Aparte
OPINIÃO - Todo poder às mulheres

[*] Adalberto Vasconcelos Andrade

“Esperança de equilíbrio para o mundo”, como bem escreveu o saudoso médico cardiologista Marco Aurélio Dias da Silva em seu livro homônimo, lançado pela editora Best Seller há quase 20 anos. Infelizmente, muitas ainda não se deram conta disso – aliás, a maioria absoluta.

As mulheres representam mais de 50% dos eleitorado brasileiro, mas no Congresso Nacional não chega a 10% o número de mulheres nesse universo explorado pelos homens. Só agora começam a perceber a força que têm e estão dando os primeiros passos no tapete verde-amarelo da política brasileira, onde caminham 90% dos nossos representantes do sexo masculino.

Assim como nos anos 60 e 70 - no caso do Brasil - elas promoveram a revolução sexual, é preciso fazer o mesmo na esfera política. “Amélia”, aquela que era mulher de verdade, imortalizada na canção de Mário Lago e Ataulfo Alves, morreu junto com seus compositores. Hoje a nossa realidade é bem diferente daquela geração dos nossos avós.

Meio século depois, a mulher ainda continua vítima do sistema. Como o Congresso é composto por 90% de homens, muitas vezes são traídas pela cultura machista e patriarcal quando decisões importantes são tomadas em plenário.

Outro agravante acontece quando a religião interfere em assuntos que só dizem respeito à mulher e ao seu corpo. Temas polêmicos, onde muitas vezes os parlamentares confundem crença religiosa com liberdade de escolha, livre arbítrio e até mesmo os direitos fundamentais previstos em lei.

Estamos vivendo no Brasil um momento de retrocesso cultural em vários aspectos - homofobia, xenofobia, preconceito racial, etc. Estão querendo acabar com o que a Constituição já autoriza: aborto por estupro, por exemplo. Isso é um passo atrás.

O Estado é laico. Mas aqui no Brasil parece que só mesmo no papel. É comum assistirmos pela TV muitos parlamentares no plenário do Congresso embasando seus discursos com a Bíblia nas mãos. Às vezes, dão a impressão de que eles estão dentro de um templo.

Ali não é lugar de pregar a palavra de Deus, muito menos de dar sermão em ninguém. Isso é patente quando certas matérias são discutidas e envolvem assuntos polêmicos, como aborto, eutanásia, pena de morte, células tronco-embrionárias, com a Igreja insistindo em participar de um debate estritamente científico.

Aliás, ciência e Igreja nunca se entenderam. E isso não é de agora - vem desde o Jardim do Éden à Charles Darwin e sua Teoria da Evolução. É preciso que nossos representantes saibam separar suas crenças do seu papel naquela Casa.

A fé não se discute. Mas uma gravidez que resulta de um estupro, sim. Essa decisão cabe à vítima e é o que ainda defende a Constituição. Roubar também é pecado. Mas no Brasil muita gente está presa não porque roubou, mas porque foi pego com as mãos na botija - ou na mala preta.

É preciso urgentemente que haja um equilíbrio na formação do quadro político nas três esferas do poder. Só a mulher pode fazer a diferença. O médico Marco Aurélio está certo: todo poder às mulheres. Que elas sejam sempre bem-vindas e bem-aventuradas.

[*] É administrador de Empresas, policial rodoviário federal e escritor.