Aparte
Opinião – Danielle Garcia e o “bolsonarismo envergonhado”

[*] Anderson Defon

O jornalista Elio Gaspari, em sua obra “A ditadura envergonhada”, nos relata que logo após os idos de 1964 os militares que haviam tomado o poder no Brasil ainda resistiam em reconhecer seu regime como uma ditadura. Renunciavam especificamente ao termo ditadura.

Compreensível, a palavra realmente soa carregada aos ouvidos. Mas, com o advento do AI-5 em 1968 não havia mais necessidade de qualquer preocupação com a opinião pública, e aí as coisas ficaram escancaradas, como sugere o título do segundo livro da mesma série: “A ditadura escancarada”.

Iniciadas as movimentações para as eleições municipais em Aracaju deste ano, começamos a enxergar as tendências das pré-candidaturas postas. No grupo da delegada Danielle Garcia, por exemplo, as tendências bolsonaristas são claras e evidentes. 

Acontece que, apesar da íntima ligação da prefeiturável com o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, esse não tem em Aracaju tanta adesão. A parcela do eleitorado que ela espera que venha a aderir espontaneamente à sua candidatura, por rejeição ao atual prefeito, é composta justamente pelos apoiadores do bolsonarismo. 

Mas um grupo que se alimenta exclusivamente de marketing acha arriscado assumir o rótulo de um movimento político que além de colocar a democracia em risco, nega a ciência, coleciona malfeitos, trapalhadas, envolvimento com crime organizado, nos torna uma piada a nível mundial e ainda ceifa criminosamente milhares de vidas por, irresponsavelmente, se recusar a seguir as óbvias orientações das autoridades de saúde do resto do planeta. 

Apesar dos indicadores de seu eleitorado apontarem claramente pra essa tendência, o grupo da delegada resiste em assumir a pecha, para tentar ganhar alguma simpatia do eleitorado pensante. Praticam o “bolsonarismo envergonhado”. Deixam o “bolsonarismo escancarado” para duas ou três candidaturas burlescas e sem maior expressão, que hoje promovem um verdadeiro circo para disputar o título da “tiete mais histérica do presidente”.

A covardia em assumir lados não é novidade nesse grupo. A “Nova Política”, como se autodenomina, consiste basicamente em negar a política. Desqualifica todos os grupos, todos os projetos, todas as práticas, todo o sistema, e aí então, quando o elevador do falso moralismo está no andar mais alto, revela sua real intenção: fazer parte do jogo que sempre criticou. A eleição do senador Delegado Alessandro Vieira é o mais ilustrativo exemplo disso. 

Se quiser mudar esse perfil oportunista, o grupo da delegadocracia terá que ir às ruas de Aracaju dizendo quem realmente é: o grupo que apoia os cortes na educação, a privatização da saúde, a negação da ciência, o desprezo pela vida, a ligação com milícias e afirmar que, de fato, não possuem nenhum projeto concreto para Aracaju. Caso contrário, terão que subestimar novamente a inteligência do eleitor e seguir o roteiro do estelionato eleitoral que os trouxe até aqui.

[*] Militante político e pré-candidato a vereador de Aracaju pelo PCdoB.