Aparte
Opinião - “Gilton Garcia é um exemplo de caráter e retidão, seja na sua vida pública ou pessoal”

[*] Moacyr Soares da Motta

Uma das características mais marcantes do ser humano é a sua lealdade. E em relação ao advogado, ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-procurador geral de Justiça, ex-secretário de Estado, procurador aposentado do Tribunal de Contas de Sergipe, professor aposentado da Universidade Federal de Sergipe, membro da Academia Sergipana de Letras, ex-governador do Amapá e, acima de tudo, ao meu amigo Gilton Garcia, posso garantir que em 50 anos de amizade, em todos esses dias, ele sempre se mostrou ser um homem leal aos seus amigos, família e princípios. E isso faz dele um exemplo de caráter e retidão, seja na sua vida pública ou pessoal.

Conheci Gilton Garcia por essas circunstâncias da vida. Outubro de 1971. Com o golpe militar de 1964, ele teve seu mandato de deputado estadual cassado, quando também exercia a Presidência da Assembleia Legislativa.

Eu era um jovem advogado, recém-formado e após uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro, quando retornei a Aracaju para atuar na advocacia com um pequeno escritório que abri, colocando uma mesa na empresa de representação comercial do meu irmão Motinha, eis que em um dia normal de trabalho quem aparece lá é Gilton que, sem mesmo me conhecer, convidou-me para trabalhar em seu escritório.

Ele tinha ido à OAB, olhado alguns registros de novos advogados e chegou até a mim. Ele então me contou que estava montando um novo escritório, junto com o pai, Dr Luiz Garcia, e mais outro sócio. E me queria como advogado contratado da empresa advocatícia Advogados Reunidos. Achei algo espetacular, pois iria trabalhar em um escritório grande e com excelentes profissionais.

Foi a partir daí que iniciei minha relação profissional com Gilton, ficando muito mais tempo no escritório e nas viagens com ele, do que até mesmo em casa. E nessa parceria profissional, chegamos a estender o escritório até à cidade de Itabaiana.

Posso afirmar que o Gilton advogado sempre foi um profissional extremamente habilidoso, principalmente no tratamento com a clientela, encaminhando da melhor forma as questões mais delicadas, tanto na área civil quanto na criminal.

Era um tribuno de mão cheia, com uma atuação de destaque no Tribunal do Júri. Um grande orador que não só prendia a atenção das pessoas, mas as convencia das suas teses, sempre muito bem embasadas. Em 1974, fiz concurso para a Faculdade de Direito, que ainda funcionava na Av. Ivo do Prado. Fui aprovado, mas fui barrado pela ditadura militar. E esse episódio nos uniu muito.

Juntos, inclusive com a participação do seu pai Luiz Garcia, promovemos uma estratégia que se mostrou eficaz para a remoção das restrições impostas pela ditadura. E deu certo. Passamos a ser também colegas de magistério na Faculdade. Ele como professor de Teoria Geral do Estado, e eu na sua antiga cadeira de Direito do Trabalho que, coincidentemente, havia pertencido ao seu pai.

Não podemos esquecer também da sua passagem por dois mandatos como presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Sergipe - 1975-1979. Mais um momento em que estive ao seu lado como parte integrante da Diretoria da OAB. Foi um período de auge para a Ordem. Novamente Gilton empreendeu, com seu espírito inquieto, uma gestão que deu respeito e credibilidade à instituição, tornando-a presente nas grandes discussões estaduais e até nacionais.

Trouxe para Sergipe figuras importantes, como ministros do Supremo, juristas de renome nacional, promovendo vários encontros com o que havia de mais importante e atual da advocacia e da política na época. Em 1978 fiz o concurso para o Ministério Público durante o Governo de Dr José Rollemberg Leite, sendo nomeado promotor da Comarca de Nossa Senhora da Glória, que abrangia até Canindé de São Francisco. Mantinha o escritório com Gilton Garcia, pois naquela época era permitido continuar advogando.

Ainda no ano de 1978, no início do Governo do Dr Augusto Franco, recebi uma ligação de Gilton. Ele me contou que o governador o tinha convidado para ser procurador geral de Justiça, que era o chefe do Ministério Público na época, e Gilton me queria como seu assessor. Aceitei o convite, mas só fui trabalhar diretamente com ele, cerca de um ano depois.

Esse foi um dos melhores períodos do Ministério Público de Sergipe. Gilton fez uma revolução na instituição. Organizou toda a estrutura administrativa, deu os primeiros impulsos na valorização profissional dos promotores, ampliou o quadro de procuradores de Justiça e de servidores, garantiu estrutura de trabalho, algo que não havia, uma vez que o MP funcionava em salas acanhadas. Enfim, deu o primeiro impulso para que o Ministério Público se transformasse na instituição forte e respeitável que é hoje, razão pela qual o Colégio de Procuradores do Ministério Público lhe agraciou, por unanimidade, com a sua maior comenda: a Medalha de Honra Tobias Barreto, pelos relevantes serviços prestados à instituição.

Em 1982, Gilton foi eleito deputado federal pelo PDS, com uma atuação brilhante na Câmara. Não quis a reeleição, voltou para a advocacia, até ser convidado para assumir a chefia da Assessoria Parlamentar do Palácio do Planalto no Governo Fernando Collor - 1990-1992 -, seu ex-colega de parlamento.

Foi com Collor que ele recebeu o convite para exercer o cargo de governador do território do Amapá, que se transformaria em Estado federativo por força constitucional. E esse desafio voltou a nos unir mais ainda, pois ele me convidou para ser o seu secretário da Segurança Pública e Justiça. Foi nesse período que conheci outra faceta de Gilton: a sua impressionante capacidade administrativa.

Em apenas sete meses, ele revolucionou o Amapá. Abriu estradas, inclusive a primeira com acesso ao Laranjal do Jari, abriu avenidas em Macapá, criou a Universidade Federal do Amapá, realizando o seu primeiro vestibular; construiu o Estádio Zerão, na linha imaginária do Equador, fundou o Banap - Banco do Estado do Amapá -, investiu na segurança pública, equipando a Polícia Militar com fardamentos e equipamentos,

Ampliou o número de delegacias, inclusive com a criação da Delegacia da Mulher, construiu os prédios que iriam abrigar o Tribunal de Justiça, o Tribunal de Contas e o Ministério Público, deixou prontos os concursos para o MPE e o TJ, além de garantir as instalações da sede da OAB.

Enfim, Gilton teve um papel muito importante no Amapá, deixando a sua marca, o seu legado na história daquele Estado. Um trabalho reconhecido pela sociedade e toda classe política. Deixou a gestão com um índice de 92% de aprovação, segundo o Ibope.

Em agosto de 2017, em reconhecimento aos seus serviços, a Assembleia Legislativa do Amapá concedeu a Gilton o título de cidadão amapaense. Foi uma honra para mim, que inclusive cheguei a assumir o cargo de governador substituto por quatro vezes, ter trabalhado ao lado de Gilton Garcia. Ele sempre foi um incansável. Trabalhar ao seu lado não era fácil. Voltei para Sergipe um mês antes do final da sua gestão, quando assumi, em 1990, o cargo de procurador de Justiça na gestão de Pascoal Nabuco.

São quase 50 anos de convívio e relacionamento profissional e pessoal com Gilton Garcia. E posso garantir que durante essas cinco décadas nunca tivemos um arranhão, o que é difícil em sociedade de advocacia que mantivemos até ele ter sido eleito deputado federal.

De 1971 até os dias de hoje, criamos uma relação e uma amizade leal, sincera e atenciosa um para com o outro. Todas as vezes que precisei do amigo Gilton, ele nunca se negou em me atender. Trata-se de uma grande homem. Amante da vida, da advocacia, da vida pública, admirador do pai, protetor da família, um excelente filho, pai e esposo. Poder comemorar ao seu lado seus 80 anos de vida é uma grande honra para mim. Parabéns, meu amigo Gilton.

[*] É procurador de Justiça do Ministério Público do Estado de Sergipe.

Foto: Infonet

 

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