Aparte
Opinião - Uma bíblia do Aribé: eis o Malinos, zuadentos, andejos e sibites

[*] Roseneide Santana

O primeiro capítulo do livro O Cemitério de Praga, de Umberto Eco, 2010, chama-se “O passante que naquela manhã cinzenta”.

De pronto, o leitor é arrebatado para seguir o narrador pelas ruelas de Paris, atravessando becos malcheirosos, passando por tabuletas desbotadas, velhas escadas em caracol, até chegar a um salão e, diante da única janela com claridade, identificar um ancião sentado à escrivaninha, que “se ocupava em escrever aquilo que estamos prestes a ler”.

Na introdução do livro Malinos, zuadentos, andejos e sibites: o Aribé nos anos 70 e 80, de Tereza Cristina Cerqueira da Graça, lançado na última sexta, 19, temos de início a impressão de que vamos nos deparar com uma narrativa histórica sobre o bairro Siqueira Campos, o Aribé, nos moldes tradicionais: datas, origens, empreendimentos, construções.

Não se engane! Serão somente duas páginas e meia nessa toada. De repente, um “Aqui, você vai pegar uma marinete ou uma Kombi” e a leitora ou o leitor das quatrocentas e tantas páginas seguintes já estarão diante da envolvente narrativa de Tereza, não à toa, da Graça.

De tão saborosa, a leitura pode nos fazer crer em um menor esforço da pesquisadora. Aí está a principal característica da escritora, desde os tempos de Pés-de-anjo e Letreiros de Neon: ginasianos na Aracaju dos Anos Dourados, de 2002: a leveza como força da narrativa.

O sentido “bíblico” do título deste texto não tem a ver com algo religioso, mas com o formato de histórias que se podem ler em separado, uma coleção. Dessa forma, o Malinos, apesar do volume e peso, não deixa espaço para uma leitura tediosa.

Aqui, cada história é uma história: Hilton Lopes, Severo D’Acelino, José Augusto, Sergival, Pantera, José Antônio Vieira - o Brasinha -, Lucinha Fontes, Isabel Nunes - primeira carnavalesca de Aracaju -, o saudoso Tut Fred, Agnaldo - do Bar do Estudante -, Rivando Góis - o Raulzito -, os rapazes do Black Samba, o juiz Sérgio Lucas, Carvalhinho e o Repente, Seu José da Farmácia - o político amigo. Além das pessoas, a biografia do bairro: feiras, boates (a boate Casa do Pão), bares, cinemas, praças. Cada episódio/capítulo poderia ser continuado para vir a ser um livro à parte.

Eu que tive o privilégio de ser revisora da obra, vou logo avisando: vocês sentirão saudades das histórias e voltarão a elas. Eu já voltei algumas vezes e, para não dizer que não falei das flores, conto somente uma passagem. A da cantora Lucinha Fontes, que foi vaiada na Estância boa, quando ganhou o festival local.

Ocorre que ela voltou com o primeiro lugar também no regional: A mais bela voz do Nordeste. No retorno à terra de Hunald de Alencar e do Barco de Fogo, Lucinha Fontes foi recebida com muitas palmas e jogou rosas vermelhas para a plateia: “E avisei que eu mesma havia retirado todos os espinhos para não machucar ninguém”.

Perainda! Quase me esqueci de dizer: penso que o livro de Tereza Cristina não é volumoso somente por ter tantas boas histórias, de personagens reais, mas também por ser um livro para ser abraçado.

[*] É mestre em Linguística pela Universidade Federal de São  Carlos, coordenadora das Rodas de Leitura do Proler e técnica em Assuntos Educacionais DLEV/UFS.

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