio. Prevaleceu a posição de Benjamin Constant.

Há 132 anos aquele dia que marcou o início da República no Brasil foi um “dia de cão” para a família Orléans e Bragança.

Sem dormir e atormentados, mas sem esboçar nenhuma resistência, a não ser reclamações e choros, os reais senhores passaram horas coordenando a arrumação das lembranças, roupas e quinquilharias que foram permitidos levar pro exílio.
Foi então que Dom Pedro II, em plena tormenta, doou a sua biblioteca, documentos, fotografias, etc, à Biblioteca Nacional. Fundada como Real Biblioteca por D. João VI, a instituição passou a ter a denominação de Biblioteca Nacional, em 1872.

Semanas depois, um conjunto de 100 mil livros, mapas, desenhos, litografias e outros documentos manuscritos e impressos saíram do Palácio Imperial para ser incorporados ao acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, com um último pedido do velho D. Pedro II: que o fundo documental levasse o nome da imperatriz Tereza Cristina.

Nunca saberemos se esse exemplar dOs Lusíadas pertencente ao imperador se desprendeu da real coleção da sua biblioteca naqueles dias fatídicos.

Mas, comprovadamente, com dedicatória e tudo, hoje se encontra no setor precioso das obras raras, guardado e conservado na quase bicentenária Biblioteca de Sergipe, cuja data de criação remonta ao ano de 1848.

[*] É professor da Universidade Federal de Sergipe.

 

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