Aparte
Opinião: O esquema é antigo

[*] Alex Nascimento

“Às vésperas da votação de alguma lei cuja rejeição ou aprovação interessava aos empreiteiros, pequenas fortunas influenciavam o comportamento de deputados e senadores ligados ao governo”.

A declaração de prisão dos envolvidos na Operação Navalha essa semana, no âmbito Sergipe; os últimos acontecimentos na política nacional, a exemplo do retorno de Aécio Neves ao Senado, e as novas notícias de como funciona parte dos esquemas de corrupção no país me fizeram lembrar de algumas frases, como a que abre esse parágrafo, e alguns relatos do jornalista Samuel Wainer, publicados no livro Minha Razão de Viver, Memória de um repórter, de 1987, e relançado completo no ano de 2005.

Nele, Wainer conta que a partir sobretudo dos anos 50 os empreiteiros passaram a influir cada vez mais na política nacional. Durante a construção das obras portentosas de Brasília, esses passaram a financiar mais intensamente deputados, prefeitos, governadores e presidentes da República - além dos cofres das empresas de comunicação, claro, responsáveis por sustentar governos, derrubar ministros e manipular a opinião pública.

Fundador do jornal Última Hora, o getulista Wainer foi também “chegado” de Juscelino Kubitschek, de Jânio Quadros e de João Goulart. No governo desse último, por exemplo, as despesas com o comício de 13 de março de 1964, na Central do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, o famoso comício pelas reformas de base, foram custeadas pelos empreiteiros ligados ao presidente, diz o jornalista em suas memórias.

São inúmeros os casos narradores por Wainer. No governo de JK, o Profeta (como o jornalista fora apelidado por Getúlio Vargas), é informado por um alto escalão do governo de que havia um empresário chamado Marco Paulo Rabello que poderia ajudá-lo a resolver um problema financeiro do Última Hora de São Paulo.

Rabello, empresário contratado para executar boa parte da construção de Brasília, era ligado ao, diga-se de passagem, riquíssimo Juscelino. Samuel conversa com o presidente que, surpreso em saber que Wainer conhecia as relações entre ele e o empresário, autoriza-o a falar com Marco Rabello, que resolve o problema do jornalista.

Samuel Wainer, como se sabe, além de um grande jornalista, foi também um importante intermediário de propinas. Diz ele: “o esquema era simples. Quando se anunciava alguma obra pública, o que valia não era a concorrência - todas as concorrência vinham com cartas marcadas. Valiam os entendimentos prévios”.

E mais: “não aceitávamos cheques, o pagamento vinha em dinheiro vivo. Uma vez por mês, ou a cada dois meses, eu visitava os empreiteiros e recolhia suas doações, juntando montes de cédulas que encaminhava às mãos do presidente”.

Nas últimas décadas, o Brasil diversificou sua economia, os segmentos empresarias se multifacetaram e os esquemas de corrupção passaram a envolver petróleo, carne, remédio, educação, cultura. Enfim, envolvem tudo.

Mesmo que os relatos basicamente continuem os mesmos, hoje temos uma a imprensa mais livre. As mídias sociais democratizam a informação, há juízes e promotores com nova mentalidade, há uma sociedade que repudia o comportamento de grande parte dos políticos e de muitos empresários. Isso tudo, a curto prazo, há de mudar as narrativas.

[*] É jornalista e professor.

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