Aparte
Opinião - Quando um gênio tropeça e a vida segue. Ou, um alô pro Carlos Cauê

[*] Rômulo Rodrigues

De todas as pessoas que aprendi a admirar e a gostar neste torrão que me acolheu há quase 40 anos e me deu régua, compasso e honrosos títulos de cidadania, honras ao mérito e medalha, digo sem medo de trair meu coração, Carlos Cauê ocupa a primeira posição.

E é assim pela inteligência, a sabedoria, a fidelidade de grupo e sobretudo pela fidalguia nos disparos de suas flechas venenosas. Por ser um ser humano, humano e de altíssimo nível, Cauê de muito adquiriu o status de ser avaliado, e não julgado, pois não se julga gênio, no conceito filosófico caicoense de que “Sabedoria quando é demais, vira bicho e come o dono”.

E só pode ser o êxtase máximo de autoconvencimento que o leva a cometer atos falhos em raras flechadas dirigidas ao Partido dos Trabalhadores, como fez com seu artigo “Em 2022, a unidade é indispensável. Em Sergipe e no Brasil”, aqui publicado.

Lembro-me: logo após uma eleição antecipada para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa para o biênio de 2015-2017, quando ele, em artigo publicado em jornal local, deixou muito claro as linhas de construção de uma nova hegemonia política em Sergipe, tendo como epicentro a exclusão do PT do bloco político que o partido havia amalgamado e trazido à ribalta quem, dificilmente, subiria tantos degraus sem a mão amiga de quem seria defenestrado - mas isso é outra uma história. O PT apenas contradisse São Francisco, ao pôr em prática o é dando que se perde tudo.

São muitas as recordações que só devem ser trazidas ao debate quando quem pensa além dos outros e, achando que os outros não pensam, ofende sem dizer que é ofensa.

Mas cá do meu canto, sem querer ofender, digo: é coisa parecida com recado encomendado Cauê dizer que “a eleição de 2022 poderá ou não mudar o Brasil e Sergipe”.

E mais: “como a atual conjuntura ainda não nos permite pensar num único candidato capaz de galvanizar a tal frente já no primeiro turno, é imprescindível que essa unidade se dê além das candidaturas, materializando uma frente anti-Bolsonaro, numa concepção programática em defesa da vida, da democracia e do Brasil, para ser levada ao segundo turno”.

E aqui fica a dúvida: se não é Lula, quem pode materializar a vontade popular crescente e real de derrotar Bolsonaro e, principalmente, o neoliberalismo decadente implantado? Quem é que pode? Ciro Gomes?

Eis a contradição: ao mesmo tempo em que Carlos Cauê nega a verdadeira unidade nacional, pregando metaforicamente a unidade, alerta para o risco de uma divisão em Sergipe, na sucessão de 2022, por causa da candidatura de Márcio Macêdo em 2020. Além de metáfora, sofisma.

Aproveito para deixar bem claro, sem sofisma, que não sou entusiasta da candidatura de Rogério Carvalho para governador em 2022, por entender que não é estratégico.

Já em 2020, aliás, no início de 2019 comecei a defender a candidatura de Márcio Macêdo para prefeito por entender que o PT ia ser descartado da chapa majoritária.

Se houve erro ali em 2020, foi na tática de focar o combate na candidatura de Edvaldo Nogueira - que enfrentava, junto com Belivaldo, uma pandemia -, poupando a da delegada Danielle Garcia, que representava o negacionismo, o ódio e o atraso.

Acho que o preço foi alto e a lição tem que ser aprendida. Entretanto, como ficou exposto em 2012, 2016 e 2020, é crescente a campanha em Sergipe para excluir o PT das chapas de Governo e Senado, com as mesmas narrativas surradas dos anos anteriores.

Com o volume crescente de adesões nacionais à futura candidatura de Lula à Presidência da República, com Ciro Gomes assumindo pautas bolsonaristas, como o voto impresso, com o PSD sem candidatura nacional e pendendo para apoiar Lula e os demais partidos com poucas chances, o PT deve pensar seriamente em priorizar, e muito, a eleição da maior bancada na Câmara dos Deputados e uma grande bancada no Senado para dar sustentação de garantia a um futuro governo Lula e à estabilidade política do Brasil, para que seja efetuada a necessária recuperação econômica.

[*] É sindicalista aposentado e militante político.  

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