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Jozailto Lima

É jornalista há 38 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Colaboração Tanuza Oliveira.

Opinião - Perdemos Ilma Fontes, uma inteligência multifacetada que sempre resistiu ao ordinário
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Ilma Fontes, Luiz Eduardo Oliva e Amaral Cavalcante, em dezembro 2017, na Semana Literária do SESC

[*] Luiz Eduardo Oliva

Ela era Moquinha. Se me perguntarem de onde vem esse carinhoso apelido, direi que não sei. Mas era assim que eu e uns poucos chamávamos essa mulher extraordinária, referência da sua geração.

Moquinha era Ilma Fontes. Pode parecer lugar comum o uso de superlativos quando morre uma pessoa, mas em Ilma talvez superlativos ainda seja pouco. De uma geração brilhante, das mais criativas, Ilma pontuou entre os anos 60 e 70 até os dias atuais. 

Multifacetada, estudou medicina e formada foi para o campo da psiquiatria, onde certamente seria tão brilhante como em tudo o que fez. Mas a compreensão dos desvãos da mente que desafiava a psiquiatra falou a ela menos que a inquietação daqueles tempos, onde a arte era aquilo que Ilma passou a chamar de resistência ao banal.

E assim a arte e o jornalismo falaram mais alto. A medicina perdeu a médica e a cultura sergipana ganhou uma grande ativista que, vencendo todas as dificuldades, manteve-se fiel aos seus propósitos até que as forças da saúde retiraram a guerreira da sua santa e brilhante luta. 

No final dos anos 1960 as manifestações artísticas em Sergipe, como de resto no país, viviam sob a espada nefasta da censura. A ditadura militar fazia calar vozes. Mas as vozes da resistência não esmoreciam.

Ainda que nem toda arte tivesse uma ação manifestadamente de combate à ditadura, era uma forma de resistência, sobretudo no aspecto dos costumes, enfrentando principalmente a censura para que o livre pensar não fosse somente a liberdade de pensar, mas também a forma de livremente se expressar.

“Vôos Mitos Coloridos”, por exemplo, foi uma criação sergipana daquele final dos anos 1960. Na cacofonia dizia dos “vômitos coloridos” de uma geração que resistia aos padrões moralistas e precisava vomitar, por assim dizer, aquilo que representava a hipocrisia de uma sociedade limitadamente conservadora. 

“Vôos Mitos Coloridos” foi uma peça antenada com o tom psicodélico que vibrava no mundo, com a contracultura do Woodstock, as revoltas das barricadas de Paris, os cânones da revolução sexual e também a afirmação libertadora da voz feminina.  

Em Sergipe, uma tribo de jovens fazia aqui como alhures ressoar a arte que resistia. Ilma Fontes foi certamente a mais completa tradução da mulher para além do seu tempo. Daquela trupe, o poeta Mário Jorge Menezes era a principal liderança, uma liderança natural pela sua irreverência, genialidade e criatividade. 

Também tinha Joubert Moraes, Amaral Cavalcante, Alcides Melo, Lânia Duarte, Marcos Chulé, Mara Rúbia, Caio Rubens, Nêga (Wilma), Vinicius Dantas, Djaldino Moreno, Cabo Tripa, Barrinhos. Uns mais novos, como Vinicius e Caio, outros menos irreverentes como Djaldino, mas havia um propósito de dizer não às convenções e fazer em Sergipe o processo criativo que mexeu com as caducas estruturas sociais daqueles anos. Claro que tinha mais gente, mas esses nomes já formam um núcleo representativo. 

Ilma se destacava pela inteligência viva, sempre brilhante nos argumentos, detentora de uma sólida e multifacetada cultura, era poetisa, jornalista, cineasta. Fez também televisão e teatro. Eu mesmo, de uma geração que sequenciou a geração de Ilma, ensaiei sob o seu comando o “Já Vou”, uma coletânea de textos iconoclastas de Amaral Cavalcante que Ilma adaptou para o teatro. Ensaiamos eu, Zezé, Jorge Lins, Cezar Macieira. Mas nem lembro porque não foi adiante. 

Uma turma de peso: Gizelda Moraes, Neuza Ribeiro, Ilma Fontes, Jenny Fontes, Núbia Marques e Luiz Eduardo Oliva em 1982 (Fotos: Pascoal Maynard)

No cinema Ilma realizou “Arcanos - O Jogo”, um curta na bitola 16 mm, tendo Amaral Cavalcante como ator principal, rodado no “Tales Ferraz” e pegava toda a magia do Mercado com o jogo do tarô e a carta que representa o que está oculto, o que é desconhecido.

O filme ganhou projeção ao participar do circuito nacional no final dos anos 70 - passava nos principais cinemas do país antes dos filmes em cartaz -, teve a direção de Ilma juntamente com a carioca Yoya Wurch, uma cineasta que se apaixonou por Aracaju e por Ilma.

Elas também realizaram “O Beijo” no início dos anos 80, onde as duas faziam amor diante da câmara de 8 mm sob o comando do fotógrafo Jairo Andrade. O filme foi uma porrada na hipocrisia e protagonizou o primeiro beijo lésbico do cinema sergipano, dizendo, como na música Paula e Bebeto, de Milton Nascimento e Caetano Veloso, que qualquer maneira de amor vale a pena.

Pode parecer bobagem nos tempos atuais, mas naquela época foi emblemático. E Moquinha dizia: eu sou quem eu sou. E seus admiradores, como eu, aplaudiam com as mãos e com a alma.

É também do início dos anos 80 que Ilma, junto com Amaral Cavalcante, Roninho, Fernando Sávio e outros, criou a Folha da Praia, o marco do jornalismo alternativo de Sergipe, no embalo inclusive da Praia dos Artistas, que era o ponto de encontro da juventude criativa daqueles anos. E eu também estava lá.  

Ilma, todavia, rompeu com a Folha, embora continuando amiga de Amaral, e fundou O Capital, o jornal alternativo com um propósito mais cultural que a Folha e que tinha como pórtico o slogan “Uma resistência ao ordinário”.

Há uns três anos, Ilma me chamou para compor o júri do Concurso de Poesia dO Capital, e me disse, em sua casa na Rua da Frente, que estava cansada. Ela, a combatente ao banal, mantinha a duras penas e com recursos próprios, aquele jornal em formato tabloide distribuído em ciclos culturais em todo o Brasil. Um câncer de pele também tirava suas forças.  

Por volta das 19 horas deste sábado, num abril descolorido pelas mortes em profusão, recebi uma ligação da amiga comum Aida Campos, aos prantos, me dizendo: “Moquinha morreu!”. Triste, liguei imediatamente para o compositor Alcides Melo, que mora Uberlândia, Minas Gerais, um dos últimos remanescentes daquela geração brilhante. 

Alcides logo lembrou duas músicas que fez inspirado nela: “Bolero Parabelo” e “Informativo Cinzano”, cujos versos falam de Valdomiro, paciente psiquiátrico do Adauto Botelho que, em fase de recuperação, morava  na casa de Ilma Fontes, na Treze de Julho, no início dos anos 70: “Eu disse assim Vardomiro/ Lembrai a imagem de Deus/ A saudade de Ilma Fontes/ E os versos que Deus lhe deu”.

Sérgio Ferrari lembrou que quando chegou em Aracaju em 1978, Ilma foi das primeiras pessoas a quem conheceu e por quem se encantou. Pela inteligência e pelo seu lado transgressora. Ilma Fontes, a nossa Moquinha, não só morreu. Com ela fecha-se um ciclo da cultura artística sergipana. 

Não que Ilma seja a única remanescente da geração dela. Mas ela representava a síntese de uma geração iconoclasta, irreverente, criativa. Que resistiu ao banal e pela arte apontou para um novo porvir. Uma geração que pavimentou terreno para a minha e as gerações seguintes. Ilma Fontes foi o ícone feminino de uma época em que Aracaju era uma explosão de variados saberes e impactantes fazeres. 

[*] É advogado, professor, poeta e membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas. Foi secretário de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania.

 

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Paulo Ludner
Parabéns pelo seu texto. Fiz parte dessa turma nos anis setenta.
Luiz Eduardo Oliva
Paulo Ludner, obrigado pelo comentário. Pena que não vejo a foto no seu comentário para recorda-lo. Mas vocês todos daquela geração dos anos setenta foram brilhantes. Grande abraço